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terça-feira, 18 de abril de 2017

Frustração

É uma coisa engraçada
Que logo aquilo que lhe aquece o coração
Possa também congelá-lo
Frustrar-se é uma arte
Pois é feito com amor
Dedicação e muito empenho
Querer tanto algo
Que você morre ao não tê-lo
Obrigado pela frustração
Lembrar-me de que não é só por desejar
Que o inferno vai congelar

domingo, 5 de fevereiro de 2017

1º Corujandross e a experiência de sobreviver de energético

Acabei de acordar e comer alguma coisa e agora acho que meu coquetel de remédios já me fez parar de sentir dor e tontura. Fiz uma experiência inédita na noite passada e acabei dormindo só depois das sete da manhã. Ontem, dia 4, eu participei do Corujandross, um projeto idealizado pelo Edson Rossatto, editor-chefe da editora Andross que consistia em reunir o maior número de escritores que pudesse, que já trabalharam com a Andross ou não, e juntos irmos escrevendo em intervalos durante a madrugada. Das 22h às 6h da matina.

Parece punk pra muita gente, mas considerando quantas vezes eu varei a noite jogando RPG ou vendo séries, eu achei que seria de boa. Ledo engano. Estou mais velho, com uma loja que consome muito do meu tempo e energias e também com uma rotina que me quebrou a resistência. As primeiras duas horas foram punks, e quase apaguei por volta das 2h30 da madrugada. E aí... aí meu mundo se abriu numa garrafa de energético.

Não que a bebida tenha sido a única coisa a me manter acordado. O projeto começou com uma hora de dicussão na qual os escritores poderiam trocar ideias, se cadastrarem, conversarem com os organizadores das antologias e prepararem material. Coisas que normalmente não faço, mas haviam regras. Eram simples: Qualquer um poderia participar, deveria respeitar os horários, entrar no grupo de Whats, escrever quanto conseguisse, mandar o texto bruto até as 6h30 do dia 5 pro Edson pra receber um certificado e, acima de tudo, se divertir. Admito, desrespeitei algumas delas... por uma boa causa.

Pra começar que durante a primeira hora eu surtei e minha janta atrasou. Acabei partindo pra escrita com dez minutos do relógio e contando. Por sorte eu já tinha principiado o texto e, pra minha surpresa, feito um esqueleto do que eu queria. Ponto pra preparação do Batman! Do primeiro eu engatei em um segundo quase sem respirar. Parei só quando bateu a hora. Como o Edson pediu, deixei o Word pra lá e voltei pro grupo. Precisava organizar as ideias. Quase acabando a meia hora de intervalo contatei meu primeiro organizador, o Thiago Lee.

Achei que ele estaria todo nervoso ajudando os outros e que teria pouco tempo, mas mais uma vez estava errado. Leu meu texto no tempo dele, e me respondeu por áudio, dando-me dicas para refiná-lo. Eu precisava, o texto tinha aproximadamente 8500 caracteres e o padrão de publicação da Andross é 8k. Ah sim, tinha essa. Quem remetesse o texto depois pra uma das antologias pode ganhar um exemplar de uma das outras publicações no final do ano. Mais um checkpoint, porque eu já queria mandar um texto pra Steamfiction mesmo, então uni o útil ao agradável e, com empenho, talvez eu apareça nessa antologia steampunk. Quem leu Engrenagens... Gato Sombrio está de volta!

Mas bem, findo o texto inicial outro surgiu, e mais um... todos meio quebrados, pra dizer a verdade. O segundo ficou aberto na tela do meu note, vez ou outra voltando pra conferir alguma coisa, meio insatisfeito com ele, deixei pra lá. A onda de escrita seguinte produziu basicamente... nada. Pelo menos foi o que pensei. Voltei pro intervalo soltando fogo pelas ventas e já tinha virado a meia-noite. Muito tempo de sobra, relógio correndo. Chamei o Alfer no PVT e perguntei se ele se importava em ler o que tinha bolado até ali, mesmo que não fosse submeter pra antologia depois. Ele, super dedicado, aceitou. E lá se foi o suspense sobrenatural.

Enquanto o Alfer lia algo veio até a minha mente como uma flecha. Uma sequência de palavras, de sensações. Transformei em uma linha. E depois veio um parágrafo. Quando dei por mim já estava no finalzinho do texto e o Alfer respondendo. Ele terminou, fez as considerações, eu expliquei meus pontos e ele me mandou meter bala. Com muito orgulho mandei o quarto texto, de terror puro, para que ele desse uma olhada. Era de lobisomem, imaginei que fosse gostar. Adorou. Então, durante essa etapa seguinte, intercalando desenvolvi dois textos com ele. Alfer, não tenho como te agradecer o suficiente.

Mas ainda não estava satisfeito. Escrevi uns dois parágrafos do que poderia ser um romance, e quando dei por mim havia descambado para a comédia. Ficou horrível, mas um guilty pleasure que eu vou me orgulhar de ter montado na madrugada. Faltava alguma coisa. Revisado completamente o Steam, o Suspense e o Terror, o Romance me chamava. E aí veio a última hora. Cara... que última hora.

Como no caso do lobisomem eu iniciei o texto com uma experiência, optei por esconder na cara do leitor um segredo no meu romance. Falar mais seria entregar o ouro, mas conduzi a narrativa até o final fazendo o possível para agradar os fãs de uma comédia romântica ou de um romancezinho bobo e fofo. E foi o que consegui. Correndo mandei pro Leandro Schulai pra ele avaliar. Adorou. Pena que não vou poder publicar esse também (atualmente não estou em condições e vou ter que escolher uma antologia só), mas... foi muito gratificante.

Fiquei enrolando, deu a hora final. O Edson anunciou o encerramento e lembrou de remetermos os textos. Mandei um email com o Retorno de Gato Sombrio e fiquei trocando de janelas. Li alguns depoimentos e voltei para anexar os outros cinco textos. Bons ou não, todos foram parar nas mãos de Don Rossatto. Agora é com eles.


Se foi bom? Foi ótimo! Fiquei quase sem sono quando acabei e ainda estou na pilha. Escrevo esse relato com muita facilidade. Eu precisava disso, parando para pensar, de reavivar esse meu lado de escritor. Fazer as coisas no impulso, na diversão, querendo produzir para contar histórias. Bom, 2017 acabou de começar... quem sabe eu não termine meu primeiro romance esse ano?

PS: Milhares de beijos, abraços e obrigados à Ann e a Ari que me incentivaram e me acompanharam nessa madruga. Por causa de vocês dois textos foram produzidos com muito amor!

sábado, 21 de março de 2015

O Desconexo Pensamento de uma Mente Perturbada

Na melhor percepção de tudo, tem dias que eu faço tanto drama que nem eu me aguento, e nessas horas eu acabo escrevendo as coisas mais dolorosas, mais profundas e mais tensas. No outro dia eu comentei delas, minhas poesias dolorosas, que vem aos borbotões, talvez me trazendo ainda mais tristeza. Ou quem sabe eu esteja apenas divagando sobre elas, sem sentido. Que seja, ambas estão aqui, as únicas que salvei... até agora. Nenhuma tem nome, é uma falha, mas não quero nomeá-las, acho que vai contra a proposta de escrevê-las. Espero que aproveitem também...

Olho, observo, aprecio e me perco
No desejo do teu beijo
Sinto, tremo, anseio e me deixo
Saber que não tenho teu zelo
Sofro, amargo, em lágrimas de doer
Só por pensar em você
Quero, temo, ouso ter
Esperanças que você possa me ver
Nada mais consigo construir
Castelos de cartas afundam um a um
Tantas coisas que queria dizer
Fazer
Crescer
Ser
E não sobra nem um sonho pra mim
Penso, amo, quase me deixo ir
Pro abraço de algo que não está aqui
Deito, durmo, finjo estar com você
É o melhor que eu posso fazer

A pressão da sua voz
Me dizendo o que fazer
As palavras saem como lâminas
Cortando minha carne
Meus pulsos estão atados
Não sei como prosseguir
Vivendo entre o sim e o não
Tendo ás vezes que mentir
Pra impedir que meu coração
Se parta em dois, três ou mil
O infinito agora faz sentido
É pra onde a mente vai
Quando se está tão perdido
Que não pode-se mais voltar
Eu só queria ter um minuto
Colocar meus pensamentos no lugar
Só tenho mais um segundo
E não sei onde vou parar

quarta-feira, 18 de março de 2015

Meio tenso

Não sei se vou manter esse ritmo de postagem, colocando tantos textos seguidos, mas pelo menos eu tenho material acumulado do tempo em que com os minutos que me sobravam eu escrevia alguma coisa, em geral poesias. Na minha área de trabalho há dois arquivos de TXT com nomes parecidos, um diz Poesias Calorosas e o outro Dolorosas. Hoje vou trazer três do primeiro. Eu falo que fico muito tenso, sou uma pessoa com a cabeça muito imaginativa e facilmente me perco ou em loucura ou em depravação quando não ambos ao mesmo tempo. É muito legal isso, mas como nem sempre dá pra me expressar completamente com ações, eu acabo escrevendo o que tá me pegando. E foi assim que surgiram esses textos...

Propriedade

Quero seu corpo nú
Sua pele sedosa
Seu perfume ardente
Seus seios fartos
e sua boca carnuda

Entrar debaixo dos lençóis
Entre suas pernas
No seu âmago
E te ouvir sussurrar
"Você é meu"

Deitar a cabeça no teu colo
Esfregar minhas mãos em tua barriga
Derramar meu gozo em tuas coxas
E beijar tua boca
Olhando em teus olhos

Dizer que te amo
Que te quero
Que te desejo
Que te anseio
E que para sempre...

Serei teu.

Relaxando

Nos teus braços quero estar
Morder teu pescoço
E entre tuas pernas
Lamentar que não estou

Há muito que me pego
Pensando e imaginando
Como seria contigo deitar
Embalar neste amar

Afago teus cabelos
Sabendo que somos um
Iguais e diferentes
Opostos se atraindo

Você me faz sorrir
Quando vejo teu corpo lindo
No qual quero entrar
Te amo, minha perdição

Pequena Perdição

Arde, consome, queima
Uma chama acesa em meu coração
Tesão incapaz de me conter

Mordo lábios, interior da tua boca
Invado com a língua, conquisto tua alma
Quero acima de tudo tudo só para mim

Abro meus braços para receber
Teu corpo pequeno que se encaixa tão bem
No espaço do meu peito

Minha nanica, tão cheia de curvas
Nas quais derrapo, sem direção
Me perco inteiramente no teu calor

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tirando a poeria dos sapatos

Acho que é a terceira vez que posto esse texto, a segunda em um blog. Da outra vez, eu tive uma experiência muito tranquilizante de conseguir publicar um conto que mexeu tanto comigo. Espero ter o mesmo dessa vez, apesar de pelo motivo diferente. Eu realmente gosto da ideia de que ás vezes possa pegar textos antigos e eles ainda tenham validade, principalmente ESTE, que hoje continua tão romântico e belo... Pelo menos pra mim. Então, dedico-o a todos os apaixonados, loucos ou não, tolos ou não, ou que simplesmente estejam a fim de ter um romance, por mais bobo que ele seja. E sejam felizes. Para acompanhar, a música que me inspirou.


All Star

O quarto bagunçado. Os lençóis jogados no chão. O ventilador se mexendo lentamente. O som tocando baixo uma música dos anos 90. O All-Star azul, único objeto verdadeiramente colorido, depositado sobre a cômoda, um alienígena organizado em meio ao caos. Dois corpos estirados ao chão, quase imóveis, descansam. Ele é quem abre os olhos primeiro, focalizando o tênis e sorri.

O sol a pino e os cadernos sobre a mesa não eram a melhor combinação para aquele final de ano. O pior era manter a concentração com a mente ocupada em outro lugar. Naqueles All-Star azuis, surrados mas ainda belos, que haviam dominado seus pensamentos nos últimos tempos. Aliás, o All-Star era apenas o prenúncio daquele pequeno e delgado corpo claro, revestido com a calça jeans e a camiseta de uniforme, completado pelos negros cabelos caindo pelas costas. Todo o conjunto pulava de cena em cena dentro da cabeça dele, sem dizer uma palavra, apenas acenando ou dançando conforme a música. Bufou tentando lembrar mais uma vez da fórmula para encontrar o cosseno tendo o seno.
O barulho do sinal avisando do final da terceira aula lhe despertou de qualquer devaneio. Sabia que aquilo significava menos chances ainda de conseguir manter a atenção no caderno de matemática. ELA estaria descendo a escada em instantes, feliz com a possibilidade de ficar ao menos vinte minutos longe das carteiras de madeira, superaquecidas pelos 32º que registrava o termômetro do outro lado da rua. Desistiu definitivamente de continuar tentando e guardou, sem pressa, o material na mochila velha. O ano de diferença que separava os dois é que definia que ele teria dois turnos no colégio, ao invés do único dela, pela manhã.
Saindo pela porta da biblioteca levou um susto ao reconhecer duas vozes que dobravam a esquina. Pegou o fiapo de um final de conversa.
- ... passo na sua casa hoje. É na rua das Laranjeiras, não é? Que número e andar?
- 507. Eu moro no 1204. É só tocar que eu desço. Não esquece de levar o xerox dos textos de português.
- Tá, mas...
Não conseguiu continuar ouvindo. Elas tinham virado a esquina e ele se deparou com aqueles dois grandes olhos... Azuis como o All-Star. Perdeu-se no mar ali contido. Sentiu o rosto ficar vermelho quando eles lhe fitaram e desviu a vista, só para olhar de canto de olho em seguida e encontrá-los novamente, apenas para eles desviarem agora. Elas seguiram e ele as acompanhou, desviando o olhar para aqueles All-Stars que tanto lhe atraiam. Claro que não percebeu que ela olhou para trás mais uma vez, muito menos que ela sorriu de leve.
Sabia onde morava, sabia qual era seu apartamento. Puxa! Até sabia o que ela faria à tarde! Mas... O que fazer com isso?

Ironia ou não, em breve as informações forem úteis. Os três anos do médio iam participar de um evento fora do estado e ele fora, sumariamente, escolhido para a comissão. O que ele não sabia antes de ficar brabo com a decisão é que ELA também era da comissão. Por causa da coincidência eles teriam que se encontrar. Só que ela ficou doente. O bastante para não ir ao colégio. Teria que ir até a casa dela. Entendeu?
Tremendo ele checou novamente o endereço anotado em uma folha de caderno. A rua das laranjeiras era pacata, mais residencial do que comercial, com apenas dois prédios em lados opostos. Um cinza, antigo e mal-cuidado, e o dela, imponente em seus doze andares. Óbvio que ela morava na cobertura! Onde mais seria? Ele pensou duas vezes. Quem sabe não deveria esperar que ela melhorasse? Quase deu meia-volta, correndo para o ponto de ônibus. QUASE.
Entrou no elevador, apertando com nervosismo o botão do elevador. Enquanto subia pelos doze andares ele sentiu que não era o calor que o fazia suar. Muito menos o tremelique do elevador que não o deixava quieto. Assim que a porta abriu achou que deveria voltar para buscar seu estômago lá no térreo. O curto corredor parecia quilométrico enquanto andava até o 1204. Tocou a campainha. A porta abriu.
- Ei! Que surpresa! - disse ela com a voz anasalada - A Tânia me contou que você foi o escolhido do terceiro ano. Que sorte, hein?
Ele paralisou. Ela vestia uma camiseta jogada, azul como seus olhos e o tênis, que agora não calçava. Mesmo usando calças moletom e com aquelas olheiras de cansaço ela parecia linda. Diabos, como alguém pode parecer linda doente?!?
- Ah... É. Por isso... Eu vim aqui... - e sentiu vergonha de continuar - E para ver como você estava.
- Puxa, obrigado! Ah, entre! Desculpa, eu fico muito desligada quando gripo. - ela riu sem graça - Meus pais não estão em casa, mas a Júlia, nossa empregada, está na cozinha.
- Eu achava que você tinha um irmão. - deixou escapar e se amaldiçoou pela enorme boca.
- E tenho! Só que ele passa o dia quase todo na faculdade. Sabe como é, trabalhos, namorada e essas coisas.
- É, imagino. O terceiro ano já é bem puxado.
- Vamos pro meu quarto, é mais sossegado. - e ele pensou o que seria mais sossegado do que aquela enorme e silenciosa sala? Preferiu ficar quieto.
O quarto dela era tudo que ele não pensava. Haviam pôsteres de bandas de rock nas paredes, a cama era bagunçada e o armário era marfim com azul ao invés de rosa. Será que ela não errou de quarto com o do irmão?
- Não estranha não. Eu não sou muito arrumada mesmo. - ela disse e se jogou na cama. - Sobre o que você veio falar?
Engasgou, pensou, engasgou de novo, revirou os olhos, pensou se seria possível engasgar uma terceira vez e acabou soltando um suspiro.
- Tá, admito derrota. Não sei exatamente nada sobre o assunto. - enrolou.
- Ok, você tá perdoado. Eu também não sei. - ela riu.
- Eu pensei que você fosse me dar uma luz. - ele arriscou, aproveitando a deixa.
- Só se for uma lanterna vagabunda que eu tenho em algum lugar daquele armário. - ela retrucou e ele não conteve o riso.
- Então somos dois perdidos. E agora?
- Você tem que perguntar tudo pra mim? - ela fingiu indignação. - Certo, tudo bem, temos que fazer alguma coisa ou serão três turmas para esganar a gente. Seis se contarmos as dos outros períodos. Aliás... Não deveria ter vindo mais gente com você?
Pronto! Encurralado! Que desculpa ele iria dar? Péssima idéia de vir ali despreparado. Óbvio que ela ia perguntar dos outros!
- Ahn... O pessoal... Da tarde vai se organizar entre eles e depois vêm falar com a gente. - escapou de uma - E... Eu não conheço o guri do primeiro ano, então... Não consegui falar com ele e esperava que você o conhecesse. - mentiu.
Ela pareceu ponderar a questão, erguendo a sobrancelha como ele só pensava que se fizesse em filmes. Por fim, ela sorriu.
- Fugindo do dever hein? Bem... Realmente seria chato ter muita gente aqui comigo nesse estado.
- Você não está nada mal... - ARGH! Cianureto por favor!
- Brigada. - Respondeu ela corando um pouco.
Instalou-se o silêncio enquanto ele procurava observar o quarto inteiro para não olhar diretamente para ela. Sem perceber, ela fazia o mesmo, encarando os pés dele. Só depois de um tempo é que ele notou os All-Star azuis, distintos do quarto, postados aos pés da cama. Preparou-se para um comentário quando ouviu ela rir baixinho. Fez cara de quem não entendia.
- Ah... É só que... Eu reparei nos seus tênis... All-Stars. Como os meus. - ela disse, enrolando um dedo no cabelo liso.
- É... É moda agora né? Juro que comprei antes de todo mundo usar! - ele brincou, erguendo as mãos. Ela sorriu.
- Acredito. É um modelo clássico. Mas... Cano alto?
- Eu gosto. É diferente. E aquece mais quando tá frio.
- Mas é um saco no verão... Tipo agora!
- É sim...
- Seus All-Stars combinam com os meus. - ela disse de repente, de cabeça baixa.
- É? Não tinha percebido. - ele murmurou.
- Sabe... - ela começou ainda sem olhar para ele. - Você é legal.
- Va-valeu. Você também é bem legal.
Ele havia ido para a frente, insconscientemente, e eles estavam pertos... Até demais. Ele podia sentir o calor do corpo dela, acreditando que era por causa da gripe. Talvez febre. Ela sentia que ele suava frio, e achou que fosse pela temperatura do ambiente seco. Ergueu os olhos e acabou hipnotizando-o, sem querer. Lambeu os lábios e engoliu em seco.
Ele foi para a frente, completando o trajeto e eles se encontraram por instantes. Longos instantes. Sabor de sal, ela pensou. Parece... O mar. Se afastaram, arfantes. Ela mais do que ele. Eles se encararam, incrédulos, tremendo de leve. Ela caiu de costas, o peito subindo e descendo agitado. De repente ela sentiu falta de ar. Se ajeitou na cama e olhou para ele com os olhos semi-cerrados.
- Desculpe... É a gripe. - ela sorriu.
- Tudo bem. Você tem que descansar. Eu... Já estou de saída. A gente conversa amanhã?
- Claro. A gente se fala amanhã. Eu não te dou um beijo... - ela começou e engasgou - No rosto quero dizer!... Porque... Bom, cê tá vendo como eu estou!
- Fica tranquila. Inté.
E ele saiu. Sozinha no quarto ela suspirou.

No intervalo ele saiu mais depressa da biblioteca do que nunca. Tinha visto que ela viera para o colégio e parecia bem melhor. Queria (TINHA) que encontrá-la. Curioso: Foi vê-la debaixo da laranjeira da escola, sentada na sombra com aqueles mesmos All-Star azuis se destacando das roupas quase monocromáticas. Sentou-se ao seu lado com estrondo, quase fazendo com que ela pulasse.
- Você quer me matar como a gripe não fez é? - ela brincou.
- De jeito nenhum! Eu só queria saber como você estava.
- Bem melhor. Eu consegui dormir bastante depois que você saiu. E o remédio fez efeito.
Eles se calaram, olhando as pontas dos pés.
- Ahn... Quer voltar lá em casa hoje? - ela perguntou, acanhada, abraçando o próprio tronco.
- Pode ser... Pra quê?
- Me fazer companhia oras! Eu ainda estou convalescente!
- Ah sei...
- E também... Pra gente terminar aquele assuntou de ontem.
Ela ficou vermelha e ele entrou na competição. Mesmo quem estava de fora perceberia que os dois estavam mais do que envergonhados.
- Então... Eu tenho que ir. Marquei de conversar com algumas amigas para tirar umas dúvidas já que estive doente. Té mais tarde!

Quando entrou na Rua das Laranjeiras ele não estava só nervoso. Sorria por dentro e por fora, ansioso. Entrou no prédio voando. O elevador pareceu lerdo e tocar a campainha foi um sufoco. Foi ela quem abriu hoje também. E estava melhor do que ontem. Sem as olheiras, vestia uma camiseta mais leve, de banda, uma calça jeans, não aparentando nada ser a gripada do dia anterior.
- Oi. - disse ela de forma muito delicada, talvez um pouco tonta.
- Oi. Calor hein? - ele disse.
- Pois é. Quer entrar? Não... Desculpa, pergunta idiota. Entra aí.
Dessa vez ela não disse para irem para o quarto. Já estavam lá quando ele pensou no assunto. Ela se sentou na cama de novo e ele foi para a cadeira. Ficaram quietos, sem saber o que dizer. Ele reparou que os All-Stars não estavam aos pés da cama e estranhou. Onde ela teria colocado? Como que lendo sua mente ela riu e apontou para a cômoda. O par estava ali, como um troféu.
- Achei que ele merecia um lugar de destaque... Depois do efeito que teve ontem...
Foi a senha que ele esperava. Encurtou o espaço entre eles e caiu de joelhos. Ela riu, mas sem interrompê-lo. A altura dos dois atrapalhou um pouco então ela também foi para o chão, de joelhos. Deitaram, sem querer puxando os lençóis e ficaram assim por um tempo. Pararam para respirar.
- Por... Quê? - perguntou ele.
- Não sei. Mas eu senti vontade ontem e hoje ela só aumentou. Parece que... Fiquei com sede de você.
Ele riu. Fecharam os olhos curtindo-se por um tempo. Ele foi o primeiro a abrir, focalizando os danados dos All-Star azuis. Sorriu.