quinta-feira, 26 de março de 2015

Tiros, tiros pra todos os lados

Eu adoro histórias policiais, de todos os tipos. Vez por outra pego um livro do gênero e me divirto tentando desvendar o mistério antes dos detetives, e ás vezes até acertando. Aprendi muito com Holmes, Poirot e tantos outros personagens do gênero. Mas eu não acho que consiga reproduzir a genialidade deles, por mais que ás vezes eu acabe tentando escrever alguma coisa parecida. Hoje fui obrigado, pra uma inscrição pra uma antologia, a voltar a isso. E foi mais uma vez um desafio enorme. Se conseguir ou não vocês saberão em breve, senão nas páginas de um livro, ao menos aqui, onde devo publicar esse conto. Por hora, tragou outra obra do gênero que me deleitei escrevendo. É curto, mas é de coração. Com vocês...

Charlotte Wintons e o Assassino de Encontros 
(nem sei porque dei esse título)

Charlotte Winston largou o cachimbo pensativa. Haviam poucas coisas que odiava tanto quando o fedor do fumo, talvez as cores do céu em dias nublados, o barulho ensurdecedor do trânsito em segundas-feiras ou a marca feia que ficava no chão ao tirarem os corpos depois de um homício. Era segunda, o tempo estava armado para chuva desde sexta e um cadáver acabara de ser removido para o IML, deixando para trás uma poça de sangue seco. Seu assistente, Marcos, tampava o nariz e a boca com um lenço.
- Charlie, tem certeza de que quer participar desse caso?
- Quieto, Igram, preciso me concentrar. Observar os detalhes.
Apesar de chateada, Marcos Igram tinha certa razão. Trabalhava como detetive junto à polícia em casos que envolvivam assassinato, violação ou qualquer tipo de violência à mulheres, mas aquele em específico estava deixando seu estômago parecendo uma cassarola italiana. Não havia só uma vítima, a própria casa estava permeada de outros possíveis homicídios e os peritos haviam passado a manhã toda avaliando os outros quartos. Se estivessem certos, havia um serial killer que demorara pra cometer seu primeiro erro.
- Esse filho da mãe está brincando comigo. – ela sussurrou e virou-se ao ouvir passos – Osvald, onde está a testemunha?
- Bom dia pra você também, Winston. – cumprimentou o magro detetive com o qual trabalhava – E não se preocupe com a testemunha, eu vim avisá-la que o comissário a tirou do caso.
- Recuso-me a aceitar. E então? O que fizeram com a garotinha?
- Charlotte, por favor, não crie confusão. A situação já é sombria o suficiente sem suas... hum... sem esses truques que você faz.
- Não são truques, detetive Gomes, são delicadas artimanhas que eu tenho acesso por herança sanguínea. Devo lembrar que meu avô...
- Seu avô fez o exame para ingressar no departamento, era um homem trabalhador e entregava relatórios explicando como concluíra as investigações. O máximo que você já me entregou foi uma folha e ela estava desenhada.
- Paciêcia se você não compreende a arte...
- Por favor, Winston. Só dê o fora. Ou eu mando te prender.
Bufando, Charlotte e seu assistente saíram da casa, quase tropeçando no técnico do IML que vinha buscar os pertences da vítima. A detetive tocou em seu ombro tranquilamente e depois abriu um pequeno sorriso. Marcos simplesmente balançou a cabeça.
- Você fez de novo, não é?
- Não vão me tirar dessa, Marcos. Eles que aceitem.
- Sabe que dessa vez você pode passar mais do que algumas horas na cadeia?
- Desde que eu pegue esse desgraçado, não me importo.
- Então... onde vamos?
- Para a casa do Shepperd. Ela está com eles.
Augustos Shepperd era um dos poucos oficiais que conhecia o segredo de Charlotte e confiava em seus “instintos”. Já prevendo o que aconteceria, pediu à Osvald para ficar responsável pela garotinha que encontrara o cadáver. Além do mais, a Sra. Shepperd adorava crianças e faria questão de fazê-la ficar confortável e evitar a imprensa, os policiais e até mesmo Charlotte se fosse necessário. O que não foi. Por conta das próprias experiências traumáticas, Winston soube se apresentar à criança.
- Olá, Maggie.
- Oi. – respondeu a menina envolta em cobertores e vendo televisão.
- Você parece estar se divertindo aí. O que está vendo?
- Bob Esponja. É idiota. Mas engraçado.
A garotinha não parecia assustada, sequer nervosa, sua expressão estava vazia e seus olhos secos. Charlotte já tinha visto isso antes em adultos, mas era raro em crianças. Margaret Vaughn entendera bem o que tinha acontecido e agora se forçava a engolir as cenas horríveis. Quando seus pais chegassem, não importanto quem fossem, teriam um trabalho tortuoso e cansativo pela frente.
- Maggie, eu só queria te fazer umas três perguntas, pode ser?
- Três?
- É, só três. – desde que começara a trabalhar com isso, Charlotte aprendera que era melhor dizer o número de perguntas para deixar a pessoa mais relaxada. Se precisasse “lembraria” de algo de última hora e emendaria em outra.
- Tudo bem então.
- Você foi até aquela casa sozinha?
- Eu... eu estava querendo um lugar tranquilo pra pensar. Briguei com minha melhor amiga e ela ficou tão brava que espalhou pra escola toda que eu beijei Kenny Martinez. E eu não beijei! Ele é muito feio! – Maggie torceu o nariz de um jeito infantil e engraçado – Aí, aquela casa fica no caminho pra escola. E eu achei que não tinha ninguém lá...
A pausa no final deu sinal à Charlotte que tocou na mão da menina. Imagens de um longo corredor, o mesmo que passara há uma meia hora, do quarto onde a vítima foi encontrada com o sol ainda se pondo, e até mesmo o grito que Maggie deu ao ver a cabeça virada ao contrário do cadáver, o que o tornara irreconhecível, tudo isso soltou à mente de Charlotte.
- Entendo, deve ter sido aterrorizante de repente encontrar alguém lá. Mas... você só viu a moça, Maggie?
Os olhos da menina finalmente marejaram, e duas lágrimas anteciparam a cachoeira que viria. Maggie provavelmente estava esperando alguém perguntar isso para desabar, e Charlotte ficou contente que fosse com ela. Mesmo que não soubesse como agir sempre, havia pelo menos a chance de captar algo mais que a menina não lembrasse agora. Segurou firme a mão dela e insistiu.
- Havia mais alguém lá, Maggie?
- Eu... não sei... eu ouvi...
E então Charlotte ouviu. Foi um barulho seco, como se alguma coisa tivesse caído no chão de madeira, e perto o suficiente para deixar Margaret ainda mais apavorada. Depois tudo ficou nublado, como sempre acontecia quando alguém entrava em pânico. A mente fica turva nessas horas e as memórias se embaralham, mas Charlotte encontrou uma única coisa ali no meio que a deixou encucada. Viu Maggie se virar e sair correndo, fugindo da casa, mas na volta pelo corredor uma porta que estava fechada antes se abrira levemente, como se alguém estivesse espiando.
- Tudo bem, Maggie, tudo bem. Não se preocupa. Agora, a próxima pergunta é bem importante, ok?
- Tá.
- Você prefere sorvete de chocolate ou morango?
Depois de servir uma gloriosa taça para a menina (Marcos que lhe ensinara o valor curativo moral de um potão de sorvete), Charlotte se encontrou com seus parceiros na outra sala. Augustus parecia incomodado, mais pela bronca que levaram de Sophia por terem feito Maggie chorar, e Marcos mexia em sua tablet, fazendo anotações que só Deus sabia pra que serviam. Charlotte mordia a unha do dedo mindinho, seu hábito de quando estava juntando peças importantes.
- O assassino ainda estava lá quando Maggie entrou. E ele a viu. Estava em um dos cômodos no corredor, o segundo à direita, próximo da escada.
- É um escritório. – disse Marcos e continuou falando quando recebeu olhares dos dois – Eu presto atenção nessas coisas, sabe?
- O escritório foi um dos poucos cômodos em que os peritos não ficaram. Disseram que o luminol não reagiu, então focaram nos outros. Haviam muitos deles. – explicou Augustus.
- Então há uma boa chance de que eu consiga entrar lá sem ser vista.
- Não sei se é uma boa ideia, Charlie. – disse Augustus – Se Osvald te pegar lá... você sabe que ele sempre teve ciúmes do seu sucesso. Ele vai fazer de tudo para te quebrar as pernas e o comissário não vai se importar se você for presa por obstrução à justiça.
- Calma, Augustus, eu não vou ser pega por Osvald. Posso garantir.
- O que te dá tanta confiança, garota?
- Eu sou uma gatuna... e Osvald é um pássaro. Gatos sempre pegam pássaros, não o contrário.
Sem entender, seus parceiros se entreolharam preocupados. Mas no fundo sabiam que Charlotte tinha razão. Ela entrara nessa vida se infiltrando em cenas de crime e resolvendo-os discretamente, enviando as provas para a polícia. Agora, que estava ao lado deles, se tornara ainda melhor em se esconder. Graças à ajuda de Augustus e mais uns figurões dentro do departamento Charlotte era chamada para ajudar em alguns casos, mas gente como Osvald e o comissário gostavam de se opôr, tanto por considerá-la um estorvo quanto por ficarem brabos que ela resolvia os mistérios no lugar deles.
Cerca de meia hora depois ela pulava pela janela da cozinha, esgueirando-se por baixo dos móveis para chegar ao corredor e então caminhando pé ante pé até a porta do escritório. Com um toque suave a maçaneta girou e abriu espaço para que ela entrasse muito rapidamente, sem deixar vestígios. O pequeno cômodo possuía uma única janela trancada com grossas tábuas, várias estantes com livros cobertos de teias, umas caixas fechadas com uma fita amarelada de tão velha e uma escrivaninha sem cadeiras. Em cima de tudo os lençóis revirados pela polícia que provavelmente tiraram grande parte das pistas.
Usando uma lupa, um lenço, um cotonete e luvas plásticas, Charlotte cobriu o cômodo praticamente todo, reservando atenção redobrada para a escrivaninha, imaginando se o assassino havia se escondido ali antes, e também para a parte de trás da porta. Encontrou um fio de cabelo na maçaneta, meia impressão digital na borda da mesa e um botão não empoeirado perto da janela. No momento em que levantava a porta abriu subitamente, e ela teve que se jogar para baixo do móvel.
Ouviu passos apressados e o pigarro de alguém, provavelmente precisando urgente de um xarope. Haviam pelos menos duas pessoas ali, e ambas conversavam baixinho.
- ... e é isso, Osvald, não há nada aqui pra trabalhar. Estou lhe dizendo, você PRECISA falar com seus informantes para encontrar o tal Pierre...
- Basta! – falou Osvald baixo mas com firmeza – Eu não posso fazer isso, já disse. Se o comissário descobre que pode ser esse cara...
- Ele vai pensar duas vezes antes de lhe tirar do caso. Mais do que isso, pode ser o crime da sua vida. Quem sabe uma promoção?
Osvald fez um som peculiar, como um mugido bovino, seguido de uma risada. Ela já o vira nessa situação antes, e era geralmente antes dela humilhá-lo com a resposta certa para os enigmas teoricamente insolucionáveis. No momento, no entanto, era melhor que Charlotte continuasse quietinha no seu canto.
- Tudo bem, Arthur, avise ao Doyle que vou sair e ele deve cuidar de tudo. E se aquela metida da Winston aparecer...
- Ordem de prisão, Osvald, sem problemas. Apesar de que acho um exagero, ela até ajuda normalmente, não é? Como no caso do pergaminho cifrado...
- Cale-se! Não quero ouvir mais!
A porta fechou em seguida, abafando o som dos homens indo embora. Charlotte esperou pacientemente até ter certeza de que não voltariam e abandonou seu esconderijo. Agora havia mais uma razão para se meter nessa história, já que isso poderia significar a subida de Gomes na hierarquia da polícia. Não que o detestasse, pelo contrário, mas se ele estivesse muito superior a ela (e não aceitaria que, por não ser policial, ele já estivesse), com certeza suas participações seriam ainda mais raras.
Furtivamente, Charlotte saiu da casa e foi atrás de um táxi. Osvald Gomes poderia ter informantes decentes, muitos dos quais eram conhecidos dela, mas se queria encontrar um homem chamado Pierre havia apenas uma pessoa a quem deveria perguntar: Madame LeMoon. E por sorte o cabaré Sin in la Luna ainda não estaria aberto, o que era entrada garantida no local.
Jamal Bron já estava na porta e assim que viu a garota chegando fez uma pose de mal-encarado, cruzando os fortes braços em formato de toras.
- Identidade, moça.
- Qualé, Jamal, deixe-me entrar. Preciso ver a madame.
- Menor de idade não entra no cabaré, garotinha.
- Você e eu sabemos que se isso fosse verdade, então você seria preso por pedofilia, Jamal. Agora, me deixa entrar. Outra hora eu te compenso.
- Jantar no Space Burger na sexta? – perguntou ele com um grande sorriso.
- Combinado.
Do lado de dentro, o Luna estava a toda, com as garotas correndo de um lado pro outro, os rapazes ensaiando os movimentos do espetáculo e o músico manco saltando no palco, aos gritos de “Vamos, seus abutres! Quero vê-los voar hoje!”. Madame LeMoon observava tudo de seu camarote, os olhos atentos a qualquer chance de erro. Ela viu Charlotte se aproximar e preparou-se para o pior.
- Madame, sinto muito por invadir assim...
- Charlie, estou esperando pelo dia que você entrará aqui como cliente... ou talvez com um currículo... apesar de que você não precisa de um.
- Não me faça corar, Rosalie, eu preciso de uma ajuda. Uma informação.
- Sabe que não sou dedo duro, Charlie, nem para a polícia e nem para você.
- Não é preciso, mas a pessoa que procuro pode ser um assassino de várias mulheres.
Rosalie LeMoon fechou a cara e pediu que continuasse e então Charlotte lhe contou tudo, da menininha assustada ao homem que se escondeu na casa abandonada. Quando terminou falando sobre Pierre, percebeu que a madame desviou o olhar, muito pensativa.
- Pierre... talvez...
- Você o conhece, Rosalie?
- Ouvi falar de um estrangeiro, um estivador, que chegou de navio há uns dois meses. Ele causou problemas a Sahid e acabou expulso das docas.
Qualquer homem que conseguisse irritar o bom e velho Sahid ih Fajid deveria ser uma pessoa medonha. O capitão do Estrela do Amanhã era tão gente boa que provavelmente já fora roubado mais vezes conscientemente do que por ladrões de verdade. Seu coração de ouro o fazia ser querido por todos, inclusive Charlotte.
- E por que pensou nele?
- Sahid me disse que era um pseudo-francês metido a besta, e que ele passou dias cantando as mulheres que iam ao porto para levar comida aos seus maridos. Mas o principal é... ele usava a faca de estivador bem demais, como se tivesse prazer em cortar coisas.
- Entendo... faz sentido. E você sabe o que aconteceu com ele depois?
- Os marinheiros o mandaram embora, mas na realidade queriam enviá-lo de volta à França ou de onde quer que tenha vindo em um caixote. Soube que tentou a sorte em outros pontos da cidade, e sumiu depois de passar pelo Beco do Suicídio.
O principal ponto turístico da área mais barra pesada da cidade, o Beco do Suicídio na verdade era uma ruela que terminava na porta de uma igreja abandonada. Ali já haviam morrido muitas pessoas, poucas por vontade própria. Diziam que qualquer um que se metesse ali, sozinho, à noite, estava querendo entregar a vida ao diabo. E pior, não era tão longe da casa em que aconteceu o assassinato.
- Obrigado, Rosalie. Eu tenho o que fazer com isso.
Visitar o Beco do Suicídio era uma das poucas coisas que Charlie precisava realmente de Marcos Igram para fazer, então lá estavam os dois, ajoelhados diante de uma poça de sangue que ela acabou descartando. Se Pierre houvesse perdido tanto sangue assim, então seria ele a vítima e não a mulher que Margareth encontrou. Depois de alguns minutos, ambos se encostaram na parede, um de frente pro outro, muito nervosos.
- O que fazemos agora?
- Olha, Marcos, se eu tivesse uma resposta... eu já estaria fazendo.
Como se respondendo à pergunta dele, um barulho veio do fim do Beco, e viraram-se a tempo de ver uma tábua caindo. Um par de olhos escuros surgiu nas sombras e de repente se virou e saiu correndo.
- Vamos!
- Espera! Ei! Charlie!
- Pode ser o francês! Vem!
Antes que Marcos pudesse dizer mais alguma coisa, Charlotte saltou por entre os pedaços de madeira e pousou na entrada da igrejinha. Um vulto subia as escadas que levavam ao altar e ela o seguiu, indo pelo labirinto de ruínas e tendo que desviar aqui e ali de bancos jogados sobre os outros, pedaços do teto que caíram com o tempo e uma estátua de São José quase em tamanho real que ocupava metade da passagem.
Quando enfim o alcançou, ele se lançava por uma janela quebrada em direção a um prédio nos fundos. A distância entre as duas construções era possível para Charlotte que não hesitou em segui-lo, mas assim que os pés tocaram o piso do outro lado, uma mão veio em direção a seu rosto acertando-o em cheio. Ela apagou.
Sentiu algo roçar nas pernas e percebeu que os pulsos e as canelas estavam firmemente presos por cordas. Abriu os olhos para ver um homem vindo com um martelo e uma longa faca afiada. Seu rosto era bonito, apesar de maltratado, e haviam olhos fundos, como se não dormisse há meses. Um crucifixo enorme pendia de seu pescoço e balançou quando ele parou logo diante dela, o corpo curvado e o rosto a milímetros do seu.
- Mas que vadia você é... e ainda por cima insistente.
- Qual o seu problema, Pierre, por que não me matou de uma vez? Agora vou ter que acabar com você.
- Como... como sabe meu nome?
- Eu estava te perseguindo pra te prender por assassinato. É melhor me desamarrar logo antes que a polícia chegue e te encha de balas.
- Pff... vocês mulheres não sabem o que falam. Acham que ganharam poder e agora podem sair por aí tentando os homens e mandando neles. Pois eu vou te ensinar o seu lugar, sua piranhazinha de merda.
- Esse é o seu problema, seu escroto. Nem pensa direito antes de falar. Você...
Outra bofetada em seu rosto fez com que Charlotte sentisse o gosto de sangue. Odiava essa parte do trabalho, quando ficava cara a cara com os bandidos. Ás vezes era obrigada a sentir dor. Mas acima de tudo, precisava mostrar confiança.
- Escuta aqui... eu vou te encher de martelada até você virar uma poça de sangue... depois... vou cortar o que sobrar e guardar alguma coisa de recordação... que bom que você veio até mim. Há tempos que queria pegar uns peitinhos... ou talvez o escalpo. Você tem um bonito cabelo colorido.
Ele falava como um maníaco, e Charlotte percebeu isso. Ainda por cima tinha os olhos vidrados, indicando provável dificuldade de concentração. Mas acima de tudo, sabia bem o que fazer com as cordas, estava muito bem amarrada. Se quisesse sair dali, precisava dar um jeito de fazê-lo desamarrá-la.
- Eu imaginei que fosse frustração sexual... você está muito tempo sem transar, e as mulheres do porto nem te deram bola... – mais um tabefe, mas isso não a impediu de falar – e então você teve que raptar outras mulheres e estuprá-las. E pra esconder seu crime você as matou e retalhou. Grande ideia, Sherlock, uma pena que deixa muitos, muitos rastros.
- Cale a boca... FECHA ESSA MATRACA! Você... você não sabe do que está falando!
- Ora... não? Você não está aí, se remoendo de tesão, querendo logo me comer antes de enfiar esse martelo em mim? Ah... eu sei que está...
- Pois é isso que vou fazer, sua vaca!
E apontou a faca para seu pescoço, crente de que, ao soltá-la, ela não se moveria, deixando que a dominasse. Claro, para conseguir chegar até ele foi o que fez. Fingiu que estava com medo, atemorizada, e se deixou ser jogada no chão, onde ele arrancaria suas calças e enfiaria nela. Mas antes que ele conseguisse tocar nela, Charlotte lançou-se para frente e apoiando as mãos no piso, aplicou um chute para trás, acertando sua masculinidade.
Derrubá-lo foi mais fácil do que pensava. Apesar de grande, e claramente forte, Pierre estava magro e provavelmente cansado de viver nas ruas. Com um soco bem dado em seu queixo, seguido de um chute na lateral da cabeça ele despencou. Ela aproveitou para amarrá-lo bem e procurar seu celular. Encontrou um quartinho onde suas coisas haviam sido deixadas, além de provas bem incriminadoras. Fotos, provavelmente feitas com a polaroid que estava em cima da mesa, cobriam a parede, mostrando mulheres em posições humilhantes, chorando e até mesmo já mortas, os ferimentos ainda escorrendo sangue. Charlotte o odiou por completo.
Pensou em usar a faca, acabar logo com isso, dar a vingança que ele merecia. Mas não. Ligou para Marcos, esperando que ele fosse contatar Osvald. O detetive estaria tão brabo que era melhor sumir por um tempo. Ao menos estava viva.
- CHARLOTTE! Deus! Onde você está?
- No covil do bandido, Igram. Espere... – olhou pela janela – Posso ver o colégio de Maria de Fátima daqui. Provavelmente é próximo à praça da Justiça. Vou deixar a porta aberta, assim a polícia só precisa entrar. Eu já o amarrei.
- Você... você é incrível, Charlie... primeiro me deixa apavorado com seu sumiço e então...
- É, eu sei. Eu sou assim mesmo. Diga a Osvald que é um presente e boa sorte na promoção!
- Ei, do que está...

Desligou. Precisava sair logo dali. Mas antes... uma coisinha a fazer. Pegou o martelo que Pierre usaria nela e bateu com força em sua genitália, provavelmente provocando a perda de algumas funções. Ele acordou, mas ela desferiu um novo chute que o desmaiou novamente. Pronto. Agora sim. Pegou suas coisas e saiu. Mais um bandido preso. Vitória para Winston!

quarta-feira, 25 de março de 2015

Ótimos personagens vão bem com qualquer coisa

Ontem, por influência da Ana, que também fez uma postagem em seu circo, eu acabei fazendo um texto emocionado com nossos personagens de Tormenta RPG, em história na qual EU sou o mestre... pra variar. Mas, excepcionalmente mesmo, ás vezes eu consigo ser jogador, e nessas raras ocasiões eu me empolgo MUITO com personagens que crio, dando a eles histórias mais complexas e, se puder, escrevendo sobre. Quem trago hoje é o Padre Thomas, um brujah da Idade Média que se embrenhou na igreja pra construir seu exército justo. Infelizmente pra ele, no meio do caminho, surgiu um...

Pequeno Incômodo

Eu senti a criatura antes de vê-la sair das sombras. Era pequena, de aparência ignóbil e provavelmente pareceria uma criança escrava não fosse o fato de ser feita de escuridão. Tomaria por uma ilusão facilmente. Veio rastejante, as garras esfregando no chão produzindo um som agudo e maldoso. Daria medo a provavelmente a maior parte dos devotos dessa igreja. Mas não a mim, principalmente porque de longe eu era mais forte do que ele.
Por seu tamanho e também por parecer um pouco confuso eu o domei facilmente, colocando meu joelho sobre sua... nuca? E seus braços pendiam quase imóveis esmagados pelo meu punho. Ele guinchou, aparentemente surpreso pela inversão de papéis.
- Ai, ui! Larga! LARGA!
- Vejo que fala minha língua, criatura abissal. O que me espanta mais até do que sua aparição.
- Ai! Solta, seu... seu... padre fajuto!
- Para um diabrete seu vocabulário de impropérios é bem limitado, não?
- Quer que eu xingue sua mãe? Se for pra me soltar posso até ofender seus futuros filhos!
- Eu estou morto, imbecil, e não, eu vou lhe manter preso.
- Você não pode fazer isso!... pera... você não pode mesmo... eu... posso ficar intangível!
E se livrou de mim, voltando a ser um espectro e se materializando próximo, mas com as mãos levantadas em defesa. Pelo jeito compreendeu que caso ficasse físico provavelmente eu o pegaria de novo. Mais esperto do que parece.
- Então... o que você quer em meus aposentos? Imagino que não tenha vindo para ser humilhado livremente... ou vocês, servos do demônio podem se dar a esse luxo?
- Sua alma, é claro! Eu poderia fazer um bom uso dela!
- Eu pensei ter perdido a alma quando fui transformado em um servo de Caim... você está me dizendo que ainda a tenho?
- Mas é claro! Acha que porque agora você rouba a dos outros você deixou de ter sua ligação espiritual com Deus? É uma alma bem sujinha, mas por que não? Ela vai servir pra cumprir minha cota!
- Você tem um linguajar estranho... e achei que não pudesse falar o nome do Senhor, mas bem... não terá minha alma, criaturinha tola. Ela me pertence e não vou cedê-la a um verme tão infeliz.
- Que maldade! Só porque eu sou pequeno... sofro muito por isso, viu?
- Oh, como lamento saber...! Agora deixe-me, preciso terminar uma carta para o príncipe de Yorkshire.
- Vejo que está ocupado, então vou... atrapalhar! – ele pulou de onde estava para cima da minha escrivaninha, derrubando a tinta sobre meus papéis – Ah, que desastrado! Veja o que fiz!
- Quer ser capturado novamente, seu imbróglio?
- Que palavra feia, padre! Talvez eu nem precise me esforçar muito pra ter sua alma.
- Tenho pena de você, demoninho... aparentemente não percebe sua insignificância. Se quiser me incomodar, fique à vontade, mas se ficar ao alcance da minha mão, parto-lhe em dois. Não desafie um brujah.
- Ah, que medo... epa!
Saltou antes que eu pudesse pegá-lo, mas ficou muito mais atento e também recolhido. Suas costas pareceram se fundir às sombras, como se fosse se tornar uma delas.
- Quase, padre!
- Eu lhe avisei.
- Ah, padre... não faça isso... vamos, temos que ser amigos... eu vou roubar sua alma algum dia.
- Precisará se esforçar muito para isso, janota.
- Ei, o que eu disse de palavras feias?
- Percebo que você não é muito culto, Astolfo.
- Como é?
- Se pretende continuar me perseguindo e não posso me livrar de você... apesar de que talvez eu ainda possa realizar um exorcismo... então quero lhe nomear. Sabe, nomes tem poder.
- Astolfo?
- Exato.
- Tá de sacanagem, né chefia?
- Se compreendi bem, sim, você merece um nome ridículo para acompanhar essa forma.
- Você diz... assim?
Astolfo se moldou, crescendo exponencialmente e ocupando um espaço maior da cela, mas não o suficiente para eu não perceber o truque. Sua constituição me pareceu a mesma, um tanto ampliada e portanto apenas ilusória. Falsa. E fraca.
- Continua servindo muito bem, Astolfo. Agora, saia de meus aposentos.
- Eu vou lhe esmagar, seu humano inútil!
- Nem que realmente houvesse ficado maior.
- Quer tentar! – e derrubou alguns livros meus – Vê?
- Regna terrae, cantate deo, psállite dómino...

Em instantes ele havia sumido, desaparecido completamente. Mas algo me dizia que ele voltaria para me atormentar em outro momento. Peguei outro pergaminho e uma nova pena com um tinteiro e voltei a escrever minha correspondência. No fundo, por mais chato que ele pudesse ser, ainda era insignificante demais para eu me importar. Por hora.

segunda-feira, 23 de março de 2015

A despedida dos heróis

Hoje meu grupo de RPG, que toda segunda-feira eu mestro no Covil, recebeu uma baixa tensa. Mais de metade da mesa teve de nos abandonar por motivos diversos... alguns arranjaram compromissos, outros simplesmente não podem mais estar presentes. E no meio de uma emocionante despedida, tive que eu mesmo me controlar pra não chorar. Os personagens estavam lá, partindo, quando uma nova aventura estava prestes a começar, e tive que interpretar um a um indo embora. Bem... foi bonito, eu gostei. Graças à uma ideia da Ann, que achou que seria legal registrar o momento, estou trazendo aqui uma transcrição QUASE fiel deste momento. Espero que gostem...

Estavam reunidos, alguns recém-chegados, outros amigos de dias e uns poucos com laços tão fortes quanto o aço. De pé, no centro deles, o clérigo de Khalmyr esperava para executar sua justiça, e ia de um a um perguntando qual seria seu destino. Escutou pacientemente cada resposta, dava a eles um tempo para pensar, e então passava ao próximo. Aos poucos os caminhos eram decididos, e sorrisos tristes apareciam nos rostos deles.
- Eu não acho que estou pronto para o desafio, ainda tenho muito o que conhecer, lugares pra visitar... – sussurrou a próxima parte – coisas para roubar...
- Entendo, rapaz, se é esse seu desejo, você viajará comigo.
- Infelizmente... – disse Kou, o garoto-macaco – Inglórion não está mais entre nós para decidir, mas acho que seria certo que ele tivesse seu corpo devolvido ao seu plano natal. E Skhar... bem, ele não está em condições de falar nada, vai junto.
Todos olharam para o lutador que conheceram logo antes, e tiveram tão pouco tempo juntos. Mesmo apagado seu sorriso continuava o mesmo, de quem está sempre confiante. Seria uma aliança formidável, mas também um perigo enorme... e se ele se metesse em encrencas? Os outros olharam para o mago, que pigarreara para chamar sua atenção.
- Eu... não acredito que vou dizer isso, mas... estou muito preocupado com minha irmã. Sei que a missão é importante, e também vejo que sentirão nossa falta, mas espero que entendam. Eu preciso ir atrás dela. – olhou para sua amiga e mentora – Se puder vir comigo, Aurora...
- É claro! Eu não vou sair do seu lado.
- Que seja feita a vontade de vocês. – disse o clérigo – Mais alguém?
- Pessoal... ah, droga, não queria deixar vocês de lado. Não queria mesmo. Mas... – Garddus deu aquela fungada – Eu preciso ir, há um lugar que preciso estar, e pelo bem de quem gosto. Eu não queria, mas vou precisar partir, e vou fazer isso com o coração apertado. Vocês são muito especiais para mim, e mesmo que eu esteja longe, quero que pensem que estou com vocês. Eu posso viajar, posso não conseguir vê-los por um bom tempo, só quero que... pensem que estou aqui. Um dia, se puder, eu vou voltar, vou lutar ao lado de vocês novamente. Espero que esse dia chegue logo. Até lá, boa viagem, por favor, continuem bem. Eu estarei sempre no coração de vocês.

Segurando as lágrimas, Aranel, a última deles do grupo original, viu seus amigos unirem as mãos e se prepararem para ir, com Garddus no meio. O gigante de aço, portando o escudo, era quem parecia mais sereno. Tinha o coração livre. Com um sorriso tímido e triste ela se despediu. “Obrigado por tudo, clérigo de Valkária, que sua próxima aventura seja mais feliz. Adeus”

Numa vibe meio louca

Tudo bem, eu posso ter falado daquelas poesias, mas eu tenho algumas outras que são um tanto diferentes, como se fossem mais... estranhas? Não sei, é algo fora da casinha, mas que eu gosto um bocado. Sem mais delongas... um pouco da minha loucura.

Valsa Macabra

Pausa para um respiro
Eu tenho que me entregar
Há tanto tempo que espero
Para enfim me deitar
Sob o céu sem luas
Nuvens e nenhuma estrela
De colinas nuas
E uma terra tão cheia
Um monte de crianças a cantar
Sobre uma ábobora falante
E desatando a dançar
A melodia dissonante
Dos mortos infantes
Das risadas incessantes
Da não-vida alegre
E dos demônios selerepes
Quer entrar nessa ciranda?
Ainda há um lugar
Aqui ao meu lado
Neste campo sem luar

Vagando Torto

Incerto sou
Vagando por estas ruas
E perdendo tempo neste jogo
Compreendo cada vez menos
Mentindo de hora em hora
Sobre uma vida que não tenho
Morto estou
Sei que não durarei mais um dia
Entrei na boca do lobo
E não há mais como sobreviver
Fingindo quem sou agora
Perdendo minha alma enfim
Louco fiquei
Talvez eu esteja só me enganando
Quem sabe não está tudo bem
E o dia vá raiar uma vez mais?
Só sei que nada sei
Dessas minhas incertezas

Gula

Quer um pouco disto ou daquilo?
Talvez mais um tanto deste?
Ou quem sabe pedir mais disso?
Não importa
Você já tem muito a pagar
Pois quanto mais você pede
Mais eu vou te oferecer
Até você se fartar
Mesmo que essa hora não chegue
Eu vou insistir até te matar

Apenas mais uma dose

Droguei-me hoje mais cedo
Com um pouco de sonhos
Injetei direto na cabeça
De um jeito bem hardcore
Pensei em usar música
Mas parti pra poesia
Um pouco de realidade pra compensar
Meti minha cabeça nos jornais
Morte, corrupção e depravação
Acho que está bom
Não posso ser sempre sonhador
Já pensou se começo a voar?

Por dentro

Há um monstro em mim
Que quer você
Não o seu amor
Mas te ter
Roubar teu sorriso e tua paz
Teu calor, tua imagem
E nada mais
Não se importa com teu carinho
Ou se é bem ou mal amado
Só quer te ter ao meu lado
Não há sofrimento
Ou alegria
Apenas o momento de euforia
Um suspiro
E nada mais

sábado, 21 de março de 2015

Um dia eu comi cogumelos

Tem dias que eu resolvo aloprar, escrever o que vier na cabeça e olha lá. Ás vezes porque quero homenagear alguém, ás vezes porque quero satisfazer uma vontade mórbida ou simplesmente porque sim, não há uma boa razão para tudo. E exatamente por isso que tenho textos os quais me orgulho de tão loucos que são. Este, em questão, foi feito para agradar uma grande amiga, daqueles do kokoro, que quero guardar bem no fundo da alma. Saiba, Monichan, que foi com muito carinho mesmo. Te gusto mucho. E aproveitem o texto muito do louco!

ID, Ego e SuperEgo ao resgate!

PLIM! PLOM! PLAM! Três criaturinhas surgiram flutuando ao redor da cabeça dela, uma de asas de borboleta enormes, outro montado em uma vassoura e a terceira em cima de um pires giratório. Todos pareciam assustados com o que estava acontecendo.
- Ei, ei, ei! – disse o rapaz – Mas o que é isso? O que ela está fazendo? Alguém pelamordeDeus me diz o que está havendo.
- Você é tão baka, Tonhonhoin-san. Muito perdido-desu! – disse a garota de cabelos encaracolados no pires – É óbvio, mais do que óbvio, que ela está decidindo a roupa.
- Own, ela fica tão fofinha nesse vestidinho! – disse a com asas – Veja que linda essa cor!
- Eu acho que ela ficaria mó gata com aquele ali ó! – o garoto apontou para um tecido que mal cobria os seios do manequim – Vai por mim, ninguém teria dúvidas pra onde olhar!
- Ah, que rude, Tonton! – reclamou a de asas de borboleta – Assim ela poderia se sentir muito mal!
- Vocês são horríveis pra dar conselhos, nyet! Que vergonha Annabelle! – bufou a no pires voador – Por mim ela pegava aquilo ali, mais aquela bota lá e colocava junto dessa saia aqui e pronto! Estaria ótima!
- Mon cherrie, com essas três peças ela ia parecer que estaria indo pro Carnaval e estamos em outubro. Manera vai! – disse Tonton e então coçou a barba por fazer – Que tal se a gente tentar... só tentar... trabalhar em sincronia?
- Grande ideia, Tonton! – exclamou Annabelle – Eu acho fantástico, não concorda, Monichan?
- É, é... pode ser. Bem, vamos chegar a um consenso aqui. Ela deve ficar atraente, bem vestida e confortável, ok?
- Tudo bem, se por atraente você diz gostosa, bem vestida for com algo que seja do gosto dela e confortável for até onde dá...
- Isso aí, Tonton. Agora... vamos nessa!
As três “fadinhas conselheiras” começaram a circular em volta de sua cabeça, acompanhando seus movimentos pela loja, tentando achar algo que combinasse. Tonton, responsável pelo Id e por toda a moral não tão elevada Dela, buscava por coisas mais exóticas e cheias de cintas, couro e capazes de despertar a libido. Annabelle queria torná-la bela, mas comportada, não exagerar em nada, como avatar do Superego. Cabia a Monichan, o Ego, driblar os dois e pescar só o que seria bom de cada.
- Ei, que tal aquilo ali? Parece bem bom e olha... vai dar um up nesses peitos...
- Relaxa aí, Tonton, que ela precisa conseguir entrar nesse negócio antes... vai morrer asfixiada antes de conseguir se divertir.
- Ah, mas essa blusa é tão bonitinha! Ficaria uma graça!
- É uma festa de aniversário num bar, Annabelle! Não um coral de igreja! Manera!
- Opa! Aquele parece bom! Monichan, que tal?
- Huuuuum... talvez, mas seria preciso...
- Que saia maravilhosa! Eu amaria vê-la numa dessas!
- É, tem um ar legal, quem sabe...
- Essa bota! Orra, precisamos dela!
- Cara, deixa eu pensar...
- Aiai! Que meigo esse laço! Temos que usá-lo!
- Agora chega! Tonton! Annabelle, aqui!
Ambos viraram para General Monichan, que agora utilizava um chapéu militar e estava diante de um enorme mapa da cabeça Dela. O pires voava de um lado para o outro, como se ela estivesse marchando.
- Senhores! Nossa missão é simples, porém de enorme perigo! Devemos escolher a vestimenta apropriada pra Ela e ainda manter alguma classe, estão me entendendo? Nada de ficar apontando boas opções sem analisar o todo e devemos, acima de tudo, ser condizentes com o que Ela quer, certo? – Monichan bateu no mapa bem no meio do que seria a área da “vergonha” – E ela quer aparecer HARD! Então me ajudem aqui!
- Sim, senhora! – disse Tonton batendo continência.
- Senhora Monichan, o inimigo se aproxima! – avisou Annabelle diante de um “radar”.
- O quê? Mas como?
- Aparentemente a vendedora notou nossa presença. Precisamos agir rápido antes que ela invada o perímetro!
- Tonton! Localize o corset que você estava olhando antes e veja se tem preço! Se não, prepare pergunta padrão número um e dois, em sequência!
- Como desejar, general! – Tonton programou as duas e vasculhou em busca de um valor que não localizou e então apertou dois botões.
Ela se virou para a vendedora e abriu um sorriso tímido, lançando as clássicas “Quanto custa?” e “Será que teria no meu tamanho?”. Tonton, Monichan e Annabelle seguraram a respiração até ouvir um “Vou verificar” e então soltaram o ar, relaxando um pouco.
- Monichan... sugiro que preparemos uma alternativa caso a vendedora surja com “outras opções”. – disse Tonton e então olhou em volta – Ei... que tal aquele...
- Não, não, Tonton! Minha vez! Monichan... eu estava olhando e sei que o local pede um pouco mais de ousadia, então pensei em... – e sussurrou algo no ouvido de Monichan que arregalou os olhos.
- Tem certeza de que isso foi ideia sua, Annabelle?
- Ah, sabia que tinha sido exagerado! Desculpe, eu...
- Não, não... adorei! Vamos esperar ela voltar e...
Subitamente a vendedora surgiu diante Dela e começou a enchê-la de perguntas e mostrar “outras opções”. Annabelle apertou os botões certos e as respostas vieram em sequência. A vendedora foi encurralada e obrigada a trazer as peças pedidas e então levou Ela para o provador. Tonton, Monichan e Annabelle ficaram esperando até que ela abrisse a porta e mostrasse a combinação. Os três ficaram boquiabertos e Tonton soltou um assovio.
- Uou! Que gata!
- Ficou maravilinda! Amei!
- Cara... ok... admito... eu pegava...
As três consciências viraram-se umas pras outras e cumprimentaram-se pelo bom trabalho feito.
- Sabe, a gente devia mesmo trabalhar mais vezes juntos! – comentou Monichan.
- Quando quiser, meu amor... tô dentro pro que der e vier.
- Eu ficaria muito contente, Monichan, Tonton.
- Bem... hora de vocês dois irem... deixem comigo por enquanto! E até a próxima!
PLIM! PLAM! Os dois sumiram e a garota do pires continuou ali, acompanhando sua Mestra de um lado pro outro até que sua intervenção fosse necessária.