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quarta-feira, 25 de março de 2015

Ótimos personagens vão bem com qualquer coisa

Ontem, por influência da Ana, que também fez uma postagem em seu circo, eu acabei fazendo um texto emocionado com nossos personagens de Tormenta RPG, em história na qual EU sou o mestre... pra variar. Mas, excepcionalmente mesmo, ás vezes eu consigo ser jogador, e nessas raras ocasiões eu me empolgo MUITO com personagens que crio, dando a eles histórias mais complexas e, se puder, escrevendo sobre. Quem trago hoje é o Padre Thomas, um brujah da Idade Média que se embrenhou na igreja pra construir seu exército justo. Infelizmente pra ele, no meio do caminho, surgiu um...

Pequeno Incômodo

Eu senti a criatura antes de vê-la sair das sombras. Era pequena, de aparência ignóbil e provavelmente pareceria uma criança escrava não fosse o fato de ser feita de escuridão. Tomaria por uma ilusão facilmente. Veio rastejante, as garras esfregando no chão produzindo um som agudo e maldoso. Daria medo a provavelmente a maior parte dos devotos dessa igreja. Mas não a mim, principalmente porque de longe eu era mais forte do que ele.
Por seu tamanho e também por parecer um pouco confuso eu o domei facilmente, colocando meu joelho sobre sua... nuca? E seus braços pendiam quase imóveis esmagados pelo meu punho. Ele guinchou, aparentemente surpreso pela inversão de papéis.
- Ai, ui! Larga! LARGA!
- Vejo que fala minha língua, criatura abissal. O que me espanta mais até do que sua aparição.
- Ai! Solta, seu... seu... padre fajuto!
- Para um diabrete seu vocabulário de impropérios é bem limitado, não?
- Quer que eu xingue sua mãe? Se for pra me soltar posso até ofender seus futuros filhos!
- Eu estou morto, imbecil, e não, eu vou lhe manter preso.
- Você não pode fazer isso!... pera... você não pode mesmo... eu... posso ficar intangível!
E se livrou de mim, voltando a ser um espectro e se materializando próximo, mas com as mãos levantadas em defesa. Pelo jeito compreendeu que caso ficasse físico provavelmente eu o pegaria de novo. Mais esperto do que parece.
- Então... o que você quer em meus aposentos? Imagino que não tenha vindo para ser humilhado livremente... ou vocês, servos do demônio podem se dar a esse luxo?
- Sua alma, é claro! Eu poderia fazer um bom uso dela!
- Eu pensei ter perdido a alma quando fui transformado em um servo de Caim... você está me dizendo que ainda a tenho?
- Mas é claro! Acha que porque agora você rouba a dos outros você deixou de ter sua ligação espiritual com Deus? É uma alma bem sujinha, mas por que não? Ela vai servir pra cumprir minha cota!
- Você tem um linguajar estranho... e achei que não pudesse falar o nome do Senhor, mas bem... não terá minha alma, criaturinha tola. Ela me pertence e não vou cedê-la a um verme tão infeliz.
- Que maldade! Só porque eu sou pequeno... sofro muito por isso, viu?
- Oh, como lamento saber...! Agora deixe-me, preciso terminar uma carta para o príncipe de Yorkshire.
- Vejo que está ocupado, então vou... atrapalhar! – ele pulou de onde estava para cima da minha escrivaninha, derrubando a tinta sobre meus papéis – Ah, que desastrado! Veja o que fiz!
- Quer ser capturado novamente, seu imbróglio?
- Que palavra feia, padre! Talvez eu nem precise me esforçar muito pra ter sua alma.
- Tenho pena de você, demoninho... aparentemente não percebe sua insignificância. Se quiser me incomodar, fique à vontade, mas se ficar ao alcance da minha mão, parto-lhe em dois. Não desafie um brujah.
- Ah, que medo... epa!
Saltou antes que eu pudesse pegá-lo, mas ficou muito mais atento e também recolhido. Suas costas pareceram se fundir às sombras, como se fosse se tornar uma delas.
- Quase, padre!
- Eu lhe avisei.
- Ah, padre... não faça isso... vamos, temos que ser amigos... eu vou roubar sua alma algum dia.
- Precisará se esforçar muito para isso, janota.
- Ei, o que eu disse de palavras feias?
- Percebo que você não é muito culto, Astolfo.
- Como é?
- Se pretende continuar me perseguindo e não posso me livrar de você... apesar de que talvez eu ainda possa realizar um exorcismo... então quero lhe nomear. Sabe, nomes tem poder.
- Astolfo?
- Exato.
- Tá de sacanagem, né chefia?
- Se compreendi bem, sim, você merece um nome ridículo para acompanhar essa forma.
- Você diz... assim?
Astolfo se moldou, crescendo exponencialmente e ocupando um espaço maior da cela, mas não o suficiente para eu não perceber o truque. Sua constituição me pareceu a mesma, um tanto ampliada e portanto apenas ilusória. Falsa. E fraca.
- Continua servindo muito bem, Astolfo. Agora, saia de meus aposentos.
- Eu vou lhe esmagar, seu humano inútil!
- Nem que realmente houvesse ficado maior.
- Quer tentar! – e derrubou alguns livros meus – Vê?
- Regna terrae, cantate deo, psállite dómino...

Em instantes ele havia sumido, desaparecido completamente. Mas algo me dizia que ele voltaria para me atormentar em outro momento. Peguei outro pergaminho e uma nova pena com um tinteiro e voltei a escrever minha correspondência. No fundo, por mais chato que ele pudesse ser, ainda era insignificante demais para eu me importar. Por hora.

segunda-feira, 23 de março de 2015

A despedida dos heróis

Hoje meu grupo de RPG, que toda segunda-feira eu mestro no Covil, recebeu uma baixa tensa. Mais de metade da mesa teve de nos abandonar por motivos diversos... alguns arranjaram compromissos, outros simplesmente não podem mais estar presentes. E no meio de uma emocionante despedida, tive que eu mesmo me controlar pra não chorar. Os personagens estavam lá, partindo, quando uma nova aventura estava prestes a começar, e tive que interpretar um a um indo embora. Bem... foi bonito, eu gostei. Graças à uma ideia da Ann, que achou que seria legal registrar o momento, estou trazendo aqui uma transcrição QUASE fiel deste momento. Espero que gostem...

Estavam reunidos, alguns recém-chegados, outros amigos de dias e uns poucos com laços tão fortes quanto o aço. De pé, no centro deles, o clérigo de Khalmyr esperava para executar sua justiça, e ia de um a um perguntando qual seria seu destino. Escutou pacientemente cada resposta, dava a eles um tempo para pensar, e então passava ao próximo. Aos poucos os caminhos eram decididos, e sorrisos tristes apareciam nos rostos deles.
- Eu não acho que estou pronto para o desafio, ainda tenho muito o que conhecer, lugares pra visitar... – sussurrou a próxima parte – coisas para roubar...
- Entendo, rapaz, se é esse seu desejo, você viajará comigo.
- Infelizmente... – disse Kou, o garoto-macaco – Inglórion não está mais entre nós para decidir, mas acho que seria certo que ele tivesse seu corpo devolvido ao seu plano natal. E Skhar... bem, ele não está em condições de falar nada, vai junto.
Todos olharam para o lutador que conheceram logo antes, e tiveram tão pouco tempo juntos. Mesmo apagado seu sorriso continuava o mesmo, de quem está sempre confiante. Seria uma aliança formidável, mas também um perigo enorme... e se ele se metesse em encrencas? Os outros olharam para o mago, que pigarreara para chamar sua atenção.
- Eu... não acredito que vou dizer isso, mas... estou muito preocupado com minha irmã. Sei que a missão é importante, e também vejo que sentirão nossa falta, mas espero que entendam. Eu preciso ir atrás dela. – olhou para sua amiga e mentora – Se puder vir comigo, Aurora...
- É claro! Eu não vou sair do seu lado.
- Que seja feita a vontade de vocês. – disse o clérigo – Mais alguém?
- Pessoal... ah, droga, não queria deixar vocês de lado. Não queria mesmo. Mas... – Garddus deu aquela fungada – Eu preciso ir, há um lugar que preciso estar, e pelo bem de quem gosto. Eu não queria, mas vou precisar partir, e vou fazer isso com o coração apertado. Vocês são muito especiais para mim, e mesmo que eu esteja longe, quero que pensem que estou com vocês. Eu posso viajar, posso não conseguir vê-los por um bom tempo, só quero que... pensem que estou aqui. Um dia, se puder, eu vou voltar, vou lutar ao lado de vocês novamente. Espero que esse dia chegue logo. Até lá, boa viagem, por favor, continuem bem. Eu estarei sempre no coração de vocês.

Segurando as lágrimas, Aranel, a última deles do grupo original, viu seus amigos unirem as mãos e se prepararem para ir, com Garddus no meio. O gigante de aço, portando o escudo, era quem parecia mais sereno. Tinha o coração livre. Com um sorriso tímido e triste ela se despediu. “Obrigado por tudo, clérigo de Valkária, que sua próxima aventura seja mais feliz. Adeus”

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

4º Desafio - Ariana

Quase meia-noite, eu tive que correr para conseguir escrever, hoje foi um dia bem corrido para mim. Mas aqui está, o desafio da adorável Ari, que não foi tão difícil assim, e rendeu uma boa história. Espero que ela aprecie essa visitação à casa noturna que sua personagem Rosemary irá fazer, algum dia, no meu cenário de Vampiro, a Máscara. Fiz questão de escolher uma situação bem divertida para ela aproveitar. E claro, fazer uma certa propaganda dessa maravilhosa instalação. Aproveitem!

Belíssima imagem de uma dançarina daqui.
Fora da Rotina

A rotina no Rosa di Fiore pode se resumir a: Prepare-se para subir ao palco, ande entre os clientes, faça os serviços VIP e vá para casa depois. Raramente envolve algo mais perigoso como atender um assassino profissional com uma enorme cicatriz no rosto. Quando o gerente disse à Érica que havia um homem especial para ela, a garota pensou que fosse o jovem cavalheiro de olhos azuis que era grande amigo de sua patroa. Ao entrar na sala, um grandalhão careca e com cara de poucos amigos a encarou.
- Você é a garota que eles mandaram?
A pergunta parecia bem obtusa, com uma resposta muito óbvia, mas Érica demorou pra responder pela postura daquele homem. Mesmo usando terno e com uma maleta aparentemente bem cara, a expressão dele dá a entender que poucas pessoas poderiam chegar perto sem sofrerem lesões seríssimas.
- Ahn, sim... Eu vim lhe dar uma sessão super-especial. Disseram-me que o senhor é muito importante para nós e por isso vai receber uma atenção extra.
- Ótimo. Sente-se.
Esse era realmente um pedido estranho. Geralmente os homens, e até algumas mulheres, exigiam uma dança, um afago ou até algo mais íntimo, que seria muito bem pago depois. Sentar do lado era tão “normal” que Érica demorou a entender. Quando ficaram lado a lado, o homem pegou a maleta e colocou em cima da mesa. Um arrepio subiu pela espinha da garota, uma espécie de mau-pressentimento. O que quer que tivesse ali dentro não poderia ser boa coisa. Pensou em usar o botão de perigo, mas o homem lhe segurou a mão de forma autoritária.
- Eu quero que você tome algo. – disse ele levando a mão dela até a mesa. – Espere. Aqui.
De dentro da maleta ele tirou um frasquinho semi-transparente com algumas capsulas coloridas. Despejou algumas na mão dela e indicou três de cores diferentes.
- Escolha uma e tome. É isso que quero que faça para mim.
O sangue que Érica tomou mais cedo poderia lhe garantir uma boa resistência à qualquer droga, mas por algum motivo ela sabia que não seria o caso ali. Estava entre a cruz e a espada e não tinha uma alternativa segura. Engoliu a capsula vermelha o mais rápido que pode. Ficou olhando para o homem, esperando algo.
Ele tirou da maleta uma pistola, e o sensor de perigo de Érica estourou. Iria apertar o botão AGORA, antes que algo de mal lhe acontecesse. Mas seu corpo não correspondeu ao pânico. Pelo contrário, pareceu relaxar e uma excitação anormal tomou conta da sua libido. O homenzarrão ficou mais atraente, muito mais do que era possível para um 4x4 cheio de cicatrizes e com um aeroporto de mosquitos na cabeça. Érica não conseguiu mais se segurar e tomou o rosto dele para beijá-lo.
Pela resposta dele, não esperava por aquilo. Ele recuava, tentava impedi-la de tirar a roupa e de tentar tirar a dele. Movimentos amplos fizeram com que ele caísse no chão e demorasse para levantar, dando tempo para que ela subisse nele.
- O que está fazendo, garota maluca? – ele perguntou quase gritando e preparando a arma para atirar nela.
Nesse momento a porta se abriu violentamente. Um rapaz, não muito mais velho que Érica e vestindo um colete sobre uma camisa vermelha, entrou carregando um bastão de beisebol. O careca olhou para ele, apontando a arma e desferindo três tiros. Todos erraram o alvo, que se mexeu entre eles rápido demais para ser seguido por olhos humanos. O rapaz, que era o gerente da Rosa di Fiore, acertou um golpe que quebrou os dentes da frente do homem.
- Por favor, não se mexa muito, deixe-me lhe dar o tratamento dedicado a pessoas do seu naipe, senhor. Com todo o refinamento merecido. Espero que esteja aproveitando nossos serviços.
Enquanto falava, o gerente acertava mais um, dois, três golpes, imobilizando o homem enorme, quase três vezes o seu tamanho. Érica parecia aflita, incapaz de escolher a qual dos dois dar o seu corpo. O gerente se posicionou atrás do homem e colocou o bastão em seu pescoço, puxando para si, asfixiando-o.
- Por favor, relaxe, meu senhor. Quero colocar-lhe em uma condição mais... Apropriada. Ah sim, exatamente isso.
Quando o homem apagou, o gerente olhou para Érica e lhe deu uma ordem para ficar quieta e esperar. Viu que a droga quase venceu sua dominação, mas ficou contente por ter sucesso. Duas mulheres entraram pela porta, assim como dois homens grandes, muito maiores do que o rapaz.
- Frank, Lloyd. Arrastem nosso amigo para os fundos onde terei uma conversinha com ele. Desarmem-no e amarrem-no em nossa cadeira preferencial. – os homens saíram levando o desmaiado –Tiffany, Joseane, acho que Érica precisa de um tratamento para desintoxicação. Ela tomou uma droga que está causando euforia e muita vontade de sexo. Façam com que ela volte a si, como for preciso.

Com um sorriso de orelha a orelha, Érica viu as amigas se aproximarem, e preparou-se para o que viria em seguida. O gerente as deixou a sós e pediu que desligassem a câmera da sala. Daria privacidade a Érica e revogaria os direitos do tal assassino profissional que pelo jeito roubara um traficante. Experimentar uma droga daquelas em uma de suas garotas era imperdoável. O Rosa di Fiore cuida das suas garotas.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Noite das Bruxas

Antes que perguntem, não, não estou fantasiado de fantasma escritor, eu realmente estou de volta. Passei por um longo período em que não consegui me concentrar em escrever, revisar e mandar pra cá meus textos, mesmo aqueles mais antigos. Em compensação, consegui muitas novidades. Estou escrevendo para a NeoTokyo agora, e saiu uma matéria minha na edição 91. Sobre o quê? Bom, sobre Great Teacher Onizuka, versão dorama. Acreditem foi muito bom escrever e espero que gostem.
Também estou de emprego novo, a começar na terça-feira agora, dia 5. Vou trabalhar na ComDado Revistaria, no Kobrasol, uma loja de card games bem legal comandada pelo Rafa Barcelos. Quem quiser dar um pulo lá pra ver os produtos, conhecer o local ou jogar alguma coisa, estarei toda segunda à sexta lá pela manhã até umas cinco horas!
E pra completar minha volta, uma série nova de textos, meio a ver com a data, baseada no cenário que eu criei para Vampiro a Máscara. Casualmente criarei mini-histórias de personagens meus envolvendo outros PNJ's (Personagens Não Jogadores) e até alguns PJ's quando eu tiver como. No caso de hoje... Todo mundo tem que fazer relatórios, até mesmo os mais confiantes e responsáveis. Mas... E quando tem que relatar algo bem ruim? Vejam por si mesmos.

Audiência com o Demônio



As portas do elevador se abriram, revelando o saguão de piso de mármore. Uma única mesa esperava por ele, e duas portas duplas de mogno escuro o separavam do seu objetivo, a reunião que não queria ter, mas precisava. Dois olhos azuis o fitaram detrás da escrivaninha, e um homem de cabelos tão negros quanto a noite e sorriso contido o cumprimentou com um meneio singelo, quase como se quisesse se ocultar da pessoa na sala fechada. Uma rápida troca de gestos e os dois se entenderam, o chefe estava furioso.
Percorreu o espaço até a maçaneta com passos rápidos e duros, parou para inspirar o ar desnecessariamente, e então forçou a entrada. O homem estava lá, de pé, observando sua cidade pela parede de vidro. Nenhum movimento, nem uma palavra para dizer que entrasse e fechasse a porta. Ele já sabia disso, era o costume, e quebrá-lo é que seria estranho. Postou-se aos pés dos três degraus que separavam o platô onde a cadeira do patrão repousava. Em silêncio o homem de terno rubro postou-se a frente dele. Mesmo que não houvesse diferença de altura, era óbvio que o mais poderoso entre eles não poderia olhar nos olhos o mais fraco. Ele não iria discordar da obviedade.
- Você falhou comigo mais uma vez. – as palavras soaram pesadas como chumbo e o fizeram baixar ainda mais a cabeça, encarando os detalhes dos degraus.
- Senhor, eu...
- Sem desculpas. Quero um relatório completo. Se mentir, saberei, então esteja ciente, é sua única chance de se retratar.
Suspirou, soltando um som engraçado pela falta de ar nos pulmões. Estar morto deveria parecer o suficiente, não importa a situação. No entanto, é claro que “morte final” poderia ser bem pior. Tantas obrigações, tanto a fazer, e a qualquer momento acabaria deixando tudo para trás e embarcando numa viagem só de ida para o Inferno. Escolheu bem o que dizer.
- Bem, como começar...
...
A noite começou particularmente calma para uma quarta-feira. Normalmente o meio da semana poderia ser irritantemente barulhento, considerando que era o dia em que todos os neófitos decidiam ir para as ruas caçar para estarem prontos para o fim de semana. Uma rotina idiota criada pelas primeiras crias dos anciões quando chegaram à cidade. Logo, era impossível que ninguém estivesse se preparando para aprontar alguma coisa, então parti em ronda, passando pelos principais pontos de encontro.
Depois de mais de duas horas de passeio, acreditei que realmente era um daqueles dias milagrosos em que as pessoas sem combinar acabaram fazendo algo em comum e que poderia partir para as MINHAS tarefas. O senhor sabe, aquelas que não envolvam meus deveres para com a seita. E é claro, foi exatamente aí que as coisas deram errado.
Eu peguei um idiota perseguindo um grupo de baderneiros, tão magrelos que poderiam ser levados pelo vento caso fosse a temporada. Sinceramente, eu já vi gente recém-criada mais esperta do que ele. De longe dava pra avistar que os moleques, mesmo sendo tão fraquinhos, estavam armados e em número muito maior. Tudo bem que ele poderia ser rápido e forte, talvez fosse do clã certo, porém duvido que ele tivesse a capacidade de dar cabo de todos eles sem chamar a atenção, então resolvi seguir. Meu primeiro erro foi aí, senhor, pois em nenhum momento pensei que poderia ter algo bem mais errado na situação.
Eles continuaram andando por mais umas três quadras, com o babaca na retaguarda, seguindo abertamente o grupo. Eu juro, senhor, que se ele estivesse com os dentes à mostra e os olhos vermelhos não dava para parecer mais culpado. Depois que eles entraram em um estacionamento fechado, saltando a cerca, ele foi atrás e aí estava meu segundo erro. Eu deveria ter pensado em uma abordagem que não envolvesse jogar o cara na parede e estapeá-lo, antes ou depois de ele apanhar e eu ter de salvá-lo.
O estacionamento era enorme, provavelmente por conta do clube ao lado, mas esta noite não tinha eventos para que ele estivesse aberto e dava espaço para aqueles moleques invadirem lá e pensarem em usar alguma droga, beber ou praticar que espécie de ato ilícito eles quisessem. É, eu sei, mas a noite estava tão calma que não passou pela minha cabeça que isso era ainda mais suspeito do que o cara seguindo eles sozinho. Dá um desconto... Digo, me perdoe, senhor, eu sei que ferrei com tudo. Ainda piora.
Quando eu localizei o cara, ele estava observando o grupo de trás da guarita, exposto como um lagarto tomando banho de sol. Péssima comparação, aliás, porque eu finalmente notei que parte da pele dele parecia descamar. Apesar de tudo, o novato era um dos feiosos, então nada do que ele estava fazendo tinha sentido. E sim, foi aí que percebi que as coisas não estavam se encaixando. Parei onde estava e olhei em volta rapidamente. O grupo tinha sumido e o cara agora me encarava. Lugar grande, céu aberto, grandes chances de estar cercado de atiradores e a única arma que eu tinha só devia ter doze balas. O que queria dizer que eu precisava contar com o que tirasse de cada um deles depois de derrubá-los.
Consegui achar os cinco “mortais” nas minhas costas. Eles deviam ser rápidos ou eu estava muito lerdo, não importava. Eram seis alvos ao todo e ao menos um deles tinha disciplinas para usar contra mim. Achei melhor deixar para usar a pistola direto nos miolos de cada um deles. Esperei que alguém se mexesse, qualquer um, para que eu tivesse a vantagem dos movimentos, mas eles esperavam pacientemente como hienas, loucos para tirar o meu sangue. E só então eu entendi. Eles eram viciados, do tipo que deve ter provado nossa vitae alguma vez, por conta de algum imbecil e agora se juntavam a fornecedores que armavam para nós e tiravam uma grana com isso.
Por isso tão magros, os viciados deviam se alimentar só da gente, e vez por outra lembravam de que deviam comer, quase sempre morrendo antes disso. Cheguei a sentir pena por... Uns dois segundos. E então cansei de esperar e ataquei. Ia acabar com o vampiro que havia me metido naquilo, talvez dando uma lição nos pirralhos. Acho que ele não imaginava que eu ia ter coragem ou talvez pensou que na vantagem numérica eu ia atacar os outros primeiro. Sei que eles também cometeram dois erros: Eu não sou qualquer um, sou o cara que coloca a ordem nessa cidade... A serviço do senhor, é claro. E sou bom no que faço.
O segurei pelo pescoço e o pressionei contra a guarita. Ele perdeu a noção do que estava acontecendo por um tempinho, o suficiente para que eu forçasse a cabeça dele janela adentro, quebrando o vidro. Com outro movimento usei o que havia restado da janela e cravei no pescoço dele, fazendo a cabeça rolar para a cadeira e ensanguentando tudo na guarita. Sim, foi precipitado e o tipo de coisa que eu não deveria fazer. Mas teve o efeito desejado, senhor. Os garotos se borraram de medo, literalmente.
Não precisei da pistola. Cheguei entre dois deles antes que pudessem pensar em fugir. Joguei um contra o outro, amassando seus crânios. Quebrei o pescoço de mais um próximo e encarei os dois últimos que finalmente saíram correndo. Admito que queria isso, queria a adrenalina de me jogar em cima deles, caçá-los como gazelas. Estava ficando com fome e a raiva havia subido pelas veias, liberando parte da besta em mim. Joguei um deles no chão, com certeza cravando asfalto em seus miolos e abocanhei a garganta do último. Houve algo de ironia nisso, já que peguei de volta o que eles estavam roubando. Tudo bem, não foi engraçado.
Encarei todo o estrago, e poderia ter sido pior, senhor, juro. Foi um trabalho rápido, quase sem fazer barulho, e com certeza não havia nenhuma testemunha. Minha equipe chegou em questão de minutos para limpar a bagunça. Eu ainda consegui uma forma de justificar a guarita destruída (que eu tive que arrancar para não limpar o sangue) com o roubo do único carro parado lá, provavelmente um pobre coitado dum mensalista. Fiz o melhor que podia pra transformar tudo em algo produtivo.
...
Ainda sem olhar para seu mestre, o xerife engoliu em seco, outro ato falho de sua mortalidade insistente. Como vampiro, nunca precisava demonstrar cansaço ou nervosismo, no entanto, sua natureza não o deixava desacostumar. Pelas sombras, percebeu que o príncipe se recolhera à cadeira e aguardava sua atenção. Levantou devagar a cabeça e o encontrou encarando com um ar maligno. Viria uma bomba ali.
- Compreende que você mais uma vez causou mais danos do que o necessário e que em breve acabará por falir esta unidade?
- Sim, senhor, eu lamento por tudo, senhor, mas eu posso pagar...
- A questão não é de quem arcará com os gastos, e sim, eles serão seus, mas do princípio de suas atividades. Você se gaba de ser bom, e ainda assim é incapaz de dar conta de reles mortais sem tornar isso algo comparável ao que aquela outra seita faz, e por diversão. Se continuar assim, me parecerá uma propaganda, e você sabe o quanto detesto este pensamento.
Ah, é óbvio que sim. Nunca partilhara da mesma ideia de seita que seu senhor, e odiava pensar que tinha que seguir as regras dele só porque a hierarquia milenar o mandava. Porém, se saísse dizendo isso, sua cabeça estaria em uma bandeja de prata antes que pudesse dizer “Caçada de Sangue”. Quem sabe não seria agora que testaria essa teoria?
- Não vou lhe punir como deveria, Takashi, porque detesto pensar que perderia tempo e um funcionário, quem sabe, valoroso com isso. Não. Vou lhe dar algo que vai detestar mais ainda: Uma tarefa especial.
Conhecia aquela expressão, sempre indicava algo pior do que a morte final, o tipo de coisa que te faria desejar ter a cabeça arrancada, se banhar no sol do meio dia ou tomar um banho de água benta.
- Você terá que cuidar de receber nossos visitantes em breve, na próxima lua cheia, e tratá-los com cortesia, além de levá-los para onde quiserem enquanto preparamos a recepção em nosso salão de festas.
- Como o senhor desejar, meu príncipe... Mas... A próxima lua cheia não é amanhã?
O soberano inclinou-se um pouco para ficar mais perto do xerife.
- Exato. E os visitantes são a corte de São Paulo.
Sem querer, Takashi engoliu em seco mais uma vez. Marcos, seu príncipe, não fora misericordioso, ele realmente lhe condenara à morte final. Se havia alguém que gostaria de matá-lo, este era o príncipe da maior capital dos vampiros no país. E pensar que tudo havia começado tão bem naquela noite. Sem dizer mais nada, fez uma reverência e saiu, deixando para trás um monarca orgulhoso de como fora inteligente na sua escolha. Ouviu ainda ele dizer antes das portas fecharem:
- Ninguém falha comigo tantas vezes e sai impune.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cinema e RPG

Novamente, no meu quase ritual, fui ao cinema quinta com as lindas e maravilhosas Ann e Ari, o que me rendeu um programa muito melhor do que esperava. Acabei fazendo uma resenha obrigatória porque eu precisava falar desse filme. Leiam e aproveitem que ao final tem mais uma curiosidade, ok? Até mais!

O Cavaleiro Solitário

Devo admitir: As impressões com a recepção de O Cavaleiro Solitário ao redor do mundo e aqui no Brasil não me fizeram empolgar quando escolhemos ver este filme, mas o resultado foi bem diferente do que eu esperava. Devo avisar que podem haver alguns spoilers, mas em um filme que é feito pela mesma equipe de Piratas do Caribe e é um Disney, isso não é exatamente um grande problema, certo?
A começar, posso dividir o filme de duas formas: Como cinéfilo, há grandes chances de você não gostar do filme, pelos excessos, pelas respostas não tão boas do roteiro e principalmente por algumas atuações meio engessadas. Já como filme pipoca, é um excelente programa para o dia de promoção do cinema, com espaço pra empolgação e muitas risadas, e eu digo muitas mesmo, por praticamente todo o elenco.
 
Nas palavras de Ann, o tom do filme se classifica por comédia a partir da cena da banda que toca perto do final, ali se condecora todo o empenho em fazer rir, o que não é um demérito. A trilogia de Piratas (porque o quarto filme é bem mais sério) se marca pelo alívio cômico dos piratas da tripulação de Jack Sparrow e o próprio, que consegue tirar humor de tudo e todos, principalmente quando está em perigo, ao estilo do que Johnny Depp faz com Tonto.

Ok, mas qual a história? John Reid (Armie Hammer) é um advogado recém-formado que volta para sua cidade natal no mesmo trem que está o bandido mais perigoso do Texas, Butch Cavendish (William Fichtner, praticamente irreconhecível). Em uma fuga alucinada, o caminho de John cruza com o de Tonto e o advogado cria antipatia pelo índio, o que é recíproco. Mais a frente, quando uma emboscada deixa o novo ranger (que ganha sua estrela praticamente de graça) às portas da morte, é o amalucado índio quem o traz de volta... Bem, na verdade é um cavalo branco, mas com a ajuda de Tonto. Com isso, John Reid se torna o Cavaleiro Solitário, uma lenda do velho-oeste e parte em busca de justiça, o que descobre não ser tão fácil assim.

Há muito o que se falar sobre esse filme, mas foquemos nas atuações dos três personagens principais dessa crônica, ou melhor, quatro se contarmos o garoto pra quem Tonto está contando a história: Armie Hammer é um ator afetado, e isso reflete no seu John Reid, que demora para se tornar realmente um herói. Não é bem um problema, mas fica meio difícil dividir a tela com Depp se você não consegue se tornar querido pelo público, e ele se esforça em fazer isso o tempo todo. Suas discussões sobre justiça e o modo certo de fazer tudo não precisam fazer sentido neste universo, mas são o que define sua personalidade. Já Johnny Depp entrega outro personagem Johnny Depp e sua atuação é quase automática. Ainda assim, não há como desgostar de Tonto, que rouba várias das cenas em que aparece, mas que talvez tenha sido suavizado para não fazer como na trilogia que tornou a parceria Verbisnki/Depp/Bruckheimer famosa (para constar, diretor, ator e produtor de Piratas). Sua versão futura, já velhinho, e sua conversa meio truncada são fantásticas e arrancam ótimas risadas de quem assiste.


Já Fichtner se entrega TOTALMENTE ao vilão Butch, desde suas manias até mesmo sua voz maldosa. Acho que nunca vi, em nenhum momento, um personagem tão terrível quando o dele neste filme, e isso porque ele não é indefectível, mas realmente bom no que faz. O tempo todo ele demonstra sua maldade, ao atirar em quem quiser, ter a fala mansa de quem já beijou a morte e também de fazer o que quiser. Porém, se precisasse elencar um problema é a instabilidade do personagem, que parece ser uma marionete o tempo todo, culpa de um roteiro muito extenso. Por fim, o pequeno Will (Mason Cook), cujo nome eu só descobri ao olhar no IMDB, faz uma boa dupla para Tonto, interferindo aqui e ali na narração para fazer perguntas óbvias que o público também faria, tamanho buraco na história, mas que geram boas cenas e conseguem solucionar alguns velhos breaks que Verbinski pegou mania de fazer, adivinha?, em Piratas do Caribe.

Bem, talvez seja injusto citar Helena Boham-Carter logo aqui, em que sua personagem, Red, apesar de importante, não faz mais do que mera figuração, quase aparecendo tanto quanto outros personagens menores, como o cacique dos Comaches. Mas é fato que estar novamente ao lado de Johnny Depp evidencia a química entre eles, principalmente nas rápidas trocas de olhares que não fazem muito sentido entre o índio e a meretriz. Por outro lado, apesar de tentar, não dá pra dizer se existe realmente alguma ligação entre John Reid e Rebecca Reid (Ruth Wilson), o que dá pra se relevar considerando os dramas dos dois, mas é realmente um ponto chato de se reparar.

Juntando tudo temos uma ótima aventura que se tem um pecado é ser longa demais, com detalhes demais. Quando apareceram os chineses eu fiquei pensando em que diabos estavam metendo o Cavaleiro Solitário. Mesmo assim, por conta de cenas como Silver no celeiro e o mesmo maldito cavalo na mina, vale muito a pena assistir esse filme. Verbinski cria sua própria versão do Cavaleiro Solitário, usando pouco da ideia original e nos dando uma comédia com muito heroísmo e batalhas marcantes. Recomendadíssimo.
...

Como denunciei no título da postagem, há ainda um ponto a ver com RPG. É que essa semana eu vi muita gente postando no face um link para uma LONGA PRA CARAMBA lista de perguntas que te diria qual seu personagem em D&D, com detalhes de classe, raça, tendência e até nível com distribuição de pontos. Eu gostei tanto do meu resultado conseguido com MUITO suor que resolvi trazer aqui pra compartilhar. Quem quiser fazer também, o link é esse aqui.

PS: É em inglês pra quem estiver interessado.

I Am A: Chaotic Good Human Bard/Sorcerer (2nd/1st Level)

Ability Scores:
Strength-13
Dexterity-11
Constitution-11
Intelligence-15
Wisdom-15
Charisma-13

Alignment:
Chaotic Good A chaotic good character acts as his conscience directs him with little regard for what others expect of him. He makes his own way, but he's kind and benevolent. He believes in goodness and right but has little use for laws and regulations. He hates it when people try to intimidate others and tell them what to do. He follows his own moral compass, which, although good, may not agree with that of society. Chaotic good is the best alignment you can be because it combines a good heart with a free spirit. However, chaotic good can be a dangerous alignment when it disrupts the order of society and punishes those who do well for themselves.

Race:
Humans are the most adaptable of the common races. Short generations and a penchant for migration and conquest have made them physically diverse as well. Humans are often unorthodox in their dress, sporting unusual hairstyles, fanciful clothes, tattoos, and the like.

Primary Class:
Bards often serve as negotiators, messengers, scouts, and spies. They love to accompany heroes (and villains) to witness heroic (or villainous) deeds firsthand, since a bard who can tell a story from personal experience earns renown among his fellows. A bard casts arcane spells without any advance preparation, much like a sorcerer. Bards also share some specialized skills with rogues, and their knowledge of item lore is nearly unmatched. A high Charisma score allows a bard to cast high-level spells.

Secondary Class:
Sorcerers are arcane spellcasters who manipulate magic energy with imagination and talent rather than studious discipline. They have no books, no mentors, no theories just raw power that they direct at will. Sorcerers know fewer spells than wizards do and acquire them more slowly, but they can cast individual spells more often and have no need to prepare their incantations ahead of time. Also unlike wizards, sorcerers cannot specialize in a school of magic. Since sorcerers gain their powers without undergoing the years of rigorous study that wizards go through, they have more time to learn fighting skills and are proficient with simple weapons. Charisma is very important for sorcerers; the higher their value in this ability, the higher the spell level they can cast.