segunda-feira, 22 de julho de 2013

Gosto de Infância

Foi a Ann que me surgiu com essa frase e eu adoro como ela realmente soa bem, lembra daquele achocolatado vendo Jetsons ou da pipoca no cinema enquanto via Toy Story. Ok, talvez não fosse exatamente falando da comida, mas de ter em mãos ou rever alguma coisa que fez parte da nossa infância, uma lembrança gostosa e divertida. Então é por isso que trago aqui hoje uma pequena resenha de Laços, minha mais recente aquisição pra minha biblioteca de histórias em quadrinhos especiais. O que vocês vão ler é a empolgação de uma criança que de repente pode reassistir seu filme favorito. Embarquem comigo nesse feeling.
 
Laços
Desde o dia em que conheci o Puny Parker, em uma página que já não lembro mais, eu fiquei com inveja do dom de Vítor Cafaggi em desenhar histórias suaves, com personagens profundos e dilemas instigantes. Acompanhei todo o percurso até nosso herói da vizinhança mirim terminar sua saga, e segui pelas atrapalhadas do cachorrinho Valente, que parece não dar uma dentro. Eu realmente passei a admirar este autor e quando vi suas páginas com o Chico Bento no primeiro especial de 50 anos da MSP eu só pude pensar em quando esse gênio poderia publicar algo do tipo em um título próprio. Essa espera acabou com Laços.

Devo dizer, eu já conhecia Vítor, mas também me surpreendi com sua irmã, Lu, que entrega uma historieta, uma lembrança do primeiro encontro entre Cebolinha e Floquinho, de encher aos olhos. Laços é aquilo que eu estava esperando e mais um pouco. Na primeira vez em que bati os olhos no anúncio, logo após Magnetar, com o personagem Astronauta, se tornar um sucesso, o primeiro do selo novo da MSP, eu já esperava uma aventura oitentista, ao estilo Goonies, que me divertiu muito quando criança e ainda me empolga hoje. O que recebi foi mais ou menos isso, e muito bom.
Como não se encantar com essa fofura?

Não se enganem, Laços é realmente uma história da Turma da Mônica, com o quarteto que se tornou tão famoso a ponto de ser publicado em inglês e em espanhol e que gerou milhares e milhares de produtos, de brinquedos a filmes para o cinema. Mas ainda assim, a marca dos Cafaggi brilha em cada quadrinho, em cada balão. A trama é simples, como devem ser as histórias para crianças que também divertem aos adultos. Após mais um plano infalível fracassar miseravelmente, Cebolinha descobre que seu cãozinho fugiu, e se reúne à Mônica, Cascão e Magali para resgatá-lo, acabando por se meter em encrenca das grandes.

Tanto o traço quanto as falas e também os easter eggs espalhados pelos quadros, como os brinquedos do Careca, conseguem encantar, nos brindando com diálogos excepcionais e tiradas de fazer gargalhar do Cascão. Aliás, cada um dos quatro personagens parece elevado à infinitésima potência, se tornando tão diferente das versões gibis quanto parecido com a essência do que eles são. Cebolinha não é só o moleque levado dos filminhos que assistia quando criança ou dos gibis que devorei e devoro até hoje, mas também o gênio no qual os outros confiam, com a capacidade de liderança que precisa para tirá-los da enrascada. Já Mônica é tão delicada quanto forte, e mesmo em seus momentos de explosão, dá pra ver a meiguice da menina que não consegue controlar seu temperamento, mas adora seus amigos e faria tudo por eles. Cascão é o sujinho matreiro com espírito de porco que faz piada quando não deve e por isso mesmo é tão engraçado e camarada, sempre ao lado do amigo de cinco fios. E Magali, bem, ela é talvez a personagem que mais me apaixonei nessa história, já que não é preciso que ela diga muito, sempre sabendo o que fazer para ajudar a melhor amiga e quando ou onde deve se meter, e comendo de forma extraordinária.
Os outros personagens são também cativantes, cada um com características especiais, principalmente o “pai” da Mônica em participação especial e mais do que merecida. O trato dado ao encadernado foi formidável, com capa dura e páginas lindas, feitas com material muito resistente, o que me surpreendeu pelo valor cobrado, de 29 dilmas. Foi o suficiente para que eu saísse da banca com a revista em quadrinhos nas mãos, feliz da vida pela aquisição. Eu sugiro que façam o mesmo, não irão se arrepender.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cinema e RPG

Novamente, no meu quase ritual, fui ao cinema quinta com as lindas e maravilhosas Ann e Ari, o que me rendeu um programa muito melhor do que esperava. Acabei fazendo uma resenha obrigatória porque eu precisava falar desse filme. Leiam e aproveitem que ao final tem mais uma curiosidade, ok? Até mais!

O Cavaleiro Solitário

Devo admitir: As impressões com a recepção de O Cavaleiro Solitário ao redor do mundo e aqui no Brasil não me fizeram empolgar quando escolhemos ver este filme, mas o resultado foi bem diferente do que eu esperava. Devo avisar que podem haver alguns spoilers, mas em um filme que é feito pela mesma equipe de Piratas do Caribe e é um Disney, isso não é exatamente um grande problema, certo?
A começar, posso dividir o filme de duas formas: Como cinéfilo, há grandes chances de você não gostar do filme, pelos excessos, pelas respostas não tão boas do roteiro e principalmente por algumas atuações meio engessadas. Já como filme pipoca, é um excelente programa para o dia de promoção do cinema, com espaço pra empolgação e muitas risadas, e eu digo muitas mesmo, por praticamente todo o elenco.
 
Nas palavras de Ann, o tom do filme se classifica por comédia a partir da cena da banda que toca perto do final, ali se condecora todo o empenho em fazer rir, o que não é um demérito. A trilogia de Piratas (porque o quarto filme é bem mais sério) se marca pelo alívio cômico dos piratas da tripulação de Jack Sparrow e o próprio, que consegue tirar humor de tudo e todos, principalmente quando está em perigo, ao estilo do que Johnny Depp faz com Tonto.

Ok, mas qual a história? John Reid (Armie Hammer) é um advogado recém-formado que volta para sua cidade natal no mesmo trem que está o bandido mais perigoso do Texas, Butch Cavendish (William Fichtner, praticamente irreconhecível). Em uma fuga alucinada, o caminho de John cruza com o de Tonto e o advogado cria antipatia pelo índio, o que é recíproco. Mais a frente, quando uma emboscada deixa o novo ranger (que ganha sua estrela praticamente de graça) às portas da morte, é o amalucado índio quem o traz de volta... Bem, na verdade é um cavalo branco, mas com a ajuda de Tonto. Com isso, John Reid se torna o Cavaleiro Solitário, uma lenda do velho-oeste e parte em busca de justiça, o que descobre não ser tão fácil assim.

Há muito o que se falar sobre esse filme, mas foquemos nas atuações dos três personagens principais dessa crônica, ou melhor, quatro se contarmos o garoto pra quem Tonto está contando a história: Armie Hammer é um ator afetado, e isso reflete no seu John Reid, que demora para se tornar realmente um herói. Não é bem um problema, mas fica meio difícil dividir a tela com Depp se você não consegue se tornar querido pelo público, e ele se esforça em fazer isso o tempo todo. Suas discussões sobre justiça e o modo certo de fazer tudo não precisam fazer sentido neste universo, mas são o que define sua personalidade. Já Johnny Depp entrega outro personagem Johnny Depp e sua atuação é quase automática. Ainda assim, não há como desgostar de Tonto, que rouba várias das cenas em que aparece, mas que talvez tenha sido suavizado para não fazer como na trilogia que tornou a parceria Verbisnki/Depp/Bruckheimer famosa (para constar, diretor, ator e produtor de Piratas). Sua versão futura, já velhinho, e sua conversa meio truncada são fantásticas e arrancam ótimas risadas de quem assiste.


Já Fichtner se entrega TOTALMENTE ao vilão Butch, desde suas manias até mesmo sua voz maldosa. Acho que nunca vi, em nenhum momento, um personagem tão terrível quando o dele neste filme, e isso porque ele não é indefectível, mas realmente bom no que faz. O tempo todo ele demonstra sua maldade, ao atirar em quem quiser, ter a fala mansa de quem já beijou a morte e também de fazer o que quiser. Porém, se precisasse elencar um problema é a instabilidade do personagem, que parece ser uma marionete o tempo todo, culpa de um roteiro muito extenso. Por fim, o pequeno Will (Mason Cook), cujo nome eu só descobri ao olhar no IMDB, faz uma boa dupla para Tonto, interferindo aqui e ali na narração para fazer perguntas óbvias que o público também faria, tamanho buraco na história, mas que geram boas cenas e conseguem solucionar alguns velhos breaks que Verbinski pegou mania de fazer, adivinha?, em Piratas do Caribe.

Bem, talvez seja injusto citar Helena Boham-Carter logo aqui, em que sua personagem, Red, apesar de importante, não faz mais do que mera figuração, quase aparecendo tanto quanto outros personagens menores, como o cacique dos Comaches. Mas é fato que estar novamente ao lado de Johnny Depp evidencia a química entre eles, principalmente nas rápidas trocas de olhares que não fazem muito sentido entre o índio e a meretriz. Por outro lado, apesar de tentar, não dá pra dizer se existe realmente alguma ligação entre John Reid e Rebecca Reid (Ruth Wilson), o que dá pra se relevar considerando os dramas dos dois, mas é realmente um ponto chato de se reparar.

Juntando tudo temos uma ótima aventura que se tem um pecado é ser longa demais, com detalhes demais. Quando apareceram os chineses eu fiquei pensando em que diabos estavam metendo o Cavaleiro Solitário. Mesmo assim, por conta de cenas como Silver no celeiro e o mesmo maldito cavalo na mina, vale muito a pena assistir esse filme. Verbinski cria sua própria versão do Cavaleiro Solitário, usando pouco da ideia original e nos dando uma comédia com muito heroísmo e batalhas marcantes. Recomendadíssimo.
...

Como denunciei no título da postagem, há ainda um ponto a ver com RPG. É que essa semana eu vi muita gente postando no face um link para uma LONGA PRA CARAMBA lista de perguntas que te diria qual seu personagem em D&D, com detalhes de classe, raça, tendência e até nível com distribuição de pontos. Eu gostei tanto do meu resultado conseguido com MUITO suor que resolvi trazer aqui pra compartilhar. Quem quiser fazer também, o link é esse aqui.

PS: É em inglês pra quem estiver interessado.

I Am A: Chaotic Good Human Bard/Sorcerer (2nd/1st Level)

Ability Scores:
Strength-13
Dexterity-11
Constitution-11
Intelligence-15
Wisdom-15
Charisma-13

Alignment:
Chaotic Good A chaotic good character acts as his conscience directs him with little regard for what others expect of him. He makes his own way, but he's kind and benevolent. He believes in goodness and right but has little use for laws and regulations. He hates it when people try to intimidate others and tell them what to do. He follows his own moral compass, which, although good, may not agree with that of society. Chaotic good is the best alignment you can be because it combines a good heart with a free spirit. However, chaotic good can be a dangerous alignment when it disrupts the order of society and punishes those who do well for themselves.

Race:
Humans are the most adaptable of the common races. Short generations and a penchant for migration and conquest have made them physically diverse as well. Humans are often unorthodox in their dress, sporting unusual hairstyles, fanciful clothes, tattoos, and the like.

Primary Class:
Bards often serve as negotiators, messengers, scouts, and spies. They love to accompany heroes (and villains) to witness heroic (or villainous) deeds firsthand, since a bard who can tell a story from personal experience earns renown among his fellows. A bard casts arcane spells without any advance preparation, much like a sorcerer. Bards also share some specialized skills with rogues, and their knowledge of item lore is nearly unmatched. A high Charisma score allows a bard to cast high-level spells.

Secondary Class:
Sorcerers are arcane spellcasters who manipulate magic energy with imagination and talent rather than studious discipline. They have no books, no mentors, no theories just raw power that they direct at will. Sorcerers know fewer spells than wizards do and acquire them more slowly, but they can cast individual spells more often and have no need to prepare their incantations ahead of time. Also unlike wizards, sorcerers cannot specialize in a school of magic. Since sorcerers gain their powers without undergoing the years of rigorous study that wizards go through, they have more time to learn fighting skills and are proficient with simple weapons. Charisma is very important for sorcerers; the higher their value in this ability, the higher the spell level they can cast.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tirando a poeria dos sapatos

Acho que é a terceira vez que posto esse texto, a segunda em um blog. Da outra vez, eu tive uma experiência muito tranquilizante de conseguir publicar um conto que mexeu tanto comigo. Espero ter o mesmo dessa vez, apesar de pelo motivo diferente. Eu realmente gosto da ideia de que ás vezes possa pegar textos antigos e eles ainda tenham validade, principalmente ESTE, que hoje continua tão romântico e belo... Pelo menos pra mim. Então, dedico-o a todos os apaixonados, loucos ou não, tolos ou não, ou que simplesmente estejam a fim de ter um romance, por mais bobo que ele seja. E sejam felizes. Para acompanhar, a música que me inspirou.


All Star

O quarto bagunçado. Os lençóis jogados no chão. O ventilador se mexendo lentamente. O som tocando baixo uma música dos anos 90. O All-Star azul, único objeto verdadeiramente colorido, depositado sobre a cômoda, um alienígena organizado em meio ao caos. Dois corpos estirados ao chão, quase imóveis, descansam. Ele é quem abre os olhos primeiro, focalizando o tênis e sorri.

O sol a pino e os cadernos sobre a mesa não eram a melhor combinação para aquele final de ano. O pior era manter a concentração com a mente ocupada em outro lugar. Naqueles All-Star azuis, surrados mas ainda belos, que haviam dominado seus pensamentos nos últimos tempos. Aliás, o All-Star era apenas o prenúncio daquele pequeno e delgado corpo claro, revestido com a calça jeans e a camiseta de uniforme, completado pelos negros cabelos caindo pelas costas. Todo o conjunto pulava de cena em cena dentro da cabeça dele, sem dizer uma palavra, apenas acenando ou dançando conforme a música. Bufou tentando lembrar mais uma vez da fórmula para encontrar o cosseno tendo o seno.
O barulho do sinal avisando do final da terceira aula lhe despertou de qualquer devaneio. Sabia que aquilo significava menos chances ainda de conseguir manter a atenção no caderno de matemática. ELA estaria descendo a escada em instantes, feliz com a possibilidade de ficar ao menos vinte minutos longe das carteiras de madeira, superaquecidas pelos 32º que registrava o termômetro do outro lado da rua. Desistiu definitivamente de continuar tentando e guardou, sem pressa, o material na mochila velha. O ano de diferença que separava os dois é que definia que ele teria dois turnos no colégio, ao invés do único dela, pela manhã.
Saindo pela porta da biblioteca levou um susto ao reconhecer duas vozes que dobravam a esquina. Pegou o fiapo de um final de conversa.
- ... passo na sua casa hoje. É na rua das Laranjeiras, não é? Que número e andar?
- 507. Eu moro no 1204. É só tocar que eu desço. Não esquece de levar o xerox dos textos de português.
- Tá, mas...
Não conseguiu continuar ouvindo. Elas tinham virado a esquina e ele se deparou com aqueles dois grandes olhos... Azuis como o All-Star. Perdeu-se no mar ali contido. Sentiu o rosto ficar vermelho quando eles lhe fitaram e desviu a vista, só para olhar de canto de olho em seguida e encontrá-los novamente, apenas para eles desviarem agora. Elas seguiram e ele as acompanhou, desviando o olhar para aqueles All-Stars que tanto lhe atraiam. Claro que não percebeu que ela olhou para trás mais uma vez, muito menos que ela sorriu de leve.
Sabia onde morava, sabia qual era seu apartamento. Puxa! Até sabia o que ela faria à tarde! Mas... O que fazer com isso?

Ironia ou não, em breve as informações forem úteis. Os três anos do médio iam participar de um evento fora do estado e ele fora, sumariamente, escolhido para a comissão. O que ele não sabia antes de ficar brabo com a decisão é que ELA também era da comissão. Por causa da coincidência eles teriam que se encontrar. Só que ela ficou doente. O bastante para não ir ao colégio. Teria que ir até a casa dela. Entendeu?
Tremendo ele checou novamente o endereço anotado em uma folha de caderno. A rua das laranjeiras era pacata, mais residencial do que comercial, com apenas dois prédios em lados opostos. Um cinza, antigo e mal-cuidado, e o dela, imponente em seus doze andares. Óbvio que ela morava na cobertura! Onde mais seria? Ele pensou duas vezes. Quem sabe não deveria esperar que ela melhorasse? Quase deu meia-volta, correndo para o ponto de ônibus. QUASE.
Entrou no elevador, apertando com nervosismo o botão do elevador. Enquanto subia pelos doze andares ele sentiu que não era o calor que o fazia suar. Muito menos o tremelique do elevador que não o deixava quieto. Assim que a porta abriu achou que deveria voltar para buscar seu estômago lá no térreo. O curto corredor parecia quilométrico enquanto andava até o 1204. Tocou a campainha. A porta abriu.
- Ei! Que surpresa! - disse ela com a voz anasalada - A Tânia me contou que você foi o escolhido do terceiro ano. Que sorte, hein?
Ele paralisou. Ela vestia uma camiseta jogada, azul como seus olhos e o tênis, que agora não calçava. Mesmo usando calças moletom e com aquelas olheiras de cansaço ela parecia linda. Diabos, como alguém pode parecer linda doente?!?
- Ah... É. Por isso... Eu vim aqui... - e sentiu vergonha de continuar - E para ver como você estava.
- Puxa, obrigado! Ah, entre! Desculpa, eu fico muito desligada quando gripo. - ela riu sem graça - Meus pais não estão em casa, mas a Júlia, nossa empregada, está na cozinha.
- Eu achava que você tinha um irmão. - deixou escapar e se amaldiçoou pela enorme boca.
- E tenho! Só que ele passa o dia quase todo na faculdade. Sabe como é, trabalhos, namorada e essas coisas.
- É, imagino. O terceiro ano já é bem puxado.
- Vamos pro meu quarto, é mais sossegado. - e ele pensou o que seria mais sossegado do que aquela enorme e silenciosa sala? Preferiu ficar quieto.
O quarto dela era tudo que ele não pensava. Haviam pôsteres de bandas de rock nas paredes, a cama era bagunçada e o armário era marfim com azul ao invés de rosa. Será que ela não errou de quarto com o do irmão?
- Não estranha não. Eu não sou muito arrumada mesmo. - ela disse e se jogou na cama. - Sobre o que você veio falar?
Engasgou, pensou, engasgou de novo, revirou os olhos, pensou se seria possível engasgar uma terceira vez e acabou soltando um suspiro.
- Tá, admito derrota. Não sei exatamente nada sobre o assunto. - enrolou.
- Ok, você tá perdoado. Eu também não sei. - ela riu.
- Eu pensei que você fosse me dar uma luz. - ele arriscou, aproveitando a deixa.
- Só se for uma lanterna vagabunda que eu tenho em algum lugar daquele armário. - ela retrucou e ele não conteve o riso.
- Então somos dois perdidos. E agora?
- Você tem que perguntar tudo pra mim? - ela fingiu indignação. - Certo, tudo bem, temos que fazer alguma coisa ou serão três turmas para esganar a gente. Seis se contarmos as dos outros períodos. Aliás... Não deveria ter vindo mais gente com você?
Pronto! Encurralado! Que desculpa ele iria dar? Péssima idéia de vir ali despreparado. Óbvio que ela ia perguntar dos outros!
- Ahn... O pessoal... Da tarde vai se organizar entre eles e depois vêm falar com a gente. - escapou de uma - E... Eu não conheço o guri do primeiro ano, então... Não consegui falar com ele e esperava que você o conhecesse. - mentiu.
Ela pareceu ponderar a questão, erguendo a sobrancelha como ele só pensava que se fizesse em filmes. Por fim, ela sorriu.
- Fugindo do dever hein? Bem... Realmente seria chato ter muita gente aqui comigo nesse estado.
- Você não está nada mal... - ARGH! Cianureto por favor!
- Brigada. - Respondeu ela corando um pouco.
Instalou-se o silêncio enquanto ele procurava observar o quarto inteiro para não olhar diretamente para ela. Sem perceber, ela fazia o mesmo, encarando os pés dele. Só depois de um tempo é que ele notou os All-Star azuis, distintos do quarto, postados aos pés da cama. Preparou-se para um comentário quando ouviu ela rir baixinho. Fez cara de quem não entendia.
- Ah... É só que... Eu reparei nos seus tênis... All-Stars. Como os meus. - ela disse, enrolando um dedo no cabelo liso.
- É... É moda agora né? Juro que comprei antes de todo mundo usar! - ele brincou, erguendo as mãos. Ela sorriu.
- Acredito. É um modelo clássico. Mas... Cano alto?
- Eu gosto. É diferente. E aquece mais quando tá frio.
- Mas é um saco no verão... Tipo agora!
- É sim...
- Seus All-Stars combinam com os meus. - ela disse de repente, de cabeça baixa.
- É? Não tinha percebido. - ele murmurou.
- Sabe... - ela começou ainda sem olhar para ele. - Você é legal.
- Va-valeu. Você também é bem legal.
Ele havia ido para a frente, insconscientemente, e eles estavam pertos... Até demais. Ele podia sentir o calor do corpo dela, acreditando que era por causa da gripe. Talvez febre. Ela sentia que ele suava frio, e achou que fosse pela temperatura do ambiente seco. Ergueu os olhos e acabou hipnotizando-o, sem querer. Lambeu os lábios e engoliu em seco.
Ele foi para a frente, completando o trajeto e eles se encontraram por instantes. Longos instantes. Sabor de sal, ela pensou. Parece... O mar. Se afastaram, arfantes. Ela mais do que ele. Eles se encararam, incrédulos, tremendo de leve. Ela caiu de costas, o peito subindo e descendo agitado. De repente ela sentiu falta de ar. Se ajeitou na cama e olhou para ele com os olhos semi-cerrados.
- Desculpe... É a gripe. - ela sorriu.
- Tudo bem. Você tem que descansar. Eu... Já estou de saída. A gente conversa amanhã?
- Claro. A gente se fala amanhã. Eu não te dou um beijo... - ela começou e engasgou - No rosto quero dizer!... Porque... Bom, cê tá vendo como eu estou!
- Fica tranquila. Inté.
E ele saiu. Sozinha no quarto ela suspirou.

No intervalo ele saiu mais depressa da biblioteca do que nunca. Tinha visto que ela viera para o colégio e parecia bem melhor. Queria (TINHA) que encontrá-la. Curioso: Foi vê-la debaixo da laranjeira da escola, sentada na sombra com aqueles mesmos All-Star azuis se destacando das roupas quase monocromáticas. Sentou-se ao seu lado com estrondo, quase fazendo com que ela pulasse.
- Você quer me matar como a gripe não fez é? - ela brincou.
- De jeito nenhum! Eu só queria saber como você estava.
- Bem melhor. Eu consegui dormir bastante depois que você saiu. E o remédio fez efeito.
Eles se calaram, olhando as pontas dos pés.
- Ahn... Quer voltar lá em casa hoje? - ela perguntou, acanhada, abraçando o próprio tronco.
- Pode ser... Pra quê?
- Me fazer companhia oras! Eu ainda estou convalescente!
- Ah sei...
- E também... Pra gente terminar aquele assuntou de ontem.
Ela ficou vermelha e ele entrou na competição. Mesmo quem estava de fora perceberia que os dois estavam mais do que envergonhados.
- Então... Eu tenho que ir. Marquei de conversar com algumas amigas para tirar umas dúvidas já que estive doente. Té mais tarde!

Quando entrou na Rua das Laranjeiras ele não estava só nervoso. Sorria por dentro e por fora, ansioso. Entrou no prédio voando. O elevador pareceu lerdo e tocar a campainha foi um sufoco. Foi ela quem abriu hoje também. E estava melhor do que ontem. Sem as olheiras, vestia uma camiseta mais leve, de banda, uma calça jeans, não aparentando nada ser a gripada do dia anterior.
- Oi. - disse ela de forma muito delicada, talvez um pouco tonta.
- Oi. Calor hein? - ele disse.
- Pois é. Quer entrar? Não... Desculpa, pergunta idiota. Entra aí.
Dessa vez ela não disse para irem para o quarto. Já estavam lá quando ele pensou no assunto. Ela se sentou na cama de novo e ele foi para a cadeira. Ficaram quietos, sem saber o que dizer. Ele reparou que os All-Stars não estavam aos pés da cama e estranhou. Onde ela teria colocado? Como que lendo sua mente ela riu e apontou para a cômoda. O par estava ali, como um troféu.
- Achei que ele merecia um lugar de destaque... Depois do efeito que teve ontem...
Foi a senha que ele esperava. Encurtou o espaço entre eles e caiu de joelhos. Ela riu, mas sem interrompê-lo. A altura dos dois atrapalhou um pouco então ela também foi para o chão, de joelhos. Deitaram, sem querer puxando os lençóis e ficaram assim por um tempo. Pararam para respirar.
- Por... Quê? - perguntou ele.
- Não sei. Mas eu senti vontade ontem e hoje ela só aumentou. Parece que... Fiquei com sede de você.
Ele riu. Fecharam os olhos curtindo-se por um tempo. Ele foi o primeiro a abrir, focalizando os danados dos All-Star azuis. Sorriu.

sábado, 13 de julho de 2013

TAG: Conhecendo o blog

AVISO: Esse era um texto de ontem que eu trouxe para hoje com o meu DeLorean. Por conta disso, alguns links do final SUMIRAM, ou seja, só sobraram cinco recomendações! Ai, que droga...

Conheço essas correntes de tempo, mas como nunca fui marcado (ou se fui, não percebi, ixi!), também nunca precisei compartilhá-las, mas fico honrado em estar aqui dessa vez passando adiante! Claro, culpa da minha noiva, aquela destrambelhada da Ann que resolveu me incluir na brincadeira. Então, aqui vamos nós, mas primeiro...

As Regras

* Os blogs participantes devem responder 11 perguntas;
* Estes terão que indicar 10 blogs;
* E os escolhidos devem ter poucos membros, pois essa tag sugere que blogs menores possam ser mais conhecidos.

As Perguntas

1) Como escolheu o nome do blog?
Foi tão difícil quanto fácil. Difícil porque a escolha de palavras demorou mais tempo do que a ideia que queria passar, e pra variar ficou ENORME (desculpem por isso!). Mas também fácil porque a temática tinha que refletir uma imagem que venho construindo há algum tempo. Agora, se a ideia funcionou, aí são outros trezentos...

2) Quanto tempo se dedica ao blog?
Muito menos do que gostaria, MESMO, mas mais do que já me dediquei a outros projetos, principalmente porque é mais tranquilo postar aqui. Atualmente estou em uma a duas postagens por semana e espero que ainda esteja assim em, sei lá, Agosto?

3) Já teve algum problema com comentários de anônimos no blog? O que?
Tenho tão pouco comentário que isso seria um milagre! Tá, sem xororô, acho que os anônimos sem graça ainda não encontraram o meu blog pra zoar então por enquanto sou livre desse problema.

4) Pretende mudar algo no blog em 2013?
Já mudei layout, um pouco da proposta, mas principalmente vou viver mudando ele pro que necessitar, quero que ele seja eternamente essa metamorfose ambulante.

5) Já ficou sem inspiração para postar? Como superou isso?
Não superei, acabei ficando semanas longe dele. No fim, foi um improviso que gerou a volta e gostei, porque deu outro tom à brincadeira. De vez em quando me acontece, espero que cada vez menos.

6) O que gosta de fazer quando está no computador?
Muita coisa, desde ler e escrever, a jogos de computador, o que me consume muito tempo. Na realidade, por gostar de trabalhar COM ele, passo tempo demais, e nesse tempo acabo minerando vários links legais que distribuo. Com isso tenho muita cultural aleatória e divertida.

7) Quantos livros você lê por mês?
Já li até três ao mês, hoje leio um com sorte.

8) Quantos blogs visita todos os dias?
Perco a conta, principalmente porque vários deles não são marcados como blogs nos meus favoritos e acabo nem percebendo até linkar e aparecer Blogspot, Wordpress e coisas assim.

9) Qual blog visita todos os dias?
No mínimo os que têm atualização mais frequente, como as tirinhas do Um Sábado Qualquer e nem tão frequentes assim do Puny Parker.

10) Quanto tempo você está na blogosfera?
Oficialmente desde 2006, na faculdade, mas com este projeto e tentando torná-lo melhor, desde 2012.

11) Você se inspira em outro blog? Qual?
Muitos, mas sem pensar no assunto. É que qualquer coisa que eu ache divertida eu acabo marcando pra usar depois, e ás vezes esqueço de onde vieram.

Os Blogs
PS: Estou linkando para que conheçam, eles não são obrigados a participar. Saavy?
Futurantiqua
Manual Prático de Bons Modos em Livrarias
O Leiturista
Quiet Things That No One Never Knows
Blog do Amer
Diário de Bordo do Youkai
Eletrônica Cia dos Games 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma bela imagem

Eu não tinha NADA preparado pra hoje, nem ao menos uma linha que pudesse me dar um texto descente. Mas daí, subitamente, uma Wild Ariana me aparece com uma imagem que simplesmente desperta uma ideia que não poderia perder e dá-lhe página em branco do Word! Conclusão? Um conto novo, quentinho, para vocês aqui. E é um que eu realmente gostei de fazer. Espero que gostem! A imagem que gerou tudo está ao fim do texto e vocês vão entender o porquê.

A Mulher na Cripta

Noites de tempestade são extremamente desagradáveis, e não falo isso por ser um adepto de sair e me divertir, mas porquê trabalho com filmes e não há nada pior do que gravar de noite e ficar com medo de a energia acabar e nos vermos com horas de trabalho perdido. Seria mais simples se tivéssemos um bom orçamento mas, já que filmamos terror quase classe C, então não posso mesmo pensar em ter um estúdio e equipamento de ponta. Fico muito feliz por ter uma câmera e bastões de luz suficientes para conseguir fazer uma cena no meio do cemitério.
A tal cena, aliás, é o grande problema. A chuva cai e já inunda tudo do lado de fora do mausoléu que invadimos para filmar e eu acho que os cabos, que o nosso único técnico de filmagem, som e qualquer coisa que não seja principal, colocou em cima de alguns túmulos, já devem estar debaixo d’água, então em breve é capaz de eu acabar me juntando aos defuntos por eletrochoque. E pra finalizar, nossa atriz principal está fazendo doce no “camarim” improvisado, uma tenda que conseguimos montar no morrinho do lado de fora.
O rolo é com o maldito figurino e eu sempre soube que ele causaria atrito entre ela e o roteirista depravado que o diretor arranjou. Desde o primeiro dia ele veio com ideias que envolviam mulheres nuas, cenas de soft porn, sangue tipo catchup, cabeças decapitadas e um vampiro carniceiro, do tipo que faria Freddie Krueger se orgulhar de ter como professor. Era mais do que o necessário para a namorada do técnico, que foi a única garota a aceitar se meter nessa treta, começar a ter chiliques e ameaçar desistir várias vezes.
Agora ela estava lá, sendo convencida pelo namorado super seguro de que aquele biquíni obsceno tampava o suficiente para ela poder vestir branco quando casassem e que estava tão escuro que era capaz de ninguém notar que era ela. Eu confirmo essa informação, com a precariedade do material e a maquiagem enjambrada, eu poderia dizer que era a Madonna ou a Adele sem medo de errar. E claro, não me importaria em descobrir o que há por trás dos dez quilos de roupa fechada que ela usa. Dependendo do caso, poderia valer todo o esforço.
- Ei, John. – me chama o diretor. – Vem cá um minutinho?
- Fala, Arthur. – respondo, me aproximando, e percebo que ele treme muito.
- Cara, me quebra um galho? Acabei de ouvir, houve uma espécie de acidente perto de casa. Duas gangues brigando, algo assim. Pessoas ficaram muito feridas. Meu pai é policial, ele tava de ronda... Eu preciso ir...
- Claro! Vai lá! A gente pode parar a filmagem, não fica...
- Não! Paguei muito caro no aluguel, a guria tá quase caindo fora e se a gente sair agora, capaz de não conseguir invadir isso outro dia. Precisa ser agora!
- Tá, tá, eu faço tudo aqui. Só leva aquele maluco do roteiro junto pra te dar uma mão. Senão é capaz de eu encher ele de porrada.
- Tudo bem, valeu, você é um grande amigo.
E sai levando o Abraham juntos. Acabamos ficando só eu, o técnico e a namorada dele. Começo a arrumar tudo, imaginando o que poderia dar errado ou quanto tempo mais eles iriam demorar quando escuto o som de abrindo a porta e o barulho do vento lá fora. Não há nenhum passo na escada, mas eu consigo escutar o som de véus arrastando nos degraus. Quando me viro, me deparo com uma Lúcia completamente paramentada, em um biquíni que faria as garotas daqueles programas de tevê corarem e um roupão transparente que não deixa dúvidas a como ela é gostosa. Engulo em seco e ela sorri, e é um sorriso lindo. Paro pra pensar em como o técnico é sortudo, em como ela faz pra esconder tudo isso e em que estamos sozinhos, o que é extremamente perigoso. Até os caninos falsos ficaram perfeitos.
- Ok, vejo que está pronta. Podemos começar? – e ela concorda muda. – Como a gente disse antes, essa é uma cena simples. Você precisa andar pela cripta, parar na frente do caixão que está ali e começar a chorar. Eu vou cortar, mudar o ângulo e mostrar lágrimas de sangue que eu tenho aqui no bolso. Não vai doer nem nada, é só um corante pra derramar perto dos olhos. Aí paro de novo, você dá um berro e fechou por aqui. As externas a gente pode filmar depois, e você não precisa aparecer. Fechou?
Ela simplesmente abre outro sorriso que me deixa desconjuntado. Que mulher maravilhosa, e aquele namorado nada ciumento não estava agora ali para aproveitar a visão. Tá, tudo bem, provavelmente ele a veria depois em casa e acho que o biquíni vai acabar ficando pra eles, mas... Nada vai me estragar o momento. Levanto a câmera e ela faz seus movimentos, muito suaves, parando exatamente no ponto certo. Não precisaríamos repetir a cena. Em seguida eu mudo de posição para colocar as lágrimas falsas e esbarro em sua pele, gelada, provavelmente pelo tempo ruim.
- Desculpa mesmo pela escrotice do Abraham. Vou falar pro Will que ele nunca mais deve escrever nada pra gente. É só que agora... Não dá pra mudar, entende?
Pelo olhar ela deixou de ligar há muito tempo e até mesmo parece estar se divertindo. Minha mão acaba deslizando pela face dela e fico parado, alguns segundos, o que provavelmente vai render comentários depois dela com o Morrisson. Afasto-me e gravo aquelas lágrimas falsas escorrendo e elas demoram tanto pra descer e parecem em tanta quantidade que até me assusto, como se ela estivesse chorando de verdade. E mais uma vez troco de posição e a filmo gritando, e o que vem em seguida nunca mais vou esquecer. O grito é como o de uma banshee e posso dizer que até mesmo quem estava longe do cemitério pode ouvir. É profundo, amargurado e realmente triste.
E finalmente, as coisas ficam estranhas de vez, mas não paro de filmar. O caixão simplesmente se abre e sai alguém de lá, e é um homem. Nesse momento eu estou pensando em como esses filhos da puta armaram para cima de mim e colocaram o Morrison lá dentro sem que eu visse e agora estavam me deixando morrendo de medo. Ele puxa Lúcia para si e dá o beijo mais arrepiante da minha vida, que me deixa aterrorizado e excitado ao mesmo tempo. Eles se afastam e ela vem até mim e também me beija, mas mais delicada, como uma despedida. Em seguida eles saem, e eu posso jurar que a tempestade parou por um segundo e escutei risadas macabras. Eu demoro muito tempo pra me mexer e desligar a câmera e então subir as escadas correndo.
Lá fora a chuva é torrencial, posso ver os clarões ao longe onde caem os raios e até mesmo um incêndio, talvez provocado por um deles. Na tenda, Morrison e Lúcia parecem discutir e ela está com o casaco dele. Ando até eles para tirar satisfações quando percebo algo caído no chão, o biquíni dela solto, uma peça abandonada. Pego-o e entro na tenda.
- Ei, vocês dois! Que ideia foi aquela de improvisar na cena? Sabe como vocês me deixaram assustado? E ainda jogaram o biquíni na lama! E se tiver que filmar de novo?
- Que história é essa, cara? A gente tava discutindo agora mesmo porque ela tinha jogado o biquíni fora de raiva e achamos que não ia dar mais pra filmar!

A resposta me deixa encucado, será que eles continuam com a brincadeira? Só então percebo que a Lúcia sentada ali e encolhida está tremendo de frio e tem grandes olhos azuis focados em mim e os olhos da mulher na cripta eram negros. Negros como a noite de tempestade.

Venha a mim, meu pobre mortal.