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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Reacendendo a chama

Depois de mais de um ano fora, retorno para começar uma nova fase. Nesse sábado passado, 13 de outubro, fiz um evento no Ateliê Carnivalli que serviu para dar início aos meus novos projetos. Desde maio deste ano sou um acadêmico da Academia de Letras e Artes de Florianópolis, vulgo ADLA, e estou investindo no meu lado escritor, razão pela qual a Toca do Lobo Negro vai voltar à ativa! Espero publicar mais vezes, tanto contos quanto crônicas e poesia.

O belo convite para o evento!
O evento em si foi idealizado e realizado pela minha esposa, Ana Carolina Botticelli, a Ann que já citei várias vezes aqui, com o auxílio do seu colega do Ateliê, o Luiz Augusto Vicente (o LAV), e os pais dela, Maria Vilma dos Santos e o Ney Santos, que foi quem me deu o empurrão pra participar da ADLA. Vieram vários amigos e companheiros escritores e tivemos a oportunidade de conversar bastante enquanto aproveitávamos um coquetel divino que eu quase fiquei sem comer enquanto tirava fotos (feitas pela Mare Botticelli) e autografava livros.

O conto publicado foi Por Algumas Moedas, no livro Além da Magia, da editora Andross, com quem trabalho há alguns anos já. Aliás, tenho duas indicações ao prêmio Strix, a corujinha dourada da editora, que condecora os melhores trabalhos de cada uma das antologias. A primeira vez foi com Gato Sombrio, do Engrenagens, que é o conto que deu origem ao universo em que estou trabalhando pra virar um romance, e a segunda foi As Palavras de um Homem, do Baladas Medievais, um dos meus favoritos. Quem sabe o desse ano me rende uma estatueta ano que vem?


Ah, durante o evento eu declamei uma poesia que fiz especialmente pra ocasião e que trago aqui pra registrar. Eu pensei nela aos 45 do segundo tempo, na noite anterior, quando senti que precisava falar algo e que fosse melódico. É bom citar que agora eu estou assumindo oficialmente bardo como parte do título, já que sou um contador de histórias. Apreciem então...



Balada do meu coração



Você pode sentir?
A energia que está no ar

Que faz vibrar a centelha
Que existe dentro de você
Ainda te farei contar
As mais belas e diversas histórias
Das aventuras que viveremos
Aqui e acolá
E você vai jurar que viu
Dragões e fadas
Robôs e naves espaciais
Lembra-se de quando visitamos a lua?
Amigo, amor, meu companheiro
Eu vou te levar muito além
Te guardarei no cofre do coração
E quando pararmos diante da fogueira
Te honrarei com uma canção
Eu sou um bardo, menestrel
Nascido da conjuntura de homem e corcel
Sou caça e caçador
E se tenho fogo na alma
Também tenho o amor
Sou apaixonado por mil
Filho de Exú e Dionísio
Eu vou provar a ati
Que amor igual ao meu não tem
E vai ouvir de mim
As mais belas e diversas histórias
Do início ao fim

A decoração também estava maravilhosa!

Amigos presentes deixaram-me muito feliz

domingo, 5 de fevereiro de 2017

1º Corujandross e a experiência de sobreviver de energético

Acabei de acordar e comer alguma coisa e agora acho que meu coquetel de remédios já me fez parar de sentir dor e tontura. Fiz uma experiência inédita na noite passada e acabei dormindo só depois das sete da manhã. Ontem, dia 4, eu participei do Corujandross, um projeto idealizado pelo Edson Rossatto, editor-chefe da editora Andross que consistia em reunir o maior número de escritores que pudesse, que já trabalharam com a Andross ou não, e juntos irmos escrevendo em intervalos durante a madrugada. Das 22h às 6h da matina.

Parece punk pra muita gente, mas considerando quantas vezes eu varei a noite jogando RPG ou vendo séries, eu achei que seria de boa. Ledo engano. Estou mais velho, com uma loja que consome muito do meu tempo e energias e também com uma rotina que me quebrou a resistência. As primeiras duas horas foram punks, e quase apaguei por volta das 2h30 da madrugada. E aí... aí meu mundo se abriu numa garrafa de energético.

Não que a bebida tenha sido a única coisa a me manter acordado. O projeto começou com uma hora de dicussão na qual os escritores poderiam trocar ideias, se cadastrarem, conversarem com os organizadores das antologias e prepararem material. Coisas que normalmente não faço, mas haviam regras. Eram simples: Qualquer um poderia participar, deveria respeitar os horários, entrar no grupo de Whats, escrever quanto conseguisse, mandar o texto bruto até as 6h30 do dia 5 pro Edson pra receber um certificado e, acima de tudo, se divertir. Admito, desrespeitei algumas delas... por uma boa causa.

Pra começar que durante a primeira hora eu surtei e minha janta atrasou. Acabei partindo pra escrita com dez minutos do relógio e contando. Por sorte eu já tinha principiado o texto e, pra minha surpresa, feito um esqueleto do que eu queria. Ponto pra preparação do Batman! Do primeiro eu engatei em um segundo quase sem respirar. Parei só quando bateu a hora. Como o Edson pediu, deixei o Word pra lá e voltei pro grupo. Precisava organizar as ideias. Quase acabando a meia hora de intervalo contatei meu primeiro organizador, o Thiago Lee.

Achei que ele estaria todo nervoso ajudando os outros e que teria pouco tempo, mas mais uma vez estava errado. Leu meu texto no tempo dele, e me respondeu por áudio, dando-me dicas para refiná-lo. Eu precisava, o texto tinha aproximadamente 8500 caracteres e o padrão de publicação da Andross é 8k. Ah sim, tinha essa. Quem remetesse o texto depois pra uma das antologias pode ganhar um exemplar de uma das outras publicações no final do ano. Mais um checkpoint, porque eu já queria mandar um texto pra Steamfiction mesmo, então uni o útil ao agradável e, com empenho, talvez eu apareça nessa antologia steampunk. Quem leu Engrenagens... Gato Sombrio está de volta!

Mas bem, findo o texto inicial outro surgiu, e mais um... todos meio quebrados, pra dizer a verdade. O segundo ficou aberto na tela do meu note, vez ou outra voltando pra conferir alguma coisa, meio insatisfeito com ele, deixei pra lá. A onda de escrita seguinte produziu basicamente... nada. Pelo menos foi o que pensei. Voltei pro intervalo soltando fogo pelas ventas e já tinha virado a meia-noite. Muito tempo de sobra, relógio correndo. Chamei o Alfer no PVT e perguntei se ele se importava em ler o que tinha bolado até ali, mesmo que não fosse submeter pra antologia depois. Ele, super dedicado, aceitou. E lá se foi o suspense sobrenatural.

Enquanto o Alfer lia algo veio até a minha mente como uma flecha. Uma sequência de palavras, de sensações. Transformei em uma linha. E depois veio um parágrafo. Quando dei por mim já estava no finalzinho do texto e o Alfer respondendo. Ele terminou, fez as considerações, eu expliquei meus pontos e ele me mandou meter bala. Com muito orgulho mandei o quarto texto, de terror puro, para que ele desse uma olhada. Era de lobisomem, imaginei que fosse gostar. Adorou. Então, durante essa etapa seguinte, intercalando desenvolvi dois textos com ele. Alfer, não tenho como te agradecer o suficiente.

Mas ainda não estava satisfeito. Escrevi uns dois parágrafos do que poderia ser um romance, e quando dei por mim havia descambado para a comédia. Ficou horrível, mas um guilty pleasure que eu vou me orgulhar de ter montado na madrugada. Faltava alguma coisa. Revisado completamente o Steam, o Suspense e o Terror, o Romance me chamava. E aí veio a última hora. Cara... que última hora.

Como no caso do lobisomem eu iniciei o texto com uma experiência, optei por esconder na cara do leitor um segredo no meu romance. Falar mais seria entregar o ouro, mas conduzi a narrativa até o final fazendo o possível para agradar os fãs de uma comédia romântica ou de um romancezinho bobo e fofo. E foi o que consegui. Correndo mandei pro Leandro Schulai pra ele avaliar. Adorou. Pena que não vou poder publicar esse também (atualmente não estou em condições e vou ter que escolher uma antologia só), mas... foi muito gratificante.

Fiquei enrolando, deu a hora final. O Edson anunciou o encerramento e lembrou de remetermos os textos. Mandei um email com o Retorno de Gato Sombrio e fiquei trocando de janelas. Li alguns depoimentos e voltei para anexar os outros cinco textos. Bons ou não, todos foram parar nas mãos de Don Rossatto. Agora é com eles.


Se foi bom? Foi ótimo! Fiquei quase sem sono quando acabei e ainda estou na pilha. Escrevo esse relato com muita facilidade. Eu precisava disso, parando para pensar, de reavivar esse meu lado de escritor. Fazer as coisas no impulso, na diversão, querendo produzir para contar histórias. Bom, 2017 acabou de começar... quem sabe eu não termine meu primeiro romance esse ano?

PS: Milhares de beijos, abraços e obrigados à Ann e a Ari que me incentivaram e me acompanharam nessa madruga. Por causa de vocês dois textos foram produzidos com muito amor!

terça-feira, 28 de abril de 2015

Caos de pensamentos

Andei bem, bem ocupado. Muitas coisas pra fazer, pouquíssimo tempo pra resolver. Deveria estar dormindo agora, mas quem disse que consigo assim, tão fácil? Precisava publicar aqui, é um dever pessoal contar histórias, eu sinto uma necessidade bem grande disso. Lamento pelos atrasos, mas prometo compensar com textos melhores. Quem sabe não posso ser do agrado de vocês com maior frequência?

Pra aqueles que não sabem, saiu um conto meu em uma antologia erótica! Já tenho o livro em mãos, chama-se Clímax - Faça-me chegar lá!, e meu conto é aquele que encerra a história, "No Meio da Tempestade". Eu pude finalmente relê-lo agora publicado e me impressionei. Fui eu mesmo quem escreveu isso? É de arrepiar, o primeiro que consigo transformar em trabalho impresso. Vai pra minha estante ao lado das NeoTokyos em que tive textos. Se alguém tiver interesse, ainda tenho alguns exemplares pra vender e... quem só quiser ler meu texto, estou sempre com uma cópia do livro na mochila! Só pedir!

O que trago hoje acabei de escrever. Decidi que queria trazer algo lá de dentro e acabou saindo esta pequena historinha, minha versão do Conto de Natal. Sinceramente, é um dos tipos de história que mais gosto e espero que vocês também apreciem lê-lo! Até!

-*-X-*-

Carmem era uma mulher bela, decidida, forte, obstinada... e também o tipo de pessoa que não se aguentava, que tinha diversos defeitos as quais insistia em demonstrar aos outros. Por isso mesmo que, Natal vinha, Natal ia, passava a madrugada seguinte sozinha, bebendo em seu apartamento no Leblon, de onde poderia admirar as festanças lá embaixo, bem lá embaixo, onde as pessoas pareciam formigas fazendo o que quer que formiguinhas fizessem e sinceramente ela achava isso uma bosta. Como sempre veria um filme, olharia alguns filmes com seus atores pornôs favoritos e então dormiria feliz abraçada a uma garrafa de uísque, para voltar à rotina no dia seguinte. Mas não este ano.
O primeiro a visitá-la chegou à meia-noite em ponto, trazendo consigo um bom vinho, uma caixa de bombons licorados e um pacote de camisinhas, uma dúzia delas. Seu sorriso encantador, seu corpo másculo de traços delicados e seus olhos sedutores derreteram o bloco de gelo que era o coração de Carmem naquela noite. Precisou apenas de cinco minutos para levá-la para a cama e durante os cinquenta seguintes a apresentou às mais diversas perversões, muitas das quais foram ouvidas pelos poucos vizinhos ainda no prédio. As marcas na pele de Carmem durariam semanas, mas a festa acabou logo antes da uma.
E então veio a segunda, e trajava a mais horrenda das combinações de camiseta e saia. Seu semblante era fechado e dolorosamente consternado, perfeito nas suas falhas, e muito triste. Mais uma vez afogou suas mágoas na bebida, o vinho que já estava ali e se encararam silenciosamente, uma batalha de caretas que terminaria em um desânimo tão profundo quanto amedrontador. Por vezes seus olhos escapavam para as facas da cozinha, a janela da sacada e os remédios para dormir. Quando as duas horas finalmente soaram no relógio, sentiu0se aliviada.
Veio então uma súbita alegria, e de repente não estava só. Uma doce garotinha havia entrado e contava histórias sobre suas adolescências, os namoradinhos, um cachorro falante e uma viagem louca pelo interior de São Paulo, no qual encontraram a fonte da juventude, motivo pelo qual seriam jovens pra sempre! Viu-se dançando, valsando, cantando e pulando e então a cama foi bagunçada ainda mais e parecia que poderia se entregar às suas maiores vontades. Rasgou alguns contratos, escreveu cartas para seus amigos, aqueles que nem lembrava que tinha e gritou da janela o quanto achava gostoso ser enrabada pelo chefe e então... então passou. E se viu olhando para o céu noturno.
E a via-láctea pareceu brilhar mais às três da manhã. Cometas viajaram pelos céus enquanto o futuro se abria ao seu redor. Estava em uma sala de reuniões, mas não era ela mesma quem falava, era o garoto que havia entrado na empresa há menos de um ano e que agora era o líder do departamento. Concordava com tudo, mesmo odiando saber que ele estava sendo um idiota e que nada daquilo renderia bons frutos simplesmente porque não era original. Carmem seria muito melhor... se tivesse feito mais do que deixar-se ser levada por suas manias, por suas fraquezas, pelas palavras doces e falsas dos outros. Sem filhos, marido, rumo, um fóssil, engessada no meio de um monte de gente ainda mais depressiva.
E então lembrou-se das coisas que queria aos dezoito anos, quando teve a brilhante ideia de abandonar o que queria fazer de verdade para conseguir aquele cargo na empresa do tio de um amigo. Levantou-se e foi até o armário resgatar alguns cadernos de desenho, folheou as páginas, rememorando as conversas com suas amigas, os contos que fizeram, as histórias que inventaram e imergiu nos mundos fantasiosos de antes. Sorriu, sinceramente, pela primeira vez em muito tempo. As lágrimas correram e o coração parou, de repente.
Não sentiu bater, o corpo entrou em torpor, a mente vagueou. Estava olhando de cima, jogada, largada, abandonada. Em paz. Ninguém mais lhe dizendo o que ou como fazer, as cobranças indo, e também... também... todas as oportunidades. E tudo que não viveu? E as viagens? E os passeios por Copacabana, apenas para encontrar uns rostos conhecidos e saírem para beber no fim de semana? O vazio trazia o frio. Não estava mais engraçado. Uma mão estendida a aguardava, e um semblante branco, bonito e gentil lhe dizia que ficaria tudo bem. Muito cedo, querida, pensou, e então retornou.
A fúria veio montada em um cavalo negro como um bárbaro de tranças carregando um machado. Gritou e vandalizou os móveis tão bem trabalhados, riu e destruiu os relatórios que havia escrito e preencheu páginas e páginas de contratos assinados com as palavras “Mentiroso” e “Vadio” entre outras coisas bem piores. Gargalhou até cair cansada no meio do quarto, e à sua volta um mar... um mar de destruição. Como sempre, depois veio a criação. Pegou as folhas rasgadas e as reuniu. Tirou do fundo da gaveta um conjunto de pincéis e tinta e por cima de tudo pintou um rosto. Seu rosto. Carmem se projetou com o mesmo sorriso de dez anos antes. Feliz e alegre. E então pode sorrir desse jeito novamente.

Feliz Natal, Carmem.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Eu não sei o que ando bebendo...

...mas não quero parar. Definitivamente. O texto que trago hoje foi um conto que escrevi e veio do nada, totalmente aleatório e muito, muito divertido. Não é sempre que sinto tanto prazer escrevendo, mas gostei tando do que fiz que precisava correr para compartilhar.

PS: Continuo horrível pra títulos!

Visita ao Sonho

Você sabe o que é acordar ao meio dia, encarar o vazio na parede do seu quarto e pensar que deveria ter continuado dormindo? Se disser que sim, será um mentiroso terrível pois até hoje eu nunca tinha ouvido falar de algo que sequer fosse parecido com isso, que dirá tão cheio de detalhes como quando o Sonho invadiu meu mundo apenas para me trazer um anão de cachimbo com uma carta em folhas de bananeira. Pois foi exatamente assim que comecei aquela segunda-feira.
Eu havia ido dormir no domingo com a estranha sensação de que teria um péssimo dia seguinte, já imaginando como explicaria ao meu chefe que a festa da faculdade no sábado havia me deixado tão ferrado que eu passara o resto do fim de semana devolvendo meu almoço de quando tinha quinze anos e por isso não podia terminar o relatório que ele me pedira. Há duas semanas. Sim, eu odiava meu emprego, mas quem poderia me culpar? Não odiamos todos nossos chefes ranzinzas de quarenta, quase cinquenta, como cara de sessenta? Bom, eu pelo menos admito.
Mas nada me preparara para o anão, que aliás usava um casaco laranja-lima com um gorro em plena primavera e que tinha a barba mais pontuda do mundo, podem conferir no Guinness. Ele me olhava com suas contas esmeralda, cheias de um brilho sobrenatural e assustador, e pigarreou quando me viu piscando devagar, como se quisesse que ele entrasse em foco. Tirou a bananeira da bolsa de couro e me estendeu, pois era óbvio que eu deveria pegá-la e entregar a ele uma moeda de bronze pelo serviço. Oh, desculpe, estou me adiantando.
- O que é isso? – foi o que perguntei brilhantemente.
- O que parece, meu chapa? É claro que é uma folhagrama. E é bom ler rápido, pois fui pago por uma resposta, e não para ficar esperando.
- Mas... o quê...
- Olha aqui. – ele apontou aquele cachimbo fedorento pro meu rosto – Eu sou um servidor das entregas a vácuo desde que eles inventaram as cartas-de-bilbouda, então é bom que tenha respeito por mim e deixe-me terminar meu trabalho. Ok?
- Tudo bem, tudo bem! Não precisa se irritar... homenzinho. – sussurrei a última palavra com medo que ele enfiasse aquele pedaço horrendo de madeira em meu nariz.
A letra era muito rebuscada, cheia de volveios desnecessários que só dificultaram a leitura, que aliás, fez um nó na minha cabeça antes de perceber que não deveria pensar na lógica das palavras, mas no que havia por trás dela. Ou seja, dane-se o mundo, apenas leia, divirta-se, tipo o filme pipoca ruim que você vai ao cinema ver e esquece que está lá, até que acaba e você sai do cinema rindo e comentando com os outros como foi a pior experiência da sua vida e pronto, pode ir pra casa assistir aquele clássico cult e que sim traz uma mensagem, normalmente edificante e cheia de mistérios que você nunca vai desvendar.
“Caro Normie (porque meu nome é Norman e sim, alguém achou que seria um bom apelido)
Estávamos contando com sua excelentíssima e grata participação em nosso sistema de auxílio aos não-encantados e que poderia, talvez, em alguma instância próxima entre hoje e a próxima lua dos dois quartos), unir-se a nós na corte para discutir os assuntos referentes ao seu tio em segunda cláusula do sol de três pontas, Willfred Von Duck, e que, caso não se faça de rogado ou ache por demasia enfadonho, possa dar a ele uma defesa digna para que não se vá diante da lâmina mui afiada de sir Godrick dos Picos Altíssimos, que deseja de todavia fazer da cabeça de seu tio um belíssimo troféu para alegrar sua casa de veraneio em Lago Flock. Desde já interessados em sua visita e tomando de chá com bolinhos,
Os reis de Monastergo”
E havia um Anti scriptum colocado no fim do texto, mas fora feito com algum tipo de tinta que se derreteu ou talvez tenha sido só esparramada por ali e não fazia mais o menor sentido. Definitivamente o tipo de coisa que passaria por falta de educação se o anão não estivesse batendo seu longo e desproporcional pé com uma expressão assassina em seu rosto redondo e barbudo. Cocei a cabeça e fiquei olhando para a folha até dizer uma tolice:
- Ahn... então... eu acho que vou?
- Ótimo. É uma mensagem enfim! Ufa! Posso tirar minhas férias. Aqui. – ele deixou um pacote que mais parecia um daqueles que envolvem lembrancinhas de casamento e se jogou no abismo na minha parede – Monaaaa! Estou in...
Desapareceu, levando consigo o vácuo e devolvendo a pintura abacate que minha mãe insistira que ficaria bem e não me enjoaria ao vê-la todo dia ao acordar. De fato, eu não consegui, já que a tinta vagabunda começou a descascar e cobrira tudo com pôsteres, restando apenas um trechinho que lembrava uma teia de aranha muito bêbada. Olhei para o pacote e puxei o lacinho, esperando que um sapo saltasse de dentro. Para minha surpresa era uma caixinha de música simples, com uns poucos ornamentos dourados sobre uma superfície rosada.
Tão bonitinha, eu a girei entre os dedos três vezes até decidir que talvez fosse uma boa pô-la para tocar. Que mal haveria nisso? Como deve perceber, foi uma das minhas decisões ruins que culminaram no que seria a experiência lisérgica mais louca desde que tomei aquela bala em uma festa prestes a completar 17 anos e fui parar em uma bóia no meio da piscina cercado de balões e uma menina semi-nua. Melhor não falar mais nisso. Onde estava? Ah sim. A caixinha. Eu girei a chave que a ativava e de repente senti muito, muito sono. Nem lembro como era a música, talvez fosse uma versão techno punk de Hey Jude, algo assim, tenho certeza que tinha a voz de Paul...
E então eu estava em uma sala de teto xadrez. Não, não me enganei ou estava de cabeça para baixo, o teto realmente tinha ladrilhos de duas cores e o chão era coberto por um carpete verde-musgo que faria minha mãe sorrir pela escolha. Era uma sala menor que meu cubículo no escritório e tinha apenas uma poltrona e um sofá, além de uma mesinha com o conjunto de chá mais estranho. Mas bem, na situação que estava, como poderia julgá-lo? Um senhor me observava da poltrona, e ele usava um terno bem alinhado, risca de giz, da cor de um céu de tempestade e pantufas de ursinhos carinhosos. Seus óculos de coruja haviam escorregado para a ponta do nariz mas ele não parecia se importar. Observava-me como um cientista que de repente descobre uma formiga andando sobre seu projeto de dois bilhões de dólares.
- Levante-se, Norman, temos que conversar. Seu tio não pode esperar muito tempo.
- Desculpe-me... como o senhor me conhece? Onde estou? Quem é você? Quem é esse tio Valfredo? E como diabos vim parar aqui?
- Bom, são muitas perguntas meu rapaz, não tenho tempo para todas. Qual prefere ouvir?
- Eu... acho que sobre o tio...
- Ah sim, Willfred. Sim, sim, um bom amigo, uma pena que um tanto biruta, com suas ideias sobre geogamia, carros movidos a sonhos e aquele papo sobre músicas feitas com instrumentos eletrônicos. Todos sabemos que batidas são apenas isso, é como um macaco cantando ópera! Bem, Willfred está profunda e sumariamente encrencado e provavelmente prestes a enfrentar o pior julgamento de toda a história feérica, animada e talvez até do submundo. Devo dizer que se tiver sorte, o exílio será uma opção agradável.
- Eu... não entendo.
- Rapaz. Quão bem foi sua adolescência?
- Não posso reclamar... muito. Eu tive uns amigos, fui a algumas festas, namorei uma garota...
- Sim, sim, tudo normal, não é? ESTE é o problema!
- Como assim?
- Veja bem, você, Norman, deveria ter sido contatado por seu tio quando tinha 13 anos e nem um dia a mais, ou pelo menos encontrar um diário perdido aos 14 ou recebido uma carta misteriosa dois anos depois, que o levaria a uma jornada de auto-conhecimento, descobrimento de poderes inigualáveis e quem sabe encontrar a garota de seus sonhos ainda que não soubesse nem o que é ter uma paixão direito. Mas não! Willfred estava tão concentrado em seus experimentos com o veículo e aqueles docinhos de padaria que esqueceu! Ele ESQUECEU! Veja que absurdo!
- Eu... não sei do que está falando. Eu tive uma boa juventude... acho. Não posso dizer que... você falou de poderes? Sou algum tipo de mago, por acaso?
- Ah, essa besteira? Naaaaah... no máximo deve ser capaz de lamber o próprio cotovelo e calcular os números primos de cabeça. Não, não, falo daquilo que todo jovenzinho tem, a autoconfiança excessiva, a criatividade para problemas e a transformação de uma situação comum em drama. Você foi excessivamente tranquilo e sereno. E isso é errado! Por conta disso, seu tio agora deverá se justificar diante do conselho e eles com certeza devorarão ele vivo com pouco sal e pimenta!
- Fala sério? Porque eu tive uma adolescência comum e boa ele vai pagar o pato? Prefeririam o quê? Que eu tivesse virado um rebelde sem casa?
- Oh sim, que grande emo você teria sido! Consigo vê-lo de cabelo preto e liso e olhos pintados, compondo poemas! Poderia até ter montado sua banda de dois instrumentos e virado uma sub-celebridade do YouTube!
- Por favor, não. Estou feliz assim mesmo.
O velho suspirou e largou sua xícara do lado apontando para o sofá, que eu cordialmente sentei. Ficar de pé havia me cansado pra valer e a conversa parecia que seria muito longa. Ele coçou a cabeça revelando um buraco entre seus longos cabelos prateados.
- Então você vai defendê-lo. Boa sorte.
E tudo ficou brilhante e ofuscante. Em seguida eu estava no meio de um tribunal de vários andares, ainda no sofá e cercado de guardas, todos vestidos em armaduras absurdamente brilhantes e cheias de entalhes e todo mundo me olhava. E eu falo dos mais diversos e esquisitos seres mágicos já imaginados. Fadas, duendes, anões, elfos, gnomos, vampiros, lobisomens... tudo que puder e o que nunca conseguirá imaginar. Eles me olhavam como se eu fosse o rei Elvis prestes a se apresentar. Creio que vi pelo menos dois iguais a ele e ao Michael no meio da multidão. Um senhor, quase tão velho quanto o que falava comigo antes, estava sentado de pernas cruzadas em uma tartaruga colossal e olhou para mim antes de falar.
- Norman dos mortais sonhadores, você está pronto para defender seu tio, Willfred Von Duck?
Seu dedo longo indicava um rapaz não muito mais velho que eu, mas dono de um bigode de dar inveja à Dali, vestido em uma combinação que não me surpreendia mais de camisa social, saia escocesa, casaco de poliéster e um par de fones de ouvido apoiados nos ombros. Parecia prestes a ir a uma das festas que eu tinha ido recentemente e poderia ser meu veterano que nem notaria a diferença. Tirando isso, seus cabelos eram tão azuis que provavelmente despareceriam junto do chroma key durante uma filmagem. Ele não sorria, mas tinha o ar brincalhão de quem estava prestes a aprontar.
- Eu... acho que sim.
- Ótimo, podemos avançar para isso de uma vez. Excelentíssimo julgador?
Um duende de preto com um turbante escarlate veio saltando por entre os guardas até ficar de pé na minha frente, em cima de uma mesinha. Mesmo com o apoio, a diferença de altura era clara e se eu ficasse de pé ele bateria em minha cintura. Eu fiquei encarando-o até que ele tirou uma vareta e apontou para meu nariz, muito mal educado.
- VOCÊ, MORTAL!
- Não precisa gritar... – murmurei.
- NÃO ME INTERROMPA! VOCÊ! COMO OUSA VIR ATÉ AQUI, DIANTE DE TODA ESSA GENTE, E DEFENDER ESTE IMUNDO, PREGUIÇOSO E TOLO DJINN QUE NUNCA FEZ NADA PARA CUMPRIR SUAS FUNÇÕES!
- Não, sério... tá doendo meu ouvido...
- CALADO! AGORA, FALE!
- Mas eu não...
- RESPONDA MINHA PERGUNTA!
- Olha, aqui, sua decoração de jardim furiosa, quer me deixar falar? Você me perguntou, então vou responder! Eu não sei que droga está acontecendo aqui ou que tipo de coisa ele deveria ter planejado para mim, mas estou bem com a porcaria da minha vida, então dá pra libertá-lo, me devolver pro meu quarto e me deixar enfrentar o desgraçado do meu chefe e dizer a ele o quanto eu espero que ele sofra enfiando aquele relatório no meio do...
- É ISSO QUE DESEJA? DE VERDADE?
Eu vi o olhar em Willfred que me fez estremecer. Ele parecia que me dizia “Cuidado, pode não ser uma boa escolha. Mas se é isso mesmo que quer, estarei aqui para lhe apoiar. Ah sim, e pode vir me visitar outras vezes se quiser. Você parece um sobrinho muito legal, uma pena que nunca falei com você antes. Bem, espero sua visita!” o que foi muito estranho, porque ele só sorriu e então o julgador maluco bateu na minha perna e gritou de novo.
- SE É ASSIM, CASO ENCERRADO, MERITÍSSIMO!

E foi assim que de repente eu estava no meu cubículo, segurando a caixinha de música e mais sóbrio do que nunca na vida, logo antes do meu chefe entrar e me perguntar do relatório. Não sei se foi por causa do que eu tinha sonhado, ou se teve alguma realidade naquilo, mas achei que seria uma ótima ideia dizer a ele o que tinha dito no Sonho. Sim, foi uma ideia imbecil e claro que fui despedido. Mas não me arrependo nada disso.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Está quase chegando... no refrão!

Em determinado momento eu descobri em Numb a minha música favorita, durante muito tempo foi assim. Demorei a entender, no entanto, sobre o que falava a letra, não porquê eu não soubesse inglês (que eu sabia pouco mesmo), mas por não captar o sentido das metáforas, de "caminhar nos seus sapatos". Hoje eu vejo que, se tivesse compreendido a moral, teria ouvido por muito mais tempo. Eu não sou obrigado por ninguém a seguir o caminho que pedem, mas tem vezes que me perco nas trilhas dos outros, sendo como gostariam que fosse. Muitos de nós são assim, incapazes de desvencilhar-se de "obrigações fraternais" e seguirem as próprias ideias. Não é só uma questão de pais como mostra o clipe, mas também de amigos, irmãos, namorados, amantes... acima de qualquer coisa, sua liberdade de ser, fazer e pensar o que quiser é que é absoluta. Você tem o direito de decidir. A felicidade não depende dos outros, mas de si, e desde que você possa ser feliz sem deixar os outros infelizes, você pode ser feliz como e com quem quiser. É disso que fala Numb.

           

- Eu prometi que teríamos essa conversa, mas não esperava que fosse com ele junto...
- Olha, você tem que entender, eu...
- Não, não me venha com essa, sabe o que eu sinto, e essa é a razão de tudo estar errado, você não se importa. Quer me esfregar na cara que as coisas tem que ser do seu jeito.
- Não fale assim, eu te amo...
- Quando foi a última vez que conversamos? Você só sabe dele agora, está sempre com ele, diacho, eu sei que vocês estão transando.
- Pare! Não... eu...
- Por favor, não finja, eu sei... e não é isso que me incomoda mas... somos estranhos agora, e eu sinto que estamos cada vez mais distantes. Eu quero me livrar, só... me deixe ir.
- Não é isso que eu quero.
- Então por que não podemos nos ver? Que tal se saíssemos juntos, eu e você, sem qualquer tipo de obrigação, sem precisar estarmos acompanhados, podíamos pegar um cinema ou...
- Você sabe que não é tão fácil...
- Claro que não é... você precisa da aprovação dele. Olha, se vai ser assim, deixa pra lá.
- Não, não quero acabar desse jeito.
- Então o quê? Nós sempre fizemos as coisas juntos, eu sempre te ouvi... eu... eu deixei de fazer outras coisas por você...
- Você fica colocando a culpa em mim, desse jeito eu não aguento.
- É você quem não para de se intrometer na minha vida! Semana passada eu tinha planos e aí você voltou e me disse que queria me ver! Fui acertando todos os meus horários para estar aqui contigo e temos que pedir um minutinho pra ele pra podermos conversar!
- Isso porque você não quer falar com ele!
- PORQUE EU NÃO GOSTO DELE! PORRA, DÁ PRA ENTENDER? Eu... eu... eu amo você...
- Eu também te amo...
- Não, não ama. Você gosta de quem eu era, gosta do que criou pra mim, gosta de como era pra você, mas eu mudei... eu vou continuar mudando, eu preciso. Eu vou seguir em frente e vamos nos encontrar, de vez em quando, mas não me obrigue a estar do seu lado, esperando para poder receber um pouco de atenção. Não, não diga nada, já foi a oportunidade que tinha de nos mantermos juntos. Agora só consigo pensar em como fazer pra recuperar o que perdi... porque estava contigo.
- Você é tão cruel...
 - Não... eu sou livre. E estou cansado de ficar aqui parado, esperando por você. De adormecer, deixar de viver. Agora... eu vou embora.
- Espere! Não... não me deixe...

- Se você quiser mudar também... se quiser me seguir e continuarmos, mas lado a lado, cada um do seu jeito... então estarei aqui, caminhando... se quiser trazê-lo junto, ótimo... mas não vou mais me importar com isso... porque não estou mais entorpecido.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Vai aumentado o som...

Segunda música que fala de pessoas fora da casinha. Essa foi a primeira música de rock que decorei o nome e lembro até hoje da sensação de ouvir a explosão do riff e a entrada da bateria. Muito tempo depois, quando vi o clipe, me apaixonei pela banda e o Green Day está na trilha sonora permanente da minha vida. Vários anos passaram e cá está, é a segunda da lista. Devo dizer que quando comecei o texto não sabia o que faria, mas... gostei MUITO do resultado. Sem mais delongas... Basket Case!!

   

Pego a guitarra, largo a guitarra, pego de novo, largo de novo. Já há meia hora que só faço isso. Não dá, não consigo, é muito difícil me concentrar, eu preciso... eu devo...
- Você precisa de um tempo, amigo... – diz uma voz vindo sabe-se lá de onde.
- Ahn? Quem disse isso? – pergunto olhando em volta, mas estou sozinho.
- Ora, amigo, quem mais? Eu! Seu companheiro de tantos momentos!
Eu procurei e procurei, mas nada achei. A voz parecia vir de todo lugar, como se ressoasse nas paredes, ou pior, estivesse dentro da minha...
- Ah, qualé! Não pode dizer que me esqueceu! Você acabou de tocar em mim! E foi tão gostoso... vem, me pega!
- Mas... que m...
- Oh, oh, oh... em vez de xingar... porque eu e você não tocamos uma juntos? Pelos velhos tempos... você sempre curtiu um sonzão pra desestressar!
É claro. Eu sabia. Estou louco, essa voz que ouço é fruto da minha imaginação. Não posso estar mesmo ouvindo minha guitarra fal...
- AAAAAAAH!
- O que foi, cara? Que agudo foi esse? Gosta de metal agora é? Hum, acho que dá pra fazer um solo bem maneiro, peraê...
- Por... por que você... por que você tem a cara do BJ?
No corpo da guitarra, bem próximo das cordas, um rosto em alto relevo, com aquelas olheiras e a boca meio torta me encarava. Eu reconheceria em qualquer lugar...
- O que é isso? Como... o quê? Eu dormi, já? Droga, tinha que estudar!
- Por favor, não... você está acordado e estamos conversando. Não corta o clima. Ei! Lembra daquela do Guns? Adoro quando você me dedilha com ela!
- Para! Não fala essas coisas! Só... para! Que droga! Por que você não podia ter a cara da Scarlett Johansson? Ou sei lá, se for da música, podia ser a Orianthi!
Dá pra ver a expressão sacana que ele faz, aquele rosto torcendo a madeira, como se estivesse flutuando logo embaixo, em uma camada não tão visível.
- Pfff... qual o problema com minha aparência? Não estou bonitão?
- Não é isso, mas... ah, cara, não queria mexer em ti agora e pensar no Billie...
- Ah, talvez você preferisse um rosto mais angelical? De longos cabelos negros e brilhantes olhos azuis e claros como o oceano?
Que golpe baixo ele deu! Falar dela era covardia, e eu senti que meu coração doía. Há apenas alguns dias que nós não nos falávamos mais, mas a intensidade era como se fossem horas.
- Não fala isso... eu... nós... é que...
- Eu sei, mermão, eu sei. É em mim que você toca aquelas baladas pra ela, que fica pensando enquanto batuca em minha caixa e tantas vezes ensaiamos aquele refrãozinho xororô do Bon.
- Eu não sei o que fazer, eu tô pirando.
Eu ouvi o assovio que veio dele, muito estranho, metálico, parecia até uma risada. Pude ver a piscadela, e então algumas cordas se mexeram, saindo um som de Dó.
- Então que tal uma vezinha, hein? Você sabe que quer, é essa a ideia. Aí nós choramos juntos, lamentamos sua frustração e ficamos nessa vibe boa. Você quer, diz aí.
- Eu... não sei o que quero... não é só ela... é tudo... eu deveria estar indo melhor, eu deveria...
- Você não deve nada a ninguém, nem a si mesmo. Curta o momento, amigo, seja jovem, seja feliz, seja radical! É só me pegar e teremos bons momentos juntos!
Lembro imediatamente porque larguei o vício que me consumia todas as tardes, os ensaios constantes para ficar cada vez melhor. Não estava agradando a mais ninguém, nem a mim.
- Olha... quer saber? Acho que sei o que quero.
- Ah, bom garoto! Vamos nessa então, que tal aquela do... ei! O que você está fazendo? Pera! PARA! NÃO FAZ ISSO! VAMOS LÁ! SÓ MAIS UMAZINHA!
- Desculpe, é tarde demais, você precisa ir pro seu canto ou eu vou ficar doido de verdade. Quem sabe depois das provas... aí a gente conversa... até lá, me deixa em paz!

Pronto! Tinha fechado ela na capa e guardado no armário. Se desse tudo certo, pegaria depois pra uma serenata, quem sabe assim a Amanda voltava pra mim? Por hora... cabeça focada!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Começa a melodia...

Decidi pra esta semana fazer algo diferente, um texto por dia, dentro de uma temática, de estilos variados, dependendo da minha vontade. O que vai conduzir essa série? Músicas. Não qualquer música, mas aquelas que me tocaram ao longo desses anos e que hoje são as que conseguem me fazer parar e cantar, que eu colocaria na trilha sonora de um filme da minha vida. Eu vou escolher apenas cinco, o que me dói um bocado, mas serão ótimas músicas para trabalhar. E a de hoje é esta... Unwell, do Matchbox 20, que me fez conhecer a banda e com a qual me identifico tanto. Aproveitem!



Eu estou esperando o ônibus e ele não quer passar, parece que sabe que preciso chegar lá o quanto antes, talvez até já tenha feito a curva, só não quer aparecer porque estou aqui, esperando, e já fazem mais de dez minutos do horário, eu acho que assim eu vou pirar, o que mais falta acontecer?
Sim, eu ouvi tudo isso antes, e não, não acho que seja só comigo, é que é difícil de sentir o que os outros estão sentindo, ainda mais que nenhum deles fala o que passa em sua cabeça, só posso ouvir a minha própria voz, principalmente quando fico sozinho no quarto encarando as paredes e já não consigo mais ter certeza se eu saí de lá ou se estou sonhando com tudo isso e que talvez eu vá ter um pesadelo e antes de acordar eu me veja novamente estirado no asfalto, mas não que eu queira, não quero morrer, só não sei como não pensar nisso, pode me dizer, por favor?
Ah, é verdade, já se foram dois dias que tive minha última conversa de verdade, mas não é culpa minha que meus pais estão me ignorando, tudo que eu queria é que eles me perguntassem se estou bem, o que eles não fazem, pensei que poderia ser por conta das coisas que fiz, e não tenho mais certeza de nada, eu só queria ser compreendido, isso não é pedir muito, não, acho que não, menos ainda do que fazer esse maldito ônibus virar a esquina, será que vai atrasar de novo?
Você acha que pode me entender, mas não quer me ouvir, as coisas que tenho pra dizer, só fica aí, tentando me dar conselhos, como pode, se não é capaz de ficar ao meu lado nem que seja só um dia e ver, eu já não aguento mais falar apenas com as paredes, e olhar para sombras que se formam ao nascer e pôr do sol, já não consigo diferenciar se o dia está começando, talvez eu esteja ficando louco, o que você acha?
É, é eu deveria saber, mas bem, obrigado por pelo menos estar aqui agora, quando você se for, reze por mim, eu logo serei levado embora, esse ônibus vai chegar e estará cheio de pessoas como eu, que não estão tão bem assim, e que serão levados para algum lugar onde poderão cuidar da gente. Será que vou ficar bem?
Obrigado. Eu te amo. Até breve, meu amigo.

Logo você vai ver, como eu posso ser melhor. Não é que eu seja louco, eu só não estou legal. Mas vou ficar. Logo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A tensão que corre pela minha espinha

Já sentiu aquele aperto na garganta que não é medo ainda, mas um princípio, que causa um peso no estômago e te força a se encolher, que faz suar as mãos e também gelar os pés? Já teve isso quando via um filme, lia um texto ou via uma daquelas notícias aterrorizantes? Eu tenho uma certa atração mórbida e um guilty pleasure com isso, e várias vezes me arrependi de ter cedido. Geralmente é culpa de creepy pastas, que pra quem não conhece são histórias "reais" de coisas assustadoras, sobrenaturais ou não, envolvendo assuntos populares. Tem de jogos, filmes, situações ou até mesmo de casos como lendas urbanas. Toda Creepy Pasta que li e me arrepiou volta pra me assombrar. E é por conta de casos assim que escrevi o conto a seguir.
Quero instigar medo, causar essa sensação desagradável que traz tanta empolgação, fazer a pessoa ter aquele comichão atrás dos olhos que faz pensar "o que foi que eu li?" e fechar a janela com o gosto amargo na boca. Quem tiver o que comentar, por favor, faça! Quero saber se aticei seu medo. Aproveitem o jantar.

Acidente de Carro

Sarco acendeu o terceiro cigarro naquela noite e leu duas linhas do relatório, depois olhou para o rapaz que não parava de chorar, e voltou ao papel, pegando uma caneta para riscar as coisas que achou que valeriam a pena. O ambiente era pequeno, e a fumaça estava começando a causar crise de rinite no garoto que já estava com o nariz entupido. Precisava de ar, coisa que Sarco não daria. Fazia parte do seu método de interrogatório e pela situação tudo que ele queria era fazer o suspeito confessar o crime e poder ir pra casa.
- Escuta aqui, meu jovem, tu já passou pela mesa de seis só na última hora, não acha que tá em tempo de tu dizer algo que seja verdade, pra gente acabar logo com isso?
- M-ma-mas... eu falei... falei tudo que vi!
- Tá, tá, chega de conversa fiada. Eu quero que tu me resuma... conta o que aconteceu e eu vou escrever alguma coisa aqui e de repente a gente até te libera. Se tua história for boa, dá pra fazer um descontinho, tu paga pro Doni lá na frente e vai embora. Agora... se eu sentir que tu tá me enrolando...
O policial mexeu no casaco, abrindo só um o suficiente pro coldre da pistola ficar à vista. Em vinte e seis anos nunca precisou atirar pra valer, a não ser quando o maluco do sinal parou metade da rua pra gritar pra deus e o mundo que a mulher tava corneando ele e lançar tiro de espingarda pra cima. Por sorte nem precisou matar, mas era sempre bom ter a pistola à mão, dava o medo e trazia o respeito de que ele precisava. Serviu pro guri que tremia todo ficar mais centrado e começar o relato...
“A gente tava apostando racha, coisa boba, uns cinquentinha de cada um e pronto, eu tava com meu Cliozinho, achei que ia faturar uma grana. Só que as coisas não tavam tão bem, tinha vindo um moleque com um Uno tunado, desses que o motor é um ponto quatro, mas o cara mexe na caixa e consegue pegar cento e sessenta numa rua pequena, saca? E aí a galera tava meio grilada, mas tava de boa ainda. Até que chegou o Meleca.
O cara é tudo, menos gente boa. Ele curte umas coisa mais pesada, tá ligado? Desculpa... vô tentar não falar muita gíria nem enrolar. Contece que ele chegou com o Palinho, e o cara é lenda com ele. Vive levando o dinheiro do pessoal nessas apostas. E o Meleca parou e peitou o mano do Uno, avisando que ele ia pegar tudo que o cara tinha conseguido. A treta ficou tão séria que todo mundo parou de correr, conversar e fumar só pra ver a briguinha dos dois. Cada um entrou no seu carro e começou a corrida.
O Meleca começou na retranca, o Uno pegava demais, todo mundo pensou que ia ser de lavada, mas tinha uma curva desgraçada e o Meleca jogou o carro quase reto pra fazer o Uno ter que virar ou iam bater um no outro. Dava pra ver que o cara tava chapado e que não ia aceitar perder, então o Uno se lançou pro lado e lá se foi o Palio atravessar a linha de chegada. Claro que o Meleca saiu do carro cantando de galo, rindo, gargalhando e a gente pensou na merda que ia acontecer. Não deu outra, o Uno veio com tudo pra cima dele e prensou o Meleca contra a parede. A gente começou a gritar na hora.
Tipo, o Meleca virou purê, o cara jorrou sangue pra tudo que é lado e o cara do Uno não parou de acelerar até partir o cara ao meio. Eu tava me mijando já e saindo correndo! Peguei o meu carrinho e tava prestes a dar no pé quando a coisa ficou feia de verdade. A princípio achei que o Uno tinha fundido o motor e pego fogo, mas daí eu vi que o fogo tava saindo das rodas e de dentro do carro. Sabe o quanto isso é louco? Véio... desculpa, senhor... o cara do Uno tava gargalhando lá de dentro!
E daí a gente viu, ele baixou o vidro. Até aquela hora ele não tinha feito nada disso, só tava piscando faróis e estendendo a mão com parte do vidro aberta, mas em nenhum momento a gente viu o rosto dele. E ninguém achou estranho, de vez em quando aparece um doido que prefere não ser reconhecido porque é filhinho de papai e ninguém liga. Mas esse... essa... essa coisa... o rosto dele tava derretido, como se tivesse pego fogo e tinha os olhos vazios como se tivessem caído e a boca dele se abria num corte esquisito, os dentes muito pontudos. E ele só ria, gargalhava que nem o Meleca. E aí ele veio pra cima da gente, com tudo.
Cara, não vou mentir. Eu tava me borrando, nem lembro direito de mais nada, só sei que de repente eu tava voando, tentando fugir, e me joguei de um lado pro outro, mas acho que o bicho me marcou, porque foi atrás de mim que ele veio. Vi ele bater em outros carros e mandar os caras pra vala e o Uno, mesmo arrombado, sair de boa! Que cê acha que eu fiz? Parei? Nada! Tinha que fugir, sumir dali! Eu gritava, tava rezando, pedido ajuda divina!
E rolou a coisa mais estranha, o bicho tava soltando fogo, mesmassim não ficava queimando a estrada. Eu reparei porque teve uma hora que ele passou de mim e veio com tudo pra cima. Eu desviei, né, mas o carro dele fez um cavalinho de pau e ainda assim conseguiu me seguir. Foi aí que ele me encurralou. Eu comecei a chorar pra valer, tremendo de medo, o motor do carro falhou e eu bati na parede. Foi assim que quebrei o braço. Tava sangrando, todo fodido e o Uno colou em mim. Eu vi o monstro saindo de dentro, ele devia ter uns dois metros, e tava vindo pro meu carro. Não sou religioso de verdade, mas nessa hora eu tava orando pra valer.
Ele enfiou a mão pelo vidro e me pegou, puxando pra perto. Achei que ele ia me comer vivo, só que assim que ele segurou meu pescoço a mão roçou no meu crucifixo. Eu uso só poque minha mãe deu, mas eu vi que ele se afastou e pareceu sentir dor. Daí eu comecei a fazer o Pai Nosso alto mesmo e o cara segurou a cabeça e o fogo no carro dele acendeu, tipo, de soltar labareda. Eu não consegui mais parar, até que ouvi o grito, parecia um guincho de caminhão tombando e a criatura explodiu. Senti meu rosto ficar coberto do sangue podre dela e o carro quase foi junto, mas daí ele simplesmente apagou. E foi só nessa hora que a polícia chegou.”
Com a caneta flutuando em cima do papel, Sarco olhava embasbacado, não por conta da lorota, mas porque podia ver nos olhos do rapaz que ele acreditava mesmo naquilo. Haviam encontrado o guri quase morto em um carro batido contra a parede, com um Uno recém-incendiado do lado. Ninguém entendeu como o fogo apagou tão rápido, mas o corpo do motorista não foi localizado. Pelo jeito o carinha tinha ficado traumatizado com o acidente e agora... Sarco coçou a cabeça e achou melhor pedir pra alguém levar ele pra uma cela, mandar chamar uns psiquiatras e ver o que eles fariam.

Acendendo o sexto cigarro, Sarco estava colocando o casaco quando ouviu os gritos e correu pra ver o que estava acontecendo. Parou no meio do corredor tossindo fortemente e percebeu que nem em sonhos aquilo tudo seria fumaça de cigarro. De longe podia ver a cela do rapaz, que tinha entrado em chamas e viu quando ele irrompeu entre as grades, o corpo deformando pelo fogo, os olhos caindo e a boca se abrindo em um sorriso rasgado... e vindo pra ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A dor de uma despedida

Eventualmente eu choro. Não como as pessoas que conheço, que se debulham em lágrimas ou coisas do tipo, mas de escorrer algumas gotas e sentir o corpo tremer. É um defeito meu estranho, uma trava que não permite me expressar. Mas nem por isso eu deixo de ficar triste, de ter angústia, de precisar d de um ombro amigo. Mais uma vez a escrita me serve de tratamento, de válvula de escape e... gente, eu ADORO isso. O texto que trago hoje, e sei que tá bem tarde pra isso, é uma pequena ode às idas e vindas de relacionamentos. Todos ficamos tristes quando acaba, mas sempre há uma chance de trazer algo de bom.

Hora de Partir

O sol se punha naquela tarde com tanta preguiça que talvez fosse meia-noite antes que sumisse no horizonte. As próprias flores, movidas pelo vento, dançavam lentamente, como uma valsa romântica. No imenso jardim apenas duas sombras se destacavam, cobertas por uma árvore de tamanho colossal, tão alta quanto a lua e tão antiga quanto o céu. Abraçadas, embalam um balanço em que não deveria caber nem um adulto, mas comporta-as igualmente.
Lágrimas correm de seus olhos, pensando em todo aquele tempo juntos. Sabem que logo irão se separar e continuar com seus destinos, ocasionalmente se encontrando em um solstício ou outro, mas nunca mais como agora, naquele momento tão especial. A brisa morna se aquieta, tornando-se gélida e logo abrirá espaço para uma pavorosa ventania. Os corpos se apertam para compartilhar o calor.
- Eu não queria te deixar ir. – é o que diz ela e recosta a cabeça em seu colo – Não posso pensar em aguentar os meses que virão.
- Não posso evitar, sabe disso. Se fosse por mim não haveria Inverno ou Primavera, faria calor para você sempre. Te traria os prazeres de uma chuva fresquinha, talvez até torrencial, e teria sempre como tomar um bom sorvete.
- Mas então os casais não teriam seus momentos especiais, e o amor acabaria se tornando só nosso... não quero isso.
- Eu não me importaria em ser mais egoísta. Dizem já que sou o maior de todos mesmo, que trago apenas sede, cansaço e suor...
- Não diga isso. Sabe que te adoram. Sem você as pessoas não sentiriam calores e “calores”. Eu mesma não existo a não ser que você faça as plantas terminarem seu ciclo. Para minhas belas folhas bronzeadas preciso que você dê algum trabalho a elas.
- Mesmo assim... não quero ir.
Ambos encostam as testas. Os cabelos dele, tão loiros e curtos, quase não tocam sua fronte, enquanto os dela, ruivos, caem em mechas manchadas de castanho sobre seus olhos cor de caramelo. Juntos, tão diferentes, parecem se completar. São as íris azuladas, cor de mar dele, que trazem conforto a ela diante dos dias que terá que aguentar o frio e a solidão. Não que seja culpa do belo Inverno, com seus cabelos negros ou seus olhos cinzentos. Mas perto de seu namorado não há como pensar em se entregar ao seu abraço glacial.
- Verão, me perdoe se eu parecer estar gostando. Sabe que em certas horas eu e Inverno estaremos muito próximos.
- Sim, assim como eu e Primavera. Eu confio em você, meu amor, e não importa o quanto eu esteja enciumado, minha paixão por você é mais forte.
- Obrigada... obrigada por tudo. Prometo lhe esperar, e que quando você chegar eu tentarei me lembrar de você. Não deixarei que nosso amor seja esquecido, como vários outros que iniciam em sua estação.
- Eu sei que não. Estou apaixonado por ser apenas culpa do meu fogo.
- Eu também.
- Estou indo, Outono... até daqui a nove meses...
- Eu estarei aqui, nesse mesmo balanço...
- Eu... vou... lhe buscar...

E enquanto o sol finalmente se punha e a lua surgia brilhante no céu escuro, Outono derramou mais duas lágrimas que se transformaram em fractais de gelo antes de quebrarem no chão. O vendaval se aquietou e uma presença gelada denunciou a chegada de Inverno. Era hora de seguir em frente por mais um ano.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Amigos até o fim

Eu tenho bons amigos, bons amigos MESMO, que eu daria a vida por... mas isso é exagero de madrugada, eu os amo e eles sabem disso, eu vivo repetindo. De vez em quando sinto vontade de homenageá-los e dizer coisas que gostaria que eles entendessem, mas nem sempre consigo expressar da forma mais tradicional. Então o que eu faço? É claro, eu escrevo... e foi o que fiz. Criei este texto para unir duas vontades, e uma delas era criar um mundo que tivesse vários elementos que eu gosto, do steampunk ao distópico, e assim fazer uma brincadeira divertida. Sem mais delongas, apresento...

Um fragmento dos heróis de Nova Terra

Uma seta atravessou a porta de madeira, fazendo sangue escorrer do outro lado. Claramente o vigia tivera um triste fim para sua curta carreira, e deixaria pra traz um legado ainda menor se entrassem na sala. As insistentes batidas fizeram com que os dois ocupantes acelerassem o delicado processo de separar as coisas que queriam levar em sua fuga, mas foram interrompidos quando a placa de madeira se partiu com um chute.
O tigre branco saltou com um rugido que silenciou o ambiente, sendo seguido de sua mestra, a caçadora exótica que portava uma besta. Além dela, seus companheiros também entraram, vasculhando o local atrás do objeto que procuravam. Um dos dois mercadores pensou em pegar sua pistola de raios, mas foi interrompido por um golpe brutal do homem que estava com elas, um chute bem aplicado em seu braço, que provavelmente o havia quebrado.
- Você está sendo um incômodo, Jasper. Que tal ficar bem quieto aí enquanto nós procuramos? Mortícia, encontrou?
A mulher de longos cabelos negros remexia em uma gaveta e fez um som de indignação ao tirar uma maleta vazia lá de dentro. Jogou-a no chão e sacou uma varinha energética que apontou para o pescoço de Jasper.
- Não e esse idiota vai me dizer por quê.
- Ahn... pessoal? – perguntou a mecânica que havia entrado por último e utilizava um estranho aparelho-medidor.
- O que é, Naftalina? – perguntou a caçadora já colocando a seta em sua besta.
- Eu acabei de ver, esta é a sala 323.
- E daí? – perguntou Mortícia irritada e encostando a vara no mercador.
- E a sala que procuramos é a 313.
- Droga, mas de novo? – reclamou o monge e saiu bufando.
- Bem, desculpem por isso. – foi dizendo a caçadora e puxando um pedaço da porta para fechá-la – Jasper, Jião, mandem a conta para o escritório. Obrigada.
E assim que eles saíram, ambos os mercadores irmãos se olharam e perguntaram um ao outro.
- Mas que escritório?
...
Enquanto examinavam o orbe, que acabaram comprando do velhinho do 313, os quatro amigos pareciam incomodados. Primeiro um estranho ancião aparecera para eles em um bar, oferecendo uma quantia exorbitante de prata por um amuleto que tiveram de surrupiar de uma cripta na cidade-baixa. Depois o tal ancião fora morto por um cavaleiro negro com problemas de asma que sumira deixando pra traz o medalhão. E aí ele se ativara, revelando a mensagem de uma princesa que pedia para eles a resgatarem e indicava uma esfera que seria na verdade um mapa. Agora olhavam pro protótipo de bola de golfe e se perguntavam se era uma piada de muito mal gosto.
- Isso aqui não serve nem pra peso de papel! Vai sair rolando! – resmungou Mortícia e arremessou o orbe para o tigre.
- Não, não. – disse a caçadora pegando o objeto no ar – Vai fazer muito mal pra você, Vitória.
- Então, o que faremos? – perguntou o monge e pegou uma caderneta da mochila – Não sei se temos algum contato que trabalhe com tecnologia tão antiga.
- Ah, eu conheço um cara. – disse Naftalina – Ele é bom nisso.
- Conhece um cara? Vixi! – disse Mortícia – Seria melhor se fôssemos atrás de um dos antigos amigos da Ártemis.
- Ei! Eu ouvi isso!
- Relaxe, Ártemis. Mortícia só está de mau humor... como sempre. Então, Naftalina, fale desse seu cara.
- Oh! Ele não é nada demais... é só que ele tem uma biblioteca de discos-esfera, e pode ser que ele consiga usar essa coisinha aí! – pegou seu caderno-à-vapor e girou a manivela – Bem, pelas minhas anotações ele deve estar aberto ainda.
- Vamos para lá, então, não acho que seja bom continuarmos nas ruas depois do incidente em Londinum. – disse ele.
Mesmo que não houvesse uma concordância geral, principalmente pelo espírito livre de Ártemis ou a constante braveza de Mortícia, Cárdeo agia como líder nesses casos, já que sua natureza mais centrada o mantinha focado na missão. Sem dizer nada, entraram no trem a jato e seguiram para uma das asas norte de România. Sentados no vagão, com Vitória aos seus pés, eles não encaravam os outros passageiros, que se mantinham longe e assustados. Ártemis alisava o pêlo da tigresa quando Cárdeo tocou em seu ombro.
- Se estiver lhe incomodando isso tudo... podemos fazer alguma outra coisa.
- Ahn?
- Só quero dizer que... você não é obrigada a vir com a gente.
- Mas ninguém me obrigou!
- Tudo bem, Ártemis, só queria dizer isso...
- Se quer dizer alguma coisa, fala direito.
- O que ele quer dizer é que tá afim de sair com você, sua anta! – respondeu Mortícia e então encostou a cabeça no banco – Agora me deixem cochilar e só me acordem quando chegarmos lá!
- Vocês humanos são tão complicados. – comentou Naftalina evoltou a mexer em seu caderno-à-vapor – Chegaremos em menos de dois ciclóns.
O grupo voltou ao silêncio e nem Ártemis nem Cárdeo voltaram a se olhar. Mais tarde, quando chegavam ao destino, o monge segurava bem a soqueira de metal-santo que recebera de seu mestre e beijou-a antes de bater à porta do “conhecido” de Naftalina. Um senhor baixinho, muito pequeno mesmo, abriu-a e olhou para todos com admiração antes de fechar a porta em sua cara.
- Simpático seu amigo, Nafta. – disse Mortícia.
- Não entendi essa...
- Tudo bem, vamos fazer do meu jeito. – disse Cárdeo e então encostou sua arma na porta, pressionando-a – Senhor, por favor, abra ou teremos que invadir.
- Vão embora! Não quero falar com gigantes!
Cárdeo olhou para as três. Apesar de ser alto, ainda era normal para os padrões da época, e suas companheiras não poderiam ser consideradas acima da média.
- Ahn... acho que o senhor não entendeu...
- Ou abre essa joça agora ou a gente vai entrar, te matar e te comer, seu anãozinho! – berrou Mortícia – Ou pior, a gente te dá pra Vitória brincar!
- Por favor, não fale assim da minha gata. – pediu Ártemis – Ela é um doce.
- E tem dentes gigantes, vai né.
- Não estão ajudando meninas. – disse Cárdeo.
Mas a porta abriu e tremendo o homem baixinho olhou para todos.
- Por favor... me deixem em paz...
- Arquimedes, não fique assim. Sou eu, Naftalina Augusta Tímber III.
- Naf... Augusta!!! Oh, por todos os dez deuses, eu não a reconheci sem seus óculos de rubi e sem aquela engenhoca de seis pernas!
- Bem, eu tive que deixá-los em Londinum desde que...
- Caham, senhor Arquimedes, nós viemos até aqui para pedir auxílio. – interrompeu Cárdeo antes que ela dissesse algo perigoso – Naftalina nos disse que você possui aparatos para reproduzir discos-esfera e precisamos muito ver o que há nesse aqui.
E mostrou o orbe acobreado. Assim que pôs os olhos no objeto, Arquimede pareceu pular como um coelho, muito empolgado.
- Sim! Sim! É um ATX-300, modelo excepcional! Nunca vi fora de um museu, mas é... como conseguiram um desses?
- Nós... o confiscamos em uma missão importante. – respondeu Naftalina, surpreendendo os companheiros. Geralmente ela só falava a verdade.
Ela olhou pra eles como se dissesse “Ei, meia-verdade não é mentir, não é?!” e todos ficaram quietos. Ártemis se adiantou e colocou a mão no ombro do velhinho.
- O senhor conseguiria ativá-lo para nós?
- Oh sim! SIM! Por favor, deixem-me vê-lo funcionando! Sabem, o ATX-300 é o único que pode reproduzir imagens e som em alta frequência, e ainda por cima consegue reproduzir cheiros! Já imaginaram como é? Ou melhor, verão! E sentirão!
Um tanto enojados com a ideia, os quatro entraram na casa de Arquimedes que, para seu azar, seguia o padrão do dono. Apesar das garotas não terem de se curvar tanto quanto Cárdeo, estavam com dificuldade de andarem ali dentro e logo ocuparam um espaço no sofá circular dele, em volta do reprodutor. O anão cravou a esfera no centro e apertou alguns dos seus círculos, ativando algum código-fonte que a fez girar até abrir um pequeno facho de luz em direção ao teto. A imagem de um homem nú ocupou a visão deles.
- Oh, não! Tira isso! Tira! – pediram em uníssono.
- Desculpem! Deve ser uma falha na programação! – disse Arquimedes e apertou outros círculos, fazendo aparecer as roupas do homem – Ah, bem melhor!
“Intrépidos viajantes que roubaram esta esfera...”
- Como ele sabe disso? Ai!
- Quieta, Mortícia. – disse Ártemis impedindo que ela confessasse tudo.
“... vocês não fazem ideia do mal que desencadearam...”
- Pronto, a gente estourou o Apocalipse. – disse Naftalina e abraçou a cabeça -  E eu nem terminei meu foguete para ir à Lua!
“... quando me tiraram do meu sono...”
- Peraí... então ele estava dormindo? – perguntou Ártemis – Ele está VIVENDO aí?
“...no ano de 1493 b.T.”
- Isso não foi há... uns vinte anos? – perguntou Mortícia.
- Você nem sabe em que ano está? – rebateu Ártemis.
- Não... bem...
- Isso quer dizer que esse começo de mensagem não foi pra gente. Legal. – disse Naftalina.
“Agora terão que percorrer meu Labirinto Perpétuo e impedir que o mundo acabe... algum dia.”
- Isso não pareceu tão... assustador. – disse Cárdeo.
- É... foi bem vago. – comentou Ártemis.
- Então, a gente pode ir embora? – perguntou Mortícia.
“Em vinte mil, duzentos e treze ciclóns a Terra encontrará seu fim sob a Ira do Monstro do Labirinto quando ele chegar ao Núcleo!”
- Ahn... quanto dá isso?
- Daqui a três dias. – respondeu Naftalina.
Arquimedes saltou de onde estava, foi até a esfera, a pegou, entregou para Cárdeo, saiu da sala e voltou carregando um chapéu e uma mala pequena. Deixou as chaves na mão de Naftalina e se dirigiu à porta.
- Até mais, crianças!
- Espere, Arquimedes! Onde você vai?
- Vou para Habanana, aproveiter meus três últimos dias! Talvez arranjar uma esposa e fazer um menáge a trois enquanto aposto toda minha grana em um cassino. De preferência morrer alcoolizado antes do Monstro chegar!
E bateu a porta, deixando-os sozinhos.
- Ah! – disse abrindo-a em seguida – E podem aproveitar essa espelunca! Façam como quiserem! Adeus!
E fechou de novo.
- Então... o que faremos? – perguntou Naftalina.
- A resposta é óbvia. Vamos morrer!
- Acalme-se, Mortícia, ainda há esperança. – disse Cárdeo.
- Ah, é? Qual?
- Podemos entrar no tal Labirinto e tentar impedir o Monstro!
- E você por acaso sabe onde fica isso?
“A propósito” soou a voz vinda da esfera “a entrada mais próxima fica nas coordenadas 34,5, 45,2, leste” e desligou-se novamente.
- Certo... agora sabemos onde é. Satisfeita?
- Eu que não vou me aventurar nisso aí!
- Eu também não sei... não quero arriscar a vida de Vitória.
- Pode não haver vida depois de três dias, Artie. – disse Naftalina – Eu acho que é melhor arriscar.
- Argh! Não! – reclamou Mortícia – Eu vou ver se tem alguma bebida nesta casa!
E saiu.
- Bem, talvez seja melhor nós realmente irmos descansar. Se formos até esse Labirinto, precisamos decidir logo, mas também estarmos preparados fisicamente. – disse Cárdeo – Procurem os quartos e se alojem. Eu vou ficar na sala mesmo.
Haviam apenas dois quartos, sendo que um deles tinha uma cama que mal cabia uma pessoa, mas na qual ficaram Naftalina e Mortícia. Ártemis ficou com o outro quarto, para que Vitória dormisse aos seus pés. Assim que todas estavam tranquilas, Cárdeo deitou-se no sofá, ocupando-o por inteiro e ainda com os pés de fora. Olhava para o teto pensando em tudo que já tinham enfrentado. Iriam ganhar mais essa, tinha certeza, só que... doía-lhe pensar que elas se arriscariam de novo.
De repente ouviu passos no corredor e já pegava sua soqueira quando Ártemis surgiu, coberta por sua capa de viagem. Ela trazia um copo d’água e parecia estar triste, mas sentou-se ao seu lado, no chão, sem dizer nada. Pegou sua mão e a acariciou, silenciosamente.
- O que foi? Teve um pesadelo?
- Ainda não consegui dormir. Estive pensando em tudo. Nessa... aventura...
- Eu sei, é complicado, mas vamos conseguir e...
- Tem certeza? E se falharmos? Lá em Londinum quase morremos!
- Eu sei, mas não podemos fracassar agora. E não iremos.
- Tenho medo, Cárdeo. Muito medo.
- Eu estou aqui por você, Ártemis. Sempre estive e... sempre estarei. Se me deixar fazer isso, claro.
Ela olhou pra ele e então subiu no sofá, ficando com as pernas em volta da cintura dele. Cárdeo descobriu rapidamente que ela estava SÓ com a capa de viagem.
- Eu vou deixar, pode contar com isso.
E tirou a última peça de roupa, revelando seu corpo malhado do combate, coberto de cicatrizes e ainda assim tão belo. Cárdeo o admirou por completo e levou as mãos aos seios dela, massageando seus mamilos.
- Gosta?
- É parte das mulheres que mais gosto.
- Então os pegue... MEU caçador.
No quarto, Mortícia e Naftalina ouviram os sons que eles produziam na sala e se entreolharam. Ambas ficaram em silêncio, apenas apreciando o momento, mas antes de dormir beijaram-se suavemente e cumplicentemente. Se morreriam logo, queriam compartilhar de alguma coisa especial. Pela manhã, todos estavam quase satisfeitos. Ártemis e Cárdeo caminharam de mãos dadas um pouco, até que Naftalina e Mortícia os viram. Estavam vestidos para o combate.
- Então é isso né? Sem escolhas! – reclamou Mortícia.
- Nós fizemos uma escolha, Mort. Nós vamos tentar salvar a Terra... de novo. – disse Cárdeo.
- Só quero dizer que amo todos vocês. – disse Naftalina e deu um beijo em cada um – E vou estar orgulhosa se caírmos batalhando.
- Não vamos cair. – disse Ártemis e então deu as mãos para Cárdeo e Mortícia e beijou longamente ambos – Estamos aqui para vencer.
- Claro que vamos vencer. – respondeu Mortícia um tanto corada e deu a mão para Naftalina, dando mais um beijo nela – Estamos juntos.
- Vamos? – perguntou Cárdeo.

- Vamos. – responderam as três.

terça-feira, 31 de março de 2015

Muitos medos

Recentemente por um amigo eu fiz uma viagem, uma grande viagem, e fui até Brasília de avião. Eu não voava há... nossa, não sei desde quando, só lembro de umas pequenas coisas da minha infância, devia ser pequeno demais pra registrar tudo. Tinha o gosto do suco de laranja, a sensação da bandeja e uma vista rápida da janela. E só. Agora eu revisitei essas lembranças em um passeio bem tenso que fiz, e que despertou alguns medos antigos. Cara, que tenso! Quando cheguei precisei registrar o que senti e corri pra escrever esse conto. Não é o meu favorito, mas transmite BEM o que eu passei...

Malditas asas que não batem

Não foi a tremedeira, o bater de queixo ou as mãos geladas que denunciou meu nervosismo, não, com certeza foram os doze longos minutos que eu passei olhando pro encosto da poltrona da frente, cronometrando o tempo de aterrissagem. Apaguei por esse tempo, minha cabeça era um relógio preciso, repassando mentalmente imagens dos filmes que vi, das notícias que li e os números nas listas de sobreviventes de acidentes aéreos.
O terror havia tomado conta de mim e, não fosse uma mão insistentemente apertando meu cotovelo ou a voz que me chamava eu teria ficado ali mesmo, meu corpo descendo e o espírito subindo, pra algum lugar lá em cima que não sei onde. Ao menos espero que suba, e não... bem, seria por pouco tempo. Tão logo saímos do avião eu corri para o banheiro para devolver aquelas bolachinhas que nos deram como “serviço de bordo”. Brincadeira, viu? Depois de esperar duas horas e meia pelo atraso, perto do meio dia, tem coragem de nos servir um petisco desses pra acomodar nossos estômagos durante a viagem.
Saí com o rosto e a alma lavados, parte de mim ficara naquele bacio, e já havia me recomposto o suficiente para engatar em uma conversa quando ouvi a célere frase:
- E Tadeu, não esse esqueça que tem a volta...
--
Eu poderia morrer, tranquilamente, e ninguém sentiria falta. Os motores não haviam ligado e já colara as costas encharcadas na poltrona, os olhos vidrados na telinha dos avisos de decolagem. Que se dane se alguém fumar! Isso caindo, não vai ter pulmão sadio que salve ninguém! Diacho, bem provável que EU comece a fumar agora, meus pulmões já estão se acostumando a puxar muito ar. Será que estou hiperventilando?
As janelas são tão pequenas... e parecem tão frágeis! Será que eu conseguiria escapar? Vejo marcações de saídas de emergência que poderiam muito bem indicar porta para o céu, de nada me valeriam. E essas máscaras de oxigênio... o que menos preciso fazer agora é respirar! Lá fora o céu tá tão claro que só vejo o branco, o que é ainda mais assustador. Sério, quem disse que nuvens são bonitas é porque nunca esteve ao lado delas, porque daqui me parecem blocos de fumaça mortal que faz a nave chacoalhar. Estou tremendo tanto que mal consigo segurar o copo para tomar meu remédio.
- Tadeu, acalme-se. – diz dona Suely, que é quem ocupa o lugar ao meu lado nesses casos.
A senhora que me perdoe mas, nesses casos, a calma que se exploda. Não, espere, sem explosões, nada disso. Escuto um som estranho e olho para as asas, as quais parece que vão desmontar. Oh Meu Deus! Por favor, não, não! Tudo menos isso!
--
- Tadeu, assim não dá. Você não pode pedir pra tomar um calmante tão forte.
- Desculpa, César, mas de outra forma não vai rolar. Eu PRECISO apagar, ou então eu vou ter um treco em pleno ar.
- Você vai ter que aguentar, só digo isso. Vai lá, senta no teu lugar e segura o tranco. É a última parte do percurso.
Mas não é assim simples, César. Eu nem havia me ligado que faríamos conexão em São Paulo, e por quê? Dá pra ir de carro até o Rio e nem demora tanto tempo assim! Deus, eu só quero estar em casa. Não vou mais reclamar de trabalho, sem mais viagens de negócio, até paro de trair minha esposa! Ah, ah... o quê... o que é aquilo? Vai furar a asa do avião, vai...
- CUIDADO PILOTO!!!!
--
- Tadeu era um bom amigo, é uma pena que não resistiu ao vôo...
- Falando assim, César, vai parecer que ele morreu no avião. O cara só desmaiou.
- Eu sei, Jorge, mas tem que entender, desse jeito não vai rolar aquela promoção. Pior, eu posso ter que despedi-lo, onde já se viu vendedor que não consegue chegar no compromisso na hora porque não viaja de avião?
- É, pois é...

Mas Tadeu não reclamou. Em seus sonhos caóticos, causados pelo medo, ele estava muito feliz abraçado com a esposa em um canteiro no meio de uma campina com árvores em volta. Bem tranquilo. Perto do chão. Em paz.

domingo, 29 de março de 2015

Desafios ao auto-controle

AVISO: Este post é contra-indicado para pessoas com dificuldade de segurar sua excitação e menores de 18 por conter informações demais. Você foi avisado, se depois ficar na tentação a culpa NÃO é minha.


sexta-feira, 27 de março de 2015

De vez em quando na Terra Média

Como a maioria que eu conheço, comecei também com fanfics, escrevendo algumas coisinhas que não são tão vergonhosas assim, mas que estão no meu passado, e lá vão ficar. Por hora. Bem, mas de vez em quando a vontade volta e eu acabo embrenhando nesse caminho, fazendo pequenas homenagens a personagens que gosto tanto... ou viajando na maionese legal. O texto que trago hoje é exatamente uma versão livre da história que achei tão legal. Espero que para vocês também seja e quem reconhecer as menções e quiser comentar, ficarei feliz. Algumas são MUITO óbvias...

Escadur Fast

- Deixe-me ir, disse o sábio ao rei, poderei fazer o melhor por nosso reino se for a outras terras, conhecer outros como eu, e talvez aprender outros truques.
O soberano, já murcho da fome e do cansaço, ponderou por longos minutos e então acenou ao seu servo mais leal com a mão de dedos finos na qual os anéis pesavam. Provavelmente não teria muitas forças em breve, então evitava os discursos e também os grandes gestos para não gastar as energias.
- Vá, Escadur, e vá rápido pois se não tiveres pressa logo provavelmente também não terás lar, e pousou a cabeça no próprio ombro entrando em um sono profundo e preocupante.
Os outros serviçais entreolharam-se, alarmados, e um deles correu para acordar o rei, mas foi interrompido por seu filho, que de tão magro quase caiu de costas com o toque.
- Deixe meu pai dormir. Há dias que não o vejo fazer isso com tanta calma. A dor da fome nos tomou também o descanso noturno.
Escadur correu ao ouvir tais palavras. Para um velho era ainda muito novo, mal havia completado seus quarenta ciclos solares quando recebera a incumbência de ser o conselheiro mór do rei Kandalth, o Ébrio, e agora temia que talvez não fosse servir aos seus descendentes. Desde que uma maldição se instalara no reino ninguém mais acreditava que haveria um futuro ou talvez mesmo um presente. Os alimentos tocavam-lhe a boca, mas não o estômago, desparecendo tão logo eram absorvidos. Mesmo crianças gordinhas haviam se tornado pequenos ratinhos desnutridos por aqueles dias tristes.
Desconfiado, Kandalth ordenara aos seus guardas que vasculhassem as casas atrás de feiticeiras ou bruxos mal intencionados mas após alguns interrogatórios infelizes constataram que não havia qualquer criatura mágica entre os seus. Apenas quando todas as tentativas deram em nada é que o rei aceitara que talvez fosse preciso pedir ajuda. Agora sobrava a Escadur a missão de visitar todos os seus amigos antigos e torcer para que algum deles já houvesse ouvido falar de tal fenômeno.
Primeiro foi o nobre Ar’khon, imperador da Cidade de Prata, o coração do atual domínio humano, e também o seu mais antigo amigo. Por ser sábio e poderoso, talvez pudesse lhe ajudar em sua empreitada e fornecer os recursos para tanto. Mas, ao chegar a seu castelo, no alto da montanha branca, encontrou o aliado em prantos, desconsolado.
- Grande Ar’khon, líder da bela Kit’has-rah, capital dos homens, o que te aflige, meu irmão?
E diante dos olhos encharcados de Ar’khon, toda a missão de Escadur pareceu minguar, sentiu seu coração murchar e tremeu com a tristeza que agora compartilhava.
- Meu amigo, ó, meu doce amigo, minha amada se foi... após tantos anos, após esse tempo todo que estivemos juntos... minha Haruin faleceu. Amaldiçoado sou eu por ser eterno! Que os deuses me devolvam minha fatalidade e me deixem perecer ao seu lado!
Escadur entendeu de imediato o sofrimento e também chorou. Conhecer Haruin quando era jovem e vira a beleza do amor deles e também temera pelo dia que acabaria. Ar’khon, como o senhor de todos os homens, recebera o dom da imortalidade, que também seria sua perdição. Os outros sábios cantavam que no passado Ar’khon já tivera o coração perfurado por outras paixões mas nenhuma como a por Haruin. E agora que ela se fora, ele se tornaria vazio e talvez os homens estivessem perdidos.
- Venha comigo, Ar’khon, pois sem vossa força talvez meu rei acabe definhando, assim como seu reino...
E explicou tudo, em todos os detalhes. Sentiu nascer nos olhos e também na alma de Ar’khon uma chama. Sabia que ele tinha um carinho por Kandalth, a quem considerava um filho, e quem sabe o fosse. Já vivia há tanto tempo que provavelmente todos os humanos de Gaia Sancta fossem seus herdeiros.
- Eu irei, meu adorado Escadur, e salvarei o reino de seu soberano!
Partiram da Cidade de Prata seguindo caminho para as florestas de Shantel, lar de Regulos, o Alto, um dos poucos homens a domar o caminho do arco e comandar o exercíto dos Álficos, os primeiros seres de Gaia Sancta. De pele esverdeada, olhos em tons de caramelo e longos cabelos dourados, esses hominídios eram mais inteligentes e gentis que os humanos, mas possuíam também vida mais curta. Regulos em si já chegara aos cinquenta e mostrava sinais de que não duraria muito mais, mesmo assim veio saudá-los com afeto e energia.
- Oh, meus amigos, que bons ventos trouxeram vocês à minha morada?, e recebendo as notícias seu rosto se converteu em uma máscara de pena, Não me diga, Escadur, Kandalth não sobreviverá? Ó, por favor, que ele possa ver meu enterro e que derrame lágrimas por mim, não suportaria imaginá-lo em um caixão.
- Então, Regulos, não haveria nada que você poderia nos dizer para ajudar? Pois a mim e a Ar’khon só sobrou questionar nossos amigos.
De olhos lacrimejantes o caçador negou e deixou-se cair em sua cadeira de vime. As mãos coçaram as têmporas, visivelmente incomodado. Por fim mandou chamar Khimbi, seu mais fiel e antigo companheiro, e também o estranho no ninho. O meio-urso tinha uma barba espessa que se confundia com seu pelo amarronzado cobrindo o peito. Fez uma reverência para Ar’khon, a quem reconhecia como majestade das terras em volta e abraçou Escadur.
- É bom vê-los novamente após tantos anos. Mas por que vieram até aqui, e trazem feições tão singelas e tristes?
- Nossos irmãos necessitam de ajuda, Khimbi. – disse Regulos e então tocou no ombro dele – Por favor, siga-os em sua jornada e ofereça nosso apoio em meu lugar.
- Mas é claro, meu senhor! Ar’khon, meu lorde, Escadur meu amigo, podem contar com meu machado.
E assim os três partiram em busca da última boa alma que poderia dar a eles alguma luz, Frollo, neto de Bilro, e o mais humilde morador de Baixovale, o território sulista da Gaia Sancta. Outrora um escritor, Frollo narrara as aventuras deles enquanto cresciam como pessoas e também em reputação e era provavelmente a pessoa mais informada em toda terra conhecida pelos homens. Não que fosse um, Frollo descendia do lendário povo dos Maradinos, os esguios e delicados filhos do sol. De bom coração, feições gentis e um ótimo senso de humor, eram hospitaleiros como poucos e mais afetuosos do que seria sensato, geralmente cometendo falhas de confiança em excesso.
Sua mansão, a maior em toda Baixovale, era também a hospedagem da maioria de seus parentes, pessoas de bem e tão divertidas quanto ele e que receberam os três com muita alegria. Ar’khon pareceu ganhar vida ao ser conduzido pelas mãos dos diminutos e frágeis filhos de Frollo até seu estúdio na torre mais alta. Lá, encontraram o amigo cercado de pilhas de papéis e olhos cansados. Parecia ter envelhecido décadas desde a última vez que se viram.
- Ar’khon! Escadur! E o bom e velho Khimbi! Saúdo-os e recebo em minha casa. Vejo que estão precisando de um bom chá de erva-madre.
- A verdade, Frollo, é que chegamos com pesar no coração. Precisamos de sua ajuda...
E foram contando tudo, cada pedaço da jornada iniciada com o Rei Kantalth até o momento em que pisaram em Baixovale e com isso a expressão de Frollo foi mudando e mudando até chegar a uma de quem tinha algo a dizer. Coçou a cabeça de cabelos encaracolados e pegou um de seus livros, o qual devorou em segundos. A fome dos Maradinos não era só por comida e muitos tinham o conhecimento acumulado de toda uma nação. Quando acabou fechou o livro e recostou-se na cadeira fumando seu cachimbo de bambu.
- Kantalth está com os dias contados, meus amigos, e não há nada que possam fazer... e eu sugiro que não procurem mais. Retornem para casa e vão descobrir que tudo seguirá seu caminho. Acreditem em mim, verão dias melhores em breve. E mais, Khimbi, digo também que você terá que tomar decisões difíceis em breve. Talvez a você Ar’khon, reste a missão mais fácil mas também a mais pesarosa.
Com estas palavras, Ar’khon, Escadur e Khimbi se sentiram afundar em seu desespero e tomaram o caminho de volta. Encontraram Shantel em estado de caos, Regulos, o Alto, morrera em seu sono e agora estavam sem líder. Coube a Khimbi assumir o papel e viram o povo comemorar o surgimento de uma nova estrela a lhes guiar, uma que duraria muitos anos e que poderia levar-lhes em uma nova direção. Regulos teve um enterro digno, aos pés da árvore de seus pais.
Ar’khon também teve uma surpresa ao retornar para casa e perceber que o luto passara e o povo agora precisava dele novamente. Haviam muitas decisões a tomar e logo sua cabeça se encheu do orgulho de seus homens que batalhavam para trazer um sorriso a seu imperador. Teve de abandonar também sua tristeza e ocupar seu lugar. Em dias seus olhos voltariam a brilhar, em meses não teria mais pesadelos, e em anos aceitaria nova mulher em seu coração.
Já Escadur, em galope constante, atravessou as fronteiras do reino e percebeu que o povo não estava nas ruas. Com medo, encaminhou-se ao palácio, esperando ver as bandeiras negras, mas pelo contrário, nas paredes haviam flâmulas de diversas cores, e trombetas e música, e dança e o sábio viu as pessoas em vestes novas e não mais definhando. O próprio príncipe se unira a elas, em uma alegria que há muito Escadur não via. Aproximou-se dele desconfiado e foi recebido com um abraço apertado.
- Escadur! Você voltou! Viva! Amigos, aqui está o homem mais honrado e mais dedicado de nossa corte! E também o melhor de todos nós!
- Não entendo, meu príncipe, quando saí estas pessoas, o senhor mesmo e seu pai sofriam de fome terrível... e agora...
- Ah, mas meu pai está bem! Todos estamos ótimos! Há poucos dias, quando achávamos que você não voltaria mais, um pássaro de fogo cruzou os céus e entrou nos aposentos de meu pai. O incêndio começou imediatamente, e todos entramos em pânico, mas de tão exaustos e fracos nada pudemos fazer. Juntamos as cinzas e estávamos prontos para o funeral quando do meio da sujeira meu pai saltou nu em pelo e totalmente curado. E mais, ele irradiava um calor intenso e uma felicidade sem igual. Sua energia contagiou a todos e logo estávamos nos banqueteando.
- Mas que maravilha! Que emoção! Oh, fico tão feliz com pelo menos esta boa notícia! Mas... por que você me louva se nada fiz?
- Meu pai disse, tão logo estava lúcido e bem para falar, que o pássaro, antes de queimar sua cama e as cortinas, olhou em seus olhos e ele reconheceu sua vontade. Era o seu coração Escadur, que de tanta tristeza liberou todo seu amor por nós para nos salvar. Ele veio até aqui e nos chamuscou com sua bondade. E agora estamos salvos, meu amigo e podemos comemorar.

Escadur soube que era verdade e de olhos cheios lágrimas foi ter com o rei que o abraçou e beijou como o melhor amigo que já tivera. Não poderia se vangloriar pelo feito e muito menos dizer que tinha sido planejado, mas estava feliz por ter todos de volta. Tinha feito sua jornada e ido lá e cá, até finalmente voltar ao seu lar.