quinta-feira, 9 de abril de 2015

Agora comece a batida!

Se Basket Case me fez fissurar em Green Day, a culpada por Foo Fighters é esta aqui. Eu lembro da primeira vez que ouvi a voz do Dave Ghrol gritando que precisava reaprender a voar e quando vi o clipe com o Jack Black eu pirei, achei a banda mais foda de todas, e ouvi e ouvi sem parar este clipe, cheguei a baixar pro meu computador na época. Hoje, tantos anos depois, ainda é uma das minhas músicas favoritas e com uma qualidade surpreendente. Digam o que quiserem, Learn to Fly é um clássico, e um que mexe comigo e muito. Diferente das outras, essa mereceu uma poesia.

   

Hei, você pode me ouvir?
Ouço as crianças gritando lá fora.
Estão me chamando pra sair.
Posso ir agora?
Sinto que estou perdendo as forças
Que não consigo mais voar
Estou preso entre paredes
Grossas demais pra derrubar
Vou ter que reapreender como se faz
Abrir minhas asas e balançar
Talvez eu não saiba mais
Como se faz para chegar lá
O céu está me esperando
Sou um anjo de uma asa só
Minha cela é um quarto
Sem janelas, sem porta
De onde quero fugir
Sem saber pra onde ir
Por favor, me traga a chave
Liberte minha mente deste nó
Eu só queria mais uma vez
Voar até o sol nascente

Onde possa ver vocês

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Vai aumentado o som...

Segunda música que fala de pessoas fora da casinha. Essa foi a primeira música de rock que decorei o nome e lembro até hoje da sensação de ouvir a explosão do riff e a entrada da bateria. Muito tempo depois, quando vi o clipe, me apaixonei pela banda e o Green Day está na trilha sonora permanente da minha vida. Vários anos passaram e cá está, é a segunda da lista. Devo dizer que quando comecei o texto não sabia o que faria, mas... gostei MUITO do resultado. Sem mais delongas... Basket Case!!

   

Pego a guitarra, largo a guitarra, pego de novo, largo de novo. Já há meia hora que só faço isso. Não dá, não consigo, é muito difícil me concentrar, eu preciso... eu devo...
- Você precisa de um tempo, amigo... – diz uma voz vindo sabe-se lá de onde.
- Ahn? Quem disse isso? – pergunto olhando em volta, mas estou sozinho.
- Ora, amigo, quem mais? Eu! Seu companheiro de tantos momentos!
Eu procurei e procurei, mas nada achei. A voz parecia vir de todo lugar, como se ressoasse nas paredes, ou pior, estivesse dentro da minha...
- Ah, qualé! Não pode dizer que me esqueceu! Você acabou de tocar em mim! E foi tão gostoso... vem, me pega!
- Mas... que m...
- Oh, oh, oh... em vez de xingar... porque eu e você não tocamos uma juntos? Pelos velhos tempos... você sempre curtiu um sonzão pra desestressar!
É claro. Eu sabia. Estou louco, essa voz que ouço é fruto da minha imaginação. Não posso estar mesmo ouvindo minha guitarra fal...
- AAAAAAAH!
- O que foi, cara? Que agudo foi esse? Gosta de metal agora é? Hum, acho que dá pra fazer um solo bem maneiro, peraê...
- Por... por que você... por que você tem a cara do BJ?
No corpo da guitarra, bem próximo das cordas, um rosto em alto relevo, com aquelas olheiras e a boca meio torta me encarava. Eu reconheceria em qualquer lugar...
- O que é isso? Como... o quê? Eu dormi, já? Droga, tinha que estudar!
- Por favor, não... você está acordado e estamos conversando. Não corta o clima. Ei! Lembra daquela do Guns? Adoro quando você me dedilha com ela!
- Para! Não fala essas coisas! Só... para! Que droga! Por que você não podia ter a cara da Scarlett Johansson? Ou sei lá, se for da música, podia ser a Orianthi!
Dá pra ver a expressão sacana que ele faz, aquele rosto torcendo a madeira, como se estivesse flutuando logo embaixo, em uma camada não tão visível.
- Pfff... qual o problema com minha aparência? Não estou bonitão?
- Não é isso, mas... ah, cara, não queria mexer em ti agora e pensar no Billie...
- Ah, talvez você preferisse um rosto mais angelical? De longos cabelos negros e brilhantes olhos azuis e claros como o oceano?
Que golpe baixo ele deu! Falar dela era covardia, e eu senti que meu coração doía. Há apenas alguns dias que nós não nos falávamos mais, mas a intensidade era como se fossem horas.
- Não fala isso... eu... nós... é que...
- Eu sei, mermão, eu sei. É em mim que você toca aquelas baladas pra ela, que fica pensando enquanto batuca em minha caixa e tantas vezes ensaiamos aquele refrãozinho xororô do Bon.
- Eu não sei o que fazer, eu tô pirando.
Eu ouvi o assovio que veio dele, muito estranho, metálico, parecia até uma risada. Pude ver a piscadela, e então algumas cordas se mexeram, saindo um som de Dó.
- Então que tal uma vezinha, hein? Você sabe que quer, é essa a ideia. Aí nós choramos juntos, lamentamos sua frustração e ficamos nessa vibe boa. Você quer, diz aí.
- Eu... não sei o que quero... não é só ela... é tudo... eu deveria estar indo melhor, eu deveria...
- Você não deve nada a ninguém, nem a si mesmo. Curta o momento, amigo, seja jovem, seja feliz, seja radical! É só me pegar e teremos bons momentos juntos!
Lembro imediatamente porque larguei o vício que me consumia todas as tardes, os ensaios constantes para ficar cada vez melhor. Não estava agradando a mais ninguém, nem a mim.
- Olha... quer saber? Acho que sei o que quero.
- Ah, bom garoto! Vamos nessa então, que tal aquela do... ei! O que você está fazendo? Pera! PARA! NÃO FAZ ISSO! VAMOS LÁ! SÓ MAIS UMAZINHA!
- Desculpe, é tarde demais, você precisa ir pro seu canto ou eu vou ficar doido de verdade. Quem sabe depois das provas... aí a gente conversa... até lá, me deixa em paz!

Pronto! Tinha fechado ela na capa e guardado no armário. Se desse tudo certo, pegaria depois pra uma serenata, quem sabe assim a Amanda voltava pra mim? Por hora... cabeça focada!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Começa a melodia...

Decidi pra esta semana fazer algo diferente, um texto por dia, dentro de uma temática, de estilos variados, dependendo da minha vontade. O que vai conduzir essa série? Músicas. Não qualquer música, mas aquelas que me tocaram ao longo desses anos e que hoje são as que conseguem me fazer parar e cantar, que eu colocaria na trilha sonora de um filme da minha vida. Eu vou escolher apenas cinco, o que me dói um bocado, mas serão ótimas músicas para trabalhar. E a de hoje é esta... Unwell, do Matchbox 20, que me fez conhecer a banda e com a qual me identifico tanto. Aproveitem!



Eu estou esperando o ônibus e ele não quer passar, parece que sabe que preciso chegar lá o quanto antes, talvez até já tenha feito a curva, só não quer aparecer porque estou aqui, esperando, e já fazem mais de dez minutos do horário, eu acho que assim eu vou pirar, o que mais falta acontecer?
Sim, eu ouvi tudo isso antes, e não, não acho que seja só comigo, é que é difícil de sentir o que os outros estão sentindo, ainda mais que nenhum deles fala o que passa em sua cabeça, só posso ouvir a minha própria voz, principalmente quando fico sozinho no quarto encarando as paredes e já não consigo mais ter certeza se eu saí de lá ou se estou sonhando com tudo isso e que talvez eu vá ter um pesadelo e antes de acordar eu me veja novamente estirado no asfalto, mas não que eu queira, não quero morrer, só não sei como não pensar nisso, pode me dizer, por favor?
Ah, é verdade, já se foram dois dias que tive minha última conversa de verdade, mas não é culpa minha que meus pais estão me ignorando, tudo que eu queria é que eles me perguntassem se estou bem, o que eles não fazem, pensei que poderia ser por conta das coisas que fiz, e não tenho mais certeza de nada, eu só queria ser compreendido, isso não é pedir muito, não, acho que não, menos ainda do que fazer esse maldito ônibus virar a esquina, será que vai atrasar de novo?
Você acha que pode me entender, mas não quer me ouvir, as coisas que tenho pra dizer, só fica aí, tentando me dar conselhos, como pode, se não é capaz de ficar ao meu lado nem que seja só um dia e ver, eu já não aguento mais falar apenas com as paredes, e olhar para sombras que se formam ao nascer e pôr do sol, já não consigo diferenciar se o dia está começando, talvez eu esteja ficando louco, o que você acha?
É, é eu deveria saber, mas bem, obrigado por pelo menos estar aqui agora, quando você se for, reze por mim, eu logo serei levado embora, esse ônibus vai chegar e estará cheio de pessoas como eu, que não estão tão bem assim, e que serão levados para algum lugar onde poderão cuidar da gente. Será que vou ficar bem?
Obrigado. Eu te amo. Até breve, meu amigo.

Logo você vai ver, como eu posso ser melhor. Não é que eu seja louco, eu só não estou legal. Mas vou ficar. Logo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A tensão que corre pela minha espinha

Já sentiu aquele aperto na garganta que não é medo ainda, mas um princípio, que causa um peso no estômago e te força a se encolher, que faz suar as mãos e também gelar os pés? Já teve isso quando via um filme, lia um texto ou via uma daquelas notícias aterrorizantes? Eu tenho uma certa atração mórbida e um guilty pleasure com isso, e várias vezes me arrependi de ter cedido. Geralmente é culpa de creepy pastas, que pra quem não conhece são histórias "reais" de coisas assustadoras, sobrenaturais ou não, envolvendo assuntos populares. Tem de jogos, filmes, situações ou até mesmo de casos como lendas urbanas. Toda Creepy Pasta que li e me arrepiou volta pra me assombrar. E é por conta de casos assim que escrevi o conto a seguir.
Quero instigar medo, causar essa sensação desagradável que traz tanta empolgação, fazer a pessoa ter aquele comichão atrás dos olhos que faz pensar "o que foi que eu li?" e fechar a janela com o gosto amargo na boca. Quem tiver o que comentar, por favor, faça! Quero saber se aticei seu medo. Aproveitem o jantar.

Acidente de Carro

Sarco acendeu o terceiro cigarro naquela noite e leu duas linhas do relatório, depois olhou para o rapaz que não parava de chorar, e voltou ao papel, pegando uma caneta para riscar as coisas que achou que valeriam a pena. O ambiente era pequeno, e a fumaça estava começando a causar crise de rinite no garoto que já estava com o nariz entupido. Precisava de ar, coisa que Sarco não daria. Fazia parte do seu método de interrogatório e pela situação tudo que ele queria era fazer o suspeito confessar o crime e poder ir pra casa.
- Escuta aqui, meu jovem, tu já passou pela mesa de seis só na última hora, não acha que tá em tempo de tu dizer algo que seja verdade, pra gente acabar logo com isso?
- M-ma-mas... eu falei... falei tudo que vi!
- Tá, tá, chega de conversa fiada. Eu quero que tu me resuma... conta o que aconteceu e eu vou escrever alguma coisa aqui e de repente a gente até te libera. Se tua história for boa, dá pra fazer um descontinho, tu paga pro Doni lá na frente e vai embora. Agora... se eu sentir que tu tá me enrolando...
O policial mexeu no casaco, abrindo só um o suficiente pro coldre da pistola ficar à vista. Em vinte e seis anos nunca precisou atirar pra valer, a não ser quando o maluco do sinal parou metade da rua pra gritar pra deus e o mundo que a mulher tava corneando ele e lançar tiro de espingarda pra cima. Por sorte nem precisou matar, mas era sempre bom ter a pistola à mão, dava o medo e trazia o respeito de que ele precisava. Serviu pro guri que tremia todo ficar mais centrado e começar o relato...
“A gente tava apostando racha, coisa boba, uns cinquentinha de cada um e pronto, eu tava com meu Cliozinho, achei que ia faturar uma grana. Só que as coisas não tavam tão bem, tinha vindo um moleque com um Uno tunado, desses que o motor é um ponto quatro, mas o cara mexe na caixa e consegue pegar cento e sessenta numa rua pequena, saca? E aí a galera tava meio grilada, mas tava de boa ainda. Até que chegou o Meleca.
O cara é tudo, menos gente boa. Ele curte umas coisa mais pesada, tá ligado? Desculpa... vô tentar não falar muita gíria nem enrolar. Contece que ele chegou com o Palinho, e o cara é lenda com ele. Vive levando o dinheiro do pessoal nessas apostas. E o Meleca parou e peitou o mano do Uno, avisando que ele ia pegar tudo que o cara tinha conseguido. A treta ficou tão séria que todo mundo parou de correr, conversar e fumar só pra ver a briguinha dos dois. Cada um entrou no seu carro e começou a corrida.
O Meleca começou na retranca, o Uno pegava demais, todo mundo pensou que ia ser de lavada, mas tinha uma curva desgraçada e o Meleca jogou o carro quase reto pra fazer o Uno ter que virar ou iam bater um no outro. Dava pra ver que o cara tava chapado e que não ia aceitar perder, então o Uno se lançou pro lado e lá se foi o Palio atravessar a linha de chegada. Claro que o Meleca saiu do carro cantando de galo, rindo, gargalhando e a gente pensou na merda que ia acontecer. Não deu outra, o Uno veio com tudo pra cima dele e prensou o Meleca contra a parede. A gente começou a gritar na hora.
Tipo, o Meleca virou purê, o cara jorrou sangue pra tudo que é lado e o cara do Uno não parou de acelerar até partir o cara ao meio. Eu tava me mijando já e saindo correndo! Peguei o meu carrinho e tava prestes a dar no pé quando a coisa ficou feia de verdade. A princípio achei que o Uno tinha fundido o motor e pego fogo, mas daí eu vi que o fogo tava saindo das rodas e de dentro do carro. Sabe o quanto isso é louco? Véio... desculpa, senhor... o cara do Uno tava gargalhando lá de dentro!
E daí a gente viu, ele baixou o vidro. Até aquela hora ele não tinha feito nada disso, só tava piscando faróis e estendendo a mão com parte do vidro aberta, mas em nenhum momento a gente viu o rosto dele. E ninguém achou estranho, de vez em quando aparece um doido que prefere não ser reconhecido porque é filhinho de papai e ninguém liga. Mas esse... essa... essa coisa... o rosto dele tava derretido, como se tivesse pego fogo e tinha os olhos vazios como se tivessem caído e a boca dele se abria num corte esquisito, os dentes muito pontudos. E ele só ria, gargalhava que nem o Meleca. E aí ele veio pra cima da gente, com tudo.
Cara, não vou mentir. Eu tava me borrando, nem lembro direito de mais nada, só sei que de repente eu tava voando, tentando fugir, e me joguei de um lado pro outro, mas acho que o bicho me marcou, porque foi atrás de mim que ele veio. Vi ele bater em outros carros e mandar os caras pra vala e o Uno, mesmo arrombado, sair de boa! Que cê acha que eu fiz? Parei? Nada! Tinha que fugir, sumir dali! Eu gritava, tava rezando, pedido ajuda divina!
E rolou a coisa mais estranha, o bicho tava soltando fogo, mesmassim não ficava queimando a estrada. Eu reparei porque teve uma hora que ele passou de mim e veio com tudo pra cima. Eu desviei, né, mas o carro dele fez um cavalinho de pau e ainda assim conseguiu me seguir. Foi aí que ele me encurralou. Eu comecei a chorar pra valer, tremendo de medo, o motor do carro falhou e eu bati na parede. Foi assim que quebrei o braço. Tava sangrando, todo fodido e o Uno colou em mim. Eu vi o monstro saindo de dentro, ele devia ter uns dois metros, e tava vindo pro meu carro. Não sou religioso de verdade, mas nessa hora eu tava orando pra valer.
Ele enfiou a mão pelo vidro e me pegou, puxando pra perto. Achei que ele ia me comer vivo, só que assim que ele segurou meu pescoço a mão roçou no meu crucifixo. Eu uso só poque minha mãe deu, mas eu vi que ele se afastou e pareceu sentir dor. Daí eu comecei a fazer o Pai Nosso alto mesmo e o cara segurou a cabeça e o fogo no carro dele acendeu, tipo, de soltar labareda. Eu não consegui mais parar, até que ouvi o grito, parecia um guincho de caminhão tombando e a criatura explodiu. Senti meu rosto ficar coberto do sangue podre dela e o carro quase foi junto, mas daí ele simplesmente apagou. E foi só nessa hora que a polícia chegou.”
Com a caneta flutuando em cima do papel, Sarco olhava embasbacado, não por conta da lorota, mas porque podia ver nos olhos do rapaz que ele acreditava mesmo naquilo. Haviam encontrado o guri quase morto em um carro batido contra a parede, com um Uno recém-incendiado do lado. Ninguém entendeu como o fogo apagou tão rápido, mas o corpo do motorista não foi localizado. Pelo jeito o carinha tinha ficado traumatizado com o acidente e agora... Sarco coçou a cabeça e achou melhor pedir pra alguém levar ele pra uma cela, mandar chamar uns psiquiatras e ver o que eles fariam.

Acendendo o sexto cigarro, Sarco estava colocando o casaco quando ouviu os gritos e correu pra ver o que estava acontecendo. Parou no meio do corredor tossindo fortemente e percebeu que nem em sonhos aquilo tudo seria fumaça de cigarro. De longe podia ver a cela do rapaz, que tinha entrado em chamas e viu quando ele irrompeu entre as grades, o corpo deformando pelo fogo, os olhos caindo e a boca se abrindo em um sorriso rasgado... e vindo pra ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A dor de uma despedida

Eventualmente eu choro. Não como as pessoas que conheço, que se debulham em lágrimas ou coisas do tipo, mas de escorrer algumas gotas e sentir o corpo tremer. É um defeito meu estranho, uma trava que não permite me expressar. Mas nem por isso eu deixo de ficar triste, de ter angústia, de precisar d de um ombro amigo. Mais uma vez a escrita me serve de tratamento, de válvula de escape e... gente, eu ADORO isso. O texto que trago hoje, e sei que tá bem tarde pra isso, é uma pequena ode às idas e vindas de relacionamentos. Todos ficamos tristes quando acaba, mas sempre há uma chance de trazer algo de bom.

Hora de Partir

O sol se punha naquela tarde com tanta preguiça que talvez fosse meia-noite antes que sumisse no horizonte. As próprias flores, movidas pelo vento, dançavam lentamente, como uma valsa romântica. No imenso jardim apenas duas sombras se destacavam, cobertas por uma árvore de tamanho colossal, tão alta quanto a lua e tão antiga quanto o céu. Abraçadas, embalam um balanço em que não deveria caber nem um adulto, mas comporta-as igualmente.
Lágrimas correm de seus olhos, pensando em todo aquele tempo juntos. Sabem que logo irão se separar e continuar com seus destinos, ocasionalmente se encontrando em um solstício ou outro, mas nunca mais como agora, naquele momento tão especial. A brisa morna se aquieta, tornando-se gélida e logo abrirá espaço para uma pavorosa ventania. Os corpos se apertam para compartilhar o calor.
- Eu não queria te deixar ir. – é o que diz ela e recosta a cabeça em seu colo – Não posso pensar em aguentar os meses que virão.
- Não posso evitar, sabe disso. Se fosse por mim não haveria Inverno ou Primavera, faria calor para você sempre. Te traria os prazeres de uma chuva fresquinha, talvez até torrencial, e teria sempre como tomar um bom sorvete.
- Mas então os casais não teriam seus momentos especiais, e o amor acabaria se tornando só nosso... não quero isso.
- Eu não me importaria em ser mais egoísta. Dizem já que sou o maior de todos mesmo, que trago apenas sede, cansaço e suor...
- Não diga isso. Sabe que te adoram. Sem você as pessoas não sentiriam calores e “calores”. Eu mesma não existo a não ser que você faça as plantas terminarem seu ciclo. Para minhas belas folhas bronzeadas preciso que você dê algum trabalho a elas.
- Mesmo assim... não quero ir.
Ambos encostam as testas. Os cabelos dele, tão loiros e curtos, quase não tocam sua fronte, enquanto os dela, ruivos, caem em mechas manchadas de castanho sobre seus olhos cor de caramelo. Juntos, tão diferentes, parecem se completar. São as íris azuladas, cor de mar dele, que trazem conforto a ela diante dos dias que terá que aguentar o frio e a solidão. Não que seja culpa do belo Inverno, com seus cabelos negros ou seus olhos cinzentos. Mas perto de seu namorado não há como pensar em se entregar ao seu abraço glacial.
- Verão, me perdoe se eu parecer estar gostando. Sabe que em certas horas eu e Inverno estaremos muito próximos.
- Sim, assim como eu e Primavera. Eu confio em você, meu amor, e não importa o quanto eu esteja enciumado, minha paixão por você é mais forte.
- Obrigada... obrigada por tudo. Prometo lhe esperar, e que quando você chegar eu tentarei me lembrar de você. Não deixarei que nosso amor seja esquecido, como vários outros que iniciam em sua estação.
- Eu sei que não. Estou apaixonado por ser apenas culpa do meu fogo.
- Eu também.
- Estou indo, Outono... até daqui a nove meses...
- Eu estarei aqui, nesse mesmo balanço...
- Eu... vou... lhe buscar...

E enquanto o sol finalmente se punha e a lua surgia brilhante no céu escuro, Outono derramou mais duas lágrimas que se transformaram em fractais de gelo antes de quebrarem no chão. O vendaval se aquietou e uma presença gelada denunciou a chegada de Inverno. Era hora de seguir em frente por mais um ano.