Mostrando postagens com marcador Steampunk. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Steampunk. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de fevereiro de 2017

1º Corujandross e a experiência de sobreviver de energético

Acabei de acordar e comer alguma coisa e agora acho que meu coquetel de remédios já me fez parar de sentir dor e tontura. Fiz uma experiência inédita na noite passada e acabei dormindo só depois das sete da manhã. Ontem, dia 4, eu participei do Corujandross, um projeto idealizado pelo Edson Rossatto, editor-chefe da editora Andross que consistia em reunir o maior número de escritores que pudesse, que já trabalharam com a Andross ou não, e juntos irmos escrevendo em intervalos durante a madrugada. Das 22h às 6h da matina.

Parece punk pra muita gente, mas considerando quantas vezes eu varei a noite jogando RPG ou vendo séries, eu achei que seria de boa. Ledo engano. Estou mais velho, com uma loja que consome muito do meu tempo e energias e também com uma rotina que me quebrou a resistência. As primeiras duas horas foram punks, e quase apaguei por volta das 2h30 da madrugada. E aí... aí meu mundo se abriu numa garrafa de energético.

Não que a bebida tenha sido a única coisa a me manter acordado. O projeto começou com uma hora de dicussão na qual os escritores poderiam trocar ideias, se cadastrarem, conversarem com os organizadores das antologias e prepararem material. Coisas que normalmente não faço, mas haviam regras. Eram simples: Qualquer um poderia participar, deveria respeitar os horários, entrar no grupo de Whats, escrever quanto conseguisse, mandar o texto bruto até as 6h30 do dia 5 pro Edson pra receber um certificado e, acima de tudo, se divertir. Admito, desrespeitei algumas delas... por uma boa causa.

Pra começar que durante a primeira hora eu surtei e minha janta atrasou. Acabei partindo pra escrita com dez minutos do relógio e contando. Por sorte eu já tinha principiado o texto e, pra minha surpresa, feito um esqueleto do que eu queria. Ponto pra preparação do Batman! Do primeiro eu engatei em um segundo quase sem respirar. Parei só quando bateu a hora. Como o Edson pediu, deixei o Word pra lá e voltei pro grupo. Precisava organizar as ideias. Quase acabando a meia hora de intervalo contatei meu primeiro organizador, o Thiago Lee.

Achei que ele estaria todo nervoso ajudando os outros e que teria pouco tempo, mas mais uma vez estava errado. Leu meu texto no tempo dele, e me respondeu por áudio, dando-me dicas para refiná-lo. Eu precisava, o texto tinha aproximadamente 8500 caracteres e o padrão de publicação da Andross é 8k. Ah sim, tinha essa. Quem remetesse o texto depois pra uma das antologias pode ganhar um exemplar de uma das outras publicações no final do ano. Mais um checkpoint, porque eu já queria mandar um texto pra Steamfiction mesmo, então uni o útil ao agradável e, com empenho, talvez eu apareça nessa antologia steampunk. Quem leu Engrenagens... Gato Sombrio está de volta!

Mas bem, findo o texto inicial outro surgiu, e mais um... todos meio quebrados, pra dizer a verdade. O segundo ficou aberto na tela do meu note, vez ou outra voltando pra conferir alguma coisa, meio insatisfeito com ele, deixei pra lá. A onda de escrita seguinte produziu basicamente... nada. Pelo menos foi o que pensei. Voltei pro intervalo soltando fogo pelas ventas e já tinha virado a meia-noite. Muito tempo de sobra, relógio correndo. Chamei o Alfer no PVT e perguntei se ele se importava em ler o que tinha bolado até ali, mesmo que não fosse submeter pra antologia depois. Ele, super dedicado, aceitou. E lá se foi o suspense sobrenatural.

Enquanto o Alfer lia algo veio até a minha mente como uma flecha. Uma sequência de palavras, de sensações. Transformei em uma linha. E depois veio um parágrafo. Quando dei por mim já estava no finalzinho do texto e o Alfer respondendo. Ele terminou, fez as considerações, eu expliquei meus pontos e ele me mandou meter bala. Com muito orgulho mandei o quarto texto, de terror puro, para que ele desse uma olhada. Era de lobisomem, imaginei que fosse gostar. Adorou. Então, durante essa etapa seguinte, intercalando desenvolvi dois textos com ele. Alfer, não tenho como te agradecer o suficiente.

Mas ainda não estava satisfeito. Escrevi uns dois parágrafos do que poderia ser um romance, e quando dei por mim havia descambado para a comédia. Ficou horrível, mas um guilty pleasure que eu vou me orgulhar de ter montado na madrugada. Faltava alguma coisa. Revisado completamente o Steam, o Suspense e o Terror, o Romance me chamava. E aí veio a última hora. Cara... que última hora.

Como no caso do lobisomem eu iniciei o texto com uma experiência, optei por esconder na cara do leitor um segredo no meu romance. Falar mais seria entregar o ouro, mas conduzi a narrativa até o final fazendo o possível para agradar os fãs de uma comédia romântica ou de um romancezinho bobo e fofo. E foi o que consegui. Correndo mandei pro Leandro Schulai pra ele avaliar. Adorou. Pena que não vou poder publicar esse também (atualmente não estou em condições e vou ter que escolher uma antologia só), mas... foi muito gratificante.

Fiquei enrolando, deu a hora final. O Edson anunciou o encerramento e lembrou de remetermos os textos. Mandei um email com o Retorno de Gato Sombrio e fiquei trocando de janelas. Li alguns depoimentos e voltei para anexar os outros cinco textos. Bons ou não, todos foram parar nas mãos de Don Rossatto. Agora é com eles.


Se foi bom? Foi ótimo! Fiquei quase sem sono quando acabei e ainda estou na pilha. Escrevo esse relato com muita facilidade. Eu precisava disso, parando para pensar, de reavivar esse meu lado de escritor. Fazer as coisas no impulso, na diversão, querendo produzir para contar histórias. Bom, 2017 acabou de começar... quem sabe eu não termine meu primeiro romance esse ano?

PS: Milhares de beijos, abraços e obrigados à Ann e a Ari que me incentivaram e me acompanharam nessa madruga. Por causa de vocês dois textos foram produzidos com muito amor!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Amigos até o fim

Eu tenho bons amigos, bons amigos MESMO, que eu daria a vida por... mas isso é exagero de madrugada, eu os amo e eles sabem disso, eu vivo repetindo. De vez em quando sinto vontade de homenageá-los e dizer coisas que gostaria que eles entendessem, mas nem sempre consigo expressar da forma mais tradicional. Então o que eu faço? É claro, eu escrevo... e foi o que fiz. Criei este texto para unir duas vontades, e uma delas era criar um mundo que tivesse vários elementos que eu gosto, do steampunk ao distópico, e assim fazer uma brincadeira divertida. Sem mais delongas, apresento...

Um fragmento dos heróis de Nova Terra

Uma seta atravessou a porta de madeira, fazendo sangue escorrer do outro lado. Claramente o vigia tivera um triste fim para sua curta carreira, e deixaria pra traz um legado ainda menor se entrassem na sala. As insistentes batidas fizeram com que os dois ocupantes acelerassem o delicado processo de separar as coisas que queriam levar em sua fuga, mas foram interrompidos quando a placa de madeira se partiu com um chute.
O tigre branco saltou com um rugido que silenciou o ambiente, sendo seguido de sua mestra, a caçadora exótica que portava uma besta. Além dela, seus companheiros também entraram, vasculhando o local atrás do objeto que procuravam. Um dos dois mercadores pensou em pegar sua pistola de raios, mas foi interrompido por um golpe brutal do homem que estava com elas, um chute bem aplicado em seu braço, que provavelmente o havia quebrado.
- Você está sendo um incômodo, Jasper. Que tal ficar bem quieto aí enquanto nós procuramos? Mortícia, encontrou?
A mulher de longos cabelos negros remexia em uma gaveta e fez um som de indignação ao tirar uma maleta vazia lá de dentro. Jogou-a no chão e sacou uma varinha energética que apontou para o pescoço de Jasper.
- Não e esse idiota vai me dizer por quê.
- Ahn... pessoal? – perguntou a mecânica que havia entrado por último e utilizava um estranho aparelho-medidor.
- O que é, Naftalina? – perguntou a caçadora já colocando a seta em sua besta.
- Eu acabei de ver, esta é a sala 323.
- E daí? – perguntou Mortícia irritada e encostando a vara no mercador.
- E a sala que procuramos é a 313.
- Droga, mas de novo? – reclamou o monge e saiu bufando.
- Bem, desculpem por isso. – foi dizendo a caçadora e puxando um pedaço da porta para fechá-la – Jasper, Jião, mandem a conta para o escritório. Obrigada.
E assim que eles saíram, ambos os mercadores irmãos se olharam e perguntaram um ao outro.
- Mas que escritório?
...
Enquanto examinavam o orbe, que acabaram comprando do velhinho do 313, os quatro amigos pareciam incomodados. Primeiro um estranho ancião aparecera para eles em um bar, oferecendo uma quantia exorbitante de prata por um amuleto que tiveram de surrupiar de uma cripta na cidade-baixa. Depois o tal ancião fora morto por um cavaleiro negro com problemas de asma que sumira deixando pra traz o medalhão. E aí ele se ativara, revelando a mensagem de uma princesa que pedia para eles a resgatarem e indicava uma esfera que seria na verdade um mapa. Agora olhavam pro protótipo de bola de golfe e se perguntavam se era uma piada de muito mal gosto.
- Isso aqui não serve nem pra peso de papel! Vai sair rolando! – resmungou Mortícia e arremessou o orbe para o tigre.
- Não, não. – disse a caçadora pegando o objeto no ar – Vai fazer muito mal pra você, Vitória.
- Então, o que faremos? – perguntou o monge e pegou uma caderneta da mochila – Não sei se temos algum contato que trabalhe com tecnologia tão antiga.
- Ah, eu conheço um cara. – disse Naftalina – Ele é bom nisso.
- Conhece um cara? Vixi! – disse Mortícia – Seria melhor se fôssemos atrás de um dos antigos amigos da Ártemis.
- Ei! Eu ouvi isso!
- Relaxe, Ártemis. Mortícia só está de mau humor... como sempre. Então, Naftalina, fale desse seu cara.
- Oh! Ele não é nada demais... é só que ele tem uma biblioteca de discos-esfera, e pode ser que ele consiga usar essa coisinha aí! – pegou seu caderno-à-vapor e girou a manivela – Bem, pelas minhas anotações ele deve estar aberto ainda.
- Vamos para lá, então, não acho que seja bom continuarmos nas ruas depois do incidente em Londinum. – disse ele.
Mesmo que não houvesse uma concordância geral, principalmente pelo espírito livre de Ártemis ou a constante braveza de Mortícia, Cárdeo agia como líder nesses casos, já que sua natureza mais centrada o mantinha focado na missão. Sem dizer nada, entraram no trem a jato e seguiram para uma das asas norte de România. Sentados no vagão, com Vitória aos seus pés, eles não encaravam os outros passageiros, que se mantinham longe e assustados. Ártemis alisava o pêlo da tigresa quando Cárdeo tocou em seu ombro.
- Se estiver lhe incomodando isso tudo... podemos fazer alguma outra coisa.
- Ahn?
- Só quero dizer que... você não é obrigada a vir com a gente.
- Mas ninguém me obrigou!
- Tudo bem, Ártemis, só queria dizer isso...
- Se quer dizer alguma coisa, fala direito.
- O que ele quer dizer é que tá afim de sair com você, sua anta! – respondeu Mortícia e então encostou a cabeça no banco – Agora me deixem cochilar e só me acordem quando chegarmos lá!
- Vocês humanos são tão complicados. – comentou Naftalina evoltou a mexer em seu caderno-à-vapor – Chegaremos em menos de dois ciclóns.
O grupo voltou ao silêncio e nem Ártemis nem Cárdeo voltaram a se olhar. Mais tarde, quando chegavam ao destino, o monge segurava bem a soqueira de metal-santo que recebera de seu mestre e beijou-a antes de bater à porta do “conhecido” de Naftalina. Um senhor baixinho, muito pequeno mesmo, abriu-a e olhou para todos com admiração antes de fechar a porta em sua cara.
- Simpático seu amigo, Nafta. – disse Mortícia.
- Não entendi essa...
- Tudo bem, vamos fazer do meu jeito. – disse Cárdeo e então encostou sua arma na porta, pressionando-a – Senhor, por favor, abra ou teremos que invadir.
- Vão embora! Não quero falar com gigantes!
Cárdeo olhou para as três. Apesar de ser alto, ainda era normal para os padrões da época, e suas companheiras não poderiam ser consideradas acima da média.
- Ahn... acho que o senhor não entendeu...
- Ou abre essa joça agora ou a gente vai entrar, te matar e te comer, seu anãozinho! – berrou Mortícia – Ou pior, a gente te dá pra Vitória brincar!
- Por favor, não fale assim da minha gata. – pediu Ártemis – Ela é um doce.
- E tem dentes gigantes, vai né.
- Não estão ajudando meninas. – disse Cárdeo.
Mas a porta abriu e tremendo o homem baixinho olhou para todos.
- Por favor... me deixem em paz...
- Arquimedes, não fique assim. Sou eu, Naftalina Augusta Tímber III.
- Naf... Augusta!!! Oh, por todos os dez deuses, eu não a reconheci sem seus óculos de rubi e sem aquela engenhoca de seis pernas!
- Bem, eu tive que deixá-los em Londinum desde que...
- Caham, senhor Arquimedes, nós viemos até aqui para pedir auxílio. – interrompeu Cárdeo antes que ela dissesse algo perigoso – Naftalina nos disse que você possui aparatos para reproduzir discos-esfera e precisamos muito ver o que há nesse aqui.
E mostrou o orbe acobreado. Assim que pôs os olhos no objeto, Arquimede pareceu pular como um coelho, muito empolgado.
- Sim! Sim! É um ATX-300, modelo excepcional! Nunca vi fora de um museu, mas é... como conseguiram um desses?
- Nós... o confiscamos em uma missão importante. – respondeu Naftalina, surpreendendo os companheiros. Geralmente ela só falava a verdade.
Ela olhou pra eles como se dissesse “Ei, meia-verdade não é mentir, não é?!” e todos ficaram quietos. Ártemis se adiantou e colocou a mão no ombro do velhinho.
- O senhor conseguiria ativá-lo para nós?
- Oh sim! SIM! Por favor, deixem-me vê-lo funcionando! Sabem, o ATX-300 é o único que pode reproduzir imagens e som em alta frequência, e ainda por cima consegue reproduzir cheiros! Já imaginaram como é? Ou melhor, verão! E sentirão!
Um tanto enojados com a ideia, os quatro entraram na casa de Arquimedes que, para seu azar, seguia o padrão do dono. Apesar das garotas não terem de se curvar tanto quanto Cárdeo, estavam com dificuldade de andarem ali dentro e logo ocuparam um espaço no sofá circular dele, em volta do reprodutor. O anão cravou a esfera no centro e apertou alguns dos seus círculos, ativando algum código-fonte que a fez girar até abrir um pequeno facho de luz em direção ao teto. A imagem de um homem nú ocupou a visão deles.
- Oh, não! Tira isso! Tira! – pediram em uníssono.
- Desculpem! Deve ser uma falha na programação! – disse Arquimedes e apertou outros círculos, fazendo aparecer as roupas do homem – Ah, bem melhor!
“Intrépidos viajantes que roubaram esta esfera...”
- Como ele sabe disso? Ai!
- Quieta, Mortícia. – disse Ártemis impedindo que ela confessasse tudo.
“... vocês não fazem ideia do mal que desencadearam...”
- Pronto, a gente estourou o Apocalipse. – disse Naftalina e abraçou a cabeça -  E eu nem terminei meu foguete para ir à Lua!
“... quando me tiraram do meu sono...”
- Peraí... então ele estava dormindo? – perguntou Ártemis – Ele está VIVENDO aí?
“...no ano de 1493 b.T.”
- Isso não foi há... uns vinte anos? – perguntou Mortícia.
- Você nem sabe em que ano está? – rebateu Ártemis.
- Não... bem...
- Isso quer dizer que esse começo de mensagem não foi pra gente. Legal. – disse Naftalina.
“Agora terão que percorrer meu Labirinto Perpétuo e impedir que o mundo acabe... algum dia.”
- Isso não pareceu tão... assustador. – disse Cárdeo.
- É... foi bem vago. – comentou Ártemis.
- Então, a gente pode ir embora? – perguntou Mortícia.
“Em vinte mil, duzentos e treze ciclóns a Terra encontrará seu fim sob a Ira do Monstro do Labirinto quando ele chegar ao Núcleo!”
- Ahn... quanto dá isso?
- Daqui a três dias. – respondeu Naftalina.
Arquimedes saltou de onde estava, foi até a esfera, a pegou, entregou para Cárdeo, saiu da sala e voltou carregando um chapéu e uma mala pequena. Deixou as chaves na mão de Naftalina e se dirigiu à porta.
- Até mais, crianças!
- Espere, Arquimedes! Onde você vai?
- Vou para Habanana, aproveiter meus três últimos dias! Talvez arranjar uma esposa e fazer um menáge a trois enquanto aposto toda minha grana em um cassino. De preferência morrer alcoolizado antes do Monstro chegar!
E bateu a porta, deixando-os sozinhos.
- Ah! – disse abrindo-a em seguida – E podem aproveitar essa espelunca! Façam como quiserem! Adeus!
E fechou de novo.
- Então... o que faremos? – perguntou Naftalina.
- A resposta é óbvia. Vamos morrer!
- Acalme-se, Mortícia, ainda há esperança. – disse Cárdeo.
- Ah, é? Qual?
- Podemos entrar no tal Labirinto e tentar impedir o Monstro!
- E você por acaso sabe onde fica isso?
“A propósito” soou a voz vinda da esfera “a entrada mais próxima fica nas coordenadas 34,5, 45,2, leste” e desligou-se novamente.
- Certo... agora sabemos onde é. Satisfeita?
- Eu que não vou me aventurar nisso aí!
- Eu também não sei... não quero arriscar a vida de Vitória.
- Pode não haver vida depois de três dias, Artie. – disse Naftalina – Eu acho que é melhor arriscar.
- Argh! Não! – reclamou Mortícia – Eu vou ver se tem alguma bebida nesta casa!
E saiu.
- Bem, talvez seja melhor nós realmente irmos descansar. Se formos até esse Labirinto, precisamos decidir logo, mas também estarmos preparados fisicamente. – disse Cárdeo – Procurem os quartos e se alojem. Eu vou ficar na sala mesmo.
Haviam apenas dois quartos, sendo que um deles tinha uma cama que mal cabia uma pessoa, mas na qual ficaram Naftalina e Mortícia. Ártemis ficou com o outro quarto, para que Vitória dormisse aos seus pés. Assim que todas estavam tranquilas, Cárdeo deitou-se no sofá, ocupando-o por inteiro e ainda com os pés de fora. Olhava para o teto pensando em tudo que já tinham enfrentado. Iriam ganhar mais essa, tinha certeza, só que... doía-lhe pensar que elas se arriscariam de novo.
De repente ouviu passos no corredor e já pegava sua soqueira quando Ártemis surgiu, coberta por sua capa de viagem. Ela trazia um copo d’água e parecia estar triste, mas sentou-se ao seu lado, no chão, sem dizer nada. Pegou sua mão e a acariciou, silenciosamente.
- O que foi? Teve um pesadelo?
- Ainda não consegui dormir. Estive pensando em tudo. Nessa... aventura...
- Eu sei, é complicado, mas vamos conseguir e...
- Tem certeza? E se falharmos? Lá em Londinum quase morremos!
- Eu sei, mas não podemos fracassar agora. E não iremos.
- Tenho medo, Cárdeo. Muito medo.
- Eu estou aqui por você, Ártemis. Sempre estive e... sempre estarei. Se me deixar fazer isso, claro.
Ela olhou pra ele e então subiu no sofá, ficando com as pernas em volta da cintura dele. Cárdeo descobriu rapidamente que ela estava SÓ com a capa de viagem.
- Eu vou deixar, pode contar com isso.
E tirou a última peça de roupa, revelando seu corpo malhado do combate, coberto de cicatrizes e ainda assim tão belo. Cárdeo o admirou por completo e levou as mãos aos seios dela, massageando seus mamilos.
- Gosta?
- É parte das mulheres que mais gosto.
- Então os pegue... MEU caçador.
No quarto, Mortícia e Naftalina ouviram os sons que eles produziam na sala e se entreolharam. Ambas ficaram em silêncio, apenas apreciando o momento, mas antes de dormir beijaram-se suavemente e cumplicentemente. Se morreriam logo, queriam compartilhar de alguma coisa especial. Pela manhã, todos estavam quase satisfeitos. Ártemis e Cárdeo caminharam de mãos dadas um pouco, até que Naftalina e Mortícia os viram. Estavam vestidos para o combate.
- Então é isso né? Sem escolhas! – reclamou Mortícia.
- Nós fizemos uma escolha, Mort. Nós vamos tentar salvar a Terra... de novo. – disse Cárdeo.
- Só quero dizer que amo todos vocês. – disse Naftalina e deu um beijo em cada um – E vou estar orgulhosa se caírmos batalhando.
- Não vamos cair. – disse Ártemis e então deu as mãos para Cárdeo e Mortícia e beijou longamente ambos – Estamos aqui para vencer.
- Claro que vamos vencer. – respondeu Mortícia um tanto corada e deu a mão para Naftalina, dando mais um beijo nela – Estamos juntos.
- Vamos? – perguntou Cárdeo.

- Vamos. – responderam as três.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Uma saudade e tanto

Hoje abracei meu irmão bem forte. É a última vez em um bom tempo, já que ele foi viver seu sonho e agora está ao lado de quem gosta, em uma terra bem distante. É muito triste pra mim, mas também de grande felicidade. Ele está aproveitando, fazendo o que realmente quer. E eu só posso sorrir por ele, que vai me deixar uma saudade muito grande. Ainda nos veremos, pelos Skypes da vida e por fotos, e eu espero que seja com ele sendo o rapaz tão especial que é. Irmão, te amo, muito, e quero que saiba disso... por você, eu fiz esta homenagem.

Bem vindo à bordo

- Capitão, meu capitão!
Do alto da torre de vigia, o homem de casaca escura e cartola ousou olhar para baixo, vencendo seu medo de altura, para ver o grumete que corria a toda pelo convés, acenando com um lenço. De longe ele já sentia que iria se incomodar com a notícia que seu contratado traria, mas foi ao ouvir o estouro vindo da sala das máquinas, que aliás fez o navio tremer loucamente, que teve certeza do quão irritado ficaria.
- Smiiiiiith! O que diabos está acontecendo com minha nau?
- Capitão, é que... a caldeira explodiu!
- Como é? – esquecendo completamente que estava a quase dois metros do chão, o comandante saltou, rolando para ficar de frente ao homem – Como... vocês... argh! Quer saber? Não me diga! E... acabamos de sair da baía! Não há como voltar pra pagar um mecânico decente! Eu... não acredito!
- Mas, capitão...
- Cale-se, Smith! E agora, pelos quatro ventos, o que fazer?
- Capitão... não estamos muito longe de Porto Tempestade.
- Eu nunca mais piso naquela banheira! Eu me recuso!
- Então deixe que eu vá... – disse uma voz feminina às suas costas.
- Ugh... – o capitão virou-se devagar para encarar sua convidada indesejada – Você voltou à bordo, Anna.
- É claro que voltei, Anthony. Você sabe que não pode se livrar de mim. Ah, e consegui recuperar seu quadro, já o deixei em sua cabine. Não precisa agradecer.
- Mas foi você que o perdeu!
- Bem, paciência, eu o trouxe de volta e está lá, como se não tivesse partido.
Anthony Wolfgang se controlava para não quebrar o pescoço de Anna, uma ladina aérea que certa vez invadira sua nave e desde então frequentemente estava com eles, hora para ajudar, hora para atrapalhar. A gatuna era ao mesmo tempo um colírio para seus olhos cansados, por sua beleza estonteante, e também um tormento do qual não conseguia se livrar. No momento estava mais para essa segunda opção.
- Srta. Nightwing, serei obrigado a rejeitar sua oferta, é mais provável que esteja apenas pegando uma carona em nossa embarcação e acabe por me trazer mais problemas que soluções.
- Oh, que calúnia! – respondeu Anna com a voz afetada – Eu deveria me ofender.
Sabendo que estava sendo alvo de chacotas mais uma vez, o capitão voltou-se para Smith e pigarreou, fazendo a cara mais séria que conseguiu.
- Deixo nas suas mãos, Louis, se eu voltar e tiver algo errado... bom... não se esqueça do que fiz à James...
Smith engoliu em seco, os olhos arregalados, e balançou a cabeça em concordância. James de Grungnir era um passado recente muito claro que ficava assombrando a tripulação e ninguém gostava de tocar no assunto, ainda mais na frente do capitão.
- Ótimo. E você, srta. Nightwing, espero não vê-la quando retornar.
- Não se preocupe, você não seria capaz de me notar mesmo se eu estivesse nua em sua cabine.
Sem saber se era uma provocação mais séria ou só uma forma de vê-lo se atrapalhar com as palavras, o capitão preferiu não responder e foi direto à um dos remos à jato para dirigir-se à estação mais próxima, a enorme sucata flutuando sobre o Pacífico conhecida como Porto Tempestade. Anthony ficava relembrando as vezes em que esteve na cidadela de bronze e quantas delas partiu a toda, depois de ter puxado briga com os malditos mercadores. Nem os piratas eram tão sanguinários e ladrões.
Chegando ao hangar, procurou logo marcar um cais para que Nau Ventania pudesse esperar por reparos e partiu para dentro das vielas. Já ouvira falar de alguns dos mecânicos locais, muitos com renome até mesmo nas terras da rainha, os quais não aceitariam de forma alguma servir à Wolfgang. Por isso foi atrás de boatos e de títulos não tão nobres, como Dick “One-Eye” Silverhand e Lucian Foxy, os quais negaram de forma educada seu ouro.
- Mas...
- Desculpe-me, capitão, eu estou tentando me entender com a milícia e não pegaria bem eu me envolver com um pirata aéreo... ainda mais se o navio dele for roubado da coroa. Você terá que procurar em outro lugar.
Depois de ter a porta fechada em sua não tão honrada fuça mais algumas vezes, o capitão de Nau Ventania estava quase desistindo quando um pescador de arenques solares disse que uma prima em terceiro grau de uma amiga da cunhada da sua esposa havia conhecido um ferreiro com ares de inventor que morava na asa sul de Porto Tempestade, bem próximo dos motores mais antigos. Sem muitas ideias, o homem levou sua bengala pelos três andares desviando de alguns pobres vigias que haviam sido punidos com a ronda subterrânea até chegar ao famoso Beco da Ruína. Ali, entre duas lojas de peças usadas, encontrou uma pequena cabana de latão com uma placa que dizia “Karma’s Kuma”.
Sem bater, o capitão entrou no que parecia um museu de brinquedos dos mais diversos tipos, com um corcel de ferro em um canto, um avião em miniatura e o que poderia ser definido como um robô de seis braços encostado em uma parede. Ao fundo, envolvido por uma nuvem escura e com fuligem cobrindo quase 100% do seu corpo, um homem martelava em uma enorme chapa de aço.
- Estamos fechados!
- Não é bem o que parece. Olhe, meu amigo, indicaram que eu viesse aqui...
- Não aceito piratas! Tenho bons ouvidos, sabe? E carniceiros sem coração não tem espaço na minha parede de troféus! – respondeu apontando para os quadros pendurados ao seu lado.
Eram doze ao todo, exibindo diversos tipos diferentes de naves, dos planadores como um com uma cabeça de leão na proa até um grande cargueiro de diversas torres de comando. Todas elas tinham a imagem do ferreiro na frente abraçando alguém ao lado. Era um homem grande, como aquele ali encolhido, mas sem a máscara podia-se ver um rosto alegre, de sorriso aberto, e os olhos pequenos que denunciavam sua descendência oriental. A barba dura e o cabelo ralo eram os únicos traços do trabalho pesado que o capitão agora presenciava.
- Olhe, meu bom homem, tenho muito dinheiro...
- Não quero saber. Não vou vender minha alma por umas moedas de ouro. – o gigante se avolumou quando ficou de pé – Muito menos para o cara que explodiu quase uma centena de pessoas quando estava roubando a nave que agora está com problemas.
- Na verdade... ninguém se feriu... seriamente. Além disso, eu mirei os canhões apenas nas estruturas de metal que prendiam Ventania, assim poderia fugir rapidamente...
- Pff... e pra quê isso? Que ganância toda é essa que te leva a cometer um crime desses e sair rindo ainda por cima? Eu vi as holo-telas, sua gargalhada era mais audível que os motores, e estamos falando de dois pares de hidro-combustão de grosso calibre!
Wolfgang ficou olhando pra ele por um bom tempo, seus olhos frios e lupinos analisando a expressão braba do homenzarrão. Em seus vários anos servindo ao exército da rainha, encontrou um punhado de gente como aquela, com o coração no lugar certo, mas grande demais pra caber no peito. Já gostou dele de cara.
- Olha aqui... eu não contei isso nunca pra ninguém... mas eu tinha uma boa razão para fazer o que fiz, e ainda tenho. Há um criminoso, um muito pior que eu, que está foragido, e que eu preciso capturar. Mas ninguém na guarda real me ouviu e apenas uns poucos já ouviram falar dele e, por conta de sua identidade, preferem se manter ocultos.
- Do que está falando?
- Estou te avisando que minha missão, mais secreta do que tudo, e que me dará o perdão de sua majestade no futuro, é de prender o famigerado Asmodeus Mozart, o maior perigo que já cruzou os céus de Novaterra!
O mecânico coçou o queixo por um tempo e então pegou uma chave de boca enorme em sua caixa de ferramentas e apontou diretamente para o nariz do capitão.
- Você está me dizendo... que alguém no governo te fez virar um criminoso internacional com uma recompensa enorme para que pudesse caçar alguém ainda mais terrível que ninguém ouviu falar ainda?
- É. – disse Wolfgang simplesmente, encolhendo os ombros.
- Acredito em você. – o mecânico abriu o mesmo sorriso das fotos e estendeu a mão – Vou salvar sua nau, então.
- Ótimo! Esperava que dissesse isso. Então, está combinado em cinquenta peças de ouro?
- Puxa, eu não posso aceitar isso... mesmo meus trabalhos mais caros saíram apenas vinte peças, e isso que eu tive que cobrar pelo material...
- Ah, mas não estou falando de uma vez só, estava pensando em um soldo a cada trinta dias. E claro... parte do que pegarmos em nossas capturas. Afinal, somos piratas, não?
- Mas hein?
- Estou lhe oferecendo um lugar na minha nau, Karma, e eu sempre pago bem meus homens. Além do mais... eles provavelmente quebrariam os motores de novo, então preciso ter você ao meu lado para consertá-los.
- Eu? Me tornar um pirata?
- Se você estiver por perto, vai ter a oportunidade de ver se falei a verdade antes e de me punir se eu fizer maldades.
- É... me parece uma boa ideia. Trato feito. – apertaram as mãos – Ah, mas eu tenho que avisar... o idiota que escreveu minha placa tem uma audição horrível. Eu falei que queria Karuma Kun. Meu nome é George Karuma Alestorm.
- Bom, bem vindo à tripulação, Karuma.
- Pode me chamar de Karu, meu capitão.