terça-feira, 31 de março de 2015

Muitos medos

Recentemente por um amigo eu fiz uma viagem, uma grande viagem, e fui até Brasília de avião. Eu não voava há... nossa, não sei desde quando, só lembro de umas pequenas coisas da minha infância, devia ser pequeno demais pra registrar tudo. Tinha o gosto do suco de laranja, a sensação da bandeja e uma vista rápida da janela. E só. Agora eu revisitei essas lembranças em um passeio bem tenso que fiz, e que despertou alguns medos antigos. Cara, que tenso! Quando cheguei precisei registrar o que senti e corri pra escrever esse conto. Não é o meu favorito, mas transmite BEM o que eu passei...

Malditas asas que não batem

Não foi a tremedeira, o bater de queixo ou as mãos geladas que denunciou meu nervosismo, não, com certeza foram os doze longos minutos que eu passei olhando pro encosto da poltrona da frente, cronometrando o tempo de aterrissagem. Apaguei por esse tempo, minha cabeça era um relógio preciso, repassando mentalmente imagens dos filmes que vi, das notícias que li e os números nas listas de sobreviventes de acidentes aéreos.
O terror havia tomado conta de mim e, não fosse uma mão insistentemente apertando meu cotovelo ou a voz que me chamava eu teria ficado ali mesmo, meu corpo descendo e o espírito subindo, pra algum lugar lá em cima que não sei onde. Ao menos espero que suba, e não... bem, seria por pouco tempo. Tão logo saímos do avião eu corri para o banheiro para devolver aquelas bolachinhas que nos deram como “serviço de bordo”. Brincadeira, viu? Depois de esperar duas horas e meia pelo atraso, perto do meio dia, tem coragem de nos servir um petisco desses pra acomodar nossos estômagos durante a viagem.
Saí com o rosto e a alma lavados, parte de mim ficara naquele bacio, e já havia me recomposto o suficiente para engatar em uma conversa quando ouvi a célere frase:
- E Tadeu, não esse esqueça que tem a volta...
--
Eu poderia morrer, tranquilamente, e ninguém sentiria falta. Os motores não haviam ligado e já colara as costas encharcadas na poltrona, os olhos vidrados na telinha dos avisos de decolagem. Que se dane se alguém fumar! Isso caindo, não vai ter pulmão sadio que salve ninguém! Diacho, bem provável que EU comece a fumar agora, meus pulmões já estão se acostumando a puxar muito ar. Será que estou hiperventilando?
As janelas são tão pequenas... e parecem tão frágeis! Será que eu conseguiria escapar? Vejo marcações de saídas de emergência que poderiam muito bem indicar porta para o céu, de nada me valeriam. E essas máscaras de oxigênio... o que menos preciso fazer agora é respirar! Lá fora o céu tá tão claro que só vejo o branco, o que é ainda mais assustador. Sério, quem disse que nuvens são bonitas é porque nunca esteve ao lado delas, porque daqui me parecem blocos de fumaça mortal que faz a nave chacoalhar. Estou tremendo tanto que mal consigo segurar o copo para tomar meu remédio.
- Tadeu, acalme-se. – diz dona Suely, que é quem ocupa o lugar ao meu lado nesses casos.
A senhora que me perdoe mas, nesses casos, a calma que se exploda. Não, espere, sem explosões, nada disso. Escuto um som estranho e olho para as asas, as quais parece que vão desmontar. Oh Meu Deus! Por favor, não, não! Tudo menos isso!
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- Tadeu, assim não dá. Você não pode pedir pra tomar um calmante tão forte.
- Desculpa, César, mas de outra forma não vai rolar. Eu PRECISO apagar, ou então eu vou ter um treco em pleno ar.
- Você vai ter que aguentar, só digo isso. Vai lá, senta no teu lugar e segura o tranco. É a última parte do percurso.
Mas não é assim simples, César. Eu nem havia me ligado que faríamos conexão em São Paulo, e por quê? Dá pra ir de carro até o Rio e nem demora tanto tempo assim! Deus, eu só quero estar em casa. Não vou mais reclamar de trabalho, sem mais viagens de negócio, até paro de trair minha esposa! Ah, ah... o quê... o que é aquilo? Vai furar a asa do avião, vai...
- CUIDADO PILOTO!!!!
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- Tadeu era um bom amigo, é uma pena que não resistiu ao vôo...
- Falando assim, César, vai parecer que ele morreu no avião. O cara só desmaiou.
- Eu sei, Jorge, mas tem que entender, desse jeito não vai rolar aquela promoção. Pior, eu posso ter que despedi-lo, onde já se viu vendedor que não consegue chegar no compromisso na hora porque não viaja de avião?
- É, pois é...

Mas Tadeu não reclamou. Em seus sonhos caóticos, causados pelo medo, ele estava muito feliz abraçado com a esposa em um canteiro no meio de uma campina com árvores em volta. Bem tranquilo. Perto do chão. Em paz.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Sofrendo Silenciosamente

Conheço pessoas que não conseguem se expressar, que acham mais difícil dizer que dói do que de se trancar em seu quarto e quietamente deixar que os sentimentos ruins se acumulem. Eu sei como é, já fui desses e ás vezes volta aquela sensação ruim, aquela angústia do silêncio pétreo que causa um bloco no estômago e um buraco na alma, é algo que consome, que tira as palavras da boca e deixa apenas um gosto amargo. Para esses momentos, eu também tenho poesia, uma forma de libertar o que está preso na minha mente e que sei que em algum momento vai explodir em um arroubo de tristeza. E aqui está... a última é inédita, feita especialmente pra agora.

Lamento muito não estar com você

O mundo se distorce ao meu redor
Ancorado em um harpão no meu peito
Que me causa um desespero intenso
Uma sensação de terror imenso
Preciso correr, preciso gritar
Mas na solidão da minha casa
Ninguém pode me escutar
Talvez eu escolhi errado
Em não estar ao teu lado
Talvez eu tenha me precipitado
Eu devo estar muito enganado
Sufoco em minha indecisão
Afundando mais e mais
Na escuridão
Desculpe por te irritar
Com minhas inúmeras lágrimas
Não queria mesmo incomodar
Mas antes de ir embora
Pronto pra me despedir
Quero dizer que só você
Pode me fazer sorrir
Obrigado por existir

Promessas Inacabadas

Se neste curto espaço de tempo
Em que minhas palavras viram pensamento
Eu desistir de me confessar
Nunca mais me dê chance de voltar
Lamento por minhas mentiras
Mais do que as verdades
Já contei muitas histórias
Mas destas não sabes nem a metade
Fui forjador de lendas
Causos, mitos, bobagens
Só não fui ainda
Um herói de contendas
Somente lutei com quem pude vencer
E isso faz de mim um perdedor
Vergonha sinto de assim ser
Mas juro que fiz tudo por amor

Nada que fiz foi em vão

Teve um dia desses, que entre momentos
Eu me dei um instante pra respirar
Vi minha vida, escolhas que fiz
E também todas as minhas falhas
Nesse dia, percebi o tormento
Que é ter que me virar
Pra fazer o que sempre quis
E lidar com as minhas escolhas
Convenhamos, não é fácil ser alguém
Com mente livre e coração
Não ter que explicar pra ninguém
Qual a minha vocação
Sou só um pobre coitado encolhido
Nesses metrôs da cidade grande
Mas se pudesse ser o escolhido
Teria me tornado gigante

domingo, 29 de março de 2015

Desafios ao auto-controle

AVISO: Este post é contra-indicado para pessoas com dificuldade de segurar sua excitação e menores de 18 por conter informações demais. Você foi avisado, se depois ficar na tentação a culpa NÃO é minha.


sexta-feira, 27 de março de 2015

De vez em quando na Terra Média

Como a maioria que eu conheço, comecei também com fanfics, escrevendo algumas coisinhas que não são tão vergonhosas assim, mas que estão no meu passado, e lá vão ficar. Por hora. Bem, mas de vez em quando a vontade volta e eu acabo embrenhando nesse caminho, fazendo pequenas homenagens a personagens que gosto tanto... ou viajando na maionese legal. O texto que trago hoje é exatamente uma versão livre da história que achei tão legal. Espero que para vocês também seja e quem reconhecer as menções e quiser comentar, ficarei feliz. Algumas são MUITO óbvias...

Escadur Fast

- Deixe-me ir, disse o sábio ao rei, poderei fazer o melhor por nosso reino se for a outras terras, conhecer outros como eu, e talvez aprender outros truques.
O soberano, já murcho da fome e do cansaço, ponderou por longos minutos e então acenou ao seu servo mais leal com a mão de dedos finos na qual os anéis pesavam. Provavelmente não teria muitas forças em breve, então evitava os discursos e também os grandes gestos para não gastar as energias.
- Vá, Escadur, e vá rápido pois se não tiveres pressa logo provavelmente também não terás lar, e pousou a cabeça no próprio ombro entrando em um sono profundo e preocupante.
Os outros serviçais entreolharam-se, alarmados, e um deles correu para acordar o rei, mas foi interrompido por seu filho, que de tão magro quase caiu de costas com o toque.
- Deixe meu pai dormir. Há dias que não o vejo fazer isso com tanta calma. A dor da fome nos tomou também o descanso noturno.
Escadur correu ao ouvir tais palavras. Para um velho era ainda muito novo, mal havia completado seus quarenta ciclos solares quando recebera a incumbência de ser o conselheiro mór do rei Kandalth, o Ébrio, e agora temia que talvez não fosse servir aos seus descendentes. Desde que uma maldição se instalara no reino ninguém mais acreditava que haveria um futuro ou talvez mesmo um presente. Os alimentos tocavam-lhe a boca, mas não o estômago, desparecendo tão logo eram absorvidos. Mesmo crianças gordinhas haviam se tornado pequenos ratinhos desnutridos por aqueles dias tristes.
Desconfiado, Kandalth ordenara aos seus guardas que vasculhassem as casas atrás de feiticeiras ou bruxos mal intencionados mas após alguns interrogatórios infelizes constataram que não havia qualquer criatura mágica entre os seus. Apenas quando todas as tentativas deram em nada é que o rei aceitara que talvez fosse preciso pedir ajuda. Agora sobrava a Escadur a missão de visitar todos os seus amigos antigos e torcer para que algum deles já houvesse ouvido falar de tal fenômeno.
Primeiro foi o nobre Ar’khon, imperador da Cidade de Prata, o coração do atual domínio humano, e também o seu mais antigo amigo. Por ser sábio e poderoso, talvez pudesse lhe ajudar em sua empreitada e fornecer os recursos para tanto. Mas, ao chegar a seu castelo, no alto da montanha branca, encontrou o aliado em prantos, desconsolado.
- Grande Ar’khon, líder da bela Kit’has-rah, capital dos homens, o que te aflige, meu irmão?
E diante dos olhos encharcados de Ar’khon, toda a missão de Escadur pareceu minguar, sentiu seu coração murchar e tremeu com a tristeza que agora compartilhava.
- Meu amigo, ó, meu doce amigo, minha amada se foi... após tantos anos, após esse tempo todo que estivemos juntos... minha Haruin faleceu. Amaldiçoado sou eu por ser eterno! Que os deuses me devolvam minha fatalidade e me deixem perecer ao seu lado!
Escadur entendeu de imediato o sofrimento e também chorou. Conhecer Haruin quando era jovem e vira a beleza do amor deles e também temera pelo dia que acabaria. Ar’khon, como o senhor de todos os homens, recebera o dom da imortalidade, que também seria sua perdição. Os outros sábios cantavam que no passado Ar’khon já tivera o coração perfurado por outras paixões mas nenhuma como a por Haruin. E agora que ela se fora, ele se tornaria vazio e talvez os homens estivessem perdidos.
- Venha comigo, Ar’khon, pois sem vossa força talvez meu rei acabe definhando, assim como seu reino...
E explicou tudo, em todos os detalhes. Sentiu nascer nos olhos e também na alma de Ar’khon uma chama. Sabia que ele tinha um carinho por Kandalth, a quem considerava um filho, e quem sabe o fosse. Já vivia há tanto tempo que provavelmente todos os humanos de Gaia Sancta fossem seus herdeiros.
- Eu irei, meu adorado Escadur, e salvarei o reino de seu soberano!
Partiram da Cidade de Prata seguindo caminho para as florestas de Shantel, lar de Regulos, o Alto, um dos poucos homens a domar o caminho do arco e comandar o exercíto dos Álficos, os primeiros seres de Gaia Sancta. De pele esverdeada, olhos em tons de caramelo e longos cabelos dourados, esses hominídios eram mais inteligentes e gentis que os humanos, mas possuíam também vida mais curta. Regulos em si já chegara aos cinquenta e mostrava sinais de que não duraria muito mais, mesmo assim veio saudá-los com afeto e energia.
- Oh, meus amigos, que bons ventos trouxeram vocês à minha morada?, e recebendo as notícias seu rosto se converteu em uma máscara de pena, Não me diga, Escadur, Kandalth não sobreviverá? Ó, por favor, que ele possa ver meu enterro e que derrame lágrimas por mim, não suportaria imaginá-lo em um caixão.
- Então, Regulos, não haveria nada que você poderia nos dizer para ajudar? Pois a mim e a Ar’khon só sobrou questionar nossos amigos.
De olhos lacrimejantes o caçador negou e deixou-se cair em sua cadeira de vime. As mãos coçaram as têmporas, visivelmente incomodado. Por fim mandou chamar Khimbi, seu mais fiel e antigo companheiro, e também o estranho no ninho. O meio-urso tinha uma barba espessa que se confundia com seu pelo amarronzado cobrindo o peito. Fez uma reverência para Ar’khon, a quem reconhecia como majestade das terras em volta e abraçou Escadur.
- É bom vê-los novamente após tantos anos. Mas por que vieram até aqui, e trazem feições tão singelas e tristes?
- Nossos irmãos necessitam de ajuda, Khimbi. – disse Regulos e então tocou no ombro dele – Por favor, siga-os em sua jornada e ofereça nosso apoio em meu lugar.
- Mas é claro, meu senhor! Ar’khon, meu lorde, Escadur meu amigo, podem contar com meu machado.
E assim os três partiram em busca da última boa alma que poderia dar a eles alguma luz, Frollo, neto de Bilro, e o mais humilde morador de Baixovale, o território sulista da Gaia Sancta. Outrora um escritor, Frollo narrara as aventuras deles enquanto cresciam como pessoas e também em reputação e era provavelmente a pessoa mais informada em toda terra conhecida pelos homens. Não que fosse um, Frollo descendia do lendário povo dos Maradinos, os esguios e delicados filhos do sol. De bom coração, feições gentis e um ótimo senso de humor, eram hospitaleiros como poucos e mais afetuosos do que seria sensato, geralmente cometendo falhas de confiança em excesso.
Sua mansão, a maior em toda Baixovale, era também a hospedagem da maioria de seus parentes, pessoas de bem e tão divertidas quanto ele e que receberam os três com muita alegria. Ar’khon pareceu ganhar vida ao ser conduzido pelas mãos dos diminutos e frágeis filhos de Frollo até seu estúdio na torre mais alta. Lá, encontraram o amigo cercado de pilhas de papéis e olhos cansados. Parecia ter envelhecido décadas desde a última vez que se viram.
- Ar’khon! Escadur! E o bom e velho Khimbi! Saúdo-os e recebo em minha casa. Vejo que estão precisando de um bom chá de erva-madre.
- A verdade, Frollo, é que chegamos com pesar no coração. Precisamos de sua ajuda...
E foram contando tudo, cada pedaço da jornada iniciada com o Rei Kantalth até o momento em que pisaram em Baixovale e com isso a expressão de Frollo foi mudando e mudando até chegar a uma de quem tinha algo a dizer. Coçou a cabeça de cabelos encaracolados e pegou um de seus livros, o qual devorou em segundos. A fome dos Maradinos não era só por comida e muitos tinham o conhecimento acumulado de toda uma nação. Quando acabou fechou o livro e recostou-se na cadeira fumando seu cachimbo de bambu.
- Kantalth está com os dias contados, meus amigos, e não há nada que possam fazer... e eu sugiro que não procurem mais. Retornem para casa e vão descobrir que tudo seguirá seu caminho. Acreditem em mim, verão dias melhores em breve. E mais, Khimbi, digo também que você terá que tomar decisões difíceis em breve. Talvez a você Ar’khon, reste a missão mais fácil mas também a mais pesarosa.
Com estas palavras, Ar’khon, Escadur e Khimbi se sentiram afundar em seu desespero e tomaram o caminho de volta. Encontraram Shantel em estado de caos, Regulos, o Alto, morrera em seu sono e agora estavam sem líder. Coube a Khimbi assumir o papel e viram o povo comemorar o surgimento de uma nova estrela a lhes guiar, uma que duraria muitos anos e que poderia levar-lhes em uma nova direção. Regulos teve um enterro digno, aos pés da árvore de seus pais.
Ar’khon também teve uma surpresa ao retornar para casa e perceber que o luto passara e o povo agora precisava dele novamente. Haviam muitas decisões a tomar e logo sua cabeça se encheu do orgulho de seus homens que batalhavam para trazer um sorriso a seu imperador. Teve de abandonar também sua tristeza e ocupar seu lugar. Em dias seus olhos voltariam a brilhar, em meses não teria mais pesadelos, e em anos aceitaria nova mulher em seu coração.
Já Escadur, em galope constante, atravessou as fronteiras do reino e percebeu que o povo não estava nas ruas. Com medo, encaminhou-se ao palácio, esperando ver as bandeiras negras, mas pelo contrário, nas paredes haviam flâmulas de diversas cores, e trombetas e música, e dança e o sábio viu as pessoas em vestes novas e não mais definhando. O próprio príncipe se unira a elas, em uma alegria que há muito Escadur não via. Aproximou-se dele desconfiado e foi recebido com um abraço apertado.
- Escadur! Você voltou! Viva! Amigos, aqui está o homem mais honrado e mais dedicado de nossa corte! E também o melhor de todos nós!
- Não entendo, meu príncipe, quando saí estas pessoas, o senhor mesmo e seu pai sofriam de fome terrível... e agora...
- Ah, mas meu pai está bem! Todos estamos ótimos! Há poucos dias, quando achávamos que você não voltaria mais, um pássaro de fogo cruzou os céus e entrou nos aposentos de meu pai. O incêndio começou imediatamente, e todos entramos em pânico, mas de tão exaustos e fracos nada pudemos fazer. Juntamos as cinzas e estávamos prontos para o funeral quando do meio da sujeira meu pai saltou nu em pelo e totalmente curado. E mais, ele irradiava um calor intenso e uma felicidade sem igual. Sua energia contagiou a todos e logo estávamos nos banqueteando.
- Mas que maravilha! Que emoção! Oh, fico tão feliz com pelo menos esta boa notícia! Mas... por que você me louva se nada fiz?
- Meu pai disse, tão logo estava lúcido e bem para falar, que o pássaro, antes de queimar sua cama e as cortinas, olhou em seus olhos e ele reconheceu sua vontade. Era o seu coração Escadur, que de tanta tristeza liberou todo seu amor por nós para nos salvar. Ele veio até aqui e nos chamuscou com sua bondade. E agora estamos salvos, meu amigo e podemos comemorar.

Escadur soube que era verdade e de olhos cheios lágrimas foi ter com o rei que o abraçou e beijou como o melhor amigo que já tivera. Não poderia se vangloriar pelo feito e muito menos dizer que tinha sido planejado, mas estava feliz por ter todos de volta. Tinha feito sua jornada e ido lá e cá, até finalmente voltar ao seu lar.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Tiros, tiros pra todos os lados

Eu adoro histórias policiais, de todos os tipos. Vez por outra pego um livro do gênero e me divirto tentando desvendar o mistério antes dos detetives, e ás vezes até acertando. Aprendi muito com Holmes, Poirot e tantos outros personagens do gênero. Mas eu não acho que consiga reproduzir a genialidade deles, por mais que ás vezes eu acabe tentando escrever alguma coisa parecida. Hoje fui obrigado, pra uma inscrição pra uma antologia, a voltar a isso. E foi mais uma vez um desafio enorme. Se conseguir ou não vocês saberão em breve, senão nas páginas de um livro, ao menos aqui, onde devo publicar esse conto. Por hora, tragou outra obra do gênero que me deleitei escrevendo. É curto, mas é de coração. Com vocês...

Charlotte Wintons e o Assassino de Encontros 
(nem sei porque dei esse título)

Charlotte Winston largou o cachimbo pensativa. Haviam poucas coisas que odiava tanto quando o fedor do fumo, talvez as cores do céu em dias nublados, o barulho ensurdecedor do trânsito em segundas-feiras ou a marca feia que ficava no chão ao tirarem os corpos depois de um homício. Era segunda, o tempo estava armado para chuva desde sexta e um cadáver acabara de ser removido para o IML, deixando para trás uma poça de sangue seco. Seu assistente, Marcos, tampava o nariz e a boca com um lenço.
- Charlie, tem certeza de que quer participar desse caso?
- Quieto, Igram, preciso me concentrar. Observar os detalhes.
Apesar de chateada, Marcos Igram tinha certa razão. Trabalhava como detetive junto à polícia em casos que envolvivam assassinato, violação ou qualquer tipo de violência à mulheres, mas aquele em específico estava deixando seu estômago parecendo uma cassarola italiana. Não havia só uma vítima, a própria casa estava permeada de outros possíveis homicídios e os peritos haviam passado a manhã toda avaliando os outros quartos. Se estivessem certos, havia um serial killer que demorara pra cometer seu primeiro erro.
- Esse filho da mãe está brincando comigo. – ela sussurrou e virou-se ao ouvir passos – Osvald, onde está a testemunha?
- Bom dia pra você também, Winston. – cumprimentou o magro detetive com o qual trabalhava – E não se preocupe com a testemunha, eu vim avisá-la que o comissário a tirou do caso.
- Recuso-me a aceitar. E então? O que fizeram com a garotinha?
- Charlotte, por favor, não crie confusão. A situação já é sombria o suficiente sem suas... hum... sem esses truques que você faz.
- Não são truques, detetive Gomes, são delicadas artimanhas que eu tenho acesso por herança sanguínea. Devo lembrar que meu avô...
- Seu avô fez o exame para ingressar no departamento, era um homem trabalhador e entregava relatórios explicando como concluíra as investigações. O máximo que você já me entregou foi uma folha e ela estava desenhada.
- Paciêcia se você não compreende a arte...
- Por favor, Winston. Só dê o fora. Ou eu mando te prender.
Bufando, Charlotte e seu assistente saíram da casa, quase tropeçando no técnico do IML que vinha buscar os pertences da vítima. A detetive tocou em seu ombro tranquilamente e depois abriu um pequeno sorriso. Marcos simplesmente balançou a cabeça.
- Você fez de novo, não é?
- Não vão me tirar dessa, Marcos. Eles que aceitem.
- Sabe que dessa vez você pode passar mais do que algumas horas na cadeia?
- Desde que eu pegue esse desgraçado, não me importo.
- Então... onde vamos?
- Para a casa do Shepperd. Ela está com eles.
Augustos Shepperd era um dos poucos oficiais que conhecia o segredo de Charlotte e confiava em seus “instintos”. Já prevendo o que aconteceria, pediu à Osvald para ficar responsável pela garotinha que encontrara o cadáver. Além do mais, a Sra. Shepperd adorava crianças e faria questão de fazê-la ficar confortável e evitar a imprensa, os policiais e até mesmo Charlotte se fosse necessário. O que não foi. Por conta das próprias experiências traumáticas, Winston soube se apresentar à criança.
- Olá, Maggie.
- Oi. – respondeu a menina envolta em cobertores e vendo televisão.
- Você parece estar se divertindo aí. O que está vendo?
- Bob Esponja. É idiota. Mas engraçado.
A garotinha não parecia assustada, sequer nervosa, sua expressão estava vazia e seus olhos secos. Charlotte já tinha visto isso antes em adultos, mas era raro em crianças. Margaret Vaughn entendera bem o que tinha acontecido e agora se forçava a engolir as cenas horríveis. Quando seus pais chegassem, não importanto quem fossem, teriam um trabalho tortuoso e cansativo pela frente.
- Maggie, eu só queria te fazer umas três perguntas, pode ser?
- Três?
- É, só três. – desde que começara a trabalhar com isso, Charlotte aprendera que era melhor dizer o número de perguntas para deixar a pessoa mais relaxada. Se precisasse “lembraria” de algo de última hora e emendaria em outra.
- Tudo bem então.
- Você foi até aquela casa sozinha?
- Eu... eu estava querendo um lugar tranquilo pra pensar. Briguei com minha melhor amiga e ela ficou tão brava que espalhou pra escola toda que eu beijei Kenny Martinez. E eu não beijei! Ele é muito feio! – Maggie torceu o nariz de um jeito infantil e engraçado – Aí, aquela casa fica no caminho pra escola. E eu achei que não tinha ninguém lá...
A pausa no final deu sinal à Charlotte que tocou na mão da menina. Imagens de um longo corredor, o mesmo que passara há uma meia hora, do quarto onde a vítima foi encontrada com o sol ainda se pondo, e até mesmo o grito que Maggie deu ao ver a cabeça virada ao contrário do cadáver, o que o tornara irreconhecível, tudo isso soltou à mente de Charlotte.
- Entendo, deve ter sido aterrorizante de repente encontrar alguém lá. Mas... você só viu a moça, Maggie?
Os olhos da menina finalmente marejaram, e duas lágrimas anteciparam a cachoeira que viria. Maggie provavelmente estava esperando alguém perguntar isso para desabar, e Charlotte ficou contente que fosse com ela. Mesmo que não soubesse como agir sempre, havia pelo menos a chance de captar algo mais que a menina não lembrasse agora. Segurou firme a mão dela e insistiu.
- Havia mais alguém lá, Maggie?
- Eu... não sei... eu ouvi...
E então Charlotte ouviu. Foi um barulho seco, como se alguma coisa tivesse caído no chão de madeira, e perto o suficiente para deixar Margaret ainda mais apavorada. Depois tudo ficou nublado, como sempre acontecia quando alguém entrava em pânico. A mente fica turva nessas horas e as memórias se embaralham, mas Charlotte encontrou uma única coisa ali no meio que a deixou encucada. Viu Maggie se virar e sair correndo, fugindo da casa, mas na volta pelo corredor uma porta que estava fechada antes se abrira levemente, como se alguém estivesse espiando.
- Tudo bem, Maggie, tudo bem. Não se preocupa. Agora, a próxima pergunta é bem importante, ok?
- Tá.
- Você prefere sorvete de chocolate ou morango?
Depois de servir uma gloriosa taça para a menina (Marcos que lhe ensinara o valor curativo moral de um potão de sorvete), Charlotte se encontrou com seus parceiros na outra sala. Augustus parecia incomodado, mais pela bronca que levaram de Sophia por terem feito Maggie chorar, e Marcos mexia em sua tablet, fazendo anotações que só Deus sabia pra que serviam. Charlotte mordia a unha do dedo mindinho, seu hábito de quando estava juntando peças importantes.
- O assassino ainda estava lá quando Maggie entrou. E ele a viu. Estava em um dos cômodos no corredor, o segundo à direita, próximo da escada.
- É um escritório. – disse Marcos e continuou falando quando recebeu olhares dos dois – Eu presto atenção nessas coisas, sabe?
- O escritório foi um dos poucos cômodos em que os peritos não ficaram. Disseram que o luminol não reagiu, então focaram nos outros. Haviam muitos deles. – explicou Augustus.
- Então há uma boa chance de que eu consiga entrar lá sem ser vista.
- Não sei se é uma boa ideia, Charlie. – disse Augustus – Se Osvald te pegar lá... você sabe que ele sempre teve ciúmes do seu sucesso. Ele vai fazer de tudo para te quebrar as pernas e o comissário não vai se importar se você for presa por obstrução à justiça.
- Calma, Augustus, eu não vou ser pega por Osvald. Posso garantir.
- O que te dá tanta confiança, garota?
- Eu sou uma gatuna... e Osvald é um pássaro. Gatos sempre pegam pássaros, não o contrário.
Sem entender, seus parceiros se entreolharam preocupados. Mas no fundo sabiam que Charlotte tinha razão. Ela entrara nessa vida se infiltrando em cenas de crime e resolvendo-os discretamente, enviando as provas para a polícia. Agora, que estava ao lado deles, se tornara ainda melhor em se esconder. Graças à ajuda de Augustus e mais uns figurões dentro do departamento Charlotte era chamada para ajudar em alguns casos, mas gente como Osvald e o comissário gostavam de se opôr, tanto por considerá-la um estorvo quanto por ficarem brabos que ela resolvia os mistérios no lugar deles.
Cerca de meia hora depois ela pulava pela janela da cozinha, esgueirando-se por baixo dos móveis para chegar ao corredor e então caminhando pé ante pé até a porta do escritório. Com um toque suave a maçaneta girou e abriu espaço para que ela entrasse muito rapidamente, sem deixar vestígios. O pequeno cômodo possuía uma única janela trancada com grossas tábuas, várias estantes com livros cobertos de teias, umas caixas fechadas com uma fita amarelada de tão velha e uma escrivaninha sem cadeiras. Em cima de tudo os lençóis revirados pela polícia que provavelmente tiraram grande parte das pistas.
Usando uma lupa, um lenço, um cotonete e luvas plásticas, Charlotte cobriu o cômodo praticamente todo, reservando atenção redobrada para a escrivaninha, imaginando se o assassino havia se escondido ali antes, e também para a parte de trás da porta. Encontrou um fio de cabelo na maçaneta, meia impressão digital na borda da mesa e um botão não empoeirado perto da janela. No momento em que levantava a porta abriu subitamente, e ela teve que se jogar para baixo do móvel.
Ouviu passos apressados e o pigarro de alguém, provavelmente precisando urgente de um xarope. Haviam pelos menos duas pessoas ali, e ambas conversavam baixinho.
- ... e é isso, Osvald, não há nada aqui pra trabalhar. Estou lhe dizendo, você PRECISA falar com seus informantes para encontrar o tal Pierre...
- Basta! – falou Osvald baixo mas com firmeza – Eu não posso fazer isso, já disse. Se o comissário descobre que pode ser esse cara...
- Ele vai pensar duas vezes antes de lhe tirar do caso. Mais do que isso, pode ser o crime da sua vida. Quem sabe uma promoção?
Osvald fez um som peculiar, como um mugido bovino, seguido de uma risada. Ela já o vira nessa situação antes, e era geralmente antes dela humilhá-lo com a resposta certa para os enigmas teoricamente insolucionáveis. No momento, no entanto, era melhor que Charlotte continuasse quietinha no seu canto.
- Tudo bem, Arthur, avise ao Doyle que vou sair e ele deve cuidar de tudo. E se aquela metida da Winston aparecer...
- Ordem de prisão, Osvald, sem problemas. Apesar de que acho um exagero, ela até ajuda normalmente, não é? Como no caso do pergaminho cifrado...
- Cale-se! Não quero ouvir mais!
A porta fechou em seguida, abafando o som dos homens indo embora. Charlotte esperou pacientemente até ter certeza de que não voltariam e abandonou seu esconderijo. Agora havia mais uma razão para se meter nessa história, já que isso poderia significar a subida de Gomes na hierarquia da polícia. Não que o detestasse, pelo contrário, mas se ele estivesse muito superior a ela (e não aceitaria que, por não ser policial, ele já estivesse), com certeza suas participações seriam ainda mais raras.
Furtivamente, Charlotte saiu da casa e foi atrás de um táxi. Osvald Gomes poderia ter informantes decentes, muitos dos quais eram conhecidos dela, mas se queria encontrar um homem chamado Pierre havia apenas uma pessoa a quem deveria perguntar: Madame LeMoon. E por sorte o cabaré Sin in la Luna ainda não estaria aberto, o que era entrada garantida no local.
Jamal Bron já estava na porta e assim que viu a garota chegando fez uma pose de mal-encarado, cruzando os fortes braços em formato de toras.
- Identidade, moça.
- Qualé, Jamal, deixe-me entrar. Preciso ver a madame.
- Menor de idade não entra no cabaré, garotinha.
- Você e eu sabemos que se isso fosse verdade, então você seria preso por pedofilia, Jamal. Agora, me deixa entrar. Outra hora eu te compenso.
- Jantar no Space Burger na sexta? – perguntou ele com um grande sorriso.
- Combinado.
Do lado de dentro, o Luna estava a toda, com as garotas correndo de um lado pro outro, os rapazes ensaiando os movimentos do espetáculo e o músico manco saltando no palco, aos gritos de “Vamos, seus abutres! Quero vê-los voar hoje!”. Madame LeMoon observava tudo de seu camarote, os olhos atentos a qualquer chance de erro. Ela viu Charlotte se aproximar e preparou-se para o pior.
- Madame, sinto muito por invadir assim...
- Charlie, estou esperando pelo dia que você entrará aqui como cliente... ou talvez com um currículo... apesar de que você não precisa de um.
- Não me faça corar, Rosalie, eu preciso de uma ajuda. Uma informação.
- Sabe que não sou dedo duro, Charlie, nem para a polícia e nem para você.
- Não é preciso, mas a pessoa que procuro pode ser um assassino de várias mulheres.
Rosalie LeMoon fechou a cara e pediu que continuasse e então Charlotte lhe contou tudo, da menininha assustada ao homem que se escondeu na casa abandonada. Quando terminou falando sobre Pierre, percebeu que a madame desviou o olhar, muito pensativa.
- Pierre... talvez...
- Você o conhece, Rosalie?
- Ouvi falar de um estrangeiro, um estivador, que chegou de navio há uns dois meses. Ele causou problemas a Sahid e acabou expulso das docas.
Qualquer homem que conseguisse irritar o bom e velho Sahid ih Fajid deveria ser uma pessoa medonha. O capitão do Estrela do Amanhã era tão gente boa que provavelmente já fora roubado mais vezes conscientemente do que por ladrões de verdade. Seu coração de ouro o fazia ser querido por todos, inclusive Charlotte.
- E por que pensou nele?
- Sahid me disse que era um pseudo-francês metido a besta, e que ele passou dias cantando as mulheres que iam ao porto para levar comida aos seus maridos. Mas o principal é... ele usava a faca de estivador bem demais, como se tivesse prazer em cortar coisas.
- Entendo... faz sentido. E você sabe o que aconteceu com ele depois?
- Os marinheiros o mandaram embora, mas na realidade queriam enviá-lo de volta à França ou de onde quer que tenha vindo em um caixote. Soube que tentou a sorte em outros pontos da cidade, e sumiu depois de passar pelo Beco do Suicídio.
O principal ponto turístico da área mais barra pesada da cidade, o Beco do Suicídio na verdade era uma ruela que terminava na porta de uma igreja abandonada. Ali já haviam morrido muitas pessoas, poucas por vontade própria. Diziam que qualquer um que se metesse ali, sozinho, à noite, estava querendo entregar a vida ao diabo. E pior, não era tão longe da casa em que aconteceu o assassinato.
- Obrigado, Rosalie. Eu tenho o que fazer com isso.
Visitar o Beco do Suicídio era uma das poucas coisas que Charlie precisava realmente de Marcos Igram para fazer, então lá estavam os dois, ajoelhados diante de uma poça de sangue que ela acabou descartando. Se Pierre houvesse perdido tanto sangue assim, então seria ele a vítima e não a mulher que Margareth encontrou. Depois de alguns minutos, ambos se encostaram na parede, um de frente pro outro, muito nervosos.
- O que fazemos agora?
- Olha, Marcos, se eu tivesse uma resposta... eu já estaria fazendo.
Como se respondendo à pergunta dele, um barulho veio do fim do Beco, e viraram-se a tempo de ver uma tábua caindo. Um par de olhos escuros surgiu nas sombras e de repente se virou e saiu correndo.
- Vamos!
- Espera! Ei! Charlie!
- Pode ser o francês! Vem!
Antes que Marcos pudesse dizer mais alguma coisa, Charlotte saltou por entre os pedaços de madeira e pousou na entrada da igrejinha. Um vulto subia as escadas que levavam ao altar e ela o seguiu, indo pelo labirinto de ruínas e tendo que desviar aqui e ali de bancos jogados sobre os outros, pedaços do teto que caíram com o tempo e uma estátua de São José quase em tamanho real que ocupava metade da passagem.
Quando enfim o alcançou, ele se lançava por uma janela quebrada em direção a um prédio nos fundos. A distância entre as duas construções era possível para Charlotte que não hesitou em segui-lo, mas assim que os pés tocaram o piso do outro lado, uma mão veio em direção a seu rosto acertando-o em cheio. Ela apagou.
Sentiu algo roçar nas pernas e percebeu que os pulsos e as canelas estavam firmemente presos por cordas. Abriu os olhos para ver um homem vindo com um martelo e uma longa faca afiada. Seu rosto era bonito, apesar de maltratado, e haviam olhos fundos, como se não dormisse há meses. Um crucifixo enorme pendia de seu pescoço e balançou quando ele parou logo diante dela, o corpo curvado e o rosto a milímetros do seu.
- Mas que vadia você é... e ainda por cima insistente.
- Qual o seu problema, Pierre, por que não me matou de uma vez? Agora vou ter que acabar com você.
- Como... como sabe meu nome?
- Eu estava te perseguindo pra te prender por assassinato. É melhor me desamarrar logo antes que a polícia chegue e te encha de balas.
- Pff... vocês mulheres não sabem o que falam. Acham que ganharam poder e agora podem sair por aí tentando os homens e mandando neles. Pois eu vou te ensinar o seu lugar, sua piranhazinha de merda.
- Esse é o seu problema, seu escroto. Nem pensa direito antes de falar. Você...
Outra bofetada em seu rosto fez com que Charlotte sentisse o gosto de sangue. Odiava essa parte do trabalho, quando ficava cara a cara com os bandidos. Ás vezes era obrigada a sentir dor. Mas acima de tudo, precisava mostrar confiança.
- Escuta aqui... eu vou te encher de martelada até você virar uma poça de sangue... depois... vou cortar o que sobrar e guardar alguma coisa de recordação... que bom que você veio até mim. Há tempos que queria pegar uns peitinhos... ou talvez o escalpo. Você tem um bonito cabelo colorido.
Ele falava como um maníaco, e Charlotte percebeu isso. Ainda por cima tinha os olhos vidrados, indicando provável dificuldade de concentração. Mas acima de tudo, sabia bem o que fazer com as cordas, estava muito bem amarrada. Se quisesse sair dali, precisava dar um jeito de fazê-lo desamarrá-la.
- Eu imaginei que fosse frustração sexual... você está muito tempo sem transar, e as mulheres do porto nem te deram bola... – mais um tabefe, mas isso não a impediu de falar – e então você teve que raptar outras mulheres e estuprá-las. E pra esconder seu crime você as matou e retalhou. Grande ideia, Sherlock, uma pena que deixa muitos, muitos rastros.
- Cale a boca... FECHA ESSA MATRACA! Você... você não sabe do que está falando!
- Ora... não? Você não está aí, se remoendo de tesão, querendo logo me comer antes de enfiar esse martelo em mim? Ah... eu sei que está...
- Pois é isso que vou fazer, sua vaca!
E apontou a faca para seu pescoço, crente de que, ao soltá-la, ela não se moveria, deixando que a dominasse. Claro, para conseguir chegar até ele foi o que fez. Fingiu que estava com medo, atemorizada, e se deixou ser jogada no chão, onde ele arrancaria suas calças e enfiaria nela. Mas antes que ele conseguisse tocar nela, Charlotte lançou-se para frente e apoiando as mãos no piso, aplicou um chute para trás, acertando sua masculinidade.
Derrubá-lo foi mais fácil do que pensava. Apesar de grande, e claramente forte, Pierre estava magro e provavelmente cansado de viver nas ruas. Com um soco bem dado em seu queixo, seguido de um chute na lateral da cabeça ele despencou. Ela aproveitou para amarrá-lo bem e procurar seu celular. Encontrou um quartinho onde suas coisas haviam sido deixadas, além de provas bem incriminadoras. Fotos, provavelmente feitas com a polaroid que estava em cima da mesa, cobriam a parede, mostrando mulheres em posições humilhantes, chorando e até mesmo já mortas, os ferimentos ainda escorrendo sangue. Charlotte o odiou por completo.
Pensou em usar a faca, acabar logo com isso, dar a vingança que ele merecia. Mas não. Ligou para Marcos, esperando que ele fosse contatar Osvald. O detetive estaria tão brabo que era melhor sumir por um tempo. Ao menos estava viva.
- CHARLOTTE! Deus! Onde você está?
- No covil do bandido, Igram. Espere... – olhou pela janela – Posso ver o colégio de Maria de Fátima daqui. Provavelmente é próximo à praça da Justiça. Vou deixar a porta aberta, assim a polícia só precisa entrar. Eu já o amarrei.
- Você... você é incrível, Charlie... primeiro me deixa apavorado com seu sumiço e então...
- É, eu sei. Eu sou assim mesmo. Diga a Osvald que é um presente e boa sorte na promoção!
- Ei, do que está...

Desligou. Precisava sair logo dali. Mas antes... uma coisinha a fazer. Pegou o martelo que Pierre usaria nela e bateu com força em sua genitália, provavelmente provocando a perda de algumas funções. Ele acordou, mas ela desferiu um novo chute que o desmaiou novamente. Pronto. Agora sim. Pegou suas coisas e saiu. Mais um bandido preso. Vitória para Winston!