Pequeno Incômodo
Eu senti a criatura antes de vê-la sair das sombras. Era
pequena, de aparência ignóbil e provavelmente pareceria uma criança escrava não
fosse o fato de ser feita de escuridão. Tomaria por uma ilusão facilmente. Veio
rastejante, as garras esfregando no chão produzindo um som agudo e maldoso. Daria
medo a provavelmente a maior parte dos devotos dessa igreja. Mas não a mim,
principalmente porque de longe eu era mais forte do que ele.
Por seu tamanho e também por parecer um pouco confuso eu o
domei facilmente, colocando meu joelho sobre sua... nuca? E seus braços pendiam
quase imóveis esmagados pelo meu punho. Ele guinchou, aparentemente surpreso
pela inversão de papéis.
- Ai, ui! Larga! LARGA!
- Vejo que fala minha língua, criatura abissal. O que me
espanta mais até do que sua aparição.
- Ai! Solta, seu... seu... padre fajuto!
- Para um diabrete seu vocabulário de impropérios é bem
limitado, não?
- Quer que eu xingue sua mãe? Se for pra me soltar posso até
ofender seus futuros filhos!
- Eu estou morto, imbecil, e não, eu vou lhe manter preso.
- Você não pode fazer isso!... pera... você não pode
mesmo... eu... posso ficar intangível!
E se livrou de mim, voltando a ser um espectro e se
materializando próximo, mas com as mãos levantadas em defesa. Pelo jeito
compreendeu que caso ficasse físico provavelmente eu o pegaria de novo. Mais
esperto do que parece.
- Então... o que você quer em meus aposentos? Imagino que
não tenha vindo para ser humilhado livremente... ou vocês, servos do demônio
podem se dar a esse luxo?
- Sua alma, é claro! Eu poderia fazer um bom uso dela!
- Eu pensei ter perdido a alma quando fui transformado em um
servo de Caim... você está me dizendo que ainda a tenho?
- Mas é claro! Acha que porque agora você rouba a dos outros
você deixou de ter sua ligação espiritual com Deus? É uma alma bem sujinha, mas
por que não? Ela vai servir pra cumprir minha cota!
- Você tem um linguajar estranho... e achei que não pudesse
falar o nome do Senhor, mas bem... não terá minha alma, criaturinha tola. Ela
me pertence e não vou cedê-la a um verme tão infeliz.
- Que maldade! Só porque eu sou pequeno... sofro muito por
isso, viu?
- Oh, como lamento saber...! Agora deixe-me, preciso
terminar uma carta para o príncipe de Yorkshire.
- Vejo que está ocupado, então vou... atrapalhar! – ele
pulou de onde estava para cima da minha escrivaninha, derrubando a tinta sobre
meus papéis – Ah, que desastrado! Veja o que fiz!
- Quer ser capturado novamente, seu imbróglio?
- Que palavra feia, padre! Talvez eu nem precise me esforçar
muito pra ter sua alma.
- Tenho pena de você, demoninho... aparentemente não percebe
sua insignificância. Se quiser me incomodar, fique à vontade, mas se ficar ao
alcance da minha mão, parto-lhe em dois. Não desafie um brujah.
- Ah, que medo... epa!
Saltou antes que eu pudesse pegá-lo, mas ficou muito mais
atento e também recolhido. Suas costas pareceram se fundir às sombras, como se
fosse se tornar uma delas.
- Quase, padre!
- Eu lhe avisei.
- Ah, padre... não faça isso... vamos, temos que ser
amigos... eu vou roubar sua alma algum dia.
- Precisará se esforçar muito para isso, janota.
- Ei, o que eu disse de palavras feias?
- Percebo que você não é muito culto, Astolfo.
- Como é?
- Se pretende continuar me perseguindo e não posso me livrar
de você... apesar de que talvez eu ainda possa realizar um exorcismo... então
quero lhe nomear. Sabe, nomes tem poder.
- Astolfo?
- Exato.
- Tá de sacanagem, né chefia?
- Se compreendi bem, sim, você merece um nome ridículo para
acompanhar essa forma.
- Você diz... assim?
Astolfo se moldou, crescendo exponencialmente e ocupando um
espaço maior da cela, mas não o suficiente para eu não perceber o truque. Sua
constituição me pareceu a mesma, um tanto ampliada e portanto apenas ilusória.
Falsa. E fraca.
- Continua servindo muito bem, Astolfo. Agora, saia de meus
aposentos.
- Eu vou lhe esmagar, seu humano inútil!
- Nem que realmente houvesse ficado maior.
- Quer tentar! – e derrubou alguns livros meus – Vê?
- Regna terrae, cantate deo, psállite dómino...
Em instantes ele havia sumido, desaparecido completamente.
Mas algo me dizia que ele voltaria para me atormentar em outro momento. Peguei
outro pergaminho e uma nova pena com um tinteiro e voltei a escrever minha
correspondência. No fundo, por mais chato que ele pudesse ser, ainda era
insignificante demais para eu me importar. Por hora.