segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Castlevania – As 2 Temporadas


Ou... o prólogo mais longo que eu já vi.

Aviso: Tem Spoilers da Primeira Temporada e leves da Segunda.


Antes de falar da série, preciso citar que eu já tive em mãos Xenosaga, jogo cuja introdução leva meia hora só de vídeo e tem direito a Pause no meio. Então sim, eu sei o que é um prólogo longo, e Castlevania ganha disso absurdamente. Mas estou me adiantando, porque primeiro de tudo, tivemos os quatro episódios que venderam a série pra um público que ficou ansiando para ver as aventuras de Trevor, Sypha e, principalmente, Alucard. Segue comigo.Lançada em 2017 como mais uma das muitas iniciativas de adaptação da Netflix, Castlevania trouxe uma versão até bem fiel do material original, com uma história curta (curtíssima, na verdade) em quatro episódios de vinte e tantos minutos e mostrando Trevor Belmont chegando a uma cidade no leste Europeu e encontrando o Inferno na Terra porque... os humanos liderados pela Igreja mataram a mulher do Drácula e ele tá pistola. Digo, MUITO pistola. A vingança de Drácula é saguinolenta e até certo ponto desproporcional. Ele não somente mata os principais culpados, ele estraçalha tudo e todos pela frente. Assim, Trevor, meio contrariado, se opõe a ele e começa a batalha que todos conhecemos.

Mais Pistola que o Canarinho!
Aqui deixe-me fazer um comentário. Estou acostumado a adaptações que tomem liberdades para deixar a história mais interessante, mas a personalidade de Trevor foi bem diferente do que eu esperava. Seu jeito canastrão, as respostas ácidas e o fato dele ser tão reticente em ser um herói me pareceu o oposto do que seria um Belmont. Mas bem, é exatamente por isso que a química entre ele e Sypha Belnades (SIM! E ELA FAZ MAGIA!) rola tão bem, já que ela brilha onde ele esmaece. Juntos eles conseguem dar conta de boa parte do problema que rola na cidade até entrarem num labirinto de engrenagens que parece claramente uma das várias masmorras do jogo, e são tantas referências que fiquei apaixonado. Ao final, há um caixão e dentro dele... Adrian Tepes, vulgo ALUCARD! Num final de dar água na boca nós ficamos esperando uma segunda temporada.

E ela veio. Um ano depois, no Halloween, recebemos mais oito episódios, a promessa de aumentar e muito o manjar que nos davam. Só que... algo deu errado nesse processo. MUITO errado. Sem entrar em spoilers, afinal a temporada é bem recente, posso dizer que basicamente NADA de importante ocorre em quatro episódios. Passamos a acompanhar de perto o preparamento da guerra de Drácula, com a aparição de seus generais (dos quais só um tem nome, Godbrand), e também dos forjadores, os humanos que criam seu exército, Isaac e Hector. No meio vampírico também aparece Carmilla, vampira linda e poderosa cujo nome me fez ter faniquitos. Para os que não conhecem, Carmilla é uma personagem fora de Castlevania com um mito tão rico ou mais interessante que o do Vlad. Só que a série foca tanto no que está acontecendo dentro do castelo que sobra pouco tempo para o trio de heróis. E quando eles aparecem... bem, posso dizer que Sypha lê muito. Mesmo.

Tá vendo o Trevor no bar? É mais do que ele faz em QUATRO episódios!
Minha crítica principal é quanto à organização do roteiro, que se torna tão arrastado que não consigo lembrar bem como as coisas ocorreram, porque tinha a impressão de que não era importante. Há sim vários detalhes sobre as vidas de Isaac e Hector, como eles pararam do lado de Drácula e como é estranho que humanos sejam generais junto de vampiros na missão de exterminar a própria raça, mas... considerando os dois últimos episódios isso parece que não importa. O ritmo é muito arrastado e particularmente desnecessário. Quando enfim ocorre a batalha entre o trio principal e Drácula é uma luta insana, linda, mas que parece ignorar o que ocorreu até então.

E claro, há vários personagens particularmente desperdiçados. Godbrand é o exemplo mór do viking-ish, aquela pessoa que adora se chamar de viking, dizer que age como um mas na hora do vamos ver arreda. Todas as suas cenas se tornam enfadonhas quando chega o seu momento. Carmilla é outra que apesar de tramar, e caramba, ela trama bem, acaba se tornando mais uma coadjuvante antes de assumir o papel de vilã principal e é isso. Capute. E é por isso que falei de prólogo mais longo, são basicamente seis episódios que parecem dar dimensão aos personagens para termos enfim a história principal e meio que ela não acontece. E tem um episódio inteiro pra dar resolução aos personagens. Certeza, certeza, quando (e se) sair a terceira temporada, o resumo da segunda não vai durar um minuto a mais do que durou o da primeira.
Godbrand, tanto visual, nenhum conteúdo.
No fim das contas, por adaptar Dracula's Curse, o terceiro jogo da série (não em ordem cronológica), Castlevania, até o momento, tinha pouca história. Isso deve mudar caso eles ousem seguir outro Belmont ou mesmo outra Belnades, ou talvez até outro vilão (como foi sugerido). E claro, sempre há Symphony of the Night, o queridinho dos fãs da série. Há todo um território vasto que eles podem explorar. Mas por favor, fiquem longe de Lords of Shadows e Gabriel... argh!

Agora detalhes técnicos. Castlevania é muito bem feito, a animação é bem fluída e as cenas de batalha são estupendas. O gore, que não sou muito fã, não é exagerado e os monstros são horripilantes e amedrontadores. Senti uma certa perda de qualidade na segunda temporada com alguns ângulos bizonhos e falhas de anatomia, mas nada que faça virar o nariz. A caracterização dos personagens é ótima e tanto os heróis quanto os vilões são memoráveis. Ás vezes a altura do Drácula varia, passando de um cara alto pra um poste, mas vou dar um migué, o cara flutua e tem capa de três metros, vai que ele estava só zoando.

A dublagem é... estranha. As personagens parecem falar sempre num tom monótono e ás vezes ocorre uma modulação de voz mais trabalhada. E isso que Trevor é dublado por Richard Armitage, o furioso Thorin Escudo de Carvalho! Mas acredito que isso tenha sido uma escolha do próprio estúdio de dublagem para dar o clima sombrio da série. Agora, o que é digno de nota é que quem dá voz a Godbrand é Peter Stormare e se você não sabe de quem estou falando, ele é o próprio Satã no filme (fracassado) do Constantine com Keanu Reeves! Ahn, ahn? Por isso que ele é tão destoante do resto. Sendo justo, talvez, pelo estilo de animação, eu esperasse vozes mais... empolgantes, mas entendo também.

Por fim, Castlevania está disponível no Netflix por tempo indeterminado sendo uma produção deles, mas se quiser maratonar pode fazer isso em uma tarde e talvez não pareça tão arrastado. É uma boa sugestão para os fãs e para aqueles que gostam de histórias de vampiro. Para o resto... assistam algum dos filmes de terror do catálogo. Melhor.


Nota 8/10 (1ª) e 5/10 (2ª)
Pontos fortes: 1ª - Ótimo ritmo, sem enrolação, personagens interessantes e animação primorosa. 2ª - Carmilla, aprofundamento da família Belmont (com direito a referências) e o drama da família Drácula melhor trabalhado.
Pontos fracos: 1ª - Curta, muito curta, o fanservice do Alucard fica meio deslocado e parece que o Drácula soltou os bicho tudo sem plano algum (o que se prova verdade depois). 2ª - Existir... não, brincadeira, o fato de enrolar muito, perder o ritmo, desperdiçar personagens e ter um episódio inteiro de batalha pra um final morno.

sábado, 17 de novembro de 2018

Minha Estante - Mistborn - O Império Final

Vira e mexe eu leio algum livro que sinto que merece uma resenha. Na verdade, no caso deste aqui, eu tive que ler o segundo pra criar vergonha na cara e escrever sobre. Não é novo, foi lançado pela LeYa no Brasil em 2014, mas só este ano eu consegui devorar suas 600 páginas. E, meus amigos... acompanhem-me no resultado dessa degustação.


Eu tenho um problema com o senhor Brandon Sanderson. Quando comecei a ler este livro, ganho pela Amazon Kindle, eu o abandonei duas vezes até resolver que queria ver mais. Os primeiros capítulos me soaram maçantes, com um protagonista que não me convencia e um mundo que não me cativava. Mas, ah... como eu estava enganado sobre quanto gostaria de Kelsier, Vin e do resto da gangue...

Em resumo, o Império Final da Série Mistborn é uma Terra Média com esteroides e tecnologia, ainda que arcaica. Nós temos um Domínio Central controlado pelo Senhor Soberano, imperador E Deus deste mundo, e dezenas de nobres controlando o povo oprimido, aqui chamado de Skaa. Para manter seus nobres na linha, o Senhor Soberano (Lord Ruler em inglês, uma tradução fantástica) utiliza de obrigadores, servos leais a ele que detém um poder religioso através do Ministério do Aço. Se a vida de escravidão não fosse o suficiente, o Senhor Soberano é um ditador milenar que sufocou qualquer outro tipo de crença que não a em si e tornou os Skaa completamente devotos e temerosos, protegendo-os das brumas que aparecem ao anoitecer. Neste mundo preso a ferro, surge Kelsier, um Nascido das Brumas, dotado de poderes e de um plano mirabolante para derrubar o Senhor Soberano e libertar o povo.

Kelsier usando poderes alomânticos para derrotar um Inquisidor
De fato, Império Final começa sem dar muitos detalhes do que iremos encontrar, apresentando vários termos de uma vez só (skaa, obrigadores, inquisidores, etc.) e nos fazendo boiar no que está acontecendo, mas assim que lemos o encontro de Kelsier e Dockson, amigo de anos, percebemos que estamos diante de um Onze Homens e um Segredo ainda mais fantasioso. De fato, a conversa entre Kel e Dock na ponte me remeteu ao encontro de Danny (George Clooney, daddy!) e Rusty (Brad Pitt) para discutir o assalto do século. Nomes são citados em sequência e eu nem fazia ideia que acabaria gostando de todos eles. Mas estou me adiantando.

No outro ponto da trama temos Vin, uma garota que teve uma vida bem sofrida e hoje trabalha na gangue de ladrões do Camon, um trapaceiro de meia tigela que tem intenção de roubar do Ministério do Aço, o que é, claramente, uma péssima ideia. Durante o plano os caminhos de Kelsier e Vin se cruzam e a trama começa a funcionar. Kelsier salva o grupo de Camon de um Inquisidor do Aço e de quebra toma conta do local, assumindo Vin como sua protegida, para surpresa e desconfiança dela, e logo surgem os outros membros da gangue. Hammond, o brutamontes; Brisa, um abrandador; Trevo, esfumaçador; e Yeden, líder dos revoltosos, com quem Kelsier faz um pacto para executar seu plano.

Vin na estonteante arte de Alex Allen
A partir daí o livro fica maravilhoso, com longas explicações sobre a Alomancia, o truque com metais que dá poderes ao pessoal da gangue e principalmente a Kelsier... e Vin, que se torna sua aprendiz. Vamos aos poucos entendendo melhor como funciona o Império Final do Senhor Soberano, os poderes alomânticos e os segredos desse mundo que tem tanto a explorar. E Brandon nunca entrega, nem aos personagens, nem a nós todos os mistérios. Vamos descobrindo, juntos, o que levou um homem a se tornar Deus e destruir para reconstruir o mundo ao seu bel prazer. Claro, Brandon dá dicas com trechos da “biografia” do Senhor Soberano que coloca no começo de cada capítulo, mas como vim a descobrir até o fim do segundo volume, muitas vezes esses trechos escondem mais que revelam.

Agora, pontos fortes da obra: personagens cativantes. Não só Kelsier e Vin, reais protagonistas da série, mas Docks, Ham, Brisa, Trevo, Yeden, Fantasma, Sazed, até mesmo Elend... todos vão se mostrando interessantes e divertidos de acompanhar. Em Mistborn a narração não se trava em um personagem só e ás vezes acabamos seguindo por cima do ombro de algum dos outros, o que faz que possamos entender melhor como certos eventos ocorrem. Outro ponto forte: trama política bem desenvolvida. Diferente de outras obras fantasiosas, em Mistborn a política é quase palpável, parte do plano de Kelsier inclusive depende das reações esperadas dos nobres. Quando Vin é colocada para lidar com eles, vemos a riqueza da construção de mundo de Sanderson.

Último ponto forte é como os detalhes são descritos, sem se tornar enfadonho, e nos permitindo visualizar o cenário e personagens. Em minha mente eu imaginava a movimentação dos brumosos, as batalhas de Kelsier, os locais da cidade que tem um estilo entre a Idade Média e o Vitoriano. Daria um bom material para RPG, aliás.

Arte das três capas da série: O Império Final, Poço da Ascensão e O Herói das Eras
Agora, nem tudo é bom em Mistborn. Pelo menos duas coisas me incomodaram sumariamente, e as duas envolvem Vin. Vejam bem, eu adoro romance, e torço muito pela união de personagens queridos. Mas a atração dela pelo seu par é tão... óbvia, que parece destoar do resto. Aliás, dentro do livro todo ela fica flutuante, como um detalhe que só atrapalha até perto da conclusão quando se justifica, mesmo que fracamente. E quando acontece, fica o gosto amargo do “Ah tá”, tirando a graça da situação. Acredito que a obra inteira poderia passar sem ela, mesmo já tendo lido o segundo livro.

A outra é quanto ao teste de Bechdel, e essa me irrita. Vin é uma personagem interessante, toda sua trajetória no primeiro livro, se descobrindo e aprendendo a confiar, a torna não somente querida, mas admirada. É lindo ver seu crescimento e como ela deixa de pensar no que poderia feri-la e passa a reconhecer as coisas que gosta. Só que, tirando a parte boa, do aprendizado e da liberação de traumas, ela acaba sendo construída cercada de homens e com um modelo bem patriarcal. Eu lembro de apenas DUAS personagens com quem ela conversa no primeiro livro e nenhuma delas se torna uma conexão realmente importante. Aliás, simplesmente não há diálogo dela com outras garotas de forma confortável criando relação de amizade. Mas há toda a gangue da qual ela é a única garota. Entenderam?

Apesar dos pesares, Império Final me deixou curioso sobre Poço da Ascensão, do qual falarei em breve. Não recomendo para todos, mas sugiro a leitura para quem quiser um universo interessante. Eu gostei da história, e tenho interesse de completar com Herói das Eras, mas sempre com um pé atrás. Talvez, só talvez, como Martin, Rowling e outros autores, Sanderson tenha aprendido um pouco com a sua trajetória e corrigido seus erros. Assim espero.

Nota 8/10
Pontos fortes: Personagens cativantes, universo interessante, trama envolvente.
Pontos fracos: Má construção de personagens femininas, demora a engrenar, solução fácil para alguns problemas.

sábado, 27 de outubro de 2018

Era uma vez...

Continuando a árdua tarefa de registrar os meus passos, venho falar da minha participação na Semana do Escritor no SESC da Prainha, em Florianópolis. Durante os dias 22 a 26 de Outubro vários autores passaram pela Biblioteca do SESC e tiveram contato com o público no geral e, em especial, crianças, falando de suas obras, do seu trabalho e também contando histórias e declamando poesia. Eu, muito grato, fui convidado a participar e nessa terça, dia 23, estava lá entre as 14h e 16h.

Olha a bancada linda que a Ann fez pra mim!
Admito que quando cheguei estava despreparado para o que viria. Mais acostumado a lidar com feiras do livro, meu contato maior sempre foi com adultos, mas assim que soltei minhas caixas no lindo espaço da biblioteca a Verônica Santos, minha anfitriã e excelentíssima amiga, me disse que logo viriam as crianças. Um alarme soou: "Oh-oh, o que eu faço?". De repente entravam os garotos e garotas da Escola Baldicero Filomeno, lá do bairro Tapera (longe-longe), e eu olhava pras suas carinhas de 11, 12 anos... o nervosismo bateu forte. Mas foi só abrir a boca e ZÁS!, descobri que sabia exatamente o que falar.



Foi muito gostoso conversar com eles por uma hora, entretê-los com minhas histórias e fazê-los participar das brincadeiras. Fiz amizade com o Paulo Vitor (ô irmão, Vitor Paulo...), o Ruan, a Lavínia, muita gente boa (desculpem não citar todos, mas segura que tem homenagem!). Por fim, eles foram com a promessa de que eu daria algo pra eles poderem comentar e... ah, eu vou cumprir essa promessa, hein?

Logo depois a Verônica me falou que, infelizmente, a menina que contaria histórias pra criançada não pode ir então eu me dispus a fazê-lo, só não tinha certeza se poderia falar tanto porque, bem, eu achei que não teria histórias o suficiente. Mas mais uma vez, PIMBA! Eu estava pronto! Perguntei às crianças o que elas queriam ouvir e me disseram sem pestanejar: Terror! Agora, pensem comigo, crianças de 4, 5 anos... terror? Oh Céus, o que direi? Mas rapidamente saquei da mala um truque, de fazer interação com elas usando o cenário e pronto! Três batidas... o sinal do bicho papão!! Elas se divertiram muito.



Quando acabei, logo veio um pequeno, o Davi, me pedir pra contar sobre dinossauros e então falei do brontossauro que ficou sem comida e foi ajudado por um raptor. Foi ainda mais divertido e rendeu muitas risadas. As crianças adoraram e tirei uma foto com elas, bem feliz. Só parei porque tava dando hora e elas tinham que seguir também. Mas me ajudou a redescobrir a alegria de contar histórias pra grupinhos assim, acho que vou trabalhar mais nisso!

Tchurminha simpática!
Nesse dia recebi o convite de participar do sarau de encerramento na sexta, dia 26, ali mesmo na biblioteca. Meio encabulado, sem saber bem o que apresentar, apareci e encontrei vários amigos... Os
MUITO arrepiado!
queridos VeVe e Conceição, a sempre sorridente Suzana Zilli, a fantástica dona Osmarina, a suave e doce Olga Postal... muitas pessoas maravilhosas que abrilhantariam a noite. Pouco depois de começar também apareceu a Célia Ribeira Moraes, minha colega, co-fundadora e presidente da Academia de Letras e Artes de Florianópolis que sentou-se ao meu lado e apreciou comigo o espetáculo. Foram várias performances de música, poesia, contação de história e uma energia muito boa. Fiquei encantado especialmente com um grupo de professores que fizeram uma união perfeita de Drummond, poesias próprias e interpretações de arrepiar.




Por fim, quando cada um se apresentava, em especial os membros da Associação dos Contistas, Poetas e Cronistas Catarinenses (ACPCC) eu fui convocado a falar. E o frio na barriga? Depois de tantas atuações de nível pensei no que poderia fazer. Naturalmente, veio a resposta como um lampejo, contei a história que originalmente era o conto que vou reproduzir aqui embaixo, sobre um lobo e sua paixão pela lua. O resultado foi uma salva de aplausos que me deu muito orgulho de receber. Foi assim que concluí esta fantástica participação nos eventos do SESC que me deixou não só satisfeito, mas esperançoso. Que próximos passos darei? Veremos!



O Lobo que amava a Lua

Há muito, muito tempo havia um lobo tão negro quanto a escuridão, seu pelo longo belo e brilhante, e de coração muito nobre. Esse lobo um dia olhou para o céu e viu algo tão belo que seu coração bateu mais rápido. O lobo se apaixonou pela Lua, veja só! Caído de amor, o lobo resolveu que queria chegar até ela e partiu em uma jornada.
Passou por florestas e desertos, lagos e montes, cavernas e cidades, nunca parando, sempre seguindo. Durante o caminho fez vários amigos, e todos perguntavam:
— Pra onde vai, ó nobre lobo?
E ele respondia, os olhos muito alegres e o focinho aberto em um sorriso:
— Vou atrás do meu sonho, do meu amor, a lua!
Os amigos sorriam de volta para ele, mas sempre pensavam:
— Coitado, a lua está tão longe! Como vai alcançá-la?
Alguns até falaram com ele, pediram que voltasse, ou que, como os outros lobos, sentasse e uivasse para ela, mas ele respondia:
— Meu amor vai abrir portas, vai construir pontes e vai me dar asas! Sei que um dia chegarei lá!
E seus amigos balançavam a cabeça, tristes, pensando que ele nunca conseguiria.
Um dia o lobo viu a lua mais próxima do que o normal, tão grande, tão ofuscante, redonda e cheia, de um amarelo quase dourado e soube que tinha chego a hora. Subiu na montanha mais alta, passando por muita neve que caía do céu, mas a lua continuava lá, entre as nuvens, como se quisesse guiá-lo, correspondendo à sua paixão. Não se importando com os ventos frios e cortantes, com a nevasca lhe batendo no corpo, o lobo seguiu, e a neve ia colando ao seu pelo negro. Quando chegou ao topo da montanha o lobo parou apenas uma vez para olhá-la de novo, e enchendo-se de coragem se jogou ao vazio.
Ainda hoje é possível vê-lo por entre as estrelas, seu pelo grudado no céu e a neve em sua pelagem se tornando a linda constelação de Lupus... o lobo que alcançou as estrelas para ficar perto de sua amada lua.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Reacendendo a chama

Depois de mais de um ano fora, retorno para começar uma nova fase. Nesse sábado passado, 13 de outubro, fiz um evento no Ateliê Carnivalli que serviu para dar início aos meus novos projetos. Desde maio deste ano sou um acadêmico da Academia de Letras e Artes de Florianópolis, vulgo ADLA, e estou investindo no meu lado escritor, razão pela qual a Toca do Lobo Negro vai voltar à ativa! Espero publicar mais vezes, tanto contos quanto crônicas e poesia.

O belo convite para o evento!
O evento em si foi idealizado e realizado pela minha esposa, Ana Carolina Botticelli, a Ann que já citei várias vezes aqui, com o auxílio do seu colega do Ateliê, o Luiz Augusto Vicente (o LAV), e os pais dela, Maria Vilma dos Santos e o Ney Santos, que foi quem me deu o empurrão pra participar da ADLA. Vieram vários amigos e companheiros escritores e tivemos a oportunidade de conversar bastante enquanto aproveitávamos um coquetel divino que eu quase fiquei sem comer enquanto tirava fotos (feitas pela Mare Botticelli) e autografava livros.

O conto publicado foi Por Algumas Moedas, no livro Além da Magia, da editora Andross, com quem trabalho há alguns anos já. Aliás, tenho duas indicações ao prêmio Strix, a corujinha dourada da editora, que condecora os melhores trabalhos de cada uma das antologias. A primeira vez foi com Gato Sombrio, do Engrenagens, que é o conto que deu origem ao universo em que estou trabalhando pra virar um romance, e a segunda foi As Palavras de um Homem, do Baladas Medievais, um dos meus favoritos. Quem sabe o desse ano me rende uma estatueta ano que vem?


Ah, durante o evento eu declamei uma poesia que fiz especialmente pra ocasião e que trago aqui pra registrar. Eu pensei nela aos 45 do segundo tempo, na noite anterior, quando senti que precisava falar algo e que fosse melódico. É bom citar que agora eu estou assumindo oficialmente bardo como parte do título, já que sou um contador de histórias. Apreciem então...



Balada do meu coração



Você pode sentir?
A energia que está no ar

Que faz vibrar a centelha
Que existe dentro de você
Ainda te farei contar
As mais belas e diversas histórias
Das aventuras que viveremos
Aqui e acolá
E você vai jurar que viu
Dragões e fadas
Robôs e naves espaciais
Lembra-se de quando visitamos a lua?
Amigo, amor, meu companheiro
Eu vou te levar muito além
Te guardarei no cofre do coração
E quando pararmos diante da fogueira
Te honrarei com uma canção
Eu sou um bardo, menestrel
Nascido da conjuntura de homem e corcel
Sou caça e caçador
E se tenho fogo na alma
Também tenho o amor
Sou apaixonado por mil
Filho de Exú e Dionísio
Eu vou provar a ati
Que amor igual ao meu não tem
E vai ouvir de mim
As mais belas e diversas histórias
Do início ao fim

A decoração também estava maravilhosa!

Amigos presentes deixaram-me muito feliz

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Terça Insone II

Talvez, em algum momento futuro, eu encare os dias de hoje como a fase da metamorfose. Meus pensamentos, que eram muito caóticos, tem se reunido em linhas curtas, enunciando uma mudança interior muito perceptível. As camadas foram caindo, e cada palavra ganha um novo peso, não por menos, tornando-se tão densas quanto a matéria que tocamos. Peço perdão pelas rudezas... não tenho certeza mais de quais são...

A Força que eu não tenho

Foram-se os dias em que
contando nos dedos
eu tinha mais certezas que dúvidas
Tais pensamentos tinham forma
de cristais de gelo circundando
as paredes da minha caverna
Sabe aquele espaço pequeno
dentro da sua cabeça
em que você pode se esconder?
Há nele um monstro
tão grande quanto minha vontade
que em algum momento me devorará
A Força que eu não tenho
é a que me falta em meus sonhos
e também a que não me compele agora
A andar, correr, voar
sair deste ostracismo auto-infligido
culpa do medo que corrói meu âmago
Medo não de agir
mas de perder, como se fosse possível
tudo aquilo que construí para mim
Medo de que meu castelo rua
por ter suas bases não tão sólidas
feitas dos cristais do meu amor
É verdade que eu talvez exagere
e que tudo isso é só meu monstro em mim
dizendo mentiras que eu acredite ser verdade
Droga, já não sei mais quem sou
só queria nunca deixar de ser
a pessoa que você pode amar