terça-feira, 28 de abril de 2015

Caos de pensamentos

Andei bem, bem ocupado. Muitas coisas pra fazer, pouquíssimo tempo pra resolver. Deveria estar dormindo agora, mas quem disse que consigo assim, tão fácil? Precisava publicar aqui, é um dever pessoal contar histórias, eu sinto uma necessidade bem grande disso. Lamento pelos atrasos, mas prometo compensar com textos melhores. Quem sabe não posso ser do agrado de vocês com maior frequência?

Pra aqueles que não sabem, saiu um conto meu em uma antologia erótica! Já tenho o livro em mãos, chama-se Clímax - Faça-me chegar lá!, e meu conto é aquele que encerra a história, "No Meio da Tempestade". Eu pude finalmente relê-lo agora publicado e me impressionei. Fui eu mesmo quem escreveu isso? É de arrepiar, o primeiro que consigo transformar em trabalho impresso. Vai pra minha estante ao lado das NeoTokyos em que tive textos. Se alguém tiver interesse, ainda tenho alguns exemplares pra vender e... quem só quiser ler meu texto, estou sempre com uma cópia do livro na mochila! Só pedir!

O que trago hoje acabei de escrever. Decidi que queria trazer algo lá de dentro e acabou saindo esta pequena historinha, minha versão do Conto de Natal. Sinceramente, é um dos tipos de história que mais gosto e espero que vocês também apreciem lê-lo! Até!

-*-X-*-

Carmem era uma mulher bela, decidida, forte, obstinada... e também o tipo de pessoa que não se aguentava, que tinha diversos defeitos as quais insistia em demonstrar aos outros. Por isso mesmo que, Natal vinha, Natal ia, passava a madrugada seguinte sozinha, bebendo em seu apartamento no Leblon, de onde poderia admirar as festanças lá embaixo, bem lá embaixo, onde as pessoas pareciam formigas fazendo o que quer que formiguinhas fizessem e sinceramente ela achava isso uma bosta. Como sempre veria um filme, olharia alguns filmes com seus atores pornôs favoritos e então dormiria feliz abraçada a uma garrafa de uísque, para voltar à rotina no dia seguinte. Mas não este ano.
O primeiro a visitá-la chegou à meia-noite em ponto, trazendo consigo um bom vinho, uma caixa de bombons licorados e um pacote de camisinhas, uma dúzia delas. Seu sorriso encantador, seu corpo másculo de traços delicados e seus olhos sedutores derreteram o bloco de gelo que era o coração de Carmem naquela noite. Precisou apenas de cinco minutos para levá-la para a cama e durante os cinquenta seguintes a apresentou às mais diversas perversões, muitas das quais foram ouvidas pelos poucos vizinhos ainda no prédio. As marcas na pele de Carmem durariam semanas, mas a festa acabou logo antes da uma.
E então veio a segunda, e trajava a mais horrenda das combinações de camiseta e saia. Seu semblante era fechado e dolorosamente consternado, perfeito nas suas falhas, e muito triste. Mais uma vez afogou suas mágoas na bebida, o vinho que já estava ali e se encararam silenciosamente, uma batalha de caretas que terminaria em um desânimo tão profundo quanto amedrontador. Por vezes seus olhos escapavam para as facas da cozinha, a janela da sacada e os remédios para dormir. Quando as duas horas finalmente soaram no relógio, sentiu0se aliviada.
Veio então uma súbita alegria, e de repente não estava só. Uma doce garotinha havia entrado e contava histórias sobre suas adolescências, os namoradinhos, um cachorro falante e uma viagem louca pelo interior de São Paulo, no qual encontraram a fonte da juventude, motivo pelo qual seriam jovens pra sempre! Viu-se dançando, valsando, cantando e pulando e então a cama foi bagunçada ainda mais e parecia que poderia se entregar às suas maiores vontades. Rasgou alguns contratos, escreveu cartas para seus amigos, aqueles que nem lembrava que tinha e gritou da janela o quanto achava gostoso ser enrabada pelo chefe e então... então passou. E se viu olhando para o céu noturno.
E a via-láctea pareceu brilhar mais às três da manhã. Cometas viajaram pelos céus enquanto o futuro se abria ao seu redor. Estava em uma sala de reuniões, mas não era ela mesma quem falava, era o garoto que havia entrado na empresa há menos de um ano e que agora era o líder do departamento. Concordava com tudo, mesmo odiando saber que ele estava sendo um idiota e que nada daquilo renderia bons frutos simplesmente porque não era original. Carmem seria muito melhor... se tivesse feito mais do que deixar-se ser levada por suas manias, por suas fraquezas, pelas palavras doces e falsas dos outros. Sem filhos, marido, rumo, um fóssil, engessada no meio de um monte de gente ainda mais depressiva.
E então lembrou-se das coisas que queria aos dezoito anos, quando teve a brilhante ideia de abandonar o que queria fazer de verdade para conseguir aquele cargo na empresa do tio de um amigo. Levantou-se e foi até o armário resgatar alguns cadernos de desenho, folheou as páginas, rememorando as conversas com suas amigas, os contos que fizeram, as histórias que inventaram e imergiu nos mundos fantasiosos de antes. Sorriu, sinceramente, pela primeira vez em muito tempo. As lágrimas correram e o coração parou, de repente.
Não sentiu bater, o corpo entrou em torpor, a mente vagueou. Estava olhando de cima, jogada, largada, abandonada. Em paz. Ninguém mais lhe dizendo o que ou como fazer, as cobranças indo, e também... também... todas as oportunidades. E tudo que não viveu? E as viagens? E os passeios por Copacabana, apenas para encontrar uns rostos conhecidos e saírem para beber no fim de semana? O vazio trazia o frio. Não estava mais engraçado. Uma mão estendida a aguardava, e um semblante branco, bonito e gentil lhe dizia que ficaria tudo bem. Muito cedo, querida, pensou, e então retornou.
A fúria veio montada em um cavalo negro como um bárbaro de tranças carregando um machado. Gritou e vandalizou os móveis tão bem trabalhados, riu e destruiu os relatórios que havia escrito e preencheu páginas e páginas de contratos assinados com as palavras “Mentiroso” e “Vadio” entre outras coisas bem piores. Gargalhou até cair cansada no meio do quarto, e à sua volta um mar... um mar de destruição. Como sempre, depois veio a criação. Pegou as folhas rasgadas e as reuniu. Tirou do fundo da gaveta um conjunto de pincéis e tinta e por cima de tudo pintou um rosto. Seu rosto. Carmem se projetou com o mesmo sorriso de dez anos antes. Feliz e alegre. E então pode sorrir desse jeito novamente.

Feliz Natal, Carmem.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

De coração aberto

Eu valorizo a amizade, muito e sinceramente. Sou o máximo de amigo que puder, mesmo que a pessoa não peça ou queira. Prefiro me entregar, integralmente, e aos poucos me moldar aos meus amigos. Tenho-os como irmãos, amantes, parceiros, pessoas a quem devo ser leal, a quem quero ser leal, e por quem batalharia. Então eu gostaria de me expressar, só um pouco, e contar aqui o que sinto... por vocês, ma friends.

Espírito de Alcateia

Se eu pudesse mudar as estações
Fazer do seu outono primavera
Eu te diria que não te preocupe
Pois ainda veremos muitos verões
Olhe, amigo, o sol há de se pôr
Talvez mais cedo, talvez mais tarde
Não tenha medo de se perder
Eu vou estar ao seu lado seja o que for
Sóbrio ou ébrio, são ou louco
Serei guerreiro, companheiro
Até mesmo pai ou professor
Eu te amo e não é só um pouco
Perceba, meu amigo, você está fadado
A ter minha parceria não importa o quê
Seja querendo ou de muito mal grado
Estarei contigo mesmo que bote tudo a perder
Sábio era o tolo que nos fez iguais
Não pensou talvez que fossemos mais
Do que somente amigos leais
Somos irmãos, hoje e sempre até o final
Seja sob a luz da vitória ou perigo mortal
Obrigado por ser tão fiel
Não poderia querer nada melhor
Você terá tudo de mim, mas principalmente o amor

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Eu não sei o que ando bebendo...

...mas não quero parar. Definitivamente. O texto que trago hoje foi um conto que escrevi e veio do nada, totalmente aleatório e muito, muito divertido. Não é sempre que sinto tanto prazer escrevendo, mas gostei tando do que fiz que precisava correr para compartilhar.

PS: Continuo horrível pra títulos!

Visita ao Sonho

Você sabe o que é acordar ao meio dia, encarar o vazio na parede do seu quarto e pensar que deveria ter continuado dormindo? Se disser que sim, será um mentiroso terrível pois até hoje eu nunca tinha ouvido falar de algo que sequer fosse parecido com isso, que dirá tão cheio de detalhes como quando o Sonho invadiu meu mundo apenas para me trazer um anão de cachimbo com uma carta em folhas de bananeira. Pois foi exatamente assim que comecei aquela segunda-feira.
Eu havia ido dormir no domingo com a estranha sensação de que teria um péssimo dia seguinte, já imaginando como explicaria ao meu chefe que a festa da faculdade no sábado havia me deixado tão ferrado que eu passara o resto do fim de semana devolvendo meu almoço de quando tinha quinze anos e por isso não podia terminar o relatório que ele me pedira. Há duas semanas. Sim, eu odiava meu emprego, mas quem poderia me culpar? Não odiamos todos nossos chefes ranzinzas de quarenta, quase cinquenta, como cara de sessenta? Bom, eu pelo menos admito.
Mas nada me preparara para o anão, que aliás usava um casaco laranja-lima com um gorro em plena primavera e que tinha a barba mais pontuda do mundo, podem conferir no Guinness. Ele me olhava com suas contas esmeralda, cheias de um brilho sobrenatural e assustador, e pigarreou quando me viu piscando devagar, como se quisesse que ele entrasse em foco. Tirou a bananeira da bolsa de couro e me estendeu, pois era óbvio que eu deveria pegá-la e entregar a ele uma moeda de bronze pelo serviço. Oh, desculpe, estou me adiantando.
- O que é isso? – foi o que perguntei brilhantemente.
- O que parece, meu chapa? É claro que é uma folhagrama. E é bom ler rápido, pois fui pago por uma resposta, e não para ficar esperando.
- Mas... o quê...
- Olha aqui. – ele apontou aquele cachimbo fedorento pro meu rosto – Eu sou um servidor das entregas a vácuo desde que eles inventaram as cartas-de-bilbouda, então é bom que tenha respeito por mim e deixe-me terminar meu trabalho. Ok?
- Tudo bem, tudo bem! Não precisa se irritar... homenzinho. – sussurrei a última palavra com medo que ele enfiasse aquele pedaço horrendo de madeira em meu nariz.
A letra era muito rebuscada, cheia de volveios desnecessários que só dificultaram a leitura, que aliás, fez um nó na minha cabeça antes de perceber que não deveria pensar na lógica das palavras, mas no que havia por trás dela. Ou seja, dane-se o mundo, apenas leia, divirta-se, tipo o filme pipoca ruim que você vai ao cinema ver e esquece que está lá, até que acaba e você sai do cinema rindo e comentando com os outros como foi a pior experiência da sua vida e pronto, pode ir pra casa assistir aquele clássico cult e que sim traz uma mensagem, normalmente edificante e cheia de mistérios que você nunca vai desvendar.
“Caro Normie (porque meu nome é Norman e sim, alguém achou que seria um bom apelido)
Estávamos contando com sua excelentíssima e grata participação em nosso sistema de auxílio aos não-encantados e que poderia, talvez, em alguma instância próxima entre hoje e a próxima lua dos dois quartos), unir-se a nós na corte para discutir os assuntos referentes ao seu tio em segunda cláusula do sol de três pontas, Willfred Von Duck, e que, caso não se faça de rogado ou ache por demasia enfadonho, possa dar a ele uma defesa digna para que não se vá diante da lâmina mui afiada de sir Godrick dos Picos Altíssimos, que deseja de todavia fazer da cabeça de seu tio um belíssimo troféu para alegrar sua casa de veraneio em Lago Flock. Desde já interessados em sua visita e tomando de chá com bolinhos,
Os reis de Monastergo”
E havia um Anti scriptum colocado no fim do texto, mas fora feito com algum tipo de tinta que se derreteu ou talvez tenha sido só esparramada por ali e não fazia mais o menor sentido. Definitivamente o tipo de coisa que passaria por falta de educação se o anão não estivesse batendo seu longo e desproporcional pé com uma expressão assassina em seu rosto redondo e barbudo. Cocei a cabeça e fiquei olhando para a folha até dizer uma tolice:
- Ahn... então... eu acho que vou?
- Ótimo. É uma mensagem enfim! Ufa! Posso tirar minhas férias. Aqui. – ele deixou um pacote que mais parecia um daqueles que envolvem lembrancinhas de casamento e se jogou no abismo na minha parede – Monaaaa! Estou in...
Desapareceu, levando consigo o vácuo e devolvendo a pintura abacate que minha mãe insistira que ficaria bem e não me enjoaria ao vê-la todo dia ao acordar. De fato, eu não consegui, já que a tinta vagabunda começou a descascar e cobrira tudo com pôsteres, restando apenas um trechinho que lembrava uma teia de aranha muito bêbada. Olhei para o pacote e puxei o lacinho, esperando que um sapo saltasse de dentro. Para minha surpresa era uma caixinha de música simples, com uns poucos ornamentos dourados sobre uma superfície rosada.
Tão bonitinha, eu a girei entre os dedos três vezes até decidir que talvez fosse uma boa pô-la para tocar. Que mal haveria nisso? Como deve perceber, foi uma das minhas decisões ruins que culminaram no que seria a experiência lisérgica mais louca desde que tomei aquela bala em uma festa prestes a completar 17 anos e fui parar em uma bóia no meio da piscina cercado de balões e uma menina semi-nua. Melhor não falar mais nisso. Onde estava? Ah sim. A caixinha. Eu girei a chave que a ativava e de repente senti muito, muito sono. Nem lembro como era a música, talvez fosse uma versão techno punk de Hey Jude, algo assim, tenho certeza que tinha a voz de Paul...
E então eu estava em uma sala de teto xadrez. Não, não me enganei ou estava de cabeça para baixo, o teto realmente tinha ladrilhos de duas cores e o chão era coberto por um carpete verde-musgo que faria minha mãe sorrir pela escolha. Era uma sala menor que meu cubículo no escritório e tinha apenas uma poltrona e um sofá, além de uma mesinha com o conjunto de chá mais estranho. Mas bem, na situação que estava, como poderia julgá-lo? Um senhor me observava da poltrona, e ele usava um terno bem alinhado, risca de giz, da cor de um céu de tempestade e pantufas de ursinhos carinhosos. Seus óculos de coruja haviam escorregado para a ponta do nariz mas ele não parecia se importar. Observava-me como um cientista que de repente descobre uma formiga andando sobre seu projeto de dois bilhões de dólares.
- Levante-se, Norman, temos que conversar. Seu tio não pode esperar muito tempo.
- Desculpe-me... como o senhor me conhece? Onde estou? Quem é você? Quem é esse tio Valfredo? E como diabos vim parar aqui?
- Bom, são muitas perguntas meu rapaz, não tenho tempo para todas. Qual prefere ouvir?
- Eu... acho que sobre o tio...
- Ah sim, Willfred. Sim, sim, um bom amigo, uma pena que um tanto biruta, com suas ideias sobre geogamia, carros movidos a sonhos e aquele papo sobre músicas feitas com instrumentos eletrônicos. Todos sabemos que batidas são apenas isso, é como um macaco cantando ópera! Bem, Willfred está profunda e sumariamente encrencado e provavelmente prestes a enfrentar o pior julgamento de toda a história feérica, animada e talvez até do submundo. Devo dizer que se tiver sorte, o exílio será uma opção agradável.
- Eu... não entendo.
- Rapaz. Quão bem foi sua adolescência?
- Não posso reclamar... muito. Eu tive uns amigos, fui a algumas festas, namorei uma garota...
- Sim, sim, tudo normal, não é? ESTE é o problema!
- Como assim?
- Veja bem, você, Norman, deveria ter sido contatado por seu tio quando tinha 13 anos e nem um dia a mais, ou pelo menos encontrar um diário perdido aos 14 ou recebido uma carta misteriosa dois anos depois, que o levaria a uma jornada de auto-conhecimento, descobrimento de poderes inigualáveis e quem sabe encontrar a garota de seus sonhos ainda que não soubesse nem o que é ter uma paixão direito. Mas não! Willfred estava tão concentrado em seus experimentos com o veículo e aqueles docinhos de padaria que esqueceu! Ele ESQUECEU! Veja que absurdo!
- Eu... não sei do que está falando. Eu tive uma boa juventude... acho. Não posso dizer que... você falou de poderes? Sou algum tipo de mago, por acaso?
- Ah, essa besteira? Naaaaah... no máximo deve ser capaz de lamber o próprio cotovelo e calcular os números primos de cabeça. Não, não, falo daquilo que todo jovenzinho tem, a autoconfiança excessiva, a criatividade para problemas e a transformação de uma situação comum em drama. Você foi excessivamente tranquilo e sereno. E isso é errado! Por conta disso, seu tio agora deverá se justificar diante do conselho e eles com certeza devorarão ele vivo com pouco sal e pimenta!
- Fala sério? Porque eu tive uma adolescência comum e boa ele vai pagar o pato? Prefeririam o quê? Que eu tivesse virado um rebelde sem casa?
- Oh sim, que grande emo você teria sido! Consigo vê-lo de cabelo preto e liso e olhos pintados, compondo poemas! Poderia até ter montado sua banda de dois instrumentos e virado uma sub-celebridade do YouTube!
- Por favor, não. Estou feliz assim mesmo.
O velho suspirou e largou sua xícara do lado apontando para o sofá, que eu cordialmente sentei. Ficar de pé havia me cansado pra valer e a conversa parecia que seria muito longa. Ele coçou a cabeça revelando um buraco entre seus longos cabelos prateados.
- Então você vai defendê-lo. Boa sorte.
E tudo ficou brilhante e ofuscante. Em seguida eu estava no meio de um tribunal de vários andares, ainda no sofá e cercado de guardas, todos vestidos em armaduras absurdamente brilhantes e cheias de entalhes e todo mundo me olhava. E eu falo dos mais diversos e esquisitos seres mágicos já imaginados. Fadas, duendes, anões, elfos, gnomos, vampiros, lobisomens... tudo que puder e o que nunca conseguirá imaginar. Eles me olhavam como se eu fosse o rei Elvis prestes a se apresentar. Creio que vi pelo menos dois iguais a ele e ao Michael no meio da multidão. Um senhor, quase tão velho quanto o que falava comigo antes, estava sentado de pernas cruzadas em uma tartaruga colossal e olhou para mim antes de falar.
- Norman dos mortais sonhadores, você está pronto para defender seu tio, Willfred Von Duck?
Seu dedo longo indicava um rapaz não muito mais velho que eu, mas dono de um bigode de dar inveja à Dali, vestido em uma combinação que não me surpreendia mais de camisa social, saia escocesa, casaco de poliéster e um par de fones de ouvido apoiados nos ombros. Parecia prestes a ir a uma das festas que eu tinha ido recentemente e poderia ser meu veterano que nem notaria a diferença. Tirando isso, seus cabelos eram tão azuis que provavelmente despareceriam junto do chroma key durante uma filmagem. Ele não sorria, mas tinha o ar brincalhão de quem estava prestes a aprontar.
- Eu... acho que sim.
- Ótimo, podemos avançar para isso de uma vez. Excelentíssimo julgador?
Um duende de preto com um turbante escarlate veio saltando por entre os guardas até ficar de pé na minha frente, em cima de uma mesinha. Mesmo com o apoio, a diferença de altura era clara e se eu ficasse de pé ele bateria em minha cintura. Eu fiquei encarando-o até que ele tirou uma vareta e apontou para meu nariz, muito mal educado.
- VOCÊ, MORTAL!
- Não precisa gritar... – murmurei.
- NÃO ME INTERROMPA! VOCÊ! COMO OUSA VIR ATÉ AQUI, DIANTE DE TODA ESSA GENTE, E DEFENDER ESTE IMUNDO, PREGUIÇOSO E TOLO DJINN QUE NUNCA FEZ NADA PARA CUMPRIR SUAS FUNÇÕES!
- Não, sério... tá doendo meu ouvido...
- CALADO! AGORA, FALE!
- Mas eu não...
- RESPONDA MINHA PERGUNTA!
- Olha, aqui, sua decoração de jardim furiosa, quer me deixar falar? Você me perguntou, então vou responder! Eu não sei que droga está acontecendo aqui ou que tipo de coisa ele deveria ter planejado para mim, mas estou bem com a porcaria da minha vida, então dá pra libertá-lo, me devolver pro meu quarto e me deixar enfrentar o desgraçado do meu chefe e dizer a ele o quanto eu espero que ele sofra enfiando aquele relatório no meio do...
- É ISSO QUE DESEJA? DE VERDADE?
Eu vi o olhar em Willfred que me fez estremecer. Ele parecia que me dizia “Cuidado, pode não ser uma boa escolha. Mas se é isso mesmo que quer, estarei aqui para lhe apoiar. Ah sim, e pode vir me visitar outras vezes se quiser. Você parece um sobrinho muito legal, uma pena que nunca falei com você antes. Bem, espero sua visita!” o que foi muito estranho, porque ele só sorriu e então o julgador maluco bateu na minha perna e gritou de novo.
- SE É ASSIM, CASO ENCERRADO, MERITÍSSIMO!

E foi assim que de repente eu estava no meu cubículo, segurando a caixinha de música e mais sóbrio do que nunca na vida, logo antes do meu chefe entrar e me perguntar do relatório. Não sei se foi por causa do que eu tinha sonhado, ou se teve alguma realidade naquilo, mas achei que seria uma ótima ideia dizer a ele o que tinha dito no Sonho. Sim, foi uma ideia imbecil e claro que fui despedido. Mas não me arrependo nada disso.

sábado, 11 de abril de 2015

E então chegamos ao solo final...

Depois de quatro dias com músicas em inglês, achei que seria bom acabar com esta da Pitty, que é uma das melhores dela, se não A melhor. Digo isso com conhecimento de causa, ouvi muita coisa da cantora graças ao gosto peculiar da minha esposa, que aliás, é a razão de eu gostar ainda mais dessa música. Ao contrário da protagonista, eu não fui deixado em uma estante, para exibição. Eu sou feliz ao lado dela e é isso que me emociona, me impulsiona, me direciona. E é dedicado a ela que trago esse texto, que não é nem um conto, nem uma dissertação, nem nada. São meus pensamentos jogados em duas páginas de Word e trazidos crus pra cá. Contemplem o que acontece quando minha mente se liberta ao som da Pitty.

                               

Eu ouvi tantas vezes que não se é possível conquistar alguém sem tentar se aproximar, sem fazer o mínimo de esforço. Muitos de nós se sentem incapazes de dar este primeiro passo, sorrir, perguntar se quer tomar um café e iniciar uma conversa. Dói o medo e a dor causa o pavor. É muito assustador pensar que se pode quebrar o coração de forma tão frágil assim com um simples “não”.
Luciana se aproximou de Tiago e tocou seu ombro, vendo-o se virar com um sorriso muito amplo, daqueles que fariam seu coração perder o compasso. Ajeitou o cabelo atrás da orelha e com muita timidez fez a pergunta que estava ensaiando.
- Ei, quer ir com a gente no cinema?
A expressão no rosto dele foi definitiva. Envergonhada, a menina resolveu dar as costas e ir chorar em algum canto.
É tão difícil se expôr, se colocar à mercê das dúvidas e enfrentar algo que, a princípio, deveria ser natural e tranquilo. Os animais o tempo todo cortejam uns aos outros e tem que lidar com a rejeição quando não são as melhores opções. O ser humano é quem racionaliza, emociona e principalmente se deixa afetar de forma a pensar que nunca vai se recuperar. Além de doer, é capaz de traumatizar, colocar barreiras que vão demorar, se é que vão, pra se desfazer.
Elton deu duas voltas na quadra antes de conseguir entrar na loja e ir falar com Mariana. Tinham combinado de se encontrar ali há duas semanas e a garota desmarcara o compromisso pelo menos umas quatro vezes, na maioria por motivos um tanto bobos. Agora ele iria conversar com ela, tentar entender porque ela estava fugindo. Encontrou a amiga parada de costas para uma estante, analisando caixas cheias de produtos.
- Mari?
- Hum? Oi El! Tudo bem? – ela perguntou meio sem graça.
- É... tudo... eu achei que talvez você pudesse tomar um suco comigo na sua hora do café... tem uma lanchonete ótima aqui do lado, na galeria e...
Pode ver a tristeza no olhar dela e sentiu um bloco de gelo no estômago. Anteviu o que vinha em seguida e aguentou enquanto ela tentava explicar que eles não iriam sair, talvez fosse melhor não se verem mais...
E uma alternativa mais... rápida... é diminuir suas expectativas, seja no tipo de gente com quem vai se relacionar seja na forma como se relaciona ou mesmo se não quer se unir com ninguém. Não que você seja obrigado a escolher um parceiro ou mesmo ter um relacionamento estável. Tudo é questão de decisões pessoais e isso é único, é livre, cada um faz o que bem quer. Mas a verdade é que muita gente prefere não pensar muito, afinal... a dor lembra de quando foi seguindo uma paixão...
Danillo ficou olhando calado enquanto Fábio desfilava com Daniel. Até o nome era parecido, mas diferente dele, o moreno era muito mais popular, atlético e “entendido da vida”. Até seu apelido, Dani, ele tinha pego pra si. Fábio parecia feliz, muito, e só isso o consolava. Pelo menos, por hora, ele não estaria mais reclamando das brigas com Johnathan. Virando-se para ir embora, Danillo viu uma mão surgir na sua frente e o rosto preocupado de Francine o observando com um olhar tristonho.
- Você não vai falar com eles?
- Não, não... acho que só vou atrapalhar. Além disso, Fábio parece...
- É, eu sei... ele está sorrindo. Mas ambos sabemos que vocês dois não tiveram AQUELA conversa...
- E nem vamos ter, não é necessário.
- Mas ele está errado! Vocês...
- Ninguém está errado, Fran. Pelo menos não aqui. Ele pode ficar com quem quiser. Só não quis ficar comigo...
E mesmo que doa pensar dessa forma, é o certo deixar que cada um tome o caminho que desejar. E é por isso que há tantos corações flutuando, muito fracamente, por aí, esbarrando em relacionamentos espinhosos. Ninguém quer ficar sozinho, mas muita gente quer ficar com quem não consegue. É uma provação tremenda lidar com isso. Nem sempre acaba bem.
Mário recuou, sentindo que era o fim. Tinha visto na cara de Gabriella o que ela queria antes mesmo de abrir a boca. Não voltariam pra casa juntos.
- Você... você sabe que não é o que sinto!
- Para... só, por favor... para!
- Adeus, Mário...
E partiu, deixando-o só.
Mas ás vezes, bem ás vezes, as coisas acabam bem, e alguém ganha uma segunda chance, uma derradeira oportunidade que não foi desperdiçada.
Tiago segurou a mão de Luciana antes que ela saísse do salão e a fez virar, com o mesmo sorriso, mas uma alegria diferente no olhar.
- Ah, claro. Desculpa, eu só fui pego de surpresa... achei que vocês não iam com a minha cara.
- Não! Quer dizer... não, não é isso. O pessoal só te achou diferente. Você é novo.
- É, eu sei... mas... se me conhecerem melhor...
- É isso que eu quero. Bom, topa?
- Com certeza.

A troca de olhares pode ser fatal, ser maldita, criar tanto amor quanto desprezo. O que importa é o sentimento colocado. E aproveitar o que vier pela frente.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Está quase chegando... no refrão!

Em determinado momento eu descobri em Numb a minha música favorita, durante muito tempo foi assim. Demorei a entender, no entanto, sobre o que falava a letra, não porquê eu não soubesse inglês (que eu sabia pouco mesmo), mas por não captar o sentido das metáforas, de "caminhar nos seus sapatos". Hoje eu vejo que, se tivesse compreendido a moral, teria ouvido por muito mais tempo. Eu não sou obrigado por ninguém a seguir o caminho que pedem, mas tem vezes que me perco nas trilhas dos outros, sendo como gostariam que fosse. Muitos de nós são assim, incapazes de desvencilhar-se de "obrigações fraternais" e seguirem as próprias ideias. Não é só uma questão de pais como mostra o clipe, mas também de amigos, irmãos, namorados, amantes... acima de qualquer coisa, sua liberdade de ser, fazer e pensar o que quiser é que é absoluta. Você tem o direito de decidir. A felicidade não depende dos outros, mas de si, e desde que você possa ser feliz sem deixar os outros infelizes, você pode ser feliz como e com quem quiser. É disso que fala Numb.

           

- Eu prometi que teríamos essa conversa, mas não esperava que fosse com ele junto...
- Olha, você tem que entender, eu...
- Não, não me venha com essa, sabe o que eu sinto, e essa é a razão de tudo estar errado, você não se importa. Quer me esfregar na cara que as coisas tem que ser do seu jeito.
- Não fale assim, eu te amo...
- Quando foi a última vez que conversamos? Você só sabe dele agora, está sempre com ele, diacho, eu sei que vocês estão transando.
- Pare! Não... eu...
- Por favor, não finja, eu sei... e não é isso que me incomoda mas... somos estranhos agora, e eu sinto que estamos cada vez mais distantes. Eu quero me livrar, só... me deixe ir.
- Não é isso que eu quero.
- Então por que não podemos nos ver? Que tal se saíssemos juntos, eu e você, sem qualquer tipo de obrigação, sem precisar estarmos acompanhados, podíamos pegar um cinema ou...
- Você sabe que não é tão fácil...
- Claro que não é... você precisa da aprovação dele. Olha, se vai ser assim, deixa pra lá.
- Não, não quero acabar desse jeito.
- Então o quê? Nós sempre fizemos as coisas juntos, eu sempre te ouvi... eu... eu deixei de fazer outras coisas por você...
- Você fica colocando a culpa em mim, desse jeito eu não aguento.
- É você quem não para de se intrometer na minha vida! Semana passada eu tinha planos e aí você voltou e me disse que queria me ver! Fui acertando todos os meus horários para estar aqui contigo e temos que pedir um minutinho pra ele pra podermos conversar!
- Isso porque você não quer falar com ele!
- PORQUE EU NÃO GOSTO DELE! PORRA, DÁ PRA ENTENDER? Eu... eu... eu amo você...
- Eu também te amo...
- Não, não ama. Você gosta de quem eu era, gosta do que criou pra mim, gosta de como era pra você, mas eu mudei... eu vou continuar mudando, eu preciso. Eu vou seguir em frente e vamos nos encontrar, de vez em quando, mas não me obrigue a estar do seu lado, esperando para poder receber um pouco de atenção. Não, não diga nada, já foi a oportunidade que tinha de nos mantermos juntos. Agora só consigo pensar em como fazer pra recuperar o que perdi... porque estava contigo.
- Você é tão cruel...
 - Não... eu sou livre. E estou cansado de ficar aqui parado, esperando por você. De adormecer, deixar de viver. Agora... eu vou embora.
- Espere! Não... não me deixe...

- Se você quiser mudar também... se quiser me seguir e continuarmos, mas lado a lado, cada um do seu jeito... então estarei aqui, caminhando... se quiser trazê-lo junto, ótimo... mas não vou mais me importar com isso... porque não estou mais entorpecido.