segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tirando a poeria dos sapatos

Acho que é a terceira vez que posto esse texto, a segunda em um blog. Da outra vez, eu tive uma experiência muito tranquilizante de conseguir publicar um conto que mexeu tanto comigo. Espero ter o mesmo dessa vez, apesar de pelo motivo diferente. Eu realmente gosto da ideia de que ás vezes possa pegar textos antigos e eles ainda tenham validade, principalmente ESTE, que hoje continua tão romântico e belo... Pelo menos pra mim. Então, dedico-o a todos os apaixonados, loucos ou não, tolos ou não, ou que simplesmente estejam a fim de ter um romance, por mais bobo que ele seja. E sejam felizes. Para acompanhar, a música que me inspirou.


All Star

O quarto bagunçado. Os lençóis jogados no chão. O ventilador se mexendo lentamente. O som tocando baixo uma música dos anos 90. O All-Star azul, único objeto verdadeiramente colorido, depositado sobre a cômoda, um alienígena organizado em meio ao caos. Dois corpos estirados ao chão, quase imóveis, descansam. Ele é quem abre os olhos primeiro, focalizando o tênis e sorri.

O sol a pino e os cadernos sobre a mesa não eram a melhor combinação para aquele final de ano. O pior era manter a concentração com a mente ocupada em outro lugar. Naqueles All-Star azuis, surrados mas ainda belos, que haviam dominado seus pensamentos nos últimos tempos. Aliás, o All-Star era apenas o prenúncio daquele pequeno e delgado corpo claro, revestido com a calça jeans e a camiseta de uniforme, completado pelos negros cabelos caindo pelas costas. Todo o conjunto pulava de cena em cena dentro da cabeça dele, sem dizer uma palavra, apenas acenando ou dançando conforme a música. Bufou tentando lembrar mais uma vez da fórmula para encontrar o cosseno tendo o seno.
O barulho do sinal avisando do final da terceira aula lhe despertou de qualquer devaneio. Sabia que aquilo significava menos chances ainda de conseguir manter a atenção no caderno de matemática. ELA estaria descendo a escada em instantes, feliz com a possibilidade de ficar ao menos vinte minutos longe das carteiras de madeira, superaquecidas pelos 32º que registrava o termômetro do outro lado da rua. Desistiu definitivamente de continuar tentando e guardou, sem pressa, o material na mochila velha. O ano de diferença que separava os dois é que definia que ele teria dois turnos no colégio, ao invés do único dela, pela manhã.
Saindo pela porta da biblioteca levou um susto ao reconhecer duas vozes que dobravam a esquina. Pegou o fiapo de um final de conversa.
- ... passo na sua casa hoje. É na rua das Laranjeiras, não é? Que número e andar?
- 507. Eu moro no 1204. É só tocar que eu desço. Não esquece de levar o xerox dos textos de português.
- Tá, mas...
Não conseguiu continuar ouvindo. Elas tinham virado a esquina e ele se deparou com aqueles dois grandes olhos... Azuis como o All-Star. Perdeu-se no mar ali contido. Sentiu o rosto ficar vermelho quando eles lhe fitaram e desviu a vista, só para olhar de canto de olho em seguida e encontrá-los novamente, apenas para eles desviarem agora. Elas seguiram e ele as acompanhou, desviando o olhar para aqueles All-Stars que tanto lhe atraiam. Claro que não percebeu que ela olhou para trás mais uma vez, muito menos que ela sorriu de leve.
Sabia onde morava, sabia qual era seu apartamento. Puxa! Até sabia o que ela faria à tarde! Mas... O que fazer com isso?

Ironia ou não, em breve as informações forem úteis. Os três anos do médio iam participar de um evento fora do estado e ele fora, sumariamente, escolhido para a comissão. O que ele não sabia antes de ficar brabo com a decisão é que ELA também era da comissão. Por causa da coincidência eles teriam que se encontrar. Só que ela ficou doente. O bastante para não ir ao colégio. Teria que ir até a casa dela. Entendeu?
Tremendo ele checou novamente o endereço anotado em uma folha de caderno. A rua das laranjeiras era pacata, mais residencial do que comercial, com apenas dois prédios em lados opostos. Um cinza, antigo e mal-cuidado, e o dela, imponente em seus doze andares. Óbvio que ela morava na cobertura! Onde mais seria? Ele pensou duas vezes. Quem sabe não deveria esperar que ela melhorasse? Quase deu meia-volta, correndo para o ponto de ônibus. QUASE.
Entrou no elevador, apertando com nervosismo o botão do elevador. Enquanto subia pelos doze andares ele sentiu que não era o calor que o fazia suar. Muito menos o tremelique do elevador que não o deixava quieto. Assim que a porta abriu achou que deveria voltar para buscar seu estômago lá no térreo. O curto corredor parecia quilométrico enquanto andava até o 1204. Tocou a campainha. A porta abriu.
- Ei! Que surpresa! - disse ela com a voz anasalada - A Tânia me contou que você foi o escolhido do terceiro ano. Que sorte, hein?
Ele paralisou. Ela vestia uma camiseta jogada, azul como seus olhos e o tênis, que agora não calçava. Mesmo usando calças moletom e com aquelas olheiras de cansaço ela parecia linda. Diabos, como alguém pode parecer linda doente?!?
- Ah... É. Por isso... Eu vim aqui... - e sentiu vergonha de continuar - E para ver como você estava.
- Puxa, obrigado! Ah, entre! Desculpa, eu fico muito desligada quando gripo. - ela riu sem graça - Meus pais não estão em casa, mas a Júlia, nossa empregada, está na cozinha.
- Eu achava que você tinha um irmão. - deixou escapar e se amaldiçoou pela enorme boca.
- E tenho! Só que ele passa o dia quase todo na faculdade. Sabe como é, trabalhos, namorada e essas coisas.
- É, imagino. O terceiro ano já é bem puxado.
- Vamos pro meu quarto, é mais sossegado. - e ele pensou o que seria mais sossegado do que aquela enorme e silenciosa sala? Preferiu ficar quieto.
O quarto dela era tudo que ele não pensava. Haviam pôsteres de bandas de rock nas paredes, a cama era bagunçada e o armário era marfim com azul ao invés de rosa. Será que ela não errou de quarto com o do irmão?
- Não estranha não. Eu não sou muito arrumada mesmo. - ela disse e se jogou na cama. - Sobre o que você veio falar?
Engasgou, pensou, engasgou de novo, revirou os olhos, pensou se seria possível engasgar uma terceira vez e acabou soltando um suspiro.
- Tá, admito derrota. Não sei exatamente nada sobre o assunto. - enrolou.
- Ok, você tá perdoado. Eu também não sei. - ela riu.
- Eu pensei que você fosse me dar uma luz. - ele arriscou, aproveitando a deixa.
- Só se for uma lanterna vagabunda que eu tenho em algum lugar daquele armário. - ela retrucou e ele não conteve o riso.
- Então somos dois perdidos. E agora?
- Você tem que perguntar tudo pra mim? - ela fingiu indignação. - Certo, tudo bem, temos que fazer alguma coisa ou serão três turmas para esganar a gente. Seis se contarmos as dos outros períodos. Aliás... Não deveria ter vindo mais gente com você?
Pronto! Encurralado! Que desculpa ele iria dar? Péssima idéia de vir ali despreparado. Óbvio que ela ia perguntar dos outros!
- Ahn... O pessoal... Da tarde vai se organizar entre eles e depois vêm falar com a gente. - escapou de uma - E... Eu não conheço o guri do primeiro ano, então... Não consegui falar com ele e esperava que você o conhecesse. - mentiu.
Ela pareceu ponderar a questão, erguendo a sobrancelha como ele só pensava que se fizesse em filmes. Por fim, ela sorriu.
- Fugindo do dever hein? Bem... Realmente seria chato ter muita gente aqui comigo nesse estado.
- Você não está nada mal... - ARGH! Cianureto por favor!
- Brigada. - Respondeu ela corando um pouco.
Instalou-se o silêncio enquanto ele procurava observar o quarto inteiro para não olhar diretamente para ela. Sem perceber, ela fazia o mesmo, encarando os pés dele. Só depois de um tempo é que ele notou os All-Star azuis, distintos do quarto, postados aos pés da cama. Preparou-se para um comentário quando ouviu ela rir baixinho. Fez cara de quem não entendia.
- Ah... É só que... Eu reparei nos seus tênis... All-Stars. Como os meus. - ela disse, enrolando um dedo no cabelo liso.
- É... É moda agora né? Juro que comprei antes de todo mundo usar! - ele brincou, erguendo as mãos. Ela sorriu.
- Acredito. É um modelo clássico. Mas... Cano alto?
- Eu gosto. É diferente. E aquece mais quando tá frio.
- Mas é um saco no verão... Tipo agora!
- É sim...
- Seus All-Stars combinam com os meus. - ela disse de repente, de cabeça baixa.
- É? Não tinha percebido. - ele murmurou.
- Sabe... - ela começou ainda sem olhar para ele. - Você é legal.
- Va-valeu. Você também é bem legal.
Ele havia ido para a frente, insconscientemente, e eles estavam pertos... Até demais. Ele podia sentir o calor do corpo dela, acreditando que era por causa da gripe. Talvez febre. Ela sentia que ele suava frio, e achou que fosse pela temperatura do ambiente seco. Ergueu os olhos e acabou hipnotizando-o, sem querer. Lambeu os lábios e engoliu em seco.
Ele foi para a frente, completando o trajeto e eles se encontraram por instantes. Longos instantes. Sabor de sal, ela pensou. Parece... O mar. Se afastaram, arfantes. Ela mais do que ele. Eles se encararam, incrédulos, tremendo de leve. Ela caiu de costas, o peito subindo e descendo agitado. De repente ela sentiu falta de ar. Se ajeitou na cama e olhou para ele com os olhos semi-cerrados.
- Desculpe... É a gripe. - ela sorriu.
- Tudo bem. Você tem que descansar. Eu... Já estou de saída. A gente conversa amanhã?
- Claro. A gente se fala amanhã. Eu não te dou um beijo... - ela começou e engasgou - No rosto quero dizer!... Porque... Bom, cê tá vendo como eu estou!
- Fica tranquila. Inté.
E ele saiu. Sozinha no quarto ela suspirou.

No intervalo ele saiu mais depressa da biblioteca do que nunca. Tinha visto que ela viera para o colégio e parecia bem melhor. Queria (TINHA) que encontrá-la. Curioso: Foi vê-la debaixo da laranjeira da escola, sentada na sombra com aqueles mesmos All-Star azuis se destacando das roupas quase monocromáticas. Sentou-se ao seu lado com estrondo, quase fazendo com que ela pulasse.
- Você quer me matar como a gripe não fez é? - ela brincou.
- De jeito nenhum! Eu só queria saber como você estava.
- Bem melhor. Eu consegui dormir bastante depois que você saiu. E o remédio fez efeito.
Eles se calaram, olhando as pontas dos pés.
- Ahn... Quer voltar lá em casa hoje? - ela perguntou, acanhada, abraçando o próprio tronco.
- Pode ser... Pra quê?
- Me fazer companhia oras! Eu ainda estou convalescente!
- Ah sei...
- E também... Pra gente terminar aquele assuntou de ontem.
Ela ficou vermelha e ele entrou na competição. Mesmo quem estava de fora perceberia que os dois estavam mais do que envergonhados.
- Então... Eu tenho que ir. Marquei de conversar com algumas amigas para tirar umas dúvidas já que estive doente. Té mais tarde!

Quando entrou na Rua das Laranjeiras ele não estava só nervoso. Sorria por dentro e por fora, ansioso. Entrou no prédio voando. O elevador pareceu lerdo e tocar a campainha foi um sufoco. Foi ela quem abriu hoje também. E estava melhor do que ontem. Sem as olheiras, vestia uma camiseta mais leve, de banda, uma calça jeans, não aparentando nada ser a gripada do dia anterior.
- Oi. - disse ela de forma muito delicada, talvez um pouco tonta.
- Oi. Calor hein? - ele disse.
- Pois é. Quer entrar? Não... Desculpa, pergunta idiota. Entra aí.
Dessa vez ela não disse para irem para o quarto. Já estavam lá quando ele pensou no assunto. Ela se sentou na cama de novo e ele foi para a cadeira. Ficaram quietos, sem saber o que dizer. Ele reparou que os All-Stars não estavam aos pés da cama e estranhou. Onde ela teria colocado? Como que lendo sua mente ela riu e apontou para a cômoda. O par estava ali, como um troféu.
- Achei que ele merecia um lugar de destaque... Depois do efeito que teve ontem...
Foi a senha que ele esperava. Encurtou o espaço entre eles e caiu de joelhos. Ela riu, mas sem interrompê-lo. A altura dos dois atrapalhou um pouco então ela também foi para o chão, de joelhos. Deitaram, sem querer puxando os lençóis e ficaram assim por um tempo. Pararam para respirar.
- Por... Quê? - perguntou ele.
- Não sei. Mas eu senti vontade ontem e hoje ela só aumentou. Parece que... Fiquei com sede de você.
Ele riu. Fecharam os olhos curtindo-se por um tempo. Ele foi o primeiro a abrir, focalizando os danados dos All-Star azuis. Sorriu.

sábado, 13 de julho de 2013

TAG: Conhecendo o blog

AVISO: Esse era um texto de ontem que eu trouxe para hoje com o meu DeLorean. Por conta disso, alguns links do final SUMIRAM, ou seja, só sobraram cinco recomendações! Ai, que droga...

Conheço essas correntes de tempo, mas como nunca fui marcado (ou se fui, não percebi, ixi!), também nunca precisei compartilhá-las, mas fico honrado em estar aqui dessa vez passando adiante! Claro, culpa da minha noiva, aquela destrambelhada da Ann que resolveu me incluir na brincadeira. Então, aqui vamos nós, mas primeiro...

As Regras

* Os blogs participantes devem responder 11 perguntas;
* Estes terão que indicar 10 blogs;
* E os escolhidos devem ter poucos membros, pois essa tag sugere que blogs menores possam ser mais conhecidos.

As Perguntas

1) Como escolheu o nome do blog?
Foi tão difícil quanto fácil. Difícil porque a escolha de palavras demorou mais tempo do que a ideia que queria passar, e pra variar ficou ENORME (desculpem por isso!). Mas também fácil porque a temática tinha que refletir uma imagem que venho construindo há algum tempo. Agora, se a ideia funcionou, aí são outros trezentos...

2) Quanto tempo se dedica ao blog?
Muito menos do que gostaria, MESMO, mas mais do que já me dediquei a outros projetos, principalmente porque é mais tranquilo postar aqui. Atualmente estou em uma a duas postagens por semana e espero que ainda esteja assim em, sei lá, Agosto?

3) Já teve algum problema com comentários de anônimos no blog? O que?
Tenho tão pouco comentário que isso seria um milagre! Tá, sem xororô, acho que os anônimos sem graça ainda não encontraram o meu blog pra zoar então por enquanto sou livre desse problema.

4) Pretende mudar algo no blog em 2013?
Já mudei layout, um pouco da proposta, mas principalmente vou viver mudando ele pro que necessitar, quero que ele seja eternamente essa metamorfose ambulante.

5) Já ficou sem inspiração para postar? Como superou isso?
Não superei, acabei ficando semanas longe dele. No fim, foi um improviso que gerou a volta e gostei, porque deu outro tom à brincadeira. De vez em quando me acontece, espero que cada vez menos.

6) O que gosta de fazer quando está no computador?
Muita coisa, desde ler e escrever, a jogos de computador, o que me consume muito tempo. Na realidade, por gostar de trabalhar COM ele, passo tempo demais, e nesse tempo acabo minerando vários links legais que distribuo. Com isso tenho muita cultural aleatória e divertida.

7) Quantos livros você lê por mês?
Já li até três ao mês, hoje leio um com sorte.

8) Quantos blogs visita todos os dias?
Perco a conta, principalmente porque vários deles não são marcados como blogs nos meus favoritos e acabo nem percebendo até linkar e aparecer Blogspot, Wordpress e coisas assim.

9) Qual blog visita todos os dias?
No mínimo os que têm atualização mais frequente, como as tirinhas do Um Sábado Qualquer e nem tão frequentes assim do Puny Parker.

10) Quanto tempo você está na blogosfera?
Oficialmente desde 2006, na faculdade, mas com este projeto e tentando torná-lo melhor, desde 2012.

11) Você se inspira em outro blog? Qual?
Muitos, mas sem pensar no assunto. É que qualquer coisa que eu ache divertida eu acabo marcando pra usar depois, e ás vezes esqueço de onde vieram.

Os Blogs
PS: Estou linkando para que conheçam, eles não são obrigados a participar. Saavy?
Futurantiqua
Manual Prático de Bons Modos em Livrarias
O Leiturista
Quiet Things That No One Never Knows
Blog do Amer
Diário de Bordo do Youkai
Eletrônica Cia dos Games 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma bela imagem

Eu não tinha NADA preparado pra hoje, nem ao menos uma linha que pudesse me dar um texto descente. Mas daí, subitamente, uma Wild Ariana me aparece com uma imagem que simplesmente desperta uma ideia que não poderia perder e dá-lhe página em branco do Word! Conclusão? Um conto novo, quentinho, para vocês aqui. E é um que eu realmente gostei de fazer. Espero que gostem! A imagem que gerou tudo está ao fim do texto e vocês vão entender o porquê.

A Mulher na Cripta

Noites de tempestade são extremamente desagradáveis, e não falo isso por ser um adepto de sair e me divertir, mas porquê trabalho com filmes e não há nada pior do que gravar de noite e ficar com medo de a energia acabar e nos vermos com horas de trabalho perdido. Seria mais simples se tivéssemos um bom orçamento mas, já que filmamos terror quase classe C, então não posso mesmo pensar em ter um estúdio e equipamento de ponta. Fico muito feliz por ter uma câmera e bastões de luz suficientes para conseguir fazer uma cena no meio do cemitério.
A tal cena, aliás, é o grande problema. A chuva cai e já inunda tudo do lado de fora do mausoléu que invadimos para filmar e eu acho que os cabos, que o nosso único técnico de filmagem, som e qualquer coisa que não seja principal, colocou em cima de alguns túmulos, já devem estar debaixo d’água, então em breve é capaz de eu acabar me juntando aos defuntos por eletrochoque. E pra finalizar, nossa atriz principal está fazendo doce no “camarim” improvisado, uma tenda que conseguimos montar no morrinho do lado de fora.
O rolo é com o maldito figurino e eu sempre soube que ele causaria atrito entre ela e o roteirista depravado que o diretor arranjou. Desde o primeiro dia ele veio com ideias que envolviam mulheres nuas, cenas de soft porn, sangue tipo catchup, cabeças decapitadas e um vampiro carniceiro, do tipo que faria Freddie Krueger se orgulhar de ter como professor. Era mais do que o necessário para a namorada do técnico, que foi a única garota a aceitar se meter nessa treta, começar a ter chiliques e ameaçar desistir várias vezes.
Agora ela estava lá, sendo convencida pelo namorado super seguro de que aquele biquíni obsceno tampava o suficiente para ela poder vestir branco quando casassem e que estava tão escuro que era capaz de ninguém notar que era ela. Eu confirmo essa informação, com a precariedade do material e a maquiagem enjambrada, eu poderia dizer que era a Madonna ou a Adele sem medo de errar. E claro, não me importaria em descobrir o que há por trás dos dez quilos de roupa fechada que ela usa. Dependendo do caso, poderia valer todo o esforço.
- Ei, John. – me chama o diretor. – Vem cá um minutinho?
- Fala, Arthur. – respondo, me aproximando, e percebo que ele treme muito.
- Cara, me quebra um galho? Acabei de ouvir, houve uma espécie de acidente perto de casa. Duas gangues brigando, algo assim. Pessoas ficaram muito feridas. Meu pai é policial, ele tava de ronda... Eu preciso ir...
- Claro! Vai lá! A gente pode parar a filmagem, não fica...
- Não! Paguei muito caro no aluguel, a guria tá quase caindo fora e se a gente sair agora, capaz de não conseguir invadir isso outro dia. Precisa ser agora!
- Tá, tá, eu faço tudo aqui. Só leva aquele maluco do roteiro junto pra te dar uma mão. Senão é capaz de eu encher ele de porrada.
- Tudo bem, valeu, você é um grande amigo.
E sai levando o Abraham juntos. Acabamos ficando só eu, o técnico e a namorada dele. Começo a arrumar tudo, imaginando o que poderia dar errado ou quanto tempo mais eles iriam demorar quando escuto o som de abrindo a porta e o barulho do vento lá fora. Não há nenhum passo na escada, mas eu consigo escutar o som de véus arrastando nos degraus. Quando me viro, me deparo com uma Lúcia completamente paramentada, em um biquíni que faria as garotas daqueles programas de tevê corarem e um roupão transparente que não deixa dúvidas a como ela é gostosa. Engulo em seco e ela sorri, e é um sorriso lindo. Paro pra pensar em como o técnico é sortudo, em como ela faz pra esconder tudo isso e em que estamos sozinhos, o que é extremamente perigoso. Até os caninos falsos ficaram perfeitos.
- Ok, vejo que está pronta. Podemos começar? – e ela concorda muda. – Como a gente disse antes, essa é uma cena simples. Você precisa andar pela cripta, parar na frente do caixão que está ali e começar a chorar. Eu vou cortar, mudar o ângulo e mostrar lágrimas de sangue que eu tenho aqui no bolso. Não vai doer nem nada, é só um corante pra derramar perto dos olhos. Aí paro de novo, você dá um berro e fechou por aqui. As externas a gente pode filmar depois, e você não precisa aparecer. Fechou?
Ela simplesmente abre outro sorriso que me deixa desconjuntado. Que mulher maravilhosa, e aquele namorado nada ciumento não estava agora ali para aproveitar a visão. Tá, tudo bem, provavelmente ele a veria depois em casa e acho que o biquíni vai acabar ficando pra eles, mas... Nada vai me estragar o momento. Levanto a câmera e ela faz seus movimentos, muito suaves, parando exatamente no ponto certo. Não precisaríamos repetir a cena. Em seguida eu mudo de posição para colocar as lágrimas falsas e esbarro em sua pele, gelada, provavelmente pelo tempo ruim.
- Desculpa mesmo pela escrotice do Abraham. Vou falar pro Will que ele nunca mais deve escrever nada pra gente. É só que agora... Não dá pra mudar, entende?
Pelo olhar ela deixou de ligar há muito tempo e até mesmo parece estar se divertindo. Minha mão acaba deslizando pela face dela e fico parado, alguns segundos, o que provavelmente vai render comentários depois dela com o Morrisson. Afasto-me e gravo aquelas lágrimas falsas escorrendo e elas demoram tanto pra descer e parecem em tanta quantidade que até me assusto, como se ela estivesse chorando de verdade. E mais uma vez troco de posição e a filmo gritando, e o que vem em seguida nunca mais vou esquecer. O grito é como o de uma banshee e posso dizer que até mesmo quem estava longe do cemitério pode ouvir. É profundo, amargurado e realmente triste.
E finalmente, as coisas ficam estranhas de vez, mas não paro de filmar. O caixão simplesmente se abre e sai alguém de lá, e é um homem. Nesse momento eu estou pensando em como esses filhos da puta armaram para cima de mim e colocaram o Morrison lá dentro sem que eu visse e agora estavam me deixando morrendo de medo. Ele puxa Lúcia para si e dá o beijo mais arrepiante da minha vida, que me deixa aterrorizado e excitado ao mesmo tempo. Eles se afastam e ela vem até mim e também me beija, mas mais delicada, como uma despedida. Em seguida eles saem, e eu posso jurar que a tempestade parou por um segundo e escutei risadas macabras. Eu demoro muito tempo pra me mexer e desligar a câmera e então subir as escadas correndo.
Lá fora a chuva é torrencial, posso ver os clarões ao longe onde caem os raios e até mesmo um incêndio, talvez provocado por um deles. Na tenda, Morrison e Lúcia parecem discutir e ela está com o casaco dele. Ando até eles para tirar satisfações quando percebo algo caído no chão, o biquíni dela solto, uma peça abandonada. Pego-o e entro na tenda.
- Ei, vocês dois! Que ideia foi aquela de improvisar na cena? Sabe como vocês me deixaram assustado? E ainda jogaram o biquíni na lama! E se tiver que filmar de novo?
- Que história é essa, cara? A gente tava discutindo agora mesmo porque ela tinha jogado o biquíni fora de raiva e achamos que não ia dar mais pra filmar!

A resposta me deixa encucado, será que eles continuam com a brincadeira? Só então percebo que a Lúcia sentada ali e encolhida está tremendo de frio e tem grandes olhos azuis focados em mim e os olhos da mulher na cripta eram negros. Negros como a noite de tempestade.

Venha a mim, meu pobre mortal.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Essa batalha não é minha

Aproveitando que hoje eu resolvi mudar tudo por aqui (logo os textos anteriores vão seguir o padrão deste aqui e tudo ficará bonito), eu trouxe um texto novo, para comemorar as mudanças em grande estilo. Pra dizer a verdade, tanto o título quanto as primeiras palavras do conto vieram ao mesmo tempo e eu não fazia ideia do que faria com o soldado sem nome que as proferiu ou quem realmente seria ele, e no fim, acho que a frase que usei pra esse post representa tudo, é exatamente o pensamento do personagem e de quem está lendo.

PS: Milhares de agradecimentos à Ann, que me ajudou a editar todo o blog hoje!

Sangue e Terra



Sangue e terra. Quando se está no meio de um combate, principalmente um que faz parte de uma longa guerra, é o gosto mais comum, sangue do seu oponente e a terra que você come quando se joga no chão para fugir de um ataque. Torça para nunca ser o seu sangue e o da terra que você afunda o rosto depois de ser acertado ou não haverá vinho depois para tirar o gosto horrível da boca.
Somos soldados, soldados impossíveis de serem derrotados, de acordo com nosso tenente, e devemos ir ao combate todo dia santo para que eles continuem santos. Bom, se somos invencíveis não sei, mas já tivemos mais de mil baixas desde que chegamos no mês passado, a maioria por doenças e a praga, e estamos com apenas dois terços do exército pronto para a batalha. Se continuarmos assim, nosso tenente terá que mudar o lema. Se ele sobreviver, é claro.
Se me dissessem que esta seria minha perspectiva de vida há dois, três anos atrás, não teria me tornado escudeiro de Sir Jordan Miguel. Não que tivesse uma opção melhor em minha terra, com todo aquele trabalho braçal nos campos e a esperança de conhecer a mais longe fronteira que nós poderíamos chegar, que era a cidade vizinha, Layden. Mas quem sabe, com sorte, eu conseguiria fugir com os ciganos quando nos visitassem de novo e hoje estaria dentro da fortaleza de Mayan, e não do lado de fora comendo pão preto e tomando água suja. Pela Deusa, é possível que isto nem água seja, a latrina está bem próxima do poço!
Subitamente, um estrondo interrompe meus devaneios e eu vejo um dos muros de sacas ruir. Nosso capitão, Sir Kingstone, avisou três vezes já que enquanto não fizéssemos uma paliçada e enviássemos um pequeno grupo buscar reforços e suprimentos, mais vezes receberíamos más notícias. Talvez ele fosse ouvido se não soubéssemos que ele queria liderar esse contingente e fugir o mais rápido possível da péssima ideia que era tentar invadir a instransponível Mayan, com seus muros de pedra de cinco mil anos. O cheiro de pólvora explicou a presença de uma pesada pedra, talvez de uma das grossas camadas dos muros da cidade, bem no meio da cabana do capitão Kingstone. Acho que alguém concordaria com a ideia dele agora.
Stevens, meu colega de tenda e a pessoa mais bem humorada que você poderia encontrar no meio daquela chacina, pôs a cabeça pra fora para ver o estrago imenso no meio do acampamento. Mordendo uma fatia de pão de rosca, branquinho e até com alguns temperos, ele abriu um sorriso medonho, do tipo que ele fazia antes de uma de suas fantásticas anedotas.
- Sabe, com mais uma dúzia dessas a gente já pode começar a construir um muro que nem o deles. – e mordeu mais um naco do pão, que me fazia aguar a boca.
Seria muito mais feliz se, como Stevens, eu tivesse a cara de pau de usar alguns contatos para me arranjar confortos. Quase ninguém comia bem no acampamento, e posso jurar que Stevens é o único soldado raso que já provou um bom gole de cerveja por aqui. Além disso, tínhamos sérias restrições quanto à presença de mulheres em nossas tendas, o que não me impediu de calmamente ser expulso para fora quando uma das garotas surgia para “tratar das feridas do soldado Stevens”. Se ele não fosse tão feio, diria que tinha sido seu charme, mas sabia que era a gorda sacola de moedas de prata que ele guardava em algum canto da minúscula tenda e que já havia ameaçado cortar fora meus dedos se eu procurasse.
Sinceramente, Stevens que se exploda. Ele, Sir Jordan Miguel e o finado Sir Kingstone. Um mês de luta todo dia, de cavar trincheiras e covas, de atirar contra os barris de pólvora para que eles explodam na parte de baixo dos muros, onde é mais frágil, e de ter que costurar e carregar corpos para longe do campo de lama, assim outros soldados podem ir morrer lá. Nada disso valia a pena por míseras cinco moedas de ouro por mês. Aliás, moedas que, infalivelmente, começaram a sumir depois de um tempo, já que eles foram obrigados a baixar nosso soldo quando a guerra realmente estourou. Se agora eu visse ao menos uma delas quando recebesse o soldo, seria uma imensa alegria e motivo para festa.
Sol ardente, falta de água e ainda o pão ruim, tudo isso nos faz pedir, quase implorar por uma boa noite de sono, para que possamos, nem que seja em sonhos, ter uma vida menos miserável. E isso me lembra as missas do vigário. O bastardo deve ter realmente algum contrato com Deus, ou quem sabe um pacto com o Diabo, a única explicação para ainda estar vivo. Diferente de nós, ele veste apenas sua túnica, que ainda assim deve ser mais quente que o fogo do Inferno, e vive embaixo de sol, chuva e o que vier, pregando para nós, abençoando nossas tendas e armas e também a comida dada pelo Senhor, aleluia!
Se isto é o máximo que vou ganhar Dele, talvez seja uma boa me converter pra religião de nossos inimigos, porque parece que eles comem fartas refeições, tamanho lixo que é despejado pelos canos ao fim de uma semana. Lixo que acho que vira nossa comida nas ocasionais reuniões de sábado, quando comemos todos juntos esperando as novas ordens dos capitães. Eu posso atirar em qualquer um, até mesmo em mim, se me render uma folga para não ter que aguentar o sermão do padre Highson e sua voz embargada de fé e do maldito vinho que aparentemente é seu combustível para a lenga-lenga que escutamos sempre.
Subitamente, ouço mais um daqueles tiros e espero pelo barulho de mais uma tenda esmagada. Mordo um grande pedaço do pão velho, sentindo um gosto novo, peculiar, de sal, mas um sal diferente. De repente sinto o vinho, ou algo que deve ser como isso, muito doce, e que vem em fartos goles. Sinto meu corpo adormecer, e está tudo mais macio agora, como se tivesse finalmente recebido a cama que mereço. Esse vinho é realmente muito bom, já que meu corpo parece nas nuvens. E o sal, diacho, esse sal me lembra algo. Um sal que escuto algumas vezes naquele papo do padre Highson, o que é mesmo? Ah sim, o Sal da Terra. Vejo então o que é minha deliciosa refeição. Sangue e Terra.

domingo, 7 de julho de 2013

Um Dia de Fúria

Não posso explicar (parte por não saber como, parte por não querer entender como), mas tem horas que um lado meu se mostra, e é um psicótico levemente sádico que gosta muito de uma tendência ao drama, e este lado veio até mim hoje e disse: "Cara, se não escrever isso, eu te encho de porrada". Fico feliz que foi fácil negociar e pude jogar tudo para fora antes que eu próprio me mutilasse. Infelizmente, há ainda resquícios da ira dele em mim, e talvez eu esteja mais ácido, mais maldoso, mas principalmente mais nervoso. Há muito a vir por aí, e a fúria só cresce, inflama...

Enquanto isso, fiquem com meu momento angst. Talvez vocês se identifiquem nessa raiva maligna... Talvez vocês até mesmo a perdoem e compreendam. Mas, por favor, mantenham-se longe. É preciso cuidado!

Eu contra meu mundo

Eu juro que não queria ser uma fera revoltada
Que briga com a vida, com minha mente o tempo todo
Mas o meu inimigo não tem forma, é um sentimento
Um fogo solar que me consome por dentro
E nada mais resta de mim para me reconstruir

Sei que várias vezes eu tentei mudar
Apelei para bruxaria, para religião e até pensei em me matar
Mas claro, covarde que sou, nenhuma opção foi real
E no fim, eu ainda estava lá, esbravejando para o mundo
Sou somente eu ou realmente está quente aqui?

Talvez você não me entenda, talvez me entenda bem
Eu não sei, não quero mais discutir
Cansei de ouvir e falar, e gritar e me abaixar
Até mesmo cansei de dizer que esse não sou eu
Aqui, sozinho, percebo que foi tudo eu, eu, eu

Não estou completamente errado, mas não estou bem certo
Deveria talvez ter escolhido um caminho mais reto
Teria escolhido a princesa ou o dragão? Não sei, não sei
Mas com certeza, não teria escolhido a solidão
Aqui, diante do abismo, ele me olha de volta, e eu não sei se estou feliz com isso