quarta-feira, 18 de março de 2015

Uma saudade e tanto

Hoje abracei meu irmão bem forte. É a última vez em um bom tempo, já que ele foi viver seu sonho e agora está ao lado de quem gosta, em uma terra bem distante. É muito triste pra mim, mas também de grande felicidade. Ele está aproveitando, fazendo o que realmente quer. E eu só posso sorrir por ele, que vai me deixar uma saudade muito grande. Ainda nos veremos, pelos Skypes da vida e por fotos, e eu espero que seja com ele sendo o rapaz tão especial que é. Irmão, te amo, muito, e quero que saiba disso... por você, eu fiz esta homenagem.

Bem vindo à bordo

- Capitão, meu capitão!
Do alto da torre de vigia, o homem de casaca escura e cartola ousou olhar para baixo, vencendo seu medo de altura, para ver o grumete que corria a toda pelo convés, acenando com um lenço. De longe ele já sentia que iria se incomodar com a notícia que seu contratado traria, mas foi ao ouvir o estouro vindo da sala das máquinas, que aliás fez o navio tremer loucamente, que teve certeza do quão irritado ficaria.
- Smiiiiiith! O que diabos está acontecendo com minha nau?
- Capitão, é que... a caldeira explodiu!
- Como é? – esquecendo completamente que estava a quase dois metros do chão, o comandante saltou, rolando para ficar de frente ao homem – Como... vocês... argh! Quer saber? Não me diga! E... acabamos de sair da baía! Não há como voltar pra pagar um mecânico decente! Eu... não acredito!
- Mas, capitão...
- Cale-se, Smith! E agora, pelos quatro ventos, o que fazer?
- Capitão... não estamos muito longe de Porto Tempestade.
- Eu nunca mais piso naquela banheira! Eu me recuso!
- Então deixe que eu vá... – disse uma voz feminina às suas costas.
- Ugh... – o capitão virou-se devagar para encarar sua convidada indesejada – Você voltou à bordo, Anna.
- É claro que voltei, Anthony. Você sabe que não pode se livrar de mim. Ah, e consegui recuperar seu quadro, já o deixei em sua cabine. Não precisa agradecer.
- Mas foi você que o perdeu!
- Bem, paciência, eu o trouxe de volta e está lá, como se não tivesse partido.
Anthony Wolfgang se controlava para não quebrar o pescoço de Anna, uma ladina aérea que certa vez invadira sua nave e desde então frequentemente estava com eles, hora para ajudar, hora para atrapalhar. A gatuna era ao mesmo tempo um colírio para seus olhos cansados, por sua beleza estonteante, e também um tormento do qual não conseguia se livrar. No momento estava mais para essa segunda opção.
- Srta. Nightwing, serei obrigado a rejeitar sua oferta, é mais provável que esteja apenas pegando uma carona em nossa embarcação e acabe por me trazer mais problemas que soluções.
- Oh, que calúnia! – respondeu Anna com a voz afetada – Eu deveria me ofender.
Sabendo que estava sendo alvo de chacotas mais uma vez, o capitão voltou-se para Smith e pigarreou, fazendo a cara mais séria que conseguiu.
- Deixo nas suas mãos, Louis, se eu voltar e tiver algo errado... bom... não se esqueça do que fiz à James...
Smith engoliu em seco, os olhos arregalados, e balançou a cabeça em concordância. James de Grungnir era um passado recente muito claro que ficava assombrando a tripulação e ninguém gostava de tocar no assunto, ainda mais na frente do capitão.
- Ótimo. E você, srta. Nightwing, espero não vê-la quando retornar.
- Não se preocupe, você não seria capaz de me notar mesmo se eu estivesse nua em sua cabine.
Sem saber se era uma provocação mais séria ou só uma forma de vê-lo se atrapalhar com as palavras, o capitão preferiu não responder e foi direto à um dos remos à jato para dirigir-se à estação mais próxima, a enorme sucata flutuando sobre o Pacífico conhecida como Porto Tempestade. Anthony ficava relembrando as vezes em que esteve na cidadela de bronze e quantas delas partiu a toda, depois de ter puxado briga com os malditos mercadores. Nem os piratas eram tão sanguinários e ladrões.
Chegando ao hangar, procurou logo marcar um cais para que Nau Ventania pudesse esperar por reparos e partiu para dentro das vielas. Já ouvira falar de alguns dos mecânicos locais, muitos com renome até mesmo nas terras da rainha, os quais não aceitariam de forma alguma servir à Wolfgang. Por isso foi atrás de boatos e de títulos não tão nobres, como Dick “One-Eye” Silverhand e Lucian Foxy, os quais negaram de forma educada seu ouro.
- Mas...
- Desculpe-me, capitão, eu estou tentando me entender com a milícia e não pegaria bem eu me envolver com um pirata aéreo... ainda mais se o navio dele for roubado da coroa. Você terá que procurar em outro lugar.
Depois de ter a porta fechada em sua não tão honrada fuça mais algumas vezes, o capitão de Nau Ventania estava quase desistindo quando um pescador de arenques solares disse que uma prima em terceiro grau de uma amiga da cunhada da sua esposa havia conhecido um ferreiro com ares de inventor que morava na asa sul de Porto Tempestade, bem próximo dos motores mais antigos. Sem muitas ideias, o homem levou sua bengala pelos três andares desviando de alguns pobres vigias que haviam sido punidos com a ronda subterrânea até chegar ao famoso Beco da Ruína. Ali, entre duas lojas de peças usadas, encontrou uma pequena cabana de latão com uma placa que dizia “Karma’s Kuma”.
Sem bater, o capitão entrou no que parecia um museu de brinquedos dos mais diversos tipos, com um corcel de ferro em um canto, um avião em miniatura e o que poderia ser definido como um robô de seis braços encostado em uma parede. Ao fundo, envolvido por uma nuvem escura e com fuligem cobrindo quase 100% do seu corpo, um homem martelava em uma enorme chapa de aço.
- Estamos fechados!
- Não é bem o que parece. Olhe, meu amigo, indicaram que eu viesse aqui...
- Não aceito piratas! Tenho bons ouvidos, sabe? E carniceiros sem coração não tem espaço na minha parede de troféus! – respondeu apontando para os quadros pendurados ao seu lado.
Eram doze ao todo, exibindo diversos tipos diferentes de naves, dos planadores como um com uma cabeça de leão na proa até um grande cargueiro de diversas torres de comando. Todas elas tinham a imagem do ferreiro na frente abraçando alguém ao lado. Era um homem grande, como aquele ali encolhido, mas sem a máscara podia-se ver um rosto alegre, de sorriso aberto, e os olhos pequenos que denunciavam sua descendência oriental. A barba dura e o cabelo ralo eram os únicos traços do trabalho pesado que o capitão agora presenciava.
- Olhe, meu bom homem, tenho muito dinheiro...
- Não quero saber. Não vou vender minha alma por umas moedas de ouro. – o gigante se avolumou quando ficou de pé – Muito menos para o cara que explodiu quase uma centena de pessoas quando estava roubando a nave que agora está com problemas.
- Na verdade... ninguém se feriu... seriamente. Além disso, eu mirei os canhões apenas nas estruturas de metal que prendiam Ventania, assim poderia fugir rapidamente...
- Pff... e pra quê isso? Que ganância toda é essa que te leva a cometer um crime desses e sair rindo ainda por cima? Eu vi as holo-telas, sua gargalhada era mais audível que os motores, e estamos falando de dois pares de hidro-combustão de grosso calibre!
Wolfgang ficou olhando pra ele por um bom tempo, seus olhos frios e lupinos analisando a expressão braba do homenzarrão. Em seus vários anos servindo ao exército da rainha, encontrou um punhado de gente como aquela, com o coração no lugar certo, mas grande demais pra caber no peito. Já gostou dele de cara.
- Olha aqui... eu não contei isso nunca pra ninguém... mas eu tinha uma boa razão para fazer o que fiz, e ainda tenho. Há um criminoso, um muito pior que eu, que está foragido, e que eu preciso capturar. Mas ninguém na guarda real me ouviu e apenas uns poucos já ouviram falar dele e, por conta de sua identidade, preferem se manter ocultos.
- Do que está falando?
- Estou te avisando que minha missão, mais secreta do que tudo, e que me dará o perdão de sua majestade no futuro, é de prender o famigerado Asmodeus Mozart, o maior perigo que já cruzou os céus de Novaterra!
O mecânico coçou o queixo por um tempo e então pegou uma chave de boca enorme em sua caixa de ferramentas e apontou diretamente para o nariz do capitão.
- Você está me dizendo... que alguém no governo te fez virar um criminoso internacional com uma recompensa enorme para que pudesse caçar alguém ainda mais terrível que ninguém ouviu falar ainda?
- É. – disse Wolfgang simplesmente, encolhendo os ombros.
- Acredito em você. – o mecânico abriu o mesmo sorriso das fotos e estendeu a mão – Vou salvar sua nau, então.
- Ótimo! Esperava que dissesse isso. Então, está combinado em cinquenta peças de ouro?
- Puxa, eu não posso aceitar isso... mesmo meus trabalhos mais caros saíram apenas vinte peças, e isso que eu tive que cobrar pelo material...
- Ah, mas não estou falando de uma vez só, estava pensando em um soldo a cada trinta dias. E claro... parte do que pegarmos em nossas capturas. Afinal, somos piratas, não?
- Mas hein?
- Estou lhe oferecendo um lugar na minha nau, Karma, e eu sempre pago bem meus homens. Além do mais... eles provavelmente quebrariam os motores de novo, então preciso ter você ao meu lado para consertá-los.
- Eu? Me tornar um pirata?
- Se você estiver por perto, vai ter a oportunidade de ver se falei a verdade antes e de me punir se eu fizer maldades.
- É... me parece uma boa ideia. Trato feito. – apertaram as mãos – Ah, mas eu tenho que avisar... o idiota que escreveu minha placa tem uma audição horrível. Eu falei que queria Karuma Kun. Meu nome é George Karuma Alestorm.
- Bom, bem vindo à tripulação, Karuma.
- Pode me chamar de Karu, meu capitão.

terça-feira, 17 de março de 2015

Bons tempos, mui calientes

É verão, tá quente, mas não é esse calor que estou sentindo. Recentemente recebi a ótima notícia que um conto meu será publicado em uma antologia, e fiquei muito feliz, é o primeiro! O tema é o erotismo, primordial e justo, de causar aquele arrepio na pele e deixar excitado só com as palavras. Eu amei, é tão... tão. Aí percebi que não tinha publicado dessas coisas por aqui, um erro que vou remediar agora. Trago a vocês o mais inédito e também que mais gostei de ter escrito recentemente.
Em tempo... não foi a única seleção que fui aprovado, mas isso é assunto pra outro post!

Para servi-lo e saciá-lo

Ele só observa, sem se denunciar, enquanto suas três noivas fazem suas oferendas, trazendo suas presas até seus pés, onde se banqueteiam sem cerimônia. É tão belo, divino, como poderia ser um pecado se cada uma delas lhe entrega a mais linda das visões? Deus não sabia com quem estava mexendo ao lhe amaldiçoar, esta é a verdade, e ele criou as mais assustadoras e deliciosas mulheres que já caminharam pela Terra desgraçada.
A primeira a chegar foi a morena, trazendo pelas mãos uma vítima jovem e aparentemente virginal, de feições delicadas como de uma nobre, mas o corpo de uma guerreira, marcado pelo trabalho duro no campo. Admirou-se com suas curvas atraentes e moldadas, escondidas sob um manto translúcido. A morena a trouxe até a sua frente e então sentou-se à sua poltrona e fez sua camponesa ocupar um espaço em seu colo, massageando seus seios por sob os panos. Puxou sua cabeça para um beijo, correndo as mãos pelo seu rosto e puxando seus cabelos para trás. Como sempre, a mais impetuosa, a morena deu a ela um último prazer, apertando suas nádegas até colocar seu pescoço para o lado e cravar suas presas. O sangue correu pela pele alva deixando um rastro que a morena seguiu com a língua até abocanhar um dos seios fartos da camponesa.
A seguinte foi a loira, que entrou trazendo pelas mãos um formoso casal mais velho. O homem aparentava seus trinta anos, e a mulher bem mais nova, talvez seus vinte, ambos bem vestidos, apesar da pouca roupa. Pareciam desnorteados, mas foram seduzidos pelos encantos da loira, que os fez se entregarem à paixão em seus corações. Ela sentou ao lado de seu mestre e acariciou a mão dele enquanto olhavam o casal se despindo e então se tocando, mas não muito tempo, logo ela correu para se juntar à eles. Primeiro fez a mulher de recheio do seu abraço, e depois ela própia se entregou, recebendo carícias de ambos. Somente quando estavam próximos do orgasmo é que ela os deitou e, enlaçados, sorveu de ambos, antes fazendo com que a esposa experimentasse o sangue dele.
A última veio montada em um cavalo, acompanhada de um cavaleiro, e a ruiva era a mais bela, mas também a mais séria. Fez seu acompanhante descê-la e então o fez tirar sua armadura para ela lentamente, até estar apenas de roupas de baixo e só então o permitiu tocá-la. Ela o deixou apoiá-la na mesa, de frente para o seu mestre e então ser devorada de quatro, olhando no fundo da íris negra dele, até colocar suas presas de fora e, num movimento rápido, virar seu parceiro e dilacerar seu pescoço, jorrando o líquido precioso.
- Estou satisfeito, minhas queridas... agora venham até mim.
As três se reuniram diante dele e, ajoelhadas perante o seu trono, tiraram os tecidos que cobriam sua cintura revelando seu majestoso membro viril que prontamente apontava para o teto. Elas se juntaram para segurá-lo e dividi-lo, colocando na boca o tanto que cabia, revezando, e enquanto uma se encabia de envolvê-lo com os lábios, outra chupava seus testículos e a terceira brincava com seus mamilos. Quando se cansou disso, o mestre levantou-se e expôndo seus enormes presas, pegou a morena e colocou-a encostada no trono, penetrando-a intensamente. A loira e a ruiva ficaram apenas acompanhando e se tocando até que seu mestre mordeu o próprio lábio e beijou-a, para lhe passar seu sangue.
Depois ele pegou a loira e a colocou para cavalgá-lo enquanto a morena e a ruiva se beijavam ardentemente, apertando seus seios fartos e compartilhando o sangue que tinham nos lábios. Mais uma vez o mestre deixou sua cria aproveitar do seu sangue e então e devolveu, finalmente pegando a ruiva, a qual fez ficar exatamente como o cavalheiro a colocara, mas diferente dele, não foi nada gentil e muito menos cauteloso. Penetrava-a brutalmente, incitando suas duas outras noivas a terminarem o serviço sozinhas, e elas deitaram, apertando-se e também se tocando, enfiando dentro uma da outra tantos dedos quanto aguentavam, mordendo seus seios, de arrancar sangue. A loira, em especial, parecia muito feliz em ter a morena para si.
Quanto enfim estava satisfeito o mestre fez a ruiva se ajoelhar e colocar seu membro dentro de sua boca, tomando dali o glorioso sangue. Cansado, o mestre se recolheu à sua poltrona e convocou seus vassalos que tiraram dali os corpos sem vida. Apreciou suas três noivas por igual e beijando suas mãos fez um gesto para que saíssem na noite e procurassem uma presa para ele. Transformando-se em morcego, o trio embrenhou-se no céu noturno.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Acorde-me quando Setembro acabar...

Agosto sempre foi um mês cruel para mim. Muitas perdas, muitas mudanças, muita dor e choro. Mas Setembro me desferiu um golpe tão forte que poderia rivalizar, até superar, todas as lágrimas que já derramei. Quero só dizer algumas palavras para uma PESSOA especial, minha gatinha amada...



Eu não queria estar escrevendo estas palavras
Tendo estes pensamentos
Sentir no passado
Chorar no presente
Não queria me entregar à dor
A falta que você me faz
Ao sentimento de saudade
E ao amor não correspondido
Você partiu sem dizer adeus
E eu sei que não foi por querer
Percebi teu último suspiro
E aquele olhar
Mesmo enviesado
Atravessado como quando eu te apertava
Dizendo “Ei, e aí, o que é isso?”
Não vou mais te encontrar me esperando
Te ouvir miar me chamando
Saber que você não quer colo
Ou água na pia
Mas vou te amar mesmo assim
E a cada dia
Mesmo que em silêncio
Te desejar “Boa sorte, Charlie”
Até mais, minha Gouda

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Enquanto andava por aí...

Admito que voltei a ficar relapso, mas não por ter nada a escrever, pelo contrário, acho que estou escrevendo muito mais do... eu já falei isso antes não? Memória curta, memória curta. Bem, também já disse que ás vezes a inspiração vem repentinamente, como um choque, que causa uma alteração em tudo que estou fazendo. Perco a vontade de seguir na minha atividade, de exercer uma função a qual estou dedicado e simplesmente quero escrever. Hoje cheguei em casa, pedi o notebook da Ann emprestado para que eu não pudesse me perder em distrações e escrevi.
Sentei e fiquei quase meia hora digitando, colocando em uma página do Word exatamente a ideia que tive enquanto andava pelas ruas do Kobrasol fazendo tarefas que tinha pela manhã. E gostei muito do que saiu dessa confusão toda que ficou a minha cabeça. Criei um novo mundo, novas personas... e bem, um trio muito legal... Com vocês...

Trabalho dado é execução feita!

O passarinho pousou na beirada da janela respondendo ao chamado, e ciscou as migalhas de pão deixadas ali. Parecia alegre, em contraste com o clima naquele quarto do terceiro andar. Seus ocupantes olhavam nervosos para a fachada de um edifício comercial no qual estava sendo decidido algum acordo que levaria à falência um conjunto de empresas de pequeno porte atuantes na cidade. Nenhuma das quatro pessoas naquele quarto queria isso.
- Ei, garoto, tem certeza de que isso dará certo? – perguntou o contratante do serviço, puxando mais um trago de seu charuto fedido – Eu paguei bem caro, se vocês falharem, esse cara vai ficar mais protegido que o Templo de Salomão.
- Você nos pagará, devo lembrar, assim que o óbito for confirmado. Não se preocupe, nossa cartilha exige que cumpramos todos os objetivos assim como foi contratado. – tocou as próprias têmporas com as pontas dos dedos e iniciou uma massagem suave – Agora não me atrapalhe, preciso me concentrar.
O casal junto deles parecia calmo demais para que o gordo homem de negócios ficasse realmente despreocupado. Era muito dinheiro, mais do que imaginava, e apenas por uma bala. Ele não acreditara quando o trio chegara em seu escritório e mostrara um rifle com apenas um cartucho engatilhado. “É o necessário”, disseram eles “com isso poderíamos matar qualquer um nesta cidade”. A arrogância desses pivetes o deixava com os nervos à flor da pele.
Pedira a eles um teste e então presenciara a coisa mais estranha desde que virara chefe de uma quadrilha em Florianópolis: o mais velho dos garotos, o tal Arquivo, leu a planta do prédio, ficou dez, quinze minutos observando cada andar, a descrição das salas e da estrutura. E então tocara na cabeça de Tela Mágica e este pegara um pincel atômico e começou a desenhar no ar, como se houvesse uma lousa. Cada traço ficava estático, uma linha brilhante que se tornou uma reprodução da planta. E então fez anotações.
Ele já se cagara com isso, até que uma das palavras que Tela Mágica escreveu ficou vermelha e um círculo se formou abaixo dela, com outro dentro e um ponto. Um alvo. Bala na Agulha simplesmente pegou seu rifle e saiu. Cinco minutos depois um tiro atravessou uma pequena falha na parede e cravou-se no meio de um retrato na parede da sala, exatamente entre os olhos. Não houve mais questionamentos. Até agora.
Haviam pedido três dias, só três dias para ajeitar tudo. No final do terceiro, enquanto Arquivo olhava mais uma vez para a entrada do edifício comercial, ele virou-se e fez dois apontamentos em seu bloquinho de notas. Entregou-as à Tela Mágica e virou-se para ele.
- Uma semana e a vítima estará morta.
Desde então haviam sumido. Desaparecido completamente. Ele procurara, é verdade, mais para ter certeza de que não pensavam em partir sem terminar o serviço. Não confiava em ninguém que não fosse chamado Humberto Costa, ou seja, ele próprio, e até desconfiava dele mesmo às vezes. Tanto fazia, pois os três pirralhos não foram encontrados. Na manhã daquele dia eles bateram em sua porta e o convidaram para seguir com eles.
- Como o senhor havia pedido no contrato. – lembrou Arquivo.
Muito sombrio. Com exceção das vezes em que falaram com ele, os três não pareciam conversar entre si, havia uma comunicação sem palavras, aterrorizante. Tentou perguntar a eles de onde vieram seus truques, essas magias do cacete que faziam. Recebeu olhares tremidos e uma resposta vaga:
- Ganhamos de presente.
O quarto que usavam agora fora alugado em seu nome, apesar de ele nunca ter assinado qualquer coisa sobre isso. Não perguntou, o valor era irrisório perto do pagamento que ia fazer, e ainda mais da bolada que levaria com a morte do seu rival. Que ele pensasse em seus últimos segundos em todas as cagadas que fizera e seu nome saltasse de uma memória distante. Filho da puta, ele e seus capangas iam aprender.
- Então, garotos, estou esperando...
- Por isso que a gente geralmente não traz cliente. Sempre dá essa merda. – comentou Tela Mágica, mas não falava pra ninguém em específico.
- Porra, vamos ficar o dia todo...
- Quieto, senhor Costa, chegou a hora. – cortou-lhe Arquivo, passando os dedos de sua testa para a de Tela Mágica.
O garoto mais novo pegou seu pincel atômico e começou a desenhar no ar de novo, fazendo anotações aqui e ali, que Bala na Agulha lia sem pressa. Seus olhos pareciam acompanhar cada mudança súbita quando Arquivo gemia e de repente eram obrigados a trocar o foco da escrita. Enfim pegou sua arma e começou a prepará-la, espantando o passarinho da janela.
Da rua vinham sons de carros, pessoas falando alto e os típicos barulhos urbanos, deixando-os em meio a uma chuva cacofônica. O silêncio da sala foi inundado de repente e tiveram que falar bem alto para conseguirem se entender.
- Bala, mire exatamente onde Tela te mostrou.
- Você sabe que faço isso, Arquivo.
- É pro nosso cliente entender, Bala. – explicou Tela.
- O que... o que querem dizer com isso?
- Só observe, senhor. – respondeu Arquivo.
Bala na Agulha posicionou-se olhando pela mira da arma e esperando. Os desenhos de Tela Mágica foram bem específicos, não erraria, mesmo assim ficava nervosa quando tinha a arma em mãos. Odiava tirar vidas e isso fazia seu estômago afundar um bocado. Encaixou a bala vermelha que Arquivo pedira para separar e engatilhou. Estava tudo pronto. Só teria que esperar...
O homem no edifício se aproximou da janela e a abriu, respirando um pouco de ar “puro” vindo de fora, um hábito que seria sua ruína. No exato momento em que inspirava, uma bala atravessou o bolso de seu terno indo parar em seu estômago. Um ferimento não fatal.
- Mas o quê... eu o quero morto! – gritou o senhor Costa já puto da vida.
Em seguida aconteceu a coisa mais absurda. Do nada o terno do alvejado começou a pegar fogo, o corpo sendo rapidamente absorvido por chamas que explodiram exatamente onde a bala acertara. Estava morto em segundos.
- O que... o que foi isso?
- Bala incendiária. – respondeu simplesmente Bala na Agulha.
- Arquivo percebeu que o alvo bebia constantemente e guardava um cantil com uísque no bolso do paletó. Uma bala poderia matá-lo, mas deixaria muitas evidências. Esse método foi mais sujo e mais eficiente.
Humberto Costa começou a rir, rir muito. Que espantoso! Os garotos eram gênios do crime, tão letais quanto chacais! Não era de admirar que custassem tanto. Seriam capazes de matar qualquer um na cidade, literalmente com uma bala só por vez. Deus! Mas que merda!
- Além disso... você disse que ele era um homem baixo. Mereceu a dor. – comentou Arquivo, olhando para a tela de sua tablet.
- Oh sim, oh sim! Agora ele vai arder no inferno e nunca mais se meterá em meus negócios!
- Era tudo uma questão de dificuldades financeiras afinal, não? – a voz de Arquivo soava pesada e muito incriminadora.
- E daí? Eu lhe disse, ele usava crianças para serviços muito, muito ruins. – ele não conseguia parar de sorrir, rindo baixinho – Que diferença faz se temos os mesmos princípios? Ele não vai poder pagar vocês para não fazer o serviço.
- É, eu sei. – Arquivo levantou do nada e agarrou Humberto pelo colarinho – Mas você, seu filho da puta, vai pagar tudo que nos deve por isso! TUDO!
Os homens de Humberto surgiram da porta, todos carregando pistolas de grosso calibre que apontaram para o trio. O negociante nem suava, parecia tranquilo por finalmente ter resolvido seus problemas.
- Solte-me garoto. Vocês não querem morrer aqui. Sou um homem de palavra, irei pagar sim. E não vou deixar seus corpos para que me rastreiem. Na verdade, seria melhor irmos logo.
- Tem razão. – Arquivo bateu as mãos em suas pernas e estendeu a direita para um cumprimento – Desculpe-me por isso, senhor Costa, eu perdi a razão. Sem ressentimentos? – sorria amigavelmente.
- Claro, guri, claro. Sabe, posso precisar dos serviços de vocês uma hora dessas.
Apenas Bala na Agulha e Tela Mágica notaram o súbito e rápido brilho nos olhos dos dois quando suas mãos se encontraram. Ficaram aliviados.
- Sim, senhor, é só nos ligar, se for possível.
Desceram para a rua rapidamente. Mesmo que o silenciador de Bala na Agulha impedisse que fossem percebidos, ainda haveriam aqueles que iam perceber algo de errado e procurar nos prédios próximos. Foram até o carro do senhor Costa na rua de trás e se despediram.
- É um bonito carro, um Logan, não? – perguntou Arquivo passando a mão na lataria do veículo.
- Sim, sim. Gosta de carros?
- Muito, são máquinas possantes... apesar de frágeis.
- Verdade, mas.. a partir de hoje estarei seguro. Obrigado, meninos! Seu dinheiro estará na sua conta hoje mesmo!
- Tenho certeza de que sim, até mais, senhor Costa.
Assim que o carro partiu, seguindo a rua, Arquivo encostou em Bala na Agulha e sussurrou em seu ouvido.
- Pistola, B12, logo abaixo da placa.
Seguindo perfeitamente as instruções, a garota sacou a arma e deu um tiro com a bala escolhida, que se alojou exatamente na parte em que a lataria abria espaço para caber o tanque de combustível. Eles já haviam se virado quando o carro irrompeu em uma labareda, bem no meio da cidade. As pessoas na rua não haviam reparado no disparo, mas agora gritavam com a destruição do carro.

Arquivo digitava avidamente na tablet, fazendo as transferências enquanto podia, antes que fossem paradas por algum grupo de apoio. Tinha certeza de que ninguém saberia da ligação deles com o falecido senhor Costa, mas precisava tratar de eliminar qualquer rastro também. Desapareceram na esquina, como sempre faziam depois de um trabalho.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Nove anos atrás...

Poucos sabem, bem poucos mesmo, mas há exatos nove anos atrás eu fazia, pela primeira vez, um pedido de namoro. Bobão, falei algo como "amanhã vamos no cinema... Como amigos ou algo mais?". Foi ainda mais engraçado ao vivo, e talvez tenha sido o motivo de ter dado certo. Ela aceitou. Nove anos depois, estamos casados, morando juntos e ainda muito felizes.
Eu queria comemorar esse momento com algo mais, talvez uma chance de mostrar que construímos juntos não só um relacionamento ou uma casa, mas um grande conjunto de coisas boas. Entre elas, amigos excepcionais, que poderiam fazer a mágica acontecer e, mais rápido do que escrevo este texto, trazer uma mensagem bonita. Desde o princípio eu sou o Lobo, a criatura sorrateira, que muita gente julga como um grande larápio, cretino e safado. Eu gosto disso. Ela também. E ela é a Tigresa, um animal majestoso que só não é o rei dos felinos ou dos animais da selva porque o Leão tem mais juba e fez mais fama. Acreditem, como esta linda criatura, minha esposa é uma caçadora nata e cada vez mais mostra suas garras. Fiquem de olho. Enfim, nós estamos juntos e é isso que importa. Aqui vai uma prova disso. Se é que precisa. Agradeço principalmente à Ariana, à Mônica, ao Karu meu irmão fantástico e a um convidado especial que prefere ser considerado uma incógnita... Por enquanto!

Este é da Ari, a terceira ponta deste casal que é tão diva que merece ser sempre lembrada.

Este é da Monichan, minha nova kouhai tão drag e tão fofa que precisava ser trazida pra cá.

Nosso amigo misterioso disse que estava incompleto... Eu vou bater nele, juro XD

Meu irmão conseguiu colocar tanto romance que eu tô abismado. Obrigado, Karuma!

E claro... Eu tinha que trazer algo meu pra cá... Segue aqui um certo papo entre os dois animais...

- Onde vai amigo Lobo?
- Oh, lugar nenhum, cara Tigresa. E tu, o que fazes nesta parte da floresta?
- Vou ao concerto dos Tucanos, parecem preparar um bom Tango, e como sabe, Tucanos são engraçados e divertidos.
- Posso lhe acompanhar?
- Mas é claro, só não queira devorá-los.
- Nunca, minha amiga felina. É uma pena que estejamos sozinhos.
- Achas? Pois penso que iremos rir muito nós dois apenas.
- Se dizes, não tenho porque discordar.
- Veja, são eles! Como pulam e cantam e tocam de maneira formidável!
- É sim... Eu não imaginava que vê-los novamente me traria tanta alegria.
- Já veio aqui antes?
- Ah, sim, Tigresa, mas na outra vez apenas pude apreciá-los, e não a companhia. Hoje, no entanto, estou feliz, pois te tenho ao meu lado.
- E que seja assim para sempre, Lobo.