quinta-feira, 4 de julho de 2013

Prometheus

Existem coincidências e coincidências. Hoje mesmo assisti um vídeo (falo sobre ele ao final do texto, esperem até lá!) e quando fui escolher o conto que iria publicar, acabei lembrando exatamente do que vi, e isso gerou um riso involuntário aqui. Francamente, existem comédias que a gente produz sem querer, na boa. Esse conto, por exemplo, não começou exatamente como uma comédia, mas com uma frase que eu queria colocar em um diálogo. E então foi surgindo e surgindo e acabou saindo meu primeiro conto engraçado BOM, o que é uma raridade e por isso eu tinha o DEVER de divulgá-lo. Se ficou realmente BOM quem decidirá são vocês!

Sim, Senhor!



- Senhor?
- Aaah-AAAAAH!
- Senhor?
- Igor, pela Ciência, já lhe disse para não me assustar assim!
- Senhor, o experimento acordou, eu acho que...
- Como? Já? Mas, ainda não se passou nem um dia! Diacho, Igor, eu lhe disse que desse os sedativos na ordem certa!
- Então, senhor, eu realmente dei. Na verdade, faz menos de meia hora que dei a nova dose.
- E ela já está de pé? Eu não estou pronto! Igor, vá buscar meu terno!
- Mas senhor...
- VÁ!
- Como pode? Eu tenho certeza de que os tranquilizantes a deixariam dormindo até a hora que estivesse tudo preparado. Ainda tenho que fazer a janta, e tenho que tomar um banho! Não, não dá tempo pro banho, usarei aquele perfume francês que Mamã me deu de Natal. Ah sim, aqui está. ARGH! Isso fede! Mas, com certeza é melhor do que o cheiro das máquinas. E o local? Eu ainda estava pensando se usava a velha sala de jantar ou o calabouço, e agora? O que ela achará mais confortável? Pela Ciência, como está tudo dando...
- Senhor?
- IGOR! Se entrar mais uma vez me assustando, eu lhe darei um murro!
- Vai doer mais no senhor do que em mim, mestre.
- Verdade, eu sou muito fraco. Já sei! Mandarei você bater em si mesmo!
- Ideia brilhante senhor. Aqui está o terno que me mandou buscar.
- Ótimo. Perfeito! Fan... Igor?
- Sim, mestre?
- Por que há um buraco enorme nas costas do terno?
- Lembra, mestre, que o senhor usou este terno para ir à convenção dos cientistas malucos no ano passado e saiu de lá correndo dos tomates?
- Sim...
- E que em seguida o senhor achou que o terno estava estragado e tentou usá-lo para vestir o seu monstro... Digo, seu protótipo, o qual o rasgou prontamente? (O que foi uma sorte, porque o queimamos em seguida)
- Sim...
- Então. Quando, na segunda-feira, o senhor pediu que eu cortasse um pouco de tecido para fazer de pano para colocar o frasco do cérebro fresco e trazê-lo para cá, usamos o pedaço que estava ruim do terno e seria tirado de qualquer jeito.
- Está me dizendo que não tenho mais nenhum terno?
- Bom, sim...
- IGOR, SEU PASPALHO INÚTIL!
- Ma-mas, mestre, foi o se...
- Não me venha com desculpas, sua anta superdesenvolvida! Vá me buscar uma roupa, qualquer roupa decente e me faça a janta! Em quinze minutos!
- Ora, bolas, ele estraga o terno e eu que...
- O QUE ESTÁ RESMUNGANDO AÍ? VÁ DE UMA VEZ!
- Sim, mestre! (Eu ainda me demito...)
- Este Igor, francamente. Destrói meu terno e ainda me vem com historinhas... Como se eu, um grande cientista e ganhador do prêmio Nobel (retirado depois por uma calúnia... Eu não preciso desses fanfarrões hipócritas), seria capaz de algo tão idiota! Igor, Igor... Tem sorte por ser sobrinho da empregada da tia em segundo grau da minha Mamã, senão...
- Ahn, senhor?
CRASH! TOMP! BOOM!
- E QUANDO VOLTAR A SUBIR AS ESCADAS, BATA NA PORTA, GIGANTE IMPRESTÁVEL!
TOC! TOC! TOC!
-Entre, Igor.
- Senhor, só vim avisá-lo (ai, minha coluna) que o seu experimento (acho que torci o tornozelo) está acordado.
- Susan, Igor.
- Como, senhor?
- O nome dela é Susan.
- O senhor tem certeza que é ela?
- Como se atreve, Igor?
- Mas ela tem barba!
- Bem, era o único queixo disponível...
- E posso jurar que as mãos dela são maiores que as minhas!
- Só tinha um pouco da única mulher no local...
- E as pernas dela são peludas!
- Ora, mas o que você queria que eu fizesse com meio corpo de mulher, cabeça de padre, braços de jogador de basquete e as pernas de um motoqueiro bêbado?
- Não era melhor esperar para semana que vem, senhor?
- Mas Mamã vem me visitar hoje.
- E o que tem isso senhor?
- Hunfhunfhunf...
- Eu não entendi senhor.
- HUNFHUNFHUNF...
- Senhor?
- EU FALEI PRA ELA QUE TINHA UMA NAMORADA!
- ...
- ...
- ...
- ...
- Senhor?
- Sim, Igor?
- Era melhor ter roubado um urso do zoológico e ter colocado em um vestido.
- Igor?
- Sim?
- VÁ FAZER O JANTAR!
- Eu juro que não entendo esse homem, tão inteligente, mas também tão burro...
- Ah, Igor, como se fosse fácil. Bem, ainda bem que Mamã é quase cega, coitadinha, e também um pouco surda, e se eu der sorte, os remédios para que ela durma vão funcionar rapidinho e antes da sobremesa ela já ter apagado. Oh, aqui está você, Sus... IGOR!
- Sim, mestre?
- AAH! Você estava me esperando chamar?!?
- Não, eu só estava...
- Deixe para lá! Igor, por que você não me disse que ISSO tinha acontecido?
- Bem, eu achava que era parte do projeto...
- Parte do projeto? PARTE DO PROJETO?!? IGOR! Você viu meus desenhos, acha que eu queria ISSO?
- Não, mas... Considerando a visita da sua mãe...
- Não fale isso! ARGH! Só falta ela chegar agora!
DING! DONG!
- Igor... Diga que é uma testemunha de Jeová.
- Não, senhor. É sua Mamã.
- Abra a porta, Igor.
- Vitinho, quanto tempo! Mas como está gordinho! E forte! E seu cabelo está lindo!
- Senhora, eu sou Igor, o criado de seu filho.
- Sim, sim, Vitinho, eu sei, você puxou meu lado da família, não o do seu pai, que ficou careca, de bochechas de buldogue e usou dentadura antes dos trinta.
- MAMÃ, ELE FALOU QUE É O IGOR! EU SOU O VÍTOR!
- Ah, sim, sim! Hum, é, meu filho, você está bonzinho.
- Bonzinho, Mamã? Veja, eu ando malhando.
- É, estou vendo que você anda... É... É... Bom, e onde está aquela sua namorada?
- Ahn, eu vou buscá-la. Igor, leve-a até a sala de jantar!
- A sala de jantar, senhor? Mas eu achei que usaríamos o cala...
- Então a leve para lá!
- Ele sempre grita assim com você?
- Sim, senhora.
- O que disse?
- SIM, SENHORA!
- Não precisa gritar, eu não sou surda!
- Hunf... Senhora, fique aqui, que eu vou terminar de verificar a comida no forno, sim?
- Esse criado do meu filho é muito folgado... Gritando assim comigo, como se eu fosse ralé! Mas Vitinho realmente investiu nesse castelo, até colocou correntes nas paredes de decoração! E veja só, tem um esqueleto de mentira! E ali um espelho... Puxa, eu preciso mesmo depilar as pernas.
...
- IGOR! Você viu Susan?
- Não, senhor. Eu acabei de deixar sua mãe no calabouço e vim pegar a comida.
- PELA CIÊNCIA! Onde estará essa mulher?!?
- Se é que pode ser chamada de mulher...
- O QUE DISSE?
- Ah, perguntei se o senhor não gostaria de uma bebida.
- Eu nunca bebo, Igor! Só quando estou socializando!
- Ou seja, de segunda a sexta.
- COMO?!?
- Ah, comentei que talvez Susan esteja com sua Mamã.
- NÃO! Temos que ver isso já!
- Como quiser, senhor.
- Igor, eu por acaso estou vendo duplicado?
- Se o senhor estiver, eu também estou.
- Elas são...
- Iguaizinhas...
- Vitinho! Que surpresa maravilhosa! Eu adorei sua namorada! Pena que é tão tímida! Mas que lindo sorriso! E que pele sedosa!
- Igor?
- Sim, mestre?
- Eu vou aceitar aquela bebida... De preferência toda ela.


It's Aliiiiiiiive!

Como prometido, o link do vídeo do Quatro Coisas sobre Frankenstein, que ficou simplesmente ÓTIMO! Espero que vocês também aproveitem! A imagem aí de cima foi exatamente por causa do começo desse vídeo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Minha maga favorita

Hoje é um dia especial para mim, e achei que esse cantinho aqui seria perfeito para expressar isso, mesmo que esteja um pouco abandonado, mas é exatamente por ele ter sido criado por conta DELA que eu quero que ele marque esta data. Eu selecionei entre vários textos que escrevi para você, Ann Carnivalli, Ana Santos, Ana Carolina, Ann-chan e quantos outras formas eu puder te chamar, porque ele é tão fofo quanto você, e não posso deixar que você é como a Lozenge, uma maga linda que está lá, para me curar as feridas na hora certa, para me trazer um sorriso quando se esforça para ajudar e para me trazer risos quando, graciosamente, erra o timing, mas de forma que seja engraçada e divertida, e não triste... Eu poderia ter procurado tantas outras cartas no baralho, mas escolhi VOCÊ para me ajudar em todos esses momentos. Eu te amo e nunca se esqueça disso...

PS: E você também tem muito da Chocolat, um tanto tímida ás vezes, um tanto desconcertada em outras, atrapalhada muito tempo e com certeza fofíssima... E claro, tem aqueles momentos que você tenta me proteger, mas usa uma metralhadora e explode todo mundo... É, vocês são bem iguais!

Um Dia de Defesa Perfeita

Estava pra começar de novo. O túnel arroxeado abriu diante delas e Chocolat olhou para a grande maga. Ela estava altiva, preparada. Se fosse preciso, seria a próxima a entrar por lá, mas somente se fosse realmente preciso. Já falharam outras vezes antes, não poderiam fazer agora. Era necessário muito cuidado para que a ordem certa fosse cumprida. Viu que um grupo de freiras, cinco delas, saiu pela boca brilhante do túnel e mordeu os próprios dedos, preocupada. Estaria pronta quando fosse sua vez?
Sentiu o toque suave da mão da maga, ela sorriu para ela, fechando os olhos delicadamente. Era uma donzela, obstinada e forte, mas com aquele jeito meigo típico da realeza. Viu que a grande CEO Amaterasu estava próxima e ela parecia irradiar uma energia apaziguante também. A maga chamou-a para perto.
- Vossa majestade, acho que seria bom que dissesse novamente à pequena Chocolat o que ela deve fazer. Acredito que ela está um pouco preocupada, mas, é claro, essa enorme arma pode ter algo a ver com isso.
Amaterasu esboçou um alegre riso, ao mesmo tempo infantil e gostoso de ouvir. Chocolat percebeu que ela também era bem jovem e reparou em como parecia tão entrosada entre elas, mesmo que fosse de grau tão elevado.
- Minha querida, não se preocupe. Na hora certa você estará lá. Eu acredito em você. E então, escolherão você para defender-nos, eu sei que você impedirá qualquer ataque a mim.
Aquilo aqueceu o coração de Chocolat, que apertou os punhos, obstinada. Ela daria o melhor de si. De repente, Amaterasu encarou a saída, com uma expressão de espanto e divertimento.
- Ora, mas parece que já é minha vez. Espero vocês do lado de fora.
Enquanto saía, outras a olhavam, admiradas. A estátua de Apollon fez uma reverência cortez e os gêmeos voaram em volta dela, como que cumprimentando. Chocolat suspirou.
- Ela é tão bonita e poderosa. Quero ser assim algum dia.
- Você já é bem forte, Chocolat. Só não sabe disso ainda. Espere para ver quando estiver lá fora. Eu sei que as palavras da grande senhora Amaterasu não foram em vão.
A freirinha sorriu para a maga. De repente um alarme soou e os outros pareceram ficar em polvorosa. Chocolat conhecia aquele som, mas era extremamente perturbador. Olhou para Lozenge Magus, esperando que ela se mexesse, mas percebeu que de repente a maga estava congelada no meio do túnel.
- Lo... Lozenge?
Sem qualquer menção de se mexer. Chocolat notou que as mãos dela tremiam.
- Eu... Eu não estava prestando atenção antes. Não sei se é hora de ir ou não!
A boca de Chocolat escancarou. Começou a correr em círculos, gritando “E agora? E agora?”, até que uma mão segurou seu ombro. Sua companheira Cocoa a encarava com os olhos de raposa e o sorriso enviesado.
- Ei, ei, menininha, qual o problema?
- É... É a Lozenge! A gente não sabe se ela tem que sair agora ou não!
- Ora, mas é claro que sim! E quanto antes melhor! – respondeu a empolgada freira das facas.
- Ouviu, senhorita Lozenge? É sua vez! – gritou a baixinha.
Ao sinal, a maga correu para a saída, lançando-se no buraco sem pensar duas vezes. Uma outra freira, carregando um enorme machado, se aproximou das duas.
- Ahn... Por que a Lozenge deu no pé? Esse foi o primeiro ataque que passou. – disse, coçando a lateral do rosto.
Chocolat ficou atônita e encarou Cocoa, que parecia desconcertada.
- Er... Eu também não estava prestando a atenção.

A garota com a metralhadora deu um tapa na testa. É, pelo jeito ela teria muito trabalho pela frente.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Os Quatro Eternos

Olha, admito que fiquei longe um tempo, mas me faltava inspiração para algo que realmente valesse a pena jogar para essa alcateia. Em uma caçada ontem acabei encontrando o que queria, e trago para vocês hoje meus quatro eternos, os espectros das maldades e bondades em meu coração e quem sabe nos de vocês também. Interpretem-nos como quiser, mas somos um e muitos...





O Pecador
Eu sou culpado
De todas as minhas mentiras
Não posso fugir do meu passado
Esconder no fundo do lago
Os meus desejos profanos
Pois de todo me sinto
Afundando em sonhos insanos
Sou realmente o mal
Forjado de um herói caído
Não me entenda errado
Não é como se tivesse traído
Ainda não fiz todos os meus pecados
Mas estou fadado a falhar
Já que pra estar jornada
O final feliz não vai chegar



O Salvador
São tantos caminhos
Que não posso escolher
Para poder salvar você
Trancou-me a laços de ferro
Linhas de vida que não entendo
Deixei que você caísse
Para que eu te levantasse
Mas isso não faz de mim santo
Ou de você uma vítima
Só sei que nada temerei
Enquanto eu puder lhe ajudar
Já que minha alma está plena
E eu ainda posso te perdoar



O Sonhador
O futuro me aguarda
Ele está ali, não tão longe
E eu posso toca-lo
Mesmo que isso me leve pra além
De todos os meus planos
É só querer
E eu posso, você vai ver
Duvide de mim o quanto quiser
Eu estou rindo de como estamos
E sei que nossos sonhos vão chegar
Pois o medo não vai poder me parar
Eu tenho forças se quiser lutar
E cola pra juntar tudo quando quebrar
Ela se chama esperança



O Fim
Doze badaladas
A última sentencia o final
Não há uma luz no fim do túnel para nós
Apenas um jogo de palavras brutal
O que dizer do nosso destino?
Eu teria previsto se fosse você
É óbvio que não temos o para sempre
Pois tudo sempre acaba
E mesmo sem querer
Deixamos para trás o que somos
Mas não finja
Que não sabia de tudo isso
Eu estou te esperando
Mesmo que não sobre nada
Eu continuarei te amando

Todas as imagens foram tiradas da página de rann-rann no DeviantArt e como esse projeto é maravilhoso, gostaria MESMO que tivesse como comprar esse baralho de arcanas do Tarot, porque gostei muito das imagens.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma Segunda Canção

Há algum tempo fui desafiado pela Ann no blog dela a escrever um conto baseado em um poema que ela escreveu. Esse desafio foi cumprido, mas demorei um tempo para postar, porque estava concentrado em muitas outras coisas. Desculpem, passei da conta mesmo, mas estou de volta, para falar de uma canção belíssima que quero compartilhar com vocês. Espero que gostem.



O Baile

Deixem-me falar de príncipes e princesas, de bailes e danças, deste mesmo salão e da festança que antecedeu os melhores anos do Grande Reino. Deixem-me falar de duas pessoas que não tinham nada em comum a não ser a presença em uma mesma cidade, à mesma hora, em uma mesma noite. Deixem-me falar de duas almas que não estavam destinadas, mas que conseguiram encontrar-se, quase sem querer, na multidão de vidas em polvorosa.
É claro que começou subitamente, uma troca de olhares muito rápida, quase imperceptível, enquanto as cinco famílias entravam no castelo ás vésperas do que seria o maior baile de todos. As flâmulas azuis e douradas envolviam o cortejo que ela acompanhava e ele montado em um belíssimo corcel com as cores vermelho e preto captava os suspiros de quase todas as garotas menos ela. Ela o observou profundamente, analisando se era mesmo o cavalheiro que ostentava a brilhante armadura. Ele percebeu seus olhos e os encarou pelo milésimo de segundo antes dela desviar a atenção para outro lado, escondendo o embaraço.
Não mais se viram e o que poderia ter terminado com uma simples coincidência se tornou mais complexo ao iniciar das festividades. Ele era apenas mais um entre os cavaleiros seguindo a entrada do Rei e ela estava sentada à mesa das damas, em um formidável e discreto vestido azul escuro. Dessa vez foi ele o primeiro a notar e segurou a respiração ao perceber como ela estava fantástica. Seu cérebro enevoou por segundo e foi atropelado pelos homens que o seguiam, causando certa vergonha, mas nem isso pode impedi-lo de tomar uma decisão ousada.
Assim que os casais se uniram na dança em duplas ele levantou-se de seu lugar próximo ao seu suserano e caminhou obstinadamente até ela, que não conseguiu fingir surpresa. Desde o primeiro acorde da música ela estava à sua espera, ainda que em nenhum momento imaginasse que seu sonho, tão tolo, pudesse ser o prenúncio da realidade. Ele tomou sua mão e a puxou para a primeira de muitas valsas. O mundo ao seu redor se apagou e haviam apenas os dois, no meio do salão, juntos, embalados em uma música qualquer.
Quando enfim ela tomou coragem, soltou a voz que ele tanto aguardava e o som entrou em seus ouvidos como se fosse a melodia mais triste e bonita de todo o mundo.
- Eu sou Aurora, da casa Primavera.
E ele respondeu, feliz, e a ela soou como se fosse o ribombar de canhões, quente, mas também carinhoso, quase cálido.
- E eu Poente, da casa Verão.
A resposta trouxe um enigmático sorriso aos lábios dela e ele só pode aproveitá-lo como a torrente que era de felicidade. Quando a música cessou, ele a levou para a sacada, para olhar o céu noturno. Estava tentado a abraçá-la, mas não o fez. Na verdade, sua felicidade parecia escorrer.
- Eu não disse tudo, minha princesa. Não sou somente Poente, mas príncipe Poente, e estou prometido a uma Lady, que descende de uma antiga família de nobres de outra casa.
Ele quase se entrega ao choro. Ela lhe era quase desconhecida, uma estranha, mas seu coração já estava completamente entregue. Sonhava agora por uma guerra, para onde pudesse partir e não sofrer, onde talvez se entregasse à morte para nunca ter de deixá-la. Ainda assim, ela apresentava um formoso sorriso e ele chegou a pensar que ela fosse louca, sádica ou que o achasse um falastrão e não acreditasse em suas palavras. Mais do que isso, talvez ela não sentisse o mesmo e isso lhe parecia horrível.
- Também não lhe disse tudo, meu príncipe. Não sou princesa, sou uma lady, e como me foi dito por meu tio, o rei de Primavera, eu também fui prometida a alguém, ao príncipe de Verão, para que unisse nossas casas pela nobreza.
E de repente o céu se abriu para o príncipe e ele se encontrou voando entre as nuvens tamanha sua felicidade. Pudera, mesmo entre tantos, reconhecera seu amor verdadeiro, a quem devia seu corpo e alma.
- E se minha casa não tivesse feito essa promessa, e se sua casa não tivesse feito essa promessa, ainda assim eu a tomaria por esposa, minha querida.
E beijaram-se, entregues completamente.
Podem me chamar de bobo, podem me chamar de romântico, mas esta é apenas a história de duas almas que nunca deveriam se conectar, de duas pessoas prometidas por interesses, mas que, como prova o destino ser brincalhão, apaixonaram-se antes mesmo de saber. Ele um príncipe guerreiro, ela uma lady sem qualquer instrução, e ainda assim, perfeitos um para o outro.

sábado, 11 de maio de 2013

Magia do Cinema

 Ontem repeti um programinha muito legal que queria que ficasse permanente: Ir ao cinema quinta feira com as queridas Ann Carnivalli e Ari. Sério, as duas vezes foram demais, garotas, muito obrigado pela ótima sessão. Mas, dessa vez saí do cinema motivado a escrever uma resenha, algo inédito a trazer pra cá. Bom, espero que vocês consigam ver o quanto apreciei Anna Karenina. Com vocês, minha primeira resenha aqui.

Anna Karenina

O teatro é um espaço sagrado para as histórias, pois entre suas três paredes, e ás vezes além delas, em contato com o público, histórias podem ser contadas com poucos recursos, muita imaginação e interpretações dignas. Anna Karenina, do romance de Liev Tolstoi, é um dos espetáculos que depende muito mais dos personagens do que da história em si, e com elenco recheado, tanto surpreende quanto encanta e também decepciona, tudo a seu tempo.
A trama gira ao redor da personagem título, interpretada por Keira Knightley, e seu affair com um conde, o que causa escândalo na Rússia Czarista dividindo opiniões entre os liberais e os religiosos e muito mais além, mas o foco do filme está na chaga criada na família Karenin e no romance forte com Vronsky. Apesar de não gostar da atuação automática de Knightley, sua dedicação em tornar Anna tão agradável quanto desprezível é realmente o melhor do seu trabalho. Cada olhar dela, cada expressão de “Oh!” quando uma oportunidade surge, e cada delírio quando seu mundo começa a desmoronar é de cortar o coração e servir como petisco.
Olhando desse jeito, até parece que ela é um doce de pessoa...
Em contraponto, seus dois amores, o certo Karenin (Jude Law, fantástico) e o incerto Vronsky (Aaron Johnson), são excepcionais. O fato de o nome dos dois ser pronunciado da mesma forma, o que rende uma cena agoniante e vergonhosa para a pobre Anna, é a única conexão deles além da paixão pela protagonista. Aleksei Alexandrovich Karenin é um homem sério, justo, de pensamento avançado e também sentimentos nobres, que não sabe como proceder no caso de adultério e se vê confrontado por um mundo que nunca lhe passou diante dos olhos. Law dá ao personagem uma interpretação formidável e se sentimos pena dele quando Anna o humilha ou raiva quando ele se vê cercado e faz a escolha fácil, é tudo mérito do olhar firme mas triste do ator.
Esse visual até me lembrou um certo Doutor Watson.
Já Aaron Johnson, cujo único papel que conhecia era do garoto que apanha pra caramba em Kick-Ass, aproveita exatamente do seu ar de novato, de recém-saído da juventude. Aleksei Vronsky é o auge do furor do homem novo que Anna sem saber procura. Não há medo no seu olhar, nem mesmo incerteza, já que no fundo não há guias. Ele faz o que quer, quando quer e como quer... Ao menos até que seja levado pelas mãos pro destino que sua mãe decidiu. Não sei dizer se Johnson esteve formidável no papel ou se o diretor o colocou em uma situação confortável, mas na primeira metade do filme seu personagem rouba a cena em todos os momentos que aparece.
Esse bigodinho é ridículo, mas ele se revela um conquistador.
E já que falei de personagens, no outro núcleo, do irmão de Anna e de onde surge Vronsky, há outros dois personagens que me chamaram tanta atenção quanto e dos quais gostei mais: Kitty (Alicia Vikander) e Levin (Domhnall Gleeson). O segundo é conhecido pelo papel de William “Bill” Weasley na série Harry Potter, mas Vikander me era desconhecida... Ainda que agora eu passe a prestar mais atenção nela. Seus personagens giram uma segunda história, afetada pela de Anna. Kitty esperava ser desposada por Vronsky, em um plano previamente arquitetado pela Condessa Vronsky, e por isso despreza Levin. Mas quando ela é deixada em Moscou por Vronsky que correu atrás de Anna, sua personagem sofre um profundo abalo e aos poucos, tanto ela quanto Levin vão mudando, sem perder essência. Toda a sequência do encontro de Levin com seu irmão nos subúrbios da cidade, do conhecimento da prostituta que vive com ele e da renovação do personagem nos campos é um arco fantástico demais pra ser ignorado.
Esses olhos são lacrimejantes e encantadores.
Aliás, talvez a grande estrela do filme sejam os cenários mutantes, todos bem trabalhados para girarem ao redor dos personagens, sem tirar deles o brilho. A sequência inicial, um plano contínuo que começa em um teatro e mostra a empresa de Oblonsky, o irmão de Anna, e sua casa, além de um restaurante é de tirar o chapéu. Por mais esquizofrênica e alucinada que seja, a sensação é de imersão, um balé em que os personagens, por pouco, não transformam em ópera, cantando suas falas. Ponto alto do filme, o baile em que Anna e Vronsky dançam é belo e triste, seja pelos olhos de Karenina, deslumbrada, quanto pelos de Kitty, decepcionada.

Essa é uma das cenas mais lindas do filme. Uma montagem doce e bem elaborada.
A trilha sonora contribui muito neste segundo caso. Por mais absurda que uma cena seja, como a invasão de Anna à própria casa em busca do filho, as notas não nos deixam enganar, e sabemos que aquele é um momento de sofridão. Lágrimas podem correr dos olhos de todos enquanto aos poucos o mundo de Karenina vai se tornando mais escuro (em contraste ao seu vestido que passa do negro pro branco e do branco pro vermelho em cenas chave) e o de Kitty mais claro e amplo. O final, repetindo uma pequena parte da coreografia inicial, encerra o espetáculo com louvor e nas cadeiras do cinema nós deixamos o teatro. Felizes, pelos personagens, mas tristes pela história.