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domingo, 4 de agosto de 2013

Lua Macabra... O Retorno

É, eu sei. Eu estou sumido daqui há algum tempo, mas foi por uma boa causa... Ou algo assim. O que importa é que estou de volta, com um conto novo, revisado e preparado para servi-los com uma deliciosa história que... Melhor não dar spoilers, pega mal. Já aviso, porém, que provavelmente fará parte da safra Lua Macabra, então esperem por algo que terá sim a combinação de terror, romance e... Algo mais. Vocês verão. Aproveitem o conto!

Grandes Erros


O celular gemeu mais duas vezes e então apagou, a bala atravessada na tela de cristal líquido deixando preso para sempre o pedido de ajuda não enviado. A ponta da pistola ainda fumegava, agora apontada para seu peito, e não haviam sorrisos ali, nem olhares amigáveis. Só o terror absoluto da morte certa. Alguns grunhidos desajeitados escapavam da sua boca, os olhos circulando pela sala, em busca de salvação, mas só encontravam os corpos dos amigos caídos pelo chão e o sangue lavando a parede cinza de sujeira.
Como havia parado ali mesmo? O que tinha feito de errado pra que ficasse na pior, para estar tão perto de suas últimas palavras?
Havia levantado bem, escolhido uma lingerie sexy, preta em contraste com sua pele muito branca, e um vestido nem longo nem curto que cobriria só o necessário e mostraria o suficiente. Um pouco de maquiagem e “voilá”, estava pronta para encontrar aqueles que eram sua família escolhida e que a aguardavam na frente de uma boate da zona leste, com um nome genérico e bebidas idem, mas com gente suficiente para ela poder escolher qualquer acompanhante. Estava pronta para fisgar sereias ou tritões, independente da vontade, seria capaz de levar qualquer um na sedução.
Os amigos se dispersaram, lançando-se em todos os focos possíveis, fossem os fãs da banda no local, os ratos de bar ou os visitantes perdidos a fim de um affair. Para ela, no entanto, alvos tão fáceis eram um grande problema, um tédio sem fim que não valia a saída em uma quinta à noite. Com uma olhada rápida, visualizou algumas boas presas, deliciosos homens e mulheres que se renderiam a um belo decote e um sorriso fatal. Escolheu entre eles o que parecia mais difícil e lançou-se ao desafio.
O homem que estava sentado perto de um dos pilares da danceteria poderia passar tranquilamente por um segurança, tamanha carranca e distinção do seu terno. Ele a notou de longe, enquanto ela cruzava a pista dançando, e fez que não havia percebido suas intenções. Quando ela se recostou ao seu lado, ele se afastou um pouco para não ficarem ombro a testa, e ela pode ver os contornos dos músculos por baixo da camisa social azul. Seria uma ótima conquista, das que se vangloriaria para as amigas depois.
- Que foi, está com medo que eu morda?
Ele não respondeu e ela mordeu os lábios, tanto por raiva quanto provocação, exibindo os belos dentes brancos. Olhou para a mão dele e não encontrou nenhum anel, então provavelmente era birra, ou talvez fosse mesmo um segurança perdido.
- Se não está aqui para procurar por mim, talvez esteja aqui por homens, certo? – tirar sarro era uma de suas alternativas mais baixas, mas já rendera bons momentos no estacionamento.
- Você não é o tipo de mulher que eu procuro. – respondeu ele com uma voz cavernosa e ela chegou a sentir as pernas tremerem, mesmo que com uma frase tão rude.
- Como sabe se nem me viu direito? Está desviando o olhar desde que eu cheguei na casa.
- Não preciso ver para ter certeza de que não queremos a mesma coisa.
Era realmente um páreo duro, dos que figurariam como lendas em futuras conversas de bêbada. E exatamente por isso não desistiria, não tão fácil, por mais que seu orgulho, e talvez algum outro instinto mais primordial, estivesse dizendo que não era uma boa ideia.
- Façamos assim, eu lhe pago uma bebida ali, sem compromisso, e você me deixa tentar ao menos uma vez te fazer mudar de opinião.
Isso foi capaz de tirar os olhos dele do globo de luz, DJ, ou o quer que fosse que ele estivesse dedicando mais atenção do que a ela. Por isso, ela se arrepiou quando os olhos negros dele se cravaram nos seus e quase se arrependeu da proposta. Quase.
- Feito. Tem uma mesa vagando ali.
E foi, sem esperar por ela. Em outras circunstâncias ela teria procurado outro cara ou garota e simplesmente abandonado aquele troll, mas havia algo dentro dela que despertava, uma sede intensa por aquele homem que, não importava o quê, a estava não só esnobando, como ignorando completamente seus ataques. Pensou no perfume que escolhera, na pele exposta, na maquiagem delicada que a fazia parecer uma garotinha, e no sorriso treinado à exaustão diante do espelho e nada parecia estar errado, então o problema só podia ser ele.
Acompanhou-o rebolando, para que os outros ficassem alertados que, assim que ela tivesse acabado com aquele homenzarrão, estaria pronta para mais. Ela nunca se contentava com um só e não seria ele a mudar isso nela. Sentou-se no lado oposto da mesa e pediu por dois copos de uísque. A escolha o fez levantar o olho e ela sorriu, deliciada com a surpresa.
- É óbvio que um homem do seu porte bebe algo de igual valor.
Ele sorriu pela primeira vez e ela notou os dentes sujos de fumo, o que reduzia em muito o tesão, pelo menos naquele momento. Fumantes eram um problema que ela preferia evitar, principalmente porque eles lidavam com algo extremamente perigoso, o fogo. Para os outros era fácil, mas ela tinha um pouco mais de medo da chama matriz, a grande inimiga de coisas que eram altamente inflamáveis, como a bebida que acabava de chegar.
Durante os vinte a trinta minutos seguintes ela tentou de todas as formas puxar um papo interessante, que rendesse no mínimo uma agarração na porta do banheiro, o que resultou em saber que o nome dele era Adam Corso, mais conhecido por Corsário, tinha em torno de trinta anos, solteiro convicto e gostava de cachorros grandes, tipo dobberman. Além disso, ele tinha uma fixação meio mórbida por objetos de prata, e ela temeu que ele fosse tirar de dentro do colarinho um crucifixo daqueles que seria capaz de se colocar em cima de um túmulo, mas foi apenas um colar de caveira mexicana.
- É para dar sorte, uma vez estive por lá no Dia dos Mortos e ganhei isso de um dos locais, que garantiu que me protegeria para sempre. Realmente, acabou me salvando a vida outro dia.
- Verdade? – perguntou já quase sem interesse. Que ele fosse um desafio, OK, mas ela estava começando a pensar que ele era apenas um chato.
- Ah sim, mas isso... Eu posso te contar depois. Está a fim de dar uma volta?
A pergunta a pegou de surpresa, desarmada, e ela acabou deixando mostrar que não tinha uma resposta pronta. Nunca antes tinham sugerido sair dali que não fosse para qualquer lugar próximo onde ela daria um sumiço na calcinha ou algo assim e por um instante pensou nos prós e contras. Por um lado ele poderia querer levá-la a um motel, onde poderia desfrutar de privacidade suficiente para se saciar nele, apesar de depois ser meio chato fingir que não esteve lá. Nada que um papo cabeça com os atendentes e uma rápida passada pela sala de segurança não resolvesse. Por outro lado, ele poderia estar planejando levá-la a seu apartamento, tentar estuprá-la e dar um fim ao seu corpo jogando-o no lixão. O que também era uma boa oportunidade, já que perigo sempre gera ótimos momentos de tensão e isso a deixava acesa como uma vela na igreja... Epa. Péssima metáfora.
- Tudo bem, garotão. Só deixa eu avisar meus amigos. – e então vasculhou o lugar, procurando por qualquer um deles, mas estranhamente não os encontrou.
Talvez tivessem escolhido sair todos juntos para comerem, ou talvez fosse apenas a falta de atenção, como não os viu decidiu dar o fora assim mesmo. Qualquer coisa voltaria depois, de repente usando o carro daquele homem misterioso, e poderia buscá-los em alto estilo. Ou isso ela esperava, pensando sinceramente que se visse um Fusca na vaga dele, mudaria de ideia na hora. Por sorte encontrou uma belíssima Mercedes Classe A escura como os olhos dele e partiu dali, para onde quer que ele a estivesse levando.
- Gosta de música? Eu tenho alguns cd’s interessantes no porta-luvas.
Agora ele queria ficar animado, ela pensou, e decidiu que era melhor manter o clima, por isso abriu o porta-luvas e encontrou ao menos cinco cd’s, todos de bandas completamente diferentes.
- Você é bem eclético, né?
- Tento. Sempre que posso, compro algo baseado em quem dou carona. Gosto de conhecer coisas novas. Qual sua banda favorita?
- The Damned, mas duvido que você os conheça, são uma banda undercover da área onde moro.
- Vou tentar escutar depois, então. É um hobby, se quer saber, e é muito divertido.
- O quê? Conhecer as bandas que as garotas que você pega escutam?
- Exatamente.
Por algum motivo aquilo a deixou muito desconfortável, o que não era habitual. Percebeu que quanto mais avançavam, mais perdia o controle, e esse era um terreno desconhecido para ela. Nunca antes tivera tantos problemas em uma caçada ou demorara tanto para pegar um homem. A curiosidade começava a sumir e uma pontinha de medo surgiu em seu coração negro, que por um instante pensou ainda possuir.
- Estamos chegando. – disse ele, de repente, e ela se assustou ao ver que não sabia onde estavam.
Era uma área residencial bem pacata, do tipo que os pais escolhiam para viver com seus filhos quando eles nasciam e não havia mais nada importante no mundo. Ela podia ver as crianças correndo pelas ruas tranquilas, homens e mulheres passeando com seus cachorros e o carteiro pedalando a bicicleta em paz, sem pressa. Tão simples e calma que poderia fazê-la se jogar para a morte de tanto tédio. Um pensamento cruzou sua cabeça: Talvez fosse isso mesmo que estivesse fazendo. Afastou as ideias ruins e saiu do carro com ele na frente de uma garagem fechada. Ele a levou mesmo para casa e ela pensou em como faria para voltar para a danceteria depois, sem saber o caminho. Maldita hora que ficou escolhendo os cd’s.
- Pode entrar, sinta-se em casa. – ele disse quando abriu a porta e ela agradeceu mentalmente que ele fosse gentil ou teria um momento constrangedor.
Era uma sala bonita, de móveis novos e com uma lareira e a casa parecia muito amigável, o que reforçou a sensação de que algo estava terrivelmente errado. Sentia o cheiro de bolo de canela, de uma cerveja tomada no fim da tarde e das flores nos vasos, além de outro que era muito, muito familiar, mas que por algum motivo lhe escapava da memória e era ruim, ruim pra cacete. Ele tirou o paletó e jogou sobre o sofá, em um gesto displicente, mas que nada tinha a ver com uma demonstração de excitação que denunciaria um ataque à sua donzelice.
- O que foi? Algum problema?
- Não, é só que não estou acostumada a fazer isso. – confessou, aproveitando que não era uma mentira para esconder a verdade.
- Acredito, você tem jeito mesmo de quem faz muitas coisas, menos ir à casa de um homem direto de um bar.
Ela riu, nervosa, do que talvez fosse o comentário mais maldoso e perverso dele até agora. Pensou nas rotas de fuga, em como tudo poderia estar certo e ela estar simplesmente necessitada, e por isso não estava pensando direito. Ouviu o som estralado de uma garrafa abrindo e retesou, vendo-o de costas mexendo em um armário.
- O uísque não foi suficiente?
- Nah, eu só estava pegando o brinquedo certo para uma vadia como você. – disse ele e se virou apontando uma arma para o meio de seus olhos.
Ok, então ela tinha ouvido uma arma e confundido com uma garrafa. Normal, muita gente fazia exatamente o contrário. Arreganhou as presas e lançou-se sobre ele, completamente transformada, antes que ele pudesse pensar em sentir coceira no dedo da arma. Ainda assim, ele desferiu o tiro que atravessou seu pulmão morto e causou intensa dor. Por pouco não acertou o coração.
- Ê, ê! Cuidado, as balas são de madeira e prata.
A frase soou tão errada que ela demorou a perceber o porquê, e era algo mais do que apavorante. Era uma frase muito certa, típica de alguém que estivesse não só ciente, mas confiante de como se mata vampiros. Se pudesse, sua espinha teria gelado naquela hora.
- Como...?
- Sem perguntas, ande em direção ao quarto.
E apontou para uma porta semi-aberta, de onde ela percebia que vinha o cheiro de antes, que ela não reconhecera. Assim que chegou perto pensou em como era estúpida, em como havia falhado muitas vezes e estava tremendamente ferrada agora. Atravessou a porta e encontrou um quarto muito grande, praticamente sem móveis, no qual outros três homens apontavam armas para ela. Eram como ele, normais demais para parecerem estranhos, e portavam armas igualmente simples, mas com munição letal à sua espécie. Morreria antes de pensar em sugar o sangue de qualquer um deles.
Demorou pra perceber o que causava o cheiro e quando viu só pode chorar. Havia pelo menos uns dez corpos de vampiros estirados no chão, em decomposição acelerada. Tornariam-se pó antes do amanhecer. Eles eram caçadores e estavam satisfeitos em dizer que haviam feito uma grande caçada e talvez continuassem depois dela. Em soluços fingidos, acompanhando as lágrimas de sangue que corriam de seus olhos, tentou tirar o celular de sua bola em extrema velocidade e ligar para pedir por ajuda. Um dos caçadores percebeu seu movimento e atirou, jogando-o no chão e ferindo sua mão. A tela ainda brilhou com o primeiro botão apertado, o número de emergência.
E lá estava ela, no único quarto podre daquela casa bela, em um bairro pacato e que provavelmente era apenas uma enorme sede de caçadores disfarçada de subúrbio. Ela tinha encontrado seu fim, e não havia nada que trouxesse satisfação naquele momento. Para piorar, não tinha bebido nenhum dos homens que agora a torturariam antes de explodir sua cabeça e a sede ficava muito forte. Tanto que seus sentidos estouravam, aguçados ao máximo. Um zumbido irritante começou a soar em seus ouvidos e ela amaldiçoou o dia em que ganhou esse poder, até que percebeu o que ele indicava. Sorriu.
- O que é, sua vaca? Surtou sabendo que vai virar poeira? Você e sua espécie de merda vão todos virar pó e a gente vai fazer de tudo pra isso acontecer. Ah, porra, por que você está, rin...?
Ele não terminou a pergunta porque um carro, o seu carro, havia atravessado a parede, abrindo ao meio os quatro caçadores. Pelo jeito eles não tinham pego TODOS eles, um escapara e agora saía pela porta de trás do sedan quase completamente demolido.
- Ei, Ann, está bem? – perguntou a mirrada vampira que a idolatrava e que pelo jeito a seguira também.
- Por pouco, querida, por pouco. Se você não tivesse entrado com o carro...
A bola atravessou suas costelas, raspou no coração e foi parar no pedaço de parede que pendia do teto no buraco aberto pelo carro. Ann virou furiosa para o atirador e encontrou seu homem, o Corsário, ás portas da morte, sem o braço e sem um olho. Ele parecia ter sido esmagado pelos destroços e talvez não sobrevivesse para o próximo minuto mas ela não o deixaria escapar tão fácil. Mordeu o pulso e enfiou na boca aberta dele antes que ele pudesse pensar em algo e o fez absorver o suficiente.
- Toma, seu filho da puta. Transforme-se, e espero que sobreviva para devorar seus amigos de fome antes do sol nascer. E amanhã, quando estiver perdido e desamparado, eu vou te caçar e dilacerar e sugar de volta todo o sangue que te dei. Vou ficar esperando, seu desgraçado.
E abraçou a amiga, saindo para o céu noturno.
- E agora, Ann, o que vamos fazer?
- Vamos pra minha casa, eu preciso arranjar um outro vestido e... Droga, eu adorava essa lingerie.
- E depois?
- Depois vamos atrás de um lanchinho, porque eu estou morrendo de fome.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma bela imagem

Eu não tinha NADA preparado pra hoje, nem ao menos uma linha que pudesse me dar um texto descente. Mas daí, subitamente, uma Wild Ariana me aparece com uma imagem que simplesmente desperta uma ideia que não poderia perder e dá-lhe página em branco do Word! Conclusão? Um conto novo, quentinho, para vocês aqui. E é um que eu realmente gostei de fazer. Espero que gostem! A imagem que gerou tudo está ao fim do texto e vocês vão entender o porquê.

A Mulher na Cripta

Noites de tempestade são extremamente desagradáveis, e não falo isso por ser um adepto de sair e me divertir, mas porquê trabalho com filmes e não há nada pior do que gravar de noite e ficar com medo de a energia acabar e nos vermos com horas de trabalho perdido. Seria mais simples se tivéssemos um bom orçamento mas, já que filmamos terror quase classe C, então não posso mesmo pensar em ter um estúdio e equipamento de ponta. Fico muito feliz por ter uma câmera e bastões de luz suficientes para conseguir fazer uma cena no meio do cemitério.
A tal cena, aliás, é o grande problema. A chuva cai e já inunda tudo do lado de fora do mausoléu que invadimos para filmar e eu acho que os cabos, que o nosso único técnico de filmagem, som e qualquer coisa que não seja principal, colocou em cima de alguns túmulos, já devem estar debaixo d’água, então em breve é capaz de eu acabar me juntando aos defuntos por eletrochoque. E pra finalizar, nossa atriz principal está fazendo doce no “camarim” improvisado, uma tenda que conseguimos montar no morrinho do lado de fora.
O rolo é com o maldito figurino e eu sempre soube que ele causaria atrito entre ela e o roteirista depravado que o diretor arranjou. Desde o primeiro dia ele veio com ideias que envolviam mulheres nuas, cenas de soft porn, sangue tipo catchup, cabeças decapitadas e um vampiro carniceiro, do tipo que faria Freddie Krueger se orgulhar de ter como professor. Era mais do que o necessário para a namorada do técnico, que foi a única garota a aceitar se meter nessa treta, começar a ter chiliques e ameaçar desistir várias vezes.
Agora ela estava lá, sendo convencida pelo namorado super seguro de que aquele biquíni obsceno tampava o suficiente para ela poder vestir branco quando casassem e que estava tão escuro que era capaz de ninguém notar que era ela. Eu confirmo essa informação, com a precariedade do material e a maquiagem enjambrada, eu poderia dizer que era a Madonna ou a Adele sem medo de errar. E claro, não me importaria em descobrir o que há por trás dos dez quilos de roupa fechada que ela usa. Dependendo do caso, poderia valer todo o esforço.
- Ei, John. – me chama o diretor. – Vem cá um minutinho?
- Fala, Arthur. – respondo, me aproximando, e percebo que ele treme muito.
- Cara, me quebra um galho? Acabei de ouvir, houve uma espécie de acidente perto de casa. Duas gangues brigando, algo assim. Pessoas ficaram muito feridas. Meu pai é policial, ele tava de ronda... Eu preciso ir...
- Claro! Vai lá! A gente pode parar a filmagem, não fica...
- Não! Paguei muito caro no aluguel, a guria tá quase caindo fora e se a gente sair agora, capaz de não conseguir invadir isso outro dia. Precisa ser agora!
- Tá, tá, eu faço tudo aqui. Só leva aquele maluco do roteiro junto pra te dar uma mão. Senão é capaz de eu encher ele de porrada.
- Tudo bem, valeu, você é um grande amigo.
E sai levando o Abraham juntos. Acabamos ficando só eu, o técnico e a namorada dele. Começo a arrumar tudo, imaginando o que poderia dar errado ou quanto tempo mais eles iriam demorar quando escuto o som de abrindo a porta e o barulho do vento lá fora. Não há nenhum passo na escada, mas eu consigo escutar o som de véus arrastando nos degraus. Quando me viro, me deparo com uma Lúcia completamente paramentada, em um biquíni que faria as garotas daqueles programas de tevê corarem e um roupão transparente que não deixa dúvidas a como ela é gostosa. Engulo em seco e ela sorri, e é um sorriso lindo. Paro pra pensar em como o técnico é sortudo, em como ela faz pra esconder tudo isso e em que estamos sozinhos, o que é extremamente perigoso. Até os caninos falsos ficaram perfeitos.
- Ok, vejo que está pronta. Podemos começar? – e ela concorda muda. – Como a gente disse antes, essa é uma cena simples. Você precisa andar pela cripta, parar na frente do caixão que está ali e começar a chorar. Eu vou cortar, mudar o ângulo e mostrar lágrimas de sangue que eu tenho aqui no bolso. Não vai doer nem nada, é só um corante pra derramar perto dos olhos. Aí paro de novo, você dá um berro e fechou por aqui. As externas a gente pode filmar depois, e você não precisa aparecer. Fechou?
Ela simplesmente abre outro sorriso que me deixa desconjuntado. Que mulher maravilhosa, e aquele namorado nada ciumento não estava agora ali para aproveitar a visão. Tá, tudo bem, provavelmente ele a veria depois em casa e acho que o biquíni vai acabar ficando pra eles, mas... Nada vai me estragar o momento. Levanto a câmera e ela faz seus movimentos, muito suaves, parando exatamente no ponto certo. Não precisaríamos repetir a cena. Em seguida eu mudo de posição para colocar as lágrimas falsas e esbarro em sua pele, gelada, provavelmente pelo tempo ruim.
- Desculpa mesmo pela escrotice do Abraham. Vou falar pro Will que ele nunca mais deve escrever nada pra gente. É só que agora... Não dá pra mudar, entende?
Pelo olhar ela deixou de ligar há muito tempo e até mesmo parece estar se divertindo. Minha mão acaba deslizando pela face dela e fico parado, alguns segundos, o que provavelmente vai render comentários depois dela com o Morrisson. Afasto-me e gravo aquelas lágrimas falsas escorrendo e elas demoram tanto pra descer e parecem em tanta quantidade que até me assusto, como se ela estivesse chorando de verdade. E mais uma vez troco de posição e a filmo gritando, e o que vem em seguida nunca mais vou esquecer. O grito é como o de uma banshee e posso dizer que até mesmo quem estava longe do cemitério pode ouvir. É profundo, amargurado e realmente triste.
E finalmente, as coisas ficam estranhas de vez, mas não paro de filmar. O caixão simplesmente se abre e sai alguém de lá, e é um homem. Nesse momento eu estou pensando em como esses filhos da puta armaram para cima de mim e colocaram o Morrison lá dentro sem que eu visse e agora estavam me deixando morrendo de medo. Ele puxa Lúcia para si e dá o beijo mais arrepiante da minha vida, que me deixa aterrorizado e excitado ao mesmo tempo. Eles se afastam e ela vem até mim e também me beija, mas mais delicada, como uma despedida. Em seguida eles saem, e eu posso jurar que a tempestade parou por um segundo e escutei risadas macabras. Eu demoro muito tempo pra me mexer e desligar a câmera e então subir as escadas correndo.
Lá fora a chuva é torrencial, posso ver os clarões ao longe onde caem os raios e até mesmo um incêndio, talvez provocado por um deles. Na tenda, Morrison e Lúcia parecem discutir e ela está com o casaco dele. Ando até eles para tirar satisfações quando percebo algo caído no chão, o biquíni dela solto, uma peça abandonada. Pego-o e entro na tenda.
- Ei, vocês dois! Que ideia foi aquela de improvisar na cena? Sabe como vocês me deixaram assustado? E ainda jogaram o biquíni na lama! E se tiver que filmar de novo?
- Que história é essa, cara? A gente tava discutindo agora mesmo porque ela tinha jogado o biquíni fora de raiva e achamos que não ia dar mais pra filmar!

A resposta me deixa encucado, será que eles continuam com a brincadeira? Só então percebo que a Lúcia sentada ali e encolhida está tremendo de frio e tem grandes olhos azuis focados em mim e os olhos da mulher na cripta eram negros. Negros como a noite de tempestade.

Venha a mim, meu pobre mortal.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Rebeldia e Tradicionalismo

Sempre que eu vejo vampiros "modernos" eu me pergunto que diabos fariam os antigos se tivessem como pegá-los no flagra, em seus ataques de histeria e colocá-los em seu devido lugar... Bom, não fiquei só na imaginação, transformei em conto, um dos meus favoritos da primeira leva do Lua Macabra, mas que não sei se encaixa REALMENTE nele... Já consegui alguns bons sorrisos de dentes pontiguados com ele, então... Quem sabe... Eu traga mais alguns caninos para o meu lado hoje... Aproveitem o sangue jovem, mas não esqueçam do poder do sangue antigo!



Abaixo o Antigo, Viva o Novo!

Houve um tempo em que éramos poucos. Tão poucos que não encheríamos um prédio de condomínio, daqueles com só quatro andares, que não se vêem mais por aí. Agora, se eu piscar, verei dois novatos entrando pelas portas de minha casa, implorando ensinamentos antigos, que não são capazes de compreender. Eu bebo raramente agora, minha idade me deu tanta força que não preciso me conter para andar por entre os mortais. Sei que eles me sentem, um frio inconstante que me impede de simular vida, mas o que eu faria, com tantos séculos, se ainda andasse com trajes dos tempos de seus avós? Eu precisava me atualizar. E isso foi o que os atraiu. Como poderiam menosprezar a chance de conhecer alguém tão velho? Heh, velho, é claro.
Não vou mentir. Seu fedor chegou a mim no instante em que o carro virou a esquina. Vinham precavidos, refazendo o caminho que treinaram tantas vezes, para que não fossem percebidos. Falharam, óbvio. Desceram do veículo e ouvi os passos pesados. Ao menos um deles portava armas, o tilintar extremamente audível para qualquer um com minha idade. Se me ameaçassem, tinham a vã esperança de me causar algum dano antes de reagir. Talvez conseguissem, não luto há mais tempo do que eles existem.
A porta abriu, sem parcimônia, e eles entraram, demonstrando o mínimo de respeito possível. Claro, para eles, cujos costumes eram mais bárbaros que o povo mais selvagem de minha época, este era o certo, o "educado". Não queriam me pertubar, para que eu não lhes desse a reprovação sem antes abrirem suas bocas e falarem todas as besteiras que pensaram durante aquele mês. Prometi a mim mesmo que lhes daria a chance. Quem sabe não doeria tanto, quem sabe não seria como ouvir os bardos cantando sobre heroísmos que nunca existiram? Poderiam até ter pesquisado sobre mim, e encontrado algumas daquelas anedotas quase perdidas sobre o tempo.
Eram dois, realmente, e tão díspares, um magrelo e uma mulher. Desconfio que gostassem das mesmas coisas, visto que se trajavam de forma dissonante, ainda que reveladora de suas almas. Os cabelos, ralos, dele, caíam sobre os olhos, raspados ao lado da cabeça, passando do intenso negro para um vermelho berrante. Suas roupas se resumiam a uma folgada camiseta bordô e uma calça colada, que provavelmente era de couro. A maquiagem em seu rosto, banal nos dias de hoje, era tão ou mais pesada que a da fêmea. De forma esguia e sensual, ele tentava transperecer tanta feminilidade quanto ela, em seu vestido canudo, com abertura no ventre para revelar a barriga bem construída e uma nesga da lingerie preta. Os cabelos, curtos em corte Cleópatra, caíam leves logo acima dos intensos olhos azuis. Seus lábios, vermelhos, quase tão convidativos quanto os seios, apertados no topo do vestido tomara-que-caia. Definitivamente, duas jóias raras, que poderiam me atrair e levar ao inferno pessoalmente.
A voz que saiu do garoto não era o que esperava. Tinha um tom grave, com pequenas desafinações, como no fim da adolescência: - Aí está você... Milorde. - A bajulação soou fria, vazia, um gracejo pobre para convencer-me de devoção inexistente. - Procuramos pelo senhor há tempos...
- Não diga, asneiras, Todd. Ele sabe que não é verdade. - a voz dela, no entanto, era bem o esperado, um arfar sensual, como se precisasse conter toda a sua eroticidade em cada palavra.
Decidi me abster de comentários, continuar apreciando o espetáculo. Esquadrinhei seus perfis no escuro, imaginando se poderiam oferecer ao menos uma fração do perigo que desejavam transmitir. Ela era a inteligente, claro. Ele, por outro lado, era o esperto, o sobrevivente e sacrificaria tudo, inclusive ela, para sair dali vivo. Resolvi jogar esse jogo.
- Desculpe minha companheira, mestre. Ardell nunca aprendeu a ser digna diante de um nobre. Mais ainda quando o nobre é tão importante quanto o senhor. - ele já me deixava enfadado e pensei seriamente em cortar seu pescoço naquele momento.
Ela bufou, compartilhando da minha falta de entusiasmo e me peguei pensando em como uma garota tão esbelta poderia ter tanta falta de ar. Não com aqueles pulmões, imagino. Já ele, tentava abertamente me chamar a atenção, dominar minha vontade. Falhou completamente.
- Se o mestre permitir, gostaríamos de um minuto do seu tempo. - me perguntei se ele havia sido transformado por caridade ou brincadeira e que estúpido o fizera.
Finalmente resolvi que seria bom me pronunciar, talvez conseguisse mandá-los embora. Apesar de tudo, não gosto de matar aqueles da minha raça: - Você já está gastando meu tempo, criança. Então seja rápido antes que a conta fique muito cara.
As reações, adversas, foram as melhores até aquele momento. Todd, como chamara a garota, parecia estupidamente ofendido e fazia uma expressão perdida que talvez lhe levasse ao erro fatal. Já ela, pela primeira vez, olhava diretamente para mim, entretida com a forma como eu despachara os dois. O garoto procurou em volta e diversas vezes conteve a mão que se dirigia para as costas, provavelmente à procura da arma. Antes que voltasse a falar, me ergui de minha poltrona e caminhei até eles. A mão enfim fez o percurso, mas não encontrou coisa alguma. Seus olhos não poderiam crêr que eu realmente brincava com a pistola, uma calibre .38 como viria a saber, procurando entender seu funcionamento. A garota, Ardell pelo que ele tinha dito, colocava a mão suave sobre os lábios, contendo o "Oh" de assombro. Joguei a arma por sobre o ombro esquerdo e toquei o rosto do jovem, trazendo-o para perto do meu. Nossa diferença de altura, eu dez centímetros maior que ele, no mínimo, sumiu assim que ele se pôs nas pontas dos pés.

- Não me dê motivos para achá-lo ainda mais irritante. Se nada tem a dizer, aproveite que estou satisfeito com o presente de metal, e suma de minha presença.
Soltei-o e ele caiu de joelhos, chorando. Dei as costas, crente de que eles partiriam, quando fui surpreendido pela garota. Ela utilizou tudo que tinha para conseguir velocidade suficiente para surgir na minha frente. Sorria, nervosamente, e passava um pirulito vermelho por entre os lábios, encarando-me com forte admiração. Naquele momento, incoerentemente, eu que me tornei a presa. Delicadamente me tocou o peito, apertando os dedos sobre a minha carne e arfou profundamente.
- Sabe o que queremos, não sabe? Já sabia assim que entramos em seus domínios. Bom, eu estou disposta a me oferecer em troca de tudo que você puder me passar. - ela provocou, mordiscando o pirulito com vontade.
Ergui a sobrancelha, mantendo a aspereza na voz: - E o que me impediria de tirar de você isso que tem a me dar? Acha que vale tão pouco o que EU tenho?
Ela não respondeu, continuava com a malícia nos lábios e virou-se, caminhando e rebolando, em direção ao caixão antigo que conservava em meu refúgio. Apoiou as mãos nele, erguendo o traseiro e me observando por sobre os ombros.
- Nada impede, porém, nada garanto que será tão bom quanto o que EU tenho para sacrificar. Só quero... Um pouquinho de seu poder. - ela dizia, sua voz ainda mais provocante.
Movimentei-me para suas costas, apertando seu corpo ao meu, revelando quão pequeno era. Comprimi sua cintura entre a minha e o caixão e cravei os dentes em seu pescoço fino e macio. Eu havia lhes dado todas as chances. Se ela queria isso, teria. Rasguei seu vestido sem pensar duas vezes, fazendo com que ela desse um gritinho assustado. A expus completamente, satisfazendo-me com a visão de um corpo perfeito, parte moldado com as facilidades dessa era moderna. Passei a sugar o ralo sangue daquela criatura por tempo suficiente para eu mesmo estar livre de roupas. Ouvi os gemidos dela passarem de dor para prazer e foi o que dei a ela. Sabia que o rapaz ainda não havia fugido e decidi que se o que ele queria era apreciar o que eu fazia com a sua amiguinha, deixaria que o fizesse. Pressionei-a por muito tempo, até me sentir completamente agraciado com seu corpo. Larguei-a, longe do meu caixão, e olhei de um para o outro. Havia bebido o suficiente dela para que estivesse realmente renovado.
- Agora, se nada mais tem a fazer. Por favor, abandonem meu... - uma pontada estranha me fez olhar para meu peito.
Destoando do resto de minha roupa, uma pequena estrela de prata adornava a região próxima ao meu coração. De fato, a garota errara por centímetros. Se ainda não sentira, era por causa do êxtase que ela me causara. Eu agora estava furioso. Os dois não haviam percebido que falharam em seu plano e riam descordenadamente. Com extrema raiva, eu agarrei a garota pelo pescoço, e como estava ainda exausta do meu tratamento, foi fácil jogá-la para dentro de uma porta, um quarto anexo ao meu. O garoto, lentamente entendendo o que acontecia, não escapou de um golpe profundo, que o lançou pela janela. Eu moro no quinto andar de um prédio antigo. É muito alto. Antes que ela se levantasse, eu a pressionei contra o chão de madeira. Ainda não estava pronto para deixá-la morrer. Ainda não. Entre gritos, eu a arrastei para dentro da sala escondida, trancando-a longe de qualquer ajuda, e utilizei a estrela de prata para deixá-la imóvel. Ao que parece, ganhei dois presentes nesta noite.

Venham a mim, crianças da noite! - ordena Drácula, imortalizado por Bela Lugosi.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mulheres Fatais

Noir, uma noite sombria, um crime sem álibis, uma mulher fatal, um detetive tolamente atraído por ela... É um dos climas mais estilosos que existem por aí, que envolve geralmente casos policiais sem grandes mistérios, a não ser as reais identidades de seus personagens. Maioria das vezes eles se escondem em várias camadas, mas quase inevitavelmente aquela mulher voluptuosa de curvas sinuosas é sim uma mulher fatal, que vai tirar tudo que puder do detetive... Até seu sangue... Este conto escrevi pra compôr meu projeto (em parceria com a Ann): Lua Macabra. Uma série de contos, curtos ou longos, com mulheres desse naipe, com lingerie e com muito sobrenatural. Espero que apreciem o aperitivo!

Novamente uma imagem que não é minha, mas representa muito bem! Esta é a Lady Lestat!




Femme Fatale

A cena de crime perfeito: O corpo, deitado sobre a cama bagunçada, completamente inteiro, os olhos abertos e uma taça de vinho na mão. A janela e a porta trancadas. Nada mais fora do lugar. Na recepção, os atendentes juraram, só havia entrado o falecido. Infarto fulminante. Mas nenhuma gota de sangue no corpo.
Completamente absorto, o detetive James Wayne procurava por indícios de arrombamento ou do uso de ferramentas para drenar o morto. Nada, nem uma gota de sangue nos lençóis. Pegou mais uma vez o bloquinho de notas e rabiscou algumas informações. Grunhiu e pediu a um dos oficiais que lhe trouxesse um café. Preto, com muito açúcar. Dane-se a dieta, pensou, e então chamou o legista, que veio com uma cara de desespero. Trinta anos de profissão. Nada igual. Perderia o emprego.
- Diga-me, como é possível?
- Não sei, Jim, eu estou alucinado. Verifiquei o corpo três vezes já. Nem um furo, nem um corte. Parece que ele simplesmente não tinha sangue. Está pálido como se estivesse morto há anos. Nem sei se posso chamar isso de assassinato.
Mas foi, o detetive tinha certeza. Colocou o lápis na boca e saiu, resmungando que não queria ser seguido. Encontrou o policial do lado de fora, o café na mão. Chegou à recepção e pediu aquelas fitas para ver em reservado. Deram-lhe uma das salas de conferência. Enquanto tomava seu café, via mais uma vez o homem, um desses novos ricos da faixa dos quarenta, entrar alegre no hotel e passar reto pela recepção. Não tinha devolvido o cartão, então não precisaria pegar de volta. No elevador, ele parecia gargalhar e falar com alguém, mas estava sozinho. Logo ao entrar no quarto colocou o aviso de Não Perturbe. Estava, claramente, bêbado. Fora filmado falando várias vezes sozinho.
James soltou o copo do café, de repente percebendo um pequeno detalhe na tela. Em dado momento, uma das folhagens mexeu-se sem ninguém tocar nela. Correu para fora e tomou o elevador. Chegando ao andar do assassinato parou para observar as extremidades do corredor. Nenhuma janela. Completamente isolado. Então... O que mexeu a folhagem? Procurou o bloco de notas e nele o que tinha dito o assistente do falecido: O patrão tinha poucas reuniões de negócios no dia, e apenas uma festa à noite. Festa fechada. Entrou e saiu sozinho. Isso fora às 22h. Ele voltou ao hotel às 24h. Onde esteve enquanto isso? Pegou a dica com uma das camareiras. Disse que o homem havia perguntado de bares na região e um dos mensageiros sugeriu o do Ritz, próximo. Ela reprovara, mas e daí? Era apenas uma empregada e se ouviam ou não, não importava. Ele pegou a viatura e partiu para o Ritz, com uma foto do morto em punho.
Perguntou a muita gente, a maioria estava ali pela primeira vez. Não era um bar muito frequentado por repetentes. Iam apenas aqueles que estavam no hotel ou não tinham opção melhor. Realmente, a camareira estava certa. O barman reconheceu, ele havia pedido duas doses de uísque e então mais duas para ele e uma moça que o encontrara. Conversaram por uns dez minutos e saíram, rindo. Quando pediu as filmagens da noite, um susto. O defunto estava lá, rindo abobalhado, mas em momento algum a moça apareceu. Ao fim, ele saía sozinho, parecendo um rei recém-coroado. Pediu uma descrição ao barman, que não soube dizer nada com precisão. Tinha traços diferentes e uma pele pálida. Olhos grandes, os cabelos louros presos de forma estranha. Achava que vestia azul, mas podia ser roxo ou verde. Nenhuma certeza. Frustrado, o detetive deixou o bar.
Distraído, caminhou devagar pela rua, até chegar à enorme porta do hotel. Quase foi atropelado por uma comitiva de seguranças, que resguardavam algum homem importante. Viu que era um ricaço, desses com alguns anos de carreira, tanto nas ações quanto nas infrações, e que estava acompanhado de uma belíssima loura, em um vestido azul-marinho. Os cabelos dela se erguiam em um coque muito antiquado para alguém tão jovem. Ela sorria abertamente e falava coisas que faziam o ricaço, pelo menos duas vezes a idade dela, gargalhar. A coincidência deixou o detetive preso ao chão, acompanhando com o olhar os dois entrarem em uma limusine, o velhote primeiro. Logo antes de entrar a loura virou-se para ele, sorrindo de forma assustadora. Ele pode jurar que tinham dentes pontiagudos naquele sorriso. Eles partiram e o detetive também.
Naquela noite, dando o caso como perdido, James tomava conhaque em casa, completamente desesperado. Sabia que ririam dele. Nem ao menos sabia quem era a loura. Ainda assim, queria ter algo para dizer aos chefes, não simplesmente fechar o caso daquele jeito. Uma ventania repentina invadiu sua sala e virou-se para a janela, que jurava ter trancado. Parada, encostada de forma displicente no espaço que dava para a rua, a loura o encarava, da mesma forma que antes. Parecia extremamente atraente, vestida apenas com a lingerie bordô, quase cor de sangue. Wayne engoliu em seco, consternado. Sentia o perigo subir pela espinha e descer, fazendo das pernas gelatina. Ela se jogou para a frente, caminhando para ele como uma felina, uma leoa prestes a fazer seu jantar. A cada passo, uma das peças caía. Primeiro o sutiã, depois a cinta-liga, as meias e enfim a calcinha pequena, praticamente sumindo na bagunça da sala. Ela tocou-lhe o peito e abriu a camisa, acarinhando o peito peludo do homem na casa dos trinta. Ele ficou completamente sem ar.
- Não fique assim, Jim. Eu só vim lhe fazer um agrado, já que lhe dei tanta dor de cabeça.
E ela fez mesmo. Sem qualquer controle sobre suas ações, a mulher lhe deitou no chão e cavalgou sobre ele, provocando-o a dominá-la, coisa que nunca conseguiu. Enfim, exausto e morto de medo, o detetive tomou coragem para procurar a arma, mas ela o empurrou com o pé, com uma facilidade sobrenatural, e ele foi lançado para o outro lado da sala. Atordoado, o homem só fez arfar, e ela riu.
- Ah, mas não vamos estragar nossa brincadeira já, não é, detetive Wayne? Eu estou à solta. Agora... Cace-me.
E dizendo isso ela correu para a janela e saltou, sumindo no céu noturno. Pasmo, James pegou-se pensando não no que acontecera, mas em como encontraria aquela mulher, linda, sedutora, fatal, e suas lindas presas afiadas. Tocou o pescoço e não se espantou de encontrar uma pequenina ferida dupla. Dois buraquinhos, de onde ela sugara seu sangue. A caçada apenas começara.