terça-feira, 7 de abril de 2015

Começa a melodia...

Decidi pra esta semana fazer algo diferente, um texto por dia, dentro de uma temática, de estilos variados, dependendo da minha vontade. O que vai conduzir essa série? Músicas. Não qualquer música, mas aquelas que me tocaram ao longo desses anos e que hoje são as que conseguem me fazer parar e cantar, que eu colocaria na trilha sonora de um filme da minha vida. Eu vou escolher apenas cinco, o que me dói um bocado, mas serão ótimas músicas para trabalhar. E a de hoje é esta... Unwell, do Matchbox 20, que me fez conhecer a banda e com a qual me identifico tanto. Aproveitem!



Eu estou esperando o ônibus e ele não quer passar, parece que sabe que preciso chegar lá o quanto antes, talvez até já tenha feito a curva, só não quer aparecer porque estou aqui, esperando, e já fazem mais de dez minutos do horário, eu acho que assim eu vou pirar, o que mais falta acontecer?
Sim, eu ouvi tudo isso antes, e não, não acho que seja só comigo, é que é difícil de sentir o que os outros estão sentindo, ainda mais que nenhum deles fala o que passa em sua cabeça, só posso ouvir a minha própria voz, principalmente quando fico sozinho no quarto encarando as paredes e já não consigo mais ter certeza se eu saí de lá ou se estou sonhando com tudo isso e que talvez eu vá ter um pesadelo e antes de acordar eu me veja novamente estirado no asfalto, mas não que eu queira, não quero morrer, só não sei como não pensar nisso, pode me dizer, por favor?
Ah, é verdade, já se foram dois dias que tive minha última conversa de verdade, mas não é culpa minha que meus pais estão me ignorando, tudo que eu queria é que eles me perguntassem se estou bem, o que eles não fazem, pensei que poderia ser por conta das coisas que fiz, e não tenho mais certeza de nada, eu só queria ser compreendido, isso não é pedir muito, não, acho que não, menos ainda do que fazer esse maldito ônibus virar a esquina, será que vai atrasar de novo?
Você acha que pode me entender, mas não quer me ouvir, as coisas que tenho pra dizer, só fica aí, tentando me dar conselhos, como pode, se não é capaz de ficar ao meu lado nem que seja só um dia e ver, eu já não aguento mais falar apenas com as paredes, e olhar para sombras que se formam ao nascer e pôr do sol, já não consigo diferenciar se o dia está começando, talvez eu esteja ficando louco, o que você acha?
É, é eu deveria saber, mas bem, obrigado por pelo menos estar aqui agora, quando você se for, reze por mim, eu logo serei levado embora, esse ônibus vai chegar e estará cheio de pessoas como eu, que não estão tão bem assim, e que serão levados para algum lugar onde poderão cuidar da gente. Será que vou ficar bem?
Obrigado. Eu te amo. Até breve, meu amigo.

Logo você vai ver, como eu posso ser melhor. Não é que eu seja louco, eu só não estou legal. Mas vou ficar. Logo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A tensão que corre pela minha espinha

Já sentiu aquele aperto na garganta que não é medo ainda, mas um princípio, que causa um peso no estômago e te força a se encolher, que faz suar as mãos e também gelar os pés? Já teve isso quando via um filme, lia um texto ou via uma daquelas notícias aterrorizantes? Eu tenho uma certa atração mórbida e um guilty pleasure com isso, e várias vezes me arrependi de ter cedido. Geralmente é culpa de creepy pastas, que pra quem não conhece são histórias "reais" de coisas assustadoras, sobrenaturais ou não, envolvendo assuntos populares. Tem de jogos, filmes, situações ou até mesmo de casos como lendas urbanas. Toda Creepy Pasta que li e me arrepiou volta pra me assombrar. E é por conta de casos assim que escrevi o conto a seguir.
Quero instigar medo, causar essa sensação desagradável que traz tanta empolgação, fazer a pessoa ter aquele comichão atrás dos olhos que faz pensar "o que foi que eu li?" e fechar a janela com o gosto amargo na boca. Quem tiver o que comentar, por favor, faça! Quero saber se aticei seu medo. Aproveitem o jantar.

Acidente de Carro

Sarco acendeu o terceiro cigarro naquela noite e leu duas linhas do relatório, depois olhou para o rapaz que não parava de chorar, e voltou ao papel, pegando uma caneta para riscar as coisas que achou que valeriam a pena. O ambiente era pequeno, e a fumaça estava começando a causar crise de rinite no garoto que já estava com o nariz entupido. Precisava de ar, coisa que Sarco não daria. Fazia parte do seu método de interrogatório e pela situação tudo que ele queria era fazer o suspeito confessar o crime e poder ir pra casa.
- Escuta aqui, meu jovem, tu já passou pela mesa de seis só na última hora, não acha que tá em tempo de tu dizer algo que seja verdade, pra gente acabar logo com isso?
- M-ma-mas... eu falei... falei tudo que vi!
- Tá, tá, chega de conversa fiada. Eu quero que tu me resuma... conta o que aconteceu e eu vou escrever alguma coisa aqui e de repente a gente até te libera. Se tua história for boa, dá pra fazer um descontinho, tu paga pro Doni lá na frente e vai embora. Agora... se eu sentir que tu tá me enrolando...
O policial mexeu no casaco, abrindo só um o suficiente pro coldre da pistola ficar à vista. Em vinte e seis anos nunca precisou atirar pra valer, a não ser quando o maluco do sinal parou metade da rua pra gritar pra deus e o mundo que a mulher tava corneando ele e lançar tiro de espingarda pra cima. Por sorte nem precisou matar, mas era sempre bom ter a pistola à mão, dava o medo e trazia o respeito de que ele precisava. Serviu pro guri que tremia todo ficar mais centrado e começar o relato...
“A gente tava apostando racha, coisa boba, uns cinquentinha de cada um e pronto, eu tava com meu Cliozinho, achei que ia faturar uma grana. Só que as coisas não tavam tão bem, tinha vindo um moleque com um Uno tunado, desses que o motor é um ponto quatro, mas o cara mexe na caixa e consegue pegar cento e sessenta numa rua pequena, saca? E aí a galera tava meio grilada, mas tava de boa ainda. Até que chegou o Meleca.
O cara é tudo, menos gente boa. Ele curte umas coisa mais pesada, tá ligado? Desculpa... vô tentar não falar muita gíria nem enrolar. Contece que ele chegou com o Palinho, e o cara é lenda com ele. Vive levando o dinheiro do pessoal nessas apostas. E o Meleca parou e peitou o mano do Uno, avisando que ele ia pegar tudo que o cara tinha conseguido. A treta ficou tão séria que todo mundo parou de correr, conversar e fumar só pra ver a briguinha dos dois. Cada um entrou no seu carro e começou a corrida.
O Meleca começou na retranca, o Uno pegava demais, todo mundo pensou que ia ser de lavada, mas tinha uma curva desgraçada e o Meleca jogou o carro quase reto pra fazer o Uno ter que virar ou iam bater um no outro. Dava pra ver que o cara tava chapado e que não ia aceitar perder, então o Uno se lançou pro lado e lá se foi o Palio atravessar a linha de chegada. Claro que o Meleca saiu do carro cantando de galo, rindo, gargalhando e a gente pensou na merda que ia acontecer. Não deu outra, o Uno veio com tudo pra cima dele e prensou o Meleca contra a parede. A gente começou a gritar na hora.
Tipo, o Meleca virou purê, o cara jorrou sangue pra tudo que é lado e o cara do Uno não parou de acelerar até partir o cara ao meio. Eu tava me mijando já e saindo correndo! Peguei o meu carrinho e tava prestes a dar no pé quando a coisa ficou feia de verdade. A princípio achei que o Uno tinha fundido o motor e pego fogo, mas daí eu vi que o fogo tava saindo das rodas e de dentro do carro. Sabe o quanto isso é louco? Véio... desculpa, senhor... o cara do Uno tava gargalhando lá de dentro!
E daí a gente viu, ele baixou o vidro. Até aquela hora ele não tinha feito nada disso, só tava piscando faróis e estendendo a mão com parte do vidro aberta, mas em nenhum momento a gente viu o rosto dele. E ninguém achou estranho, de vez em quando aparece um doido que prefere não ser reconhecido porque é filhinho de papai e ninguém liga. Mas esse... essa... essa coisa... o rosto dele tava derretido, como se tivesse pego fogo e tinha os olhos vazios como se tivessem caído e a boca dele se abria num corte esquisito, os dentes muito pontudos. E ele só ria, gargalhava que nem o Meleca. E aí ele veio pra cima da gente, com tudo.
Cara, não vou mentir. Eu tava me borrando, nem lembro direito de mais nada, só sei que de repente eu tava voando, tentando fugir, e me joguei de um lado pro outro, mas acho que o bicho me marcou, porque foi atrás de mim que ele veio. Vi ele bater em outros carros e mandar os caras pra vala e o Uno, mesmo arrombado, sair de boa! Que cê acha que eu fiz? Parei? Nada! Tinha que fugir, sumir dali! Eu gritava, tava rezando, pedido ajuda divina!
E rolou a coisa mais estranha, o bicho tava soltando fogo, mesmassim não ficava queimando a estrada. Eu reparei porque teve uma hora que ele passou de mim e veio com tudo pra cima. Eu desviei, né, mas o carro dele fez um cavalinho de pau e ainda assim conseguiu me seguir. Foi aí que ele me encurralou. Eu comecei a chorar pra valer, tremendo de medo, o motor do carro falhou e eu bati na parede. Foi assim que quebrei o braço. Tava sangrando, todo fodido e o Uno colou em mim. Eu vi o monstro saindo de dentro, ele devia ter uns dois metros, e tava vindo pro meu carro. Não sou religioso de verdade, mas nessa hora eu tava orando pra valer.
Ele enfiou a mão pelo vidro e me pegou, puxando pra perto. Achei que ele ia me comer vivo, só que assim que ele segurou meu pescoço a mão roçou no meu crucifixo. Eu uso só poque minha mãe deu, mas eu vi que ele se afastou e pareceu sentir dor. Daí eu comecei a fazer o Pai Nosso alto mesmo e o cara segurou a cabeça e o fogo no carro dele acendeu, tipo, de soltar labareda. Eu não consegui mais parar, até que ouvi o grito, parecia um guincho de caminhão tombando e a criatura explodiu. Senti meu rosto ficar coberto do sangue podre dela e o carro quase foi junto, mas daí ele simplesmente apagou. E foi só nessa hora que a polícia chegou.”
Com a caneta flutuando em cima do papel, Sarco olhava embasbacado, não por conta da lorota, mas porque podia ver nos olhos do rapaz que ele acreditava mesmo naquilo. Haviam encontrado o guri quase morto em um carro batido contra a parede, com um Uno recém-incendiado do lado. Ninguém entendeu como o fogo apagou tão rápido, mas o corpo do motorista não foi localizado. Pelo jeito o carinha tinha ficado traumatizado com o acidente e agora... Sarco coçou a cabeça e achou melhor pedir pra alguém levar ele pra uma cela, mandar chamar uns psiquiatras e ver o que eles fariam.

Acendendo o sexto cigarro, Sarco estava colocando o casaco quando ouviu os gritos e correu pra ver o que estava acontecendo. Parou no meio do corredor tossindo fortemente e percebeu que nem em sonhos aquilo tudo seria fumaça de cigarro. De longe podia ver a cela do rapaz, que tinha entrado em chamas e viu quando ele irrompeu entre as grades, o corpo deformando pelo fogo, os olhos caindo e a boca se abrindo em um sorriso rasgado... e vindo pra ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A dor de uma despedida

Eventualmente eu choro. Não como as pessoas que conheço, que se debulham em lágrimas ou coisas do tipo, mas de escorrer algumas gotas e sentir o corpo tremer. É um defeito meu estranho, uma trava que não permite me expressar. Mas nem por isso eu deixo de ficar triste, de ter angústia, de precisar d de um ombro amigo. Mais uma vez a escrita me serve de tratamento, de válvula de escape e... gente, eu ADORO isso. O texto que trago hoje, e sei que tá bem tarde pra isso, é uma pequena ode às idas e vindas de relacionamentos. Todos ficamos tristes quando acaba, mas sempre há uma chance de trazer algo de bom.

Hora de Partir

O sol se punha naquela tarde com tanta preguiça que talvez fosse meia-noite antes que sumisse no horizonte. As próprias flores, movidas pelo vento, dançavam lentamente, como uma valsa romântica. No imenso jardim apenas duas sombras se destacavam, cobertas por uma árvore de tamanho colossal, tão alta quanto a lua e tão antiga quanto o céu. Abraçadas, embalam um balanço em que não deveria caber nem um adulto, mas comporta-as igualmente.
Lágrimas correm de seus olhos, pensando em todo aquele tempo juntos. Sabem que logo irão se separar e continuar com seus destinos, ocasionalmente se encontrando em um solstício ou outro, mas nunca mais como agora, naquele momento tão especial. A brisa morna se aquieta, tornando-se gélida e logo abrirá espaço para uma pavorosa ventania. Os corpos se apertam para compartilhar o calor.
- Eu não queria te deixar ir. – é o que diz ela e recosta a cabeça em seu colo – Não posso pensar em aguentar os meses que virão.
- Não posso evitar, sabe disso. Se fosse por mim não haveria Inverno ou Primavera, faria calor para você sempre. Te traria os prazeres de uma chuva fresquinha, talvez até torrencial, e teria sempre como tomar um bom sorvete.
- Mas então os casais não teriam seus momentos especiais, e o amor acabaria se tornando só nosso... não quero isso.
- Eu não me importaria em ser mais egoísta. Dizem já que sou o maior de todos mesmo, que trago apenas sede, cansaço e suor...
- Não diga isso. Sabe que te adoram. Sem você as pessoas não sentiriam calores e “calores”. Eu mesma não existo a não ser que você faça as plantas terminarem seu ciclo. Para minhas belas folhas bronzeadas preciso que você dê algum trabalho a elas.
- Mesmo assim... não quero ir.
Ambos encostam as testas. Os cabelos dele, tão loiros e curtos, quase não tocam sua fronte, enquanto os dela, ruivos, caem em mechas manchadas de castanho sobre seus olhos cor de caramelo. Juntos, tão diferentes, parecem se completar. São as íris azuladas, cor de mar dele, que trazem conforto a ela diante dos dias que terá que aguentar o frio e a solidão. Não que seja culpa do belo Inverno, com seus cabelos negros ou seus olhos cinzentos. Mas perto de seu namorado não há como pensar em se entregar ao seu abraço glacial.
- Verão, me perdoe se eu parecer estar gostando. Sabe que em certas horas eu e Inverno estaremos muito próximos.
- Sim, assim como eu e Primavera. Eu confio em você, meu amor, e não importa o quanto eu esteja enciumado, minha paixão por você é mais forte.
- Obrigada... obrigada por tudo. Prometo lhe esperar, e que quando você chegar eu tentarei me lembrar de você. Não deixarei que nosso amor seja esquecido, como vários outros que iniciam em sua estação.
- Eu sei que não. Estou apaixonado por ser apenas culpa do meu fogo.
- Eu também.
- Estou indo, Outono... até daqui a nove meses...
- Eu estarei aqui, nesse mesmo balanço...
- Eu... vou... lhe buscar...

E enquanto o sol finalmente se punha e a lua surgia brilhante no céu escuro, Outono derramou mais duas lágrimas que se transformaram em fractais de gelo antes de quebrarem no chão. O vendaval se aquietou e uma presença gelada denunciou a chegada de Inverno. Era hora de seguir em frente por mais um ano.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Amigos até o fim

Eu tenho bons amigos, bons amigos MESMO, que eu daria a vida por... mas isso é exagero de madrugada, eu os amo e eles sabem disso, eu vivo repetindo. De vez em quando sinto vontade de homenageá-los e dizer coisas que gostaria que eles entendessem, mas nem sempre consigo expressar da forma mais tradicional. Então o que eu faço? É claro, eu escrevo... e foi o que fiz. Criei este texto para unir duas vontades, e uma delas era criar um mundo que tivesse vários elementos que eu gosto, do steampunk ao distópico, e assim fazer uma brincadeira divertida. Sem mais delongas, apresento...

Um fragmento dos heróis de Nova Terra

Uma seta atravessou a porta de madeira, fazendo sangue escorrer do outro lado. Claramente o vigia tivera um triste fim para sua curta carreira, e deixaria pra traz um legado ainda menor se entrassem na sala. As insistentes batidas fizeram com que os dois ocupantes acelerassem o delicado processo de separar as coisas que queriam levar em sua fuga, mas foram interrompidos quando a placa de madeira se partiu com um chute.
O tigre branco saltou com um rugido que silenciou o ambiente, sendo seguido de sua mestra, a caçadora exótica que portava uma besta. Além dela, seus companheiros também entraram, vasculhando o local atrás do objeto que procuravam. Um dos dois mercadores pensou em pegar sua pistola de raios, mas foi interrompido por um golpe brutal do homem que estava com elas, um chute bem aplicado em seu braço, que provavelmente o havia quebrado.
- Você está sendo um incômodo, Jasper. Que tal ficar bem quieto aí enquanto nós procuramos? Mortícia, encontrou?
A mulher de longos cabelos negros remexia em uma gaveta e fez um som de indignação ao tirar uma maleta vazia lá de dentro. Jogou-a no chão e sacou uma varinha energética que apontou para o pescoço de Jasper.
- Não e esse idiota vai me dizer por quê.
- Ahn... pessoal? – perguntou a mecânica que havia entrado por último e utilizava um estranho aparelho-medidor.
- O que é, Naftalina? – perguntou a caçadora já colocando a seta em sua besta.
- Eu acabei de ver, esta é a sala 323.
- E daí? – perguntou Mortícia irritada e encostando a vara no mercador.
- E a sala que procuramos é a 313.
- Droga, mas de novo? – reclamou o monge e saiu bufando.
- Bem, desculpem por isso. – foi dizendo a caçadora e puxando um pedaço da porta para fechá-la – Jasper, Jião, mandem a conta para o escritório. Obrigada.
E assim que eles saíram, ambos os mercadores irmãos se olharam e perguntaram um ao outro.
- Mas que escritório?
...
Enquanto examinavam o orbe, que acabaram comprando do velhinho do 313, os quatro amigos pareciam incomodados. Primeiro um estranho ancião aparecera para eles em um bar, oferecendo uma quantia exorbitante de prata por um amuleto que tiveram de surrupiar de uma cripta na cidade-baixa. Depois o tal ancião fora morto por um cavaleiro negro com problemas de asma que sumira deixando pra traz o medalhão. E aí ele se ativara, revelando a mensagem de uma princesa que pedia para eles a resgatarem e indicava uma esfera que seria na verdade um mapa. Agora olhavam pro protótipo de bola de golfe e se perguntavam se era uma piada de muito mal gosto.
- Isso aqui não serve nem pra peso de papel! Vai sair rolando! – resmungou Mortícia e arremessou o orbe para o tigre.
- Não, não. – disse a caçadora pegando o objeto no ar – Vai fazer muito mal pra você, Vitória.
- Então, o que faremos? – perguntou o monge e pegou uma caderneta da mochila – Não sei se temos algum contato que trabalhe com tecnologia tão antiga.
- Ah, eu conheço um cara. – disse Naftalina – Ele é bom nisso.
- Conhece um cara? Vixi! – disse Mortícia – Seria melhor se fôssemos atrás de um dos antigos amigos da Ártemis.
- Ei! Eu ouvi isso!
- Relaxe, Ártemis. Mortícia só está de mau humor... como sempre. Então, Naftalina, fale desse seu cara.
- Oh! Ele não é nada demais... é só que ele tem uma biblioteca de discos-esfera, e pode ser que ele consiga usar essa coisinha aí! – pegou seu caderno-à-vapor e girou a manivela – Bem, pelas minhas anotações ele deve estar aberto ainda.
- Vamos para lá, então, não acho que seja bom continuarmos nas ruas depois do incidente em Londinum. – disse ele.
Mesmo que não houvesse uma concordância geral, principalmente pelo espírito livre de Ártemis ou a constante braveza de Mortícia, Cárdeo agia como líder nesses casos, já que sua natureza mais centrada o mantinha focado na missão. Sem dizer nada, entraram no trem a jato e seguiram para uma das asas norte de România. Sentados no vagão, com Vitória aos seus pés, eles não encaravam os outros passageiros, que se mantinham longe e assustados. Ártemis alisava o pêlo da tigresa quando Cárdeo tocou em seu ombro.
- Se estiver lhe incomodando isso tudo... podemos fazer alguma outra coisa.
- Ahn?
- Só quero dizer que... você não é obrigada a vir com a gente.
- Mas ninguém me obrigou!
- Tudo bem, Ártemis, só queria dizer isso...
- Se quer dizer alguma coisa, fala direito.
- O que ele quer dizer é que tá afim de sair com você, sua anta! – respondeu Mortícia e então encostou a cabeça no banco – Agora me deixem cochilar e só me acordem quando chegarmos lá!
- Vocês humanos são tão complicados. – comentou Naftalina evoltou a mexer em seu caderno-à-vapor – Chegaremos em menos de dois ciclóns.
O grupo voltou ao silêncio e nem Ártemis nem Cárdeo voltaram a se olhar. Mais tarde, quando chegavam ao destino, o monge segurava bem a soqueira de metal-santo que recebera de seu mestre e beijou-a antes de bater à porta do “conhecido” de Naftalina. Um senhor baixinho, muito pequeno mesmo, abriu-a e olhou para todos com admiração antes de fechar a porta em sua cara.
- Simpático seu amigo, Nafta. – disse Mortícia.
- Não entendi essa...
- Tudo bem, vamos fazer do meu jeito. – disse Cárdeo e então encostou sua arma na porta, pressionando-a – Senhor, por favor, abra ou teremos que invadir.
- Vão embora! Não quero falar com gigantes!
Cárdeo olhou para as três. Apesar de ser alto, ainda era normal para os padrões da época, e suas companheiras não poderiam ser consideradas acima da média.
- Ahn... acho que o senhor não entendeu...
- Ou abre essa joça agora ou a gente vai entrar, te matar e te comer, seu anãozinho! – berrou Mortícia – Ou pior, a gente te dá pra Vitória brincar!
- Por favor, não fale assim da minha gata. – pediu Ártemis – Ela é um doce.
- E tem dentes gigantes, vai né.
- Não estão ajudando meninas. – disse Cárdeo.
Mas a porta abriu e tremendo o homem baixinho olhou para todos.
- Por favor... me deixem em paz...
- Arquimedes, não fique assim. Sou eu, Naftalina Augusta Tímber III.
- Naf... Augusta!!! Oh, por todos os dez deuses, eu não a reconheci sem seus óculos de rubi e sem aquela engenhoca de seis pernas!
- Bem, eu tive que deixá-los em Londinum desde que...
- Caham, senhor Arquimedes, nós viemos até aqui para pedir auxílio. – interrompeu Cárdeo antes que ela dissesse algo perigoso – Naftalina nos disse que você possui aparatos para reproduzir discos-esfera e precisamos muito ver o que há nesse aqui.
E mostrou o orbe acobreado. Assim que pôs os olhos no objeto, Arquimede pareceu pular como um coelho, muito empolgado.
- Sim! Sim! É um ATX-300, modelo excepcional! Nunca vi fora de um museu, mas é... como conseguiram um desses?
- Nós... o confiscamos em uma missão importante. – respondeu Naftalina, surpreendendo os companheiros. Geralmente ela só falava a verdade.
Ela olhou pra eles como se dissesse “Ei, meia-verdade não é mentir, não é?!” e todos ficaram quietos. Ártemis se adiantou e colocou a mão no ombro do velhinho.
- O senhor conseguiria ativá-lo para nós?
- Oh sim! SIM! Por favor, deixem-me vê-lo funcionando! Sabem, o ATX-300 é o único que pode reproduzir imagens e som em alta frequência, e ainda por cima consegue reproduzir cheiros! Já imaginaram como é? Ou melhor, verão! E sentirão!
Um tanto enojados com a ideia, os quatro entraram na casa de Arquimedes que, para seu azar, seguia o padrão do dono. Apesar das garotas não terem de se curvar tanto quanto Cárdeo, estavam com dificuldade de andarem ali dentro e logo ocuparam um espaço no sofá circular dele, em volta do reprodutor. O anão cravou a esfera no centro e apertou alguns dos seus círculos, ativando algum código-fonte que a fez girar até abrir um pequeno facho de luz em direção ao teto. A imagem de um homem nú ocupou a visão deles.
- Oh, não! Tira isso! Tira! – pediram em uníssono.
- Desculpem! Deve ser uma falha na programação! – disse Arquimedes e apertou outros círculos, fazendo aparecer as roupas do homem – Ah, bem melhor!
“Intrépidos viajantes que roubaram esta esfera...”
- Como ele sabe disso? Ai!
- Quieta, Mortícia. – disse Ártemis impedindo que ela confessasse tudo.
“... vocês não fazem ideia do mal que desencadearam...”
- Pronto, a gente estourou o Apocalipse. – disse Naftalina e abraçou a cabeça -  E eu nem terminei meu foguete para ir à Lua!
“... quando me tiraram do meu sono...”
- Peraí... então ele estava dormindo? – perguntou Ártemis – Ele está VIVENDO aí?
“...no ano de 1493 b.T.”
- Isso não foi há... uns vinte anos? – perguntou Mortícia.
- Você nem sabe em que ano está? – rebateu Ártemis.
- Não... bem...
- Isso quer dizer que esse começo de mensagem não foi pra gente. Legal. – disse Naftalina.
“Agora terão que percorrer meu Labirinto Perpétuo e impedir que o mundo acabe... algum dia.”
- Isso não pareceu tão... assustador. – disse Cárdeo.
- É... foi bem vago. – comentou Ártemis.
- Então, a gente pode ir embora? – perguntou Mortícia.
“Em vinte mil, duzentos e treze ciclóns a Terra encontrará seu fim sob a Ira do Monstro do Labirinto quando ele chegar ao Núcleo!”
- Ahn... quanto dá isso?
- Daqui a três dias. – respondeu Naftalina.
Arquimedes saltou de onde estava, foi até a esfera, a pegou, entregou para Cárdeo, saiu da sala e voltou carregando um chapéu e uma mala pequena. Deixou as chaves na mão de Naftalina e se dirigiu à porta.
- Até mais, crianças!
- Espere, Arquimedes! Onde você vai?
- Vou para Habanana, aproveiter meus três últimos dias! Talvez arranjar uma esposa e fazer um menáge a trois enquanto aposto toda minha grana em um cassino. De preferência morrer alcoolizado antes do Monstro chegar!
E bateu a porta, deixando-os sozinhos.
- Ah! – disse abrindo-a em seguida – E podem aproveitar essa espelunca! Façam como quiserem! Adeus!
E fechou de novo.
- Então... o que faremos? – perguntou Naftalina.
- A resposta é óbvia. Vamos morrer!
- Acalme-se, Mortícia, ainda há esperança. – disse Cárdeo.
- Ah, é? Qual?
- Podemos entrar no tal Labirinto e tentar impedir o Monstro!
- E você por acaso sabe onde fica isso?
“A propósito” soou a voz vinda da esfera “a entrada mais próxima fica nas coordenadas 34,5, 45,2, leste” e desligou-se novamente.
- Certo... agora sabemos onde é. Satisfeita?
- Eu que não vou me aventurar nisso aí!
- Eu também não sei... não quero arriscar a vida de Vitória.
- Pode não haver vida depois de três dias, Artie. – disse Naftalina – Eu acho que é melhor arriscar.
- Argh! Não! – reclamou Mortícia – Eu vou ver se tem alguma bebida nesta casa!
E saiu.
- Bem, talvez seja melhor nós realmente irmos descansar. Se formos até esse Labirinto, precisamos decidir logo, mas também estarmos preparados fisicamente. – disse Cárdeo – Procurem os quartos e se alojem. Eu vou ficar na sala mesmo.
Haviam apenas dois quartos, sendo que um deles tinha uma cama que mal cabia uma pessoa, mas na qual ficaram Naftalina e Mortícia. Ártemis ficou com o outro quarto, para que Vitória dormisse aos seus pés. Assim que todas estavam tranquilas, Cárdeo deitou-se no sofá, ocupando-o por inteiro e ainda com os pés de fora. Olhava para o teto pensando em tudo que já tinham enfrentado. Iriam ganhar mais essa, tinha certeza, só que... doía-lhe pensar que elas se arriscariam de novo.
De repente ouviu passos no corredor e já pegava sua soqueira quando Ártemis surgiu, coberta por sua capa de viagem. Ela trazia um copo d’água e parecia estar triste, mas sentou-se ao seu lado, no chão, sem dizer nada. Pegou sua mão e a acariciou, silenciosamente.
- O que foi? Teve um pesadelo?
- Ainda não consegui dormir. Estive pensando em tudo. Nessa... aventura...
- Eu sei, é complicado, mas vamos conseguir e...
- Tem certeza? E se falharmos? Lá em Londinum quase morremos!
- Eu sei, mas não podemos fracassar agora. E não iremos.
- Tenho medo, Cárdeo. Muito medo.
- Eu estou aqui por você, Ártemis. Sempre estive e... sempre estarei. Se me deixar fazer isso, claro.
Ela olhou pra ele e então subiu no sofá, ficando com as pernas em volta da cintura dele. Cárdeo descobriu rapidamente que ela estava SÓ com a capa de viagem.
- Eu vou deixar, pode contar com isso.
E tirou a última peça de roupa, revelando seu corpo malhado do combate, coberto de cicatrizes e ainda assim tão belo. Cárdeo o admirou por completo e levou as mãos aos seios dela, massageando seus mamilos.
- Gosta?
- É parte das mulheres que mais gosto.
- Então os pegue... MEU caçador.
No quarto, Mortícia e Naftalina ouviram os sons que eles produziam na sala e se entreolharam. Ambas ficaram em silêncio, apenas apreciando o momento, mas antes de dormir beijaram-se suavemente e cumplicentemente. Se morreriam logo, queriam compartilhar de alguma coisa especial. Pela manhã, todos estavam quase satisfeitos. Ártemis e Cárdeo caminharam de mãos dadas um pouco, até que Naftalina e Mortícia os viram. Estavam vestidos para o combate.
- Então é isso né? Sem escolhas! – reclamou Mortícia.
- Nós fizemos uma escolha, Mort. Nós vamos tentar salvar a Terra... de novo. – disse Cárdeo.
- Só quero dizer que amo todos vocês. – disse Naftalina e deu um beijo em cada um – E vou estar orgulhosa se caírmos batalhando.
- Não vamos cair. – disse Ártemis e então deu as mãos para Cárdeo e Mortícia e beijou longamente ambos – Estamos aqui para vencer.
- Claro que vamos vencer. – respondeu Mortícia um tanto corada e deu a mão para Naftalina, dando mais um beijo nela – Estamos juntos.
- Vamos? – perguntou Cárdeo.

- Vamos. – responderam as três.

terça-feira, 31 de março de 2015

Muitos medos

Recentemente por um amigo eu fiz uma viagem, uma grande viagem, e fui até Brasília de avião. Eu não voava há... nossa, não sei desde quando, só lembro de umas pequenas coisas da minha infância, devia ser pequeno demais pra registrar tudo. Tinha o gosto do suco de laranja, a sensação da bandeja e uma vista rápida da janela. E só. Agora eu revisitei essas lembranças em um passeio bem tenso que fiz, e que despertou alguns medos antigos. Cara, que tenso! Quando cheguei precisei registrar o que senti e corri pra escrever esse conto. Não é o meu favorito, mas transmite BEM o que eu passei...

Malditas asas que não batem

Não foi a tremedeira, o bater de queixo ou as mãos geladas que denunciou meu nervosismo, não, com certeza foram os doze longos minutos que eu passei olhando pro encosto da poltrona da frente, cronometrando o tempo de aterrissagem. Apaguei por esse tempo, minha cabeça era um relógio preciso, repassando mentalmente imagens dos filmes que vi, das notícias que li e os números nas listas de sobreviventes de acidentes aéreos.
O terror havia tomado conta de mim e, não fosse uma mão insistentemente apertando meu cotovelo ou a voz que me chamava eu teria ficado ali mesmo, meu corpo descendo e o espírito subindo, pra algum lugar lá em cima que não sei onde. Ao menos espero que suba, e não... bem, seria por pouco tempo. Tão logo saímos do avião eu corri para o banheiro para devolver aquelas bolachinhas que nos deram como “serviço de bordo”. Brincadeira, viu? Depois de esperar duas horas e meia pelo atraso, perto do meio dia, tem coragem de nos servir um petisco desses pra acomodar nossos estômagos durante a viagem.
Saí com o rosto e a alma lavados, parte de mim ficara naquele bacio, e já havia me recomposto o suficiente para engatar em uma conversa quando ouvi a célere frase:
- E Tadeu, não esse esqueça que tem a volta...
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Eu poderia morrer, tranquilamente, e ninguém sentiria falta. Os motores não haviam ligado e já colara as costas encharcadas na poltrona, os olhos vidrados na telinha dos avisos de decolagem. Que se dane se alguém fumar! Isso caindo, não vai ter pulmão sadio que salve ninguém! Diacho, bem provável que EU comece a fumar agora, meus pulmões já estão se acostumando a puxar muito ar. Será que estou hiperventilando?
As janelas são tão pequenas... e parecem tão frágeis! Será que eu conseguiria escapar? Vejo marcações de saídas de emergência que poderiam muito bem indicar porta para o céu, de nada me valeriam. E essas máscaras de oxigênio... o que menos preciso fazer agora é respirar! Lá fora o céu tá tão claro que só vejo o branco, o que é ainda mais assustador. Sério, quem disse que nuvens são bonitas é porque nunca esteve ao lado delas, porque daqui me parecem blocos de fumaça mortal que faz a nave chacoalhar. Estou tremendo tanto que mal consigo segurar o copo para tomar meu remédio.
- Tadeu, acalme-se. – diz dona Suely, que é quem ocupa o lugar ao meu lado nesses casos.
A senhora que me perdoe mas, nesses casos, a calma que se exploda. Não, espere, sem explosões, nada disso. Escuto um som estranho e olho para as asas, as quais parece que vão desmontar. Oh Meu Deus! Por favor, não, não! Tudo menos isso!
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- Tadeu, assim não dá. Você não pode pedir pra tomar um calmante tão forte.
- Desculpa, César, mas de outra forma não vai rolar. Eu PRECISO apagar, ou então eu vou ter um treco em pleno ar.
- Você vai ter que aguentar, só digo isso. Vai lá, senta no teu lugar e segura o tranco. É a última parte do percurso.
Mas não é assim simples, César. Eu nem havia me ligado que faríamos conexão em São Paulo, e por quê? Dá pra ir de carro até o Rio e nem demora tanto tempo assim! Deus, eu só quero estar em casa. Não vou mais reclamar de trabalho, sem mais viagens de negócio, até paro de trair minha esposa! Ah, ah... o quê... o que é aquilo? Vai furar a asa do avião, vai...
- CUIDADO PILOTO!!!!
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- Tadeu era um bom amigo, é uma pena que não resistiu ao vôo...
- Falando assim, César, vai parecer que ele morreu no avião. O cara só desmaiou.
- Eu sei, Jorge, mas tem que entender, desse jeito não vai rolar aquela promoção. Pior, eu posso ter que despedi-lo, onde já se viu vendedor que não consegue chegar no compromisso na hora porque não viaja de avião?
- É, pois é...

Mas Tadeu não reclamou. Em seus sonhos caóticos, causados pelo medo, ele estava muito feliz abraçado com a esposa em um canteiro no meio de uma campina com árvores em volta. Bem tranquilo. Perto do chão. Em paz.