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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

2016

É engraçado, eu tenho muita dificuldade de lembrar do ano que passou, conseguir mensurar quando começou e quanto tempo passou. Se me dissessem que tivemos 365 dias de 2016, eu provavelmente calcularia por diversos dias que correram e que em algum momento percebi serem espaçados. No geral eu tive um ano muito conturbado e aqui vão alguns porquês:
— Descobri vários motivos para não gostar de algumas pessoas, realmente várias delas mentiram pra mim e isso não foi legal. As pessoas normalmente não pensam nisso mas... eu descubro, gente, eu sou inteligente e sei perceber sinais.
— Também descobri várias coisas sobre mim, o que foi perturbador. É muito chato quando você senta e para pra pensar nas coisas que fez e que ainda faz e que talvez não sejam tão boas. Mais do que em 2015, quando já tinha passado por um rehab, 2016 me golpeou monstruosamente no estômago e por isso peço desculpas a várias pessoas.
— Morreu gente. Não mais do que morre todos os anos, mas eu senti alguns impactos. Pessoas que parei e percebi "Nossa, nunca mais verei..." e nesse sentido tenho perdido algumas pessoas nos últimos anos que... bom... são pessoas próximas. E doeu, como doeu... aliás...
— 2014 foi minha Tia Irma. Em 2015 minha Vó Maria. Eu agora moro na casa que elas moravam, e 2016 foi um ano de provação para ver quanto eu aguentava sem ouvir a voz delas, suas risadas, suas mancadas, o que elas me aconselhavam, mesmo que não fosse tão bom. Acho que só a Ann e mais umas duas pessoas já me viram desmanchar por causa delas... eu virei poeira, basicamente. Poeira quase lama, já que minhas lágrimas correram como rios... eu sei que muita gente sabe como é isso, mas deixem-me ter minha dor particular sim?
— Pra fechar, 2016 também me testou em quanto eu aguento com minha loja. Aqui admitir um mea culpa: eu não tenho formação de Administrador e não faço ideia de como ser um bom gerente. Sou um vendedor, eu me dedico a dar o melhor produto para os meus clientes, fazê-los sorrir, ficarem satisfeitos. Mas não foi o suficiente. 2016 foi um ano em que a política brasileira se jogou como o Anderson Silva no UFC: entrou batendo, achando que tava com tudo e levou MUITA porrada. O resultado é que nossa economia levou um baque tão grande que as pessoas pararam de gastar, e com isso os hobbies, como os que vendo, deram uma baita diminuída. Eu tive que cortar despesas, tive que investir menos. Tive que abrir mão de algumas coisas.
Isso vai mudar em 2017. Tudo isso, mas devagar. Por isso quero só levantar 3 coisas de 2016 que vou levar pra este ano pra fazer isso girar:
— Eu fui honesto, honesto de verdade com a Ann. Contei pra ela coisas que estavam no meu coração me machucando, e sei que a machucaram também. Abri tudo que podia pra que ela me entendesse e percebi como amo essa mulher. Isso não é da boca pra fora. É algo gigante, que não posso medir. Por mais que brinque com isso.
— Eu aprendi uma palavra realmente importante: Empatia. Você não gosta de algo que alguém te faz? Diga. Ouviu que alguém tá incomodado? Obedeça. Não acredita em algo ou acha que é besteira? Respeite. Tem uma opinião para dar, mas ela pode machucar? Tenha paciência. Eu mesmo sou bem grosseiro de vez em quando e ditador, mas quero ouvir mais, ensinar mais, aprender mais.
— Finalmente, quero que as pessoas se amem. Mesmo que nem sempre seja bom pra mim, quero que elas encontrem a felicidade. E nesse sentido vou me esforçar pelo amor alheio. Quero anos que venham com muita paixão, muita tranquilidade, muita... união.
Quero fazer do meu mundo melhor. Conto com vocês.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Amigos até o fim

Eu tenho bons amigos, bons amigos MESMO, que eu daria a vida por... mas isso é exagero de madrugada, eu os amo e eles sabem disso, eu vivo repetindo. De vez em quando sinto vontade de homenageá-los e dizer coisas que gostaria que eles entendessem, mas nem sempre consigo expressar da forma mais tradicional. Então o que eu faço? É claro, eu escrevo... e foi o que fiz. Criei este texto para unir duas vontades, e uma delas era criar um mundo que tivesse vários elementos que eu gosto, do steampunk ao distópico, e assim fazer uma brincadeira divertida. Sem mais delongas, apresento...

Um fragmento dos heróis de Nova Terra

Uma seta atravessou a porta de madeira, fazendo sangue escorrer do outro lado. Claramente o vigia tivera um triste fim para sua curta carreira, e deixaria pra traz um legado ainda menor se entrassem na sala. As insistentes batidas fizeram com que os dois ocupantes acelerassem o delicado processo de separar as coisas que queriam levar em sua fuga, mas foram interrompidos quando a placa de madeira se partiu com um chute.
O tigre branco saltou com um rugido que silenciou o ambiente, sendo seguido de sua mestra, a caçadora exótica que portava uma besta. Além dela, seus companheiros também entraram, vasculhando o local atrás do objeto que procuravam. Um dos dois mercadores pensou em pegar sua pistola de raios, mas foi interrompido por um golpe brutal do homem que estava com elas, um chute bem aplicado em seu braço, que provavelmente o havia quebrado.
- Você está sendo um incômodo, Jasper. Que tal ficar bem quieto aí enquanto nós procuramos? Mortícia, encontrou?
A mulher de longos cabelos negros remexia em uma gaveta e fez um som de indignação ao tirar uma maleta vazia lá de dentro. Jogou-a no chão e sacou uma varinha energética que apontou para o pescoço de Jasper.
- Não e esse idiota vai me dizer por quê.
- Ahn... pessoal? – perguntou a mecânica que havia entrado por último e utilizava um estranho aparelho-medidor.
- O que é, Naftalina? – perguntou a caçadora já colocando a seta em sua besta.
- Eu acabei de ver, esta é a sala 323.
- E daí? – perguntou Mortícia irritada e encostando a vara no mercador.
- E a sala que procuramos é a 313.
- Droga, mas de novo? – reclamou o monge e saiu bufando.
- Bem, desculpem por isso. – foi dizendo a caçadora e puxando um pedaço da porta para fechá-la – Jasper, Jião, mandem a conta para o escritório. Obrigada.
E assim que eles saíram, ambos os mercadores irmãos se olharam e perguntaram um ao outro.
- Mas que escritório?
...
Enquanto examinavam o orbe, que acabaram comprando do velhinho do 313, os quatro amigos pareciam incomodados. Primeiro um estranho ancião aparecera para eles em um bar, oferecendo uma quantia exorbitante de prata por um amuleto que tiveram de surrupiar de uma cripta na cidade-baixa. Depois o tal ancião fora morto por um cavaleiro negro com problemas de asma que sumira deixando pra traz o medalhão. E aí ele se ativara, revelando a mensagem de uma princesa que pedia para eles a resgatarem e indicava uma esfera que seria na verdade um mapa. Agora olhavam pro protótipo de bola de golfe e se perguntavam se era uma piada de muito mal gosto.
- Isso aqui não serve nem pra peso de papel! Vai sair rolando! – resmungou Mortícia e arremessou o orbe para o tigre.
- Não, não. – disse a caçadora pegando o objeto no ar – Vai fazer muito mal pra você, Vitória.
- Então, o que faremos? – perguntou o monge e pegou uma caderneta da mochila – Não sei se temos algum contato que trabalhe com tecnologia tão antiga.
- Ah, eu conheço um cara. – disse Naftalina – Ele é bom nisso.
- Conhece um cara? Vixi! – disse Mortícia – Seria melhor se fôssemos atrás de um dos antigos amigos da Ártemis.
- Ei! Eu ouvi isso!
- Relaxe, Ártemis. Mortícia só está de mau humor... como sempre. Então, Naftalina, fale desse seu cara.
- Oh! Ele não é nada demais... é só que ele tem uma biblioteca de discos-esfera, e pode ser que ele consiga usar essa coisinha aí! – pegou seu caderno-à-vapor e girou a manivela – Bem, pelas minhas anotações ele deve estar aberto ainda.
- Vamos para lá, então, não acho que seja bom continuarmos nas ruas depois do incidente em Londinum. – disse ele.
Mesmo que não houvesse uma concordância geral, principalmente pelo espírito livre de Ártemis ou a constante braveza de Mortícia, Cárdeo agia como líder nesses casos, já que sua natureza mais centrada o mantinha focado na missão. Sem dizer nada, entraram no trem a jato e seguiram para uma das asas norte de România. Sentados no vagão, com Vitória aos seus pés, eles não encaravam os outros passageiros, que se mantinham longe e assustados. Ártemis alisava o pêlo da tigresa quando Cárdeo tocou em seu ombro.
- Se estiver lhe incomodando isso tudo... podemos fazer alguma outra coisa.
- Ahn?
- Só quero dizer que... você não é obrigada a vir com a gente.
- Mas ninguém me obrigou!
- Tudo bem, Ártemis, só queria dizer isso...
- Se quer dizer alguma coisa, fala direito.
- O que ele quer dizer é que tá afim de sair com você, sua anta! – respondeu Mortícia e então encostou a cabeça no banco – Agora me deixem cochilar e só me acordem quando chegarmos lá!
- Vocês humanos são tão complicados. – comentou Naftalina evoltou a mexer em seu caderno-à-vapor – Chegaremos em menos de dois ciclóns.
O grupo voltou ao silêncio e nem Ártemis nem Cárdeo voltaram a se olhar. Mais tarde, quando chegavam ao destino, o monge segurava bem a soqueira de metal-santo que recebera de seu mestre e beijou-a antes de bater à porta do “conhecido” de Naftalina. Um senhor baixinho, muito pequeno mesmo, abriu-a e olhou para todos com admiração antes de fechar a porta em sua cara.
- Simpático seu amigo, Nafta. – disse Mortícia.
- Não entendi essa...
- Tudo bem, vamos fazer do meu jeito. – disse Cárdeo e então encostou sua arma na porta, pressionando-a – Senhor, por favor, abra ou teremos que invadir.
- Vão embora! Não quero falar com gigantes!
Cárdeo olhou para as três. Apesar de ser alto, ainda era normal para os padrões da época, e suas companheiras não poderiam ser consideradas acima da média.
- Ahn... acho que o senhor não entendeu...
- Ou abre essa joça agora ou a gente vai entrar, te matar e te comer, seu anãozinho! – berrou Mortícia – Ou pior, a gente te dá pra Vitória brincar!
- Por favor, não fale assim da minha gata. – pediu Ártemis – Ela é um doce.
- E tem dentes gigantes, vai né.
- Não estão ajudando meninas. – disse Cárdeo.
Mas a porta abriu e tremendo o homem baixinho olhou para todos.
- Por favor... me deixem em paz...
- Arquimedes, não fique assim. Sou eu, Naftalina Augusta Tímber III.
- Naf... Augusta!!! Oh, por todos os dez deuses, eu não a reconheci sem seus óculos de rubi e sem aquela engenhoca de seis pernas!
- Bem, eu tive que deixá-los em Londinum desde que...
- Caham, senhor Arquimedes, nós viemos até aqui para pedir auxílio. – interrompeu Cárdeo antes que ela dissesse algo perigoso – Naftalina nos disse que você possui aparatos para reproduzir discos-esfera e precisamos muito ver o que há nesse aqui.
E mostrou o orbe acobreado. Assim que pôs os olhos no objeto, Arquimede pareceu pular como um coelho, muito empolgado.
- Sim! Sim! É um ATX-300, modelo excepcional! Nunca vi fora de um museu, mas é... como conseguiram um desses?
- Nós... o confiscamos em uma missão importante. – respondeu Naftalina, surpreendendo os companheiros. Geralmente ela só falava a verdade.
Ela olhou pra eles como se dissesse “Ei, meia-verdade não é mentir, não é?!” e todos ficaram quietos. Ártemis se adiantou e colocou a mão no ombro do velhinho.
- O senhor conseguiria ativá-lo para nós?
- Oh sim! SIM! Por favor, deixem-me vê-lo funcionando! Sabem, o ATX-300 é o único que pode reproduzir imagens e som em alta frequência, e ainda por cima consegue reproduzir cheiros! Já imaginaram como é? Ou melhor, verão! E sentirão!
Um tanto enojados com a ideia, os quatro entraram na casa de Arquimedes que, para seu azar, seguia o padrão do dono. Apesar das garotas não terem de se curvar tanto quanto Cárdeo, estavam com dificuldade de andarem ali dentro e logo ocuparam um espaço no sofá circular dele, em volta do reprodutor. O anão cravou a esfera no centro e apertou alguns dos seus círculos, ativando algum código-fonte que a fez girar até abrir um pequeno facho de luz em direção ao teto. A imagem de um homem nú ocupou a visão deles.
- Oh, não! Tira isso! Tira! – pediram em uníssono.
- Desculpem! Deve ser uma falha na programação! – disse Arquimedes e apertou outros círculos, fazendo aparecer as roupas do homem – Ah, bem melhor!
“Intrépidos viajantes que roubaram esta esfera...”
- Como ele sabe disso? Ai!
- Quieta, Mortícia. – disse Ártemis impedindo que ela confessasse tudo.
“... vocês não fazem ideia do mal que desencadearam...”
- Pronto, a gente estourou o Apocalipse. – disse Naftalina e abraçou a cabeça -  E eu nem terminei meu foguete para ir à Lua!
“... quando me tiraram do meu sono...”
- Peraí... então ele estava dormindo? – perguntou Ártemis – Ele está VIVENDO aí?
“...no ano de 1493 b.T.”
- Isso não foi há... uns vinte anos? – perguntou Mortícia.
- Você nem sabe em que ano está? – rebateu Ártemis.
- Não... bem...
- Isso quer dizer que esse começo de mensagem não foi pra gente. Legal. – disse Naftalina.
“Agora terão que percorrer meu Labirinto Perpétuo e impedir que o mundo acabe... algum dia.”
- Isso não pareceu tão... assustador. – disse Cárdeo.
- É... foi bem vago. – comentou Ártemis.
- Então, a gente pode ir embora? – perguntou Mortícia.
“Em vinte mil, duzentos e treze ciclóns a Terra encontrará seu fim sob a Ira do Monstro do Labirinto quando ele chegar ao Núcleo!”
- Ahn... quanto dá isso?
- Daqui a três dias. – respondeu Naftalina.
Arquimedes saltou de onde estava, foi até a esfera, a pegou, entregou para Cárdeo, saiu da sala e voltou carregando um chapéu e uma mala pequena. Deixou as chaves na mão de Naftalina e se dirigiu à porta.
- Até mais, crianças!
- Espere, Arquimedes! Onde você vai?
- Vou para Habanana, aproveiter meus três últimos dias! Talvez arranjar uma esposa e fazer um menáge a trois enquanto aposto toda minha grana em um cassino. De preferência morrer alcoolizado antes do Monstro chegar!
E bateu a porta, deixando-os sozinhos.
- Ah! – disse abrindo-a em seguida – E podem aproveitar essa espelunca! Façam como quiserem! Adeus!
E fechou de novo.
- Então... o que faremos? – perguntou Naftalina.
- A resposta é óbvia. Vamos morrer!
- Acalme-se, Mortícia, ainda há esperança. – disse Cárdeo.
- Ah, é? Qual?
- Podemos entrar no tal Labirinto e tentar impedir o Monstro!
- E você por acaso sabe onde fica isso?
“A propósito” soou a voz vinda da esfera “a entrada mais próxima fica nas coordenadas 34,5, 45,2, leste” e desligou-se novamente.
- Certo... agora sabemos onde é. Satisfeita?
- Eu que não vou me aventurar nisso aí!
- Eu também não sei... não quero arriscar a vida de Vitória.
- Pode não haver vida depois de três dias, Artie. – disse Naftalina – Eu acho que é melhor arriscar.
- Argh! Não! – reclamou Mortícia – Eu vou ver se tem alguma bebida nesta casa!
E saiu.
- Bem, talvez seja melhor nós realmente irmos descansar. Se formos até esse Labirinto, precisamos decidir logo, mas também estarmos preparados fisicamente. – disse Cárdeo – Procurem os quartos e se alojem. Eu vou ficar na sala mesmo.
Haviam apenas dois quartos, sendo que um deles tinha uma cama que mal cabia uma pessoa, mas na qual ficaram Naftalina e Mortícia. Ártemis ficou com o outro quarto, para que Vitória dormisse aos seus pés. Assim que todas estavam tranquilas, Cárdeo deitou-se no sofá, ocupando-o por inteiro e ainda com os pés de fora. Olhava para o teto pensando em tudo que já tinham enfrentado. Iriam ganhar mais essa, tinha certeza, só que... doía-lhe pensar que elas se arriscariam de novo.
De repente ouviu passos no corredor e já pegava sua soqueira quando Ártemis surgiu, coberta por sua capa de viagem. Ela trazia um copo d’água e parecia estar triste, mas sentou-se ao seu lado, no chão, sem dizer nada. Pegou sua mão e a acariciou, silenciosamente.
- O que foi? Teve um pesadelo?
- Ainda não consegui dormir. Estive pensando em tudo. Nessa... aventura...
- Eu sei, é complicado, mas vamos conseguir e...
- Tem certeza? E se falharmos? Lá em Londinum quase morremos!
- Eu sei, mas não podemos fracassar agora. E não iremos.
- Tenho medo, Cárdeo. Muito medo.
- Eu estou aqui por você, Ártemis. Sempre estive e... sempre estarei. Se me deixar fazer isso, claro.
Ela olhou pra ele e então subiu no sofá, ficando com as pernas em volta da cintura dele. Cárdeo descobriu rapidamente que ela estava SÓ com a capa de viagem.
- Eu vou deixar, pode contar com isso.
E tirou a última peça de roupa, revelando seu corpo malhado do combate, coberto de cicatrizes e ainda assim tão belo. Cárdeo o admirou por completo e levou as mãos aos seios dela, massageando seus mamilos.
- Gosta?
- É parte das mulheres que mais gosto.
- Então os pegue... MEU caçador.
No quarto, Mortícia e Naftalina ouviram os sons que eles produziam na sala e se entreolharam. Ambas ficaram em silêncio, apenas apreciando o momento, mas antes de dormir beijaram-se suavemente e cumplicentemente. Se morreriam logo, queriam compartilhar de alguma coisa especial. Pela manhã, todos estavam quase satisfeitos. Ártemis e Cárdeo caminharam de mãos dadas um pouco, até que Naftalina e Mortícia os viram. Estavam vestidos para o combate.
- Então é isso né? Sem escolhas! – reclamou Mortícia.
- Nós fizemos uma escolha, Mort. Nós vamos tentar salvar a Terra... de novo. – disse Cárdeo.
- Só quero dizer que amo todos vocês. – disse Naftalina e deu um beijo em cada um – E vou estar orgulhosa se caírmos batalhando.
- Não vamos cair. – disse Ártemis e então deu as mãos para Cárdeo e Mortícia e beijou longamente ambos – Estamos aqui para vencer.
- Claro que vamos vencer. – respondeu Mortícia um tanto corada e deu a mão para Naftalina, dando mais um beijo nela – Estamos juntos.
- Vamos? – perguntou Cárdeo.

- Vamos. – responderam as três.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Nove anos atrás...

Poucos sabem, bem poucos mesmo, mas há exatos nove anos atrás eu fazia, pela primeira vez, um pedido de namoro. Bobão, falei algo como "amanhã vamos no cinema... Como amigos ou algo mais?". Foi ainda mais engraçado ao vivo, e talvez tenha sido o motivo de ter dado certo. Ela aceitou. Nove anos depois, estamos casados, morando juntos e ainda muito felizes.
Eu queria comemorar esse momento com algo mais, talvez uma chance de mostrar que construímos juntos não só um relacionamento ou uma casa, mas um grande conjunto de coisas boas. Entre elas, amigos excepcionais, que poderiam fazer a mágica acontecer e, mais rápido do que escrevo este texto, trazer uma mensagem bonita. Desde o princípio eu sou o Lobo, a criatura sorrateira, que muita gente julga como um grande larápio, cretino e safado. Eu gosto disso. Ela também. E ela é a Tigresa, um animal majestoso que só não é o rei dos felinos ou dos animais da selva porque o Leão tem mais juba e fez mais fama. Acreditem, como esta linda criatura, minha esposa é uma caçadora nata e cada vez mais mostra suas garras. Fiquem de olho. Enfim, nós estamos juntos e é isso que importa. Aqui vai uma prova disso. Se é que precisa. Agradeço principalmente à Ariana, à Mônica, ao Karu meu irmão fantástico e a um convidado especial que prefere ser considerado uma incógnita... Por enquanto!

Este é da Ari, a terceira ponta deste casal que é tão diva que merece ser sempre lembrada.

Este é da Monichan, minha nova kouhai tão drag e tão fofa que precisava ser trazida pra cá.

Nosso amigo misterioso disse que estava incompleto... Eu vou bater nele, juro XD

Meu irmão conseguiu colocar tanto romance que eu tô abismado. Obrigado, Karuma!

E claro... Eu tinha que trazer algo meu pra cá... Segue aqui um certo papo entre os dois animais...

- Onde vai amigo Lobo?
- Oh, lugar nenhum, cara Tigresa. E tu, o que fazes nesta parte da floresta?
- Vou ao concerto dos Tucanos, parecem preparar um bom Tango, e como sabe, Tucanos são engraçados e divertidos.
- Posso lhe acompanhar?
- Mas é claro, só não queira devorá-los.
- Nunca, minha amiga felina. É uma pena que estejamos sozinhos.
- Achas? Pois penso que iremos rir muito nós dois apenas.
- Se dizes, não tenho porque discordar.
- Veja, são eles! Como pulam e cantam e tocam de maneira formidável!
- É sim... Eu não imaginava que vê-los novamente me traria tanta alegria.
- Já veio aqui antes?
- Ah, sim, Tigresa, mas na outra vez apenas pude apreciá-los, e não a companhia. Hoje, no entanto, estou feliz, pois te tenho ao meu lado.
- E que seja assim para sempre, Lobo.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

23º Desafio - Ari para Ann

Alguém aí ainda lembra do desafio 30? Nunca acabei né? Pois é, que feio... Mas, como nunca é tarde para continuar um bom projeto, resolvi voltar atrás e completar pelo menos o último pedido. Estive tão preso neste e em outros dois projetos que durante muito tempo não escrevi nada. Bem, é hora de acabar. O que a Ari queria é, de certa forma, um grande presente pra Ann também, então estou dedicando este conto às duas. Acabou que ficou muito maior do que imaginava então espero que aguentem o longo texto.
Há duas coisas que desejo fazer com a Ann, senão no aniversário dela, ao menos em um meeting das lolitas (as quais estão também retratadas aqui, como poderão perceber): Um encontro de Eevees, cada um representando um. A mim caberá o Leafeon, quem me representa no conto a seguir. Boa leitura e aproveitem a festa!

Esta belíssima imagem é do deviantart de CreepyFish, que está vendendo várias outras lindas como esta em sua loja.

A Recepção para uma Fada

As festas nesta família geralmente acontecem a cada três, quatro anos, quando algum novo membro surge. Na primeira só haviam quatro, na segunda já eram seis, na terceira oito. Estavam agora esperando pelo caçula, e ninguém sabia o que pensar dele. A primeira a chegar foi a apressada Jolteon, sempre elétrica e atacada. Seu pelo espetado quase furou os balões na entrada, assustando o pobre Leafeon, quem ofereceu sua casa para a festa.
- Jolie, cuidado! Deu muito trabalho pra enchê-los! E senta a bunda nessa cadeira. Seus spikes vão acabar destruindo tudo antes que os outros possam ver!
- Você é muito fresquinho, Leon, tinha que ser mais selvagem que nem os outros do seu tipo.
- E o que você quer dizer com isso?
A porta abriu-se subitamente com a chegada de Glaceon e o clima esfriou vertiginosamente. Seu vestido semi-transparente fez com que os dois enrubescecem.
- Por favor, Glenda, vista uma roupa decente! – reclamou Leafeon, tentando tampar os olhos.
- Oh, meu amiga, não comesce! Não estou dispostar a discutir isso oche.
- Esse falso sotaque é que me mata. – grunhiu Jolteon virando um copo de suco.
- O que disse, querridinha?
- Nada não, só tava pensando que o Leon tinha que colocar uma música mais animada. Tá parecendo festa de criança.
- Eu... – ia responder o pobre anfitrião quando foi interrompido mais uma vez pela porta.
Deslizando para dentro, fluído como água, Vaporeon rapidamente se encostou em Glaceon passando o braço pelo seu ombro e abrindo um sorriso muito malicioso.
- Tá a fim de dar uma esquentadinha no quarto de Leon, gata?
- Ui ui ui, Varen! Tirra suas mãos de mim! Que grurdento! ARGH!
E lá se foi Glaceon pisando fundo, extremamente revoltada com a aproximação do primo.
- Cara, isso foi nojento. – comentou Jolteon que ainda segurava o salgadinho a caminho da boca.
- Vocês são primos! Em primeiro grau! – gritou Leafon completamente escandalizado.
- E daí? Eu sou tranquilo, mano, faço o que dá na telha. Não é, Jolie? – uma piscadinha marota rendeu um salgadinho no meio da testa – Ah, valeu, tava com fome.
- Eu não mereço isso... Da próxima vez me recuso a sediar essa reunião! – Leafeon começou a arrumar novamente os salgadinhos, já que Jolteon os traçava rapidamente.
- Na verdade, pelas regras, é a novata hoje quem vai fazer isso. Só não sei bem como vai ser, alguém sabe como ela é? – perguntou Jolteon.
- Espero que seja gata, muito gata, mais gata que a Glenda. Mas não tanto quanto você Jolie. – mais uma piscadela que gerou uma marca de coxinha no seu rosto – Prefiro pastel, falando nisso.
De repente um bocejo pode ser escutado vindo de trás do sofá. Espeon, com o pelo todo bagunçado,  e ainda com olhos de sono, levanta-se dando uma vasculhada no ambiente.
- Ué, já chegou todo mundo?
- Ester? Você ‘tava aí o tempo todo? Como é que o Leon não te viu antes? – perguntou Jolie lançando um olhar meio atravessado para Leafeon.
- Ah, é que, eu... É...
- Eu dormi aqui ontem, e ia embora de manhã, mas... Eu tinha perdido minha blusa, então eu fui procurar e... Uaaaaaaaah – mais um longo bocejo – Acabei caindo no sono atrás do sofá.
- Perdeu sua... – começou Vaporeon mostrando-se empolgado.
- BLUSA? – completou Jolteon claramente irritada.
- Não é o que você está pensando!!! – adiantou-se Leafeon recuando para fugir dos ataques de Jolteon – Ela pegou chuva! Lembra? Choveu ontem? Daí eu emprestei uma roupa e...
BAF! O tapa só não acertou Leafeon porque uma sombra estava entre eles. Umbreon, quase todo de negro, interrompera a briga surgindo sabe-se lá de onde. Com o vestido preto mais deslumbrante que pode achar no armário de roupas pretas, era uma gótica perfeita.
- Então minha irmã está causando problemas de novo...
- Uaaaaaah... Eu?
- Sim, você, Ester. Acalmem-se, lindezas, minha irmã está com sono demais para conseguir colocar a grande cabeça dela pra funcionar.
- Desde quando você tá aqui, Brienne? Dormiu também com Leafeon? – a voz de Jolteon estava dois tons acima do normal indicando o perigo.
- Cheguei agora mesmo. Ninguém me ouviu entrar? Normal.
- Bom, agora só faltam nossa rainha e a novata... Nham, duas pelo preço de uma!
- CALABOCA, VAREN! – gritaram todas em uníssono.
- Pera... Não tá faltando também a...
A porta praticamente explodiu com a forma que Flareon abriu, entrando como em uma passarela. Linda e poderosa, vestida em um casaco de pelos vermelhos brilhantes e com uma sedosa bata cobrindo-lhe o corpo, desfilou até o meio da sala.
- Olá, pessoal, sentiram minha falta?
- NÃO! – responderam Umbreon e Jolteon.
- Na minha cama, AGORA! – foi o que disse Vaporeon.
- MINHA PORTA! AAARGH! – Leafeon só pode reclamar.
- UAAAAAH! – foi a resposta inteligente de Espeon.
- HUNF! Plebeus! Eu chego aqui, linda e divosa e sou assim recebida? Não me admira que esta festa esteja um uó! Vocês não merecem minha presença!
Os seis primos e irmãos começaram a discutir (bom, na verdade cinco, Espeon puxou uma soneca no sofá) avidamente, o que só piorou com a entrada de Glaceon, rival eterna de Flareon e a única ali a se destacar tanto quanto ela. De repente alguém fez:
- Caham! – veio o pigarro entre os Eevolutions.
Nenhum deles respondeu, todos olhavam uns para os outros mas conheciam bem aquela voz. Flareon decidiu dar uma olhadinha para baixo só para ver os grandes olhos divertidos de Eevee.
- Olá, Flaire. Como vai? – perguntou inocentemente a criaturinha tampinha.
- O-olá, minha querida! Vou bem e você?
- Muito bem, só um pouco triste, já que minhas queridas crianças estão brigando.
- Brigando? Nós? Nunca! – corrigiu Glaceon rapidamente – Só estávamos em um caloroso debate!
Leafeon deu um tapa na própria testa.
- Caloroso? Você, Glenda?
- Aaaaah, bem...
- Não importa. Vocês todos estão aqui reunidos para conhecerem o mais novo membro da família e aqui está ela! Pode entrar, Sylvia!
Os Eevolutions todos prenderam a respiração quando a garotinha de chiquinhas, vestido rosado parecendo um doce e grandes olhos azui apareceu entre eles. Delicado, fez uma mesura para cumprimentar os outros.
- Olá, eu sou Sylvia, muito prazer!
- Tão... Doce... Eu preciso... – Vaporeon tentou se aproximar, mas um puxão o fez cair no chão.
- Te acalma aí, papa-anjo, que ela não é pro teu bico. – bronqueou Jolteon, não alto demais para Eevee ouvir.
- Bem vinda à família, Sylvia, eu sou Leon e...
A garota começou a rir, rir e rir. Leafeon ficou desconcertado e procurou os outros para tentar entender o motivo de tanta graça.
- Você tem um topete engraçado. Desculpe. – Sylveon disse entre as risadas.
- Ah... Tá... – Leafeon se recolheu, envergonhado e alisando os cabelos.
- Oi, somos as gêmeas, Brienne e Ester, tudo bem?
- Noooossa, que olhos grandes ela tem. – comentou Sylveon olhando para Ester muito de perto.
Foi a vez de Glaceon impedir que Umbreon desse um soco na garotinha. Por fim, Flareon se aproximou.
- E não é uma coisinha linda, tão fofinha, vai ficar quase tão bonita quanto eu quando crescer.
- Obrigada, TIA, só espero não ganhar tantas rugas quando chegar na sua idade.
Muitos ataques desordenados e um rugido de Eevee depois, os Eevolutions estavam caídos, exaustos e alegres. Apesar das maldades, Sylveon foi bem recebida entre os primos, percebendo que a garotinha tinha o dom para o caos, com a sutileza e o veneno de uma fada. Leafeon passou entre eles deixando cobertores para que não sentissem frio à noite e sentou-se ao lado de Eevee que tomava seu chocolate quente com calma.
- Ótima festa, Leon, que a próxima seja tão boa quanto!
- Vai ser dada pela Sylvia, né? – perguntou Leafeon preocupado.
- Claro, essa é a regra... Apesar de que... Não sei se ela vai estar preparada para o que vai vir?
- O que você quer dizer com isso, Vivi? – um brilho no olhar de Eevee deixou Leafeon assustado.

- Isso, meu querido... É surpresa!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

15º Desafio - Antônio Henrique

Era para ter saído ontem. Minha mente, no entanto, pediu arrego. Os últimos dias foram tensos para ela e quis respeitar. Assim, o desafio que seria do meu pai foi transferido até eu ter algo bom pra escrever com ele. Mas aí surgiu uma ideia, depois de ver uma imagem e eu precisei escrever sobre isso. Duas pessoas talvez entendam bem a referências, às outras só desejo que tentem, e se não, que apreciem a beleza do encontro de três magníficos animais. Espero que gostem.

Ótima imagem tirada daqui.
O Tigre, o Lobo e a Raposa

O sol subiu no horizonte, clareando o vale e iluminando o lago. Das sombras, um tigre de cores claras, um animal esplêndido, saiu para beber água. Sua pelagem reluzia com o amanhecer, os olhos irrequietos procurando por possíveis presas. Nenhum som o alertou para perigo. Convencido de que ninguém poderia observá-lo, o tigre se ergueu nas patas traseiras e tirou a capa de pêlos, revelando uma bela jovem por baixo.
Corpo nú, apenas uma faca presa a um cinto para proteger-se em sua outra forma. Abaixou-se para pegar água com as mãos quando um som lhe atraiu o olhar. Discreta, uma raposa tentava sair de sua toca sem chamar a atenção, mas acabara tropeçando em um graveto, o suficiente para que o Tigre lhe percebesse. O pequeno animal não dava medo ao felino, então o ignorou. Mas a raposa continuava parada lhe olhando.
De repente, do mesmo modo que o Tigre, a Raposa se pôs de pé e livrou-se de seus pêlos, surgindo de lá outra jovem também bela e de corpo generoso. Ela usava apenas uma alforja e carregava um arco. Mesmo armada, ela ergueu as mãos para fazer sinal de “não vou lhe ferir”.
- Acalma-te, amiga Tigre. Nada posso lhe fazer de mal. Vê? Sou só uma raposa.
- Então por que te aproximas tão sorrateiramente, Raposa? Se sabes que sou um animal caçador e meu instinto diz para lhe atacar, por que me dás esta oportunidade?
- Só queria beber água ao teu lado. Nunca encontrei criatura tão excepcional antes. Tão bela és que meus olhos quase se feriram.
- Não me bajules demais, Raposa, sei de tuas artimanhas. Tramas pelas minhas costas para tirar proveito de mim.
- Oh, nunca faria isso contigo, senhorita Tigre, de forma alguma!
E ainda que a Raposa se defendesse, o tempo todo o Tigre a observava, sempre atenta a qualquer movimento suspeito. Outro somde passos atraiu a atenção das duas. Um homem, vestido de preto e portando uma espada se aproximava. Seus olhos pareciam serenos, mas sua postura de guerreiro ativou o modo de batalha do Tigre. Ele chegou até o lago, ajoelhou-se e pegou um bom golede água com as mãos.
- Não temam, garotas, nada tenho a fazer com vocês. Beberei e irei embora.
- E como posso confiar em alguém que nem conheço, senhor...?
- Meu nome não é de importância, Tigre, nem o seu. Se o sei, é apenas pelo barulho de vossa discussão.
E bebendo mais um pouco, o homem se ergueu e voltou-se para retomar o caminho. Quando passava pela Raposa, ele esticou o arco, fazendo-o tropeçar e caindo. Fora uma armadilha fácil de evitar, mas parecera que ele nem percebera.
- És cego, meu amigo, e também conheço teu cheiro e tua forma. És um Lobo não?
- Se sou, não entendo porquê terias me derrubado. Que mal te fiz?
- Mal nenhum, é fato, e por isso me desculpo profundamente, mas precisava ter certeza de minhas suspeitas. Agora que o fiz, lamento muito pela brincadeira. Como compensação, lhe indicarei o caminho correto para que sigas em paz.
- Agradeço. E também à ti, Tigre. Mesmo que eu, uma boa presa, tenha caído diante de ti, não me atacasses à traição.
- Apesar de tudo, minha alma de caçadora tem como rival minha alma de guerreira, que me impede de ferir um oponente caído. Vá, Lobo Negro. E não volte mais, não lhe darei outra chance.
- Também prezo por ti, Tigre, e espero que consigas encontrar o que procuras. E a você, Raposa, desejo sorte em tua empreitada.

E sem dizer mais nada, seguindo as informações que a Raposa lhe passou, o Lobo se foi. Quando o Tigre se virou para olhar, a Raposa também havia partido. Disposta a esquecer tal encontro, mas sabendo que nunca fugiria de sua memória aquelas auras tão ímpares, o Tigre voltou à sua pelagem e se embrenhou na floresta, seguindo seu destino.

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PS: Tentarei publicar ainda hoje o 16º Desafio para não pular NENHUM dia.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

12º Desafio - Ariana

E voltamos a nos atrasar, não é, Senhor Antônio? É, eu sei, muita coisa pra fazer, mas poderia ter escrito esse desafio da Ari antes não concorda? Bom, agora mostre pra ela o que você preparou! Bem, como ela pediu algo perto de um shoujo, acho que esta historinha deve servir. Até separei uma bela imagem da rainha em um momento mais íntimo e reservado. Fiquem com o conto!

Um lindo trabalho de Elephant Wendigo mostrando nossa Elektra em seu trono.
A Rainha deve escolher!

A fila ia longe, aparentemente todos os jovens sadios e de descendência “nobre” foram convocados para comparecer à seleção. Com isso, quase todos os futuros cavaleiros do reinado estavam ali, dos magros aos fortes, dos baixos aos gigantes, dos feios aos... Mais ou menos. As portas do salão permaneciam abertas enquanto em pares, pai e filho, entravam para conhecer a rainha Elektra.
Sentada no trono, vestida de preto dos pés à cabeça, o cajado com a pedra vermelha seguro firme em sua mão direita, a recém-coroada monarca do Reino do Crepúsculo observava cada um que entrava. Um levantar de sobrancelhas, um gesto com as mãos ou um meneio de cabeça serviam para que os visitantes fossem dispensados. Já perdera a conta de quantos vieram até ela falar de suas posses, de como seus filhos eram valentes e inteligentes e exímios em diversas artes. Todos bobos sem paixão no fim das contas.
Mesmo quando princesa, já convivia com constantes apresentações de futuros pretendentes, dos mais estranhos aos mais sem-graça. A rainha Elektra sabia bem o que queria, e não era nenhum deles. Mais uma vez teve de mandar embora alguém cuja aparência claramente não refletia o amor que poderia vir a sentir por ela.
- Próximo! – gritou seu lacaio-arauto.
- Diga-me, sir Hugo. Quantos ainda temos que ver?
- Quantos forem precisos até a senhora escolher um rei. É uma tradição do reino, minha senhora. – respondeu o quase ancião líder da guarda real.
- Diacho... Gostaria de conseguir saber as horas, mas o céu está sempre avermelhado, e este pajem inútil vive errando com a contagem.
O dito garoto se encolheu diante da acusação. Sentiu o olhar pesado de sir Hugo e temeu pela própria vida, mas a nova rainha não tinha a fama de assassina do rei anterior. O som de passos conseguiu tirar a atenção de cima dele.
- Sir Gerfried e seu filho, o bravo Gallen!
Dessa vez a rainha se animou, assim que viu o jovem seu coração de adolescente deu um salto. Alto, musculoso, os olhos azui como o mar que banha a Praia do Anoitecer, e os cabelos minunciosamente ajeitados. Não fosse o excesso de roupas, Elektra pensou que poderia ver um tronco sarado e pernas torneadas. Segurou um suspiro apaixonado até que os dois se dispuseram à sua frente, ajoelhando. O rapaz não a olhava, parecia encarar displencemente a sala, os guardas, até o pajem, mas nunca ela.
- Minha rainha, trago à sua presença meu filho, Gallen. Ele, que já batalhou ao meu lado na defesa da Baía das Águas Verdes, que venceu três torneios de Tiro, que é o mais belo deste reino.
Os elogios eram mal e porcamente ouvidos. Enquanto o pai falava, Gallen se movia, mostrando as formas para a Elektra que ardia em desejo. Ainda assim, em nenhum momento ele direcionou os olhos para ela, o que a estava incomodando. De repente, notou que ele parecia muito interessado em um recruta próximo a sir Hugo, um homem de cabelos e olhos negros. Uma ideia passou pela cabeça da rainha, que chamou pelo soldado, pedindo a ele que fosse entregar ao pretendente uma taça de água, pois ele poderia estar com sede. Quando a ordem foi atendida, Elektra captou o olhar lânguido dde Gallen para ele e só pode dar um tapa na testa. A situação foi percebida por todos, que resolveram olhar para os lados.
- Bem, lorde Gerfried, seu filho foi... Muito apreciado... Por nossa rainha... Mas voltaremos a falar com vocês... É... Depois...
Constrangido, sir Gerfried levou seu filho para fora, praticamente arrastado. Foi possível ouvir a batida que deu no garoto assim que saíram do salão. Elektra só tampou o rosto com a mão para evitar o riso. A dupla seguinte lhe chamou ainda mais atenção. Parecia um belo par de gêmeos ruivos, não fossem os cabelos rareados do pai. O mais novo claramente não era voltado para o combate, mas a beleza de seu resto anguloso e do nariz adunco foi capaz de tirar uma piscada da donzela.
- Sir Archibald e seu filho, Elliot, o sagaz.
- Minha rainha, por favor, espero que possa dar um pouco de atenção à meu rebento.
- Belíssima soberana, ouso ficar em sua presença para tentar lhe tirar ao menos um sorriso, para que possa honrar sua generosa perfeição, que a todos nós é tão acalentadora. E quando a noite finalmente cair em nosso reino, gostaria de ser o estandarte iluminado por sua luz e... – a fala de Elliot prosseguiu.
Elektra segurou um bocejo. Ele continuava falando, mesmo depois de ela ter passado a contar os detalhes dourados na bandeira de seu reino. Seria o Sagaz tão estúpido que não reparava ter perdido todos os pontos com sua pretendente? Finalmente cansada e ele ainda não parando, ela fez um sinal de corte e o rapaz foi arrastado para fora pelos guardas, levando o pai dele junto.
- Sir Hugo, por acaso o senhor está brincando comigo?
- Perdão, milady, mas não sou eu que seleciono os candidatos – e lançou um olhar intimidador para o pajem, que procurou um buraco para se enfiar.
- Então que venha o próximo. E que seja bom!
As preces foram atendidas. Diferente do primeiro, um acumulado de qualidades díspares que virou um nada, este tinha a coesão de uma obra-prima. Os cabelos curtos, espetados, os lábios carnudos, o corpo delgado, mas firme, o porte de um atleta. Trazia nas mãos um baú que deixou aos pés da rainha.
- Sir Brahm e seu filho, Conner.
Ela nem havia reparado no idoso com rosto de falcão que viera acompanhando o rapaz. Tão diferentes, ele partilhava dos mesmos olhos intimidadores do filho.
- Trouxemos um presente, caríssima rainha, algo que não chega aos pés de sua magnificência, mas desejamos que aprecie.
Sir Hugo abriu o baú, mostrando à rainha o conteúdo da caixa, que a enojou. Era a carcaça de algum animal selvagem, talvez a cabeça de um lobo. Foi o suficiente. Fez um movimento com as mãos e a caixa, o pretendente e seu pai sumiram de sua vista. Estava prestes a chorar. Em questão de minutos tivera experiências tão ruins que teve certeza que surtaria antes do último. Precisava de alguém decente, carinhoso, que fosse bonito, mas não precisava ser tanto assim, desde que fosse um homem bom.
Tão enfiada na própria cabeça estava que mal ouviu o anúncio do pretendente seguinte. Quando levantou os olhos, seu coração perdeu o compasso, seu estômago revirou e suas mãos suaram frias. Ele não era o mais bonito, mas tinha o charme de um músico. Também não parecia o mais forte nem o mais ágil ou inteligente, parecia mais matreiro, o tipo de cara que teria uma boa ideia na hora certa e a tiraria do perigo. Não precisaria enfrentar um dragão, e matar o pobre bichinho por ela, ele o enganaria e conseguiria fugir com o tesouro e tudo.
- É ele! Por favor, tragam-no aqui! – gritou apontando para o garoto.
- Mas senhora...
- Agora! Depois de tudo isso, eu mereço falar com ele diretamente!
- Senhora...
- Obedeçam!
Por algum motivo o rapaz foi levado até ela de um jeito brusco, e sob olhares nervosos de todos. Sir Hugo trocava o peso dos pés e segurava a espada da forma errada. Todos pareciam não saber onde enfiar as próprias cabeças. O jovem estava tremendo um pouco de um jeito fofo.
- Então, por favor, pode repetir seu nome?
- É... Janus, minha rainha, mil perdões.
- Não precisa se desculpar, Janus. Diga-me, você não é adepto de caçar lobinhos e me trazer a pele como troféu, não é?
- Não, minha senhora! Juro que não! Odeio caçar! Prefiro... Adestrar os animais.
- Ótimo! Imagino também que goste de mulheres, não é? Digo... Acha-me bonita?
- Linda... Bela como uma rosa desabrochando sob a luz do sol.
- E ainda é sucinto! Sim! SIM! É você! Venha aqui, meu príncipe!
- Mas senhora! – interrompeu Sir Hugo não mais se contendo – Ele é apenas o pajem de Sir Harold e seu filho Mardock! Aqueles são seus pretendentes!
A rainha olhou para onde o cavaleiro apontava e encontrou o olhar reprovador e indignado de pai e filho, dois exemplares perfeitos de pessoas mais noção que já vira. Perto deles Janus passava de um simples servo para um magnífico pretendente.
- E daí? Eu o compro de Sir Harold, o transformo em cavalheiro e o caso comigo! Quer dizer, se você aceitar, sir Janus...
O garoto claramente ficou sem o que dizer. Engasgou nas palavras, trocou os pés pelas mãos e tremeu ainda mais. Ainda assim, quando olhou para ela, Elektra sentiu o calor de uma paixão inesperada. Talvez, aos poucos, ele estivesse se apaixonando por ela.
- Não precisa ter pressa, sir Janus. Pode apenas dizer que sim agora e ficaremos um bom tempo noivos, para nos conhecermos melhor. Se eu tiver te aceitado, ninguém vai poder me dizer que não. Entenderam?
Apesar de contrariados, os servos da rainha e os pretendentes só puderam concordar, frustrados.
- Eu... Eu adoraria... Minha dama...
A rainha se levantou do trono, desceu sorrindo e pegou na mão dele que ficou vermelho como um pimentão.
- Venha, vou lhe mostrar meu... Nosso reino.

E saiu feliz.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

4º Desafio - Ariana

Quase meia-noite, eu tive que correr para conseguir escrever, hoje foi um dia bem corrido para mim. Mas aqui está, o desafio da adorável Ari, que não foi tão difícil assim, e rendeu uma boa história. Espero que ela aprecie essa visitação à casa noturna que sua personagem Rosemary irá fazer, algum dia, no meu cenário de Vampiro, a Máscara. Fiz questão de escolher uma situação bem divertida para ela aproveitar. E claro, fazer uma certa propaganda dessa maravilhosa instalação. Aproveitem!

Belíssima imagem de uma dançarina daqui.
Fora da Rotina

A rotina no Rosa di Fiore pode se resumir a: Prepare-se para subir ao palco, ande entre os clientes, faça os serviços VIP e vá para casa depois. Raramente envolve algo mais perigoso como atender um assassino profissional com uma enorme cicatriz no rosto. Quando o gerente disse à Érica que havia um homem especial para ela, a garota pensou que fosse o jovem cavalheiro de olhos azuis que era grande amigo de sua patroa. Ao entrar na sala, um grandalhão careca e com cara de poucos amigos a encarou.
- Você é a garota que eles mandaram?
A pergunta parecia bem obtusa, com uma resposta muito óbvia, mas Érica demorou pra responder pela postura daquele homem. Mesmo usando terno e com uma maleta aparentemente bem cara, a expressão dele dá a entender que poucas pessoas poderiam chegar perto sem sofrerem lesões seríssimas.
- Ahn, sim... Eu vim lhe dar uma sessão super-especial. Disseram-me que o senhor é muito importante para nós e por isso vai receber uma atenção extra.
- Ótimo. Sente-se.
Esse era realmente um pedido estranho. Geralmente os homens, e até algumas mulheres, exigiam uma dança, um afago ou até algo mais íntimo, que seria muito bem pago depois. Sentar do lado era tão “normal” que Érica demorou a entender. Quando ficaram lado a lado, o homem pegou a maleta e colocou em cima da mesa. Um arrepio subiu pela espinha da garota, uma espécie de mau-pressentimento. O que quer que tivesse ali dentro não poderia ser boa coisa. Pensou em usar o botão de perigo, mas o homem lhe segurou a mão de forma autoritária.
- Eu quero que você tome algo. – disse ele levando a mão dela até a mesa. – Espere. Aqui.
De dentro da maleta ele tirou um frasquinho semi-transparente com algumas capsulas coloridas. Despejou algumas na mão dela e indicou três de cores diferentes.
- Escolha uma e tome. É isso que quero que faça para mim.
O sangue que Érica tomou mais cedo poderia lhe garantir uma boa resistência à qualquer droga, mas por algum motivo ela sabia que não seria o caso ali. Estava entre a cruz e a espada e não tinha uma alternativa segura. Engoliu a capsula vermelha o mais rápido que pode. Ficou olhando para o homem, esperando algo.
Ele tirou da maleta uma pistola, e o sensor de perigo de Érica estourou. Iria apertar o botão AGORA, antes que algo de mal lhe acontecesse. Mas seu corpo não correspondeu ao pânico. Pelo contrário, pareceu relaxar e uma excitação anormal tomou conta da sua libido. O homenzarrão ficou mais atraente, muito mais do que era possível para um 4x4 cheio de cicatrizes e com um aeroporto de mosquitos na cabeça. Érica não conseguiu mais se segurar e tomou o rosto dele para beijá-lo.
Pela resposta dele, não esperava por aquilo. Ele recuava, tentava impedi-la de tirar a roupa e de tentar tirar a dele. Movimentos amplos fizeram com que ele caísse no chão e demorasse para levantar, dando tempo para que ela subisse nele.
- O que está fazendo, garota maluca? – ele perguntou quase gritando e preparando a arma para atirar nela.
Nesse momento a porta se abriu violentamente. Um rapaz, não muito mais velho que Érica e vestindo um colete sobre uma camisa vermelha, entrou carregando um bastão de beisebol. O careca olhou para ele, apontando a arma e desferindo três tiros. Todos erraram o alvo, que se mexeu entre eles rápido demais para ser seguido por olhos humanos. O rapaz, que era o gerente da Rosa di Fiore, acertou um golpe que quebrou os dentes da frente do homem.
- Por favor, não se mexa muito, deixe-me lhe dar o tratamento dedicado a pessoas do seu naipe, senhor. Com todo o refinamento merecido. Espero que esteja aproveitando nossos serviços.
Enquanto falava, o gerente acertava mais um, dois, três golpes, imobilizando o homem enorme, quase três vezes o seu tamanho. Érica parecia aflita, incapaz de escolher a qual dos dois dar o seu corpo. O gerente se posicionou atrás do homem e colocou o bastão em seu pescoço, puxando para si, asfixiando-o.
- Por favor, relaxe, meu senhor. Quero colocar-lhe em uma condição mais... Apropriada. Ah sim, exatamente isso.
Quando o homem apagou, o gerente olhou para Érica e lhe deu uma ordem para ficar quieta e esperar. Viu que a droga quase venceu sua dominação, mas ficou contente por ter sucesso. Duas mulheres entraram pela porta, assim como dois homens grandes, muito maiores do que o rapaz.
- Frank, Lloyd. Arrastem nosso amigo para os fundos onde terei uma conversinha com ele. Desarmem-no e amarrem-no em nossa cadeira preferencial. – os homens saíram levando o desmaiado –Tiffany, Joseane, acho que Érica precisa de um tratamento para desintoxicação. Ela tomou uma droga que está causando euforia e muita vontade de sexo. Façam com que ela volte a si, como for preciso.

Com um sorriso de orelha a orelha, Érica viu as amigas se aproximarem, e preparou-se para o que viria em seguida. O gerente as deixou a sós e pediu que desligassem a câmera da sala. Daria privacidade a Érica e revogaria os direitos do tal assassino profissional que pelo jeito roubara um traficante. Experimentar uma droga daquelas em uma de suas garotas era imperdoável. O Rosa di Fiore cuida das suas garotas.

domingo, 4 de agosto de 2013

Lua Macabra... O Retorno

É, eu sei. Eu estou sumido daqui há algum tempo, mas foi por uma boa causa... Ou algo assim. O que importa é que estou de volta, com um conto novo, revisado e preparado para servi-los com uma deliciosa história que... Melhor não dar spoilers, pega mal. Já aviso, porém, que provavelmente fará parte da safra Lua Macabra, então esperem por algo que terá sim a combinação de terror, romance e... Algo mais. Vocês verão. Aproveitem o conto!

Grandes Erros


O celular gemeu mais duas vezes e então apagou, a bala atravessada na tela de cristal líquido deixando preso para sempre o pedido de ajuda não enviado. A ponta da pistola ainda fumegava, agora apontada para seu peito, e não haviam sorrisos ali, nem olhares amigáveis. Só o terror absoluto da morte certa. Alguns grunhidos desajeitados escapavam da sua boca, os olhos circulando pela sala, em busca de salvação, mas só encontravam os corpos dos amigos caídos pelo chão e o sangue lavando a parede cinza de sujeira.
Como havia parado ali mesmo? O que tinha feito de errado pra que ficasse na pior, para estar tão perto de suas últimas palavras?
Havia levantado bem, escolhido uma lingerie sexy, preta em contraste com sua pele muito branca, e um vestido nem longo nem curto que cobriria só o necessário e mostraria o suficiente. Um pouco de maquiagem e “voilá”, estava pronta para encontrar aqueles que eram sua família escolhida e que a aguardavam na frente de uma boate da zona leste, com um nome genérico e bebidas idem, mas com gente suficiente para ela poder escolher qualquer acompanhante. Estava pronta para fisgar sereias ou tritões, independente da vontade, seria capaz de levar qualquer um na sedução.
Os amigos se dispersaram, lançando-se em todos os focos possíveis, fossem os fãs da banda no local, os ratos de bar ou os visitantes perdidos a fim de um affair. Para ela, no entanto, alvos tão fáceis eram um grande problema, um tédio sem fim que não valia a saída em uma quinta à noite. Com uma olhada rápida, visualizou algumas boas presas, deliciosos homens e mulheres que se renderiam a um belo decote e um sorriso fatal. Escolheu entre eles o que parecia mais difícil e lançou-se ao desafio.
O homem que estava sentado perto de um dos pilares da danceteria poderia passar tranquilamente por um segurança, tamanha carranca e distinção do seu terno. Ele a notou de longe, enquanto ela cruzava a pista dançando, e fez que não havia percebido suas intenções. Quando ela se recostou ao seu lado, ele se afastou um pouco para não ficarem ombro a testa, e ela pode ver os contornos dos músculos por baixo da camisa social azul. Seria uma ótima conquista, das que se vangloriaria para as amigas depois.
- Que foi, está com medo que eu morda?
Ele não respondeu e ela mordeu os lábios, tanto por raiva quanto provocação, exibindo os belos dentes brancos. Olhou para a mão dele e não encontrou nenhum anel, então provavelmente era birra, ou talvez fosse mesmo um segurança perdido.
- Se não está aqui para procurar por mim, talvez esteja aqui por homens, certo? – tirar sarro era uma de suas alternativas mais baixas, mas já rendera bons momentos no estacionamento.
- Você não é o tipo de mulher que eu procuro. – respondeu ele com uma voz cavernosa e ela chegou a sentir as pernas tremerem, mesmo que com uma frase tão rude.
- Como sabe se nem me viu direito? Está desviando o olhar desde que eu cheguei na casa.
- Não preciso ver para ter certeza de que não queremos a mesma coisa.
Era realmente um páreo duro, dos que figurariam como lendas em futuras conversas de bêbada. E exatamente por isso não desistiria, não tão fácil, por mais que seu orgulho, e talvez algum outro instinto mais primordial, estivesse dizendo que não era uma boa ideia.
- Façamos assim, eu lhe pago uma bebida ali, sem compromisso, e você me deixa tentar ao menos uma vez te fazer mudar de opinião.
Isso foi capaz de tirar os olhos dele do globo de luz, DJ, ou o quer que fosse que ele estivesse dedicando mais atenção do que a ela. Por isso, ela se arrepiou quando os olhos negros dele se cravaram nos seus e quase se arrependeu da proposta. Quase.
- Feito. Tem uma mesa vagando ali.
E foi, sem esperar por ela. Em outras circunstâncias ela teria procurado outro cara ou garota e simplesmente abandonado aquele troll, mas havia algo dentro dela que despertava, uma sede intensa por aquele homem que, não importava o quê, a estava não só esnobando, como ignorando completamente seus ataques. Pensou no perfume que escolhera, na pele exposta, na maquiagem delicada que a fazia parecer uma garotinha, e no sorriso treinado à exaustão diante do espelho e nada parecia estar errado, então o problema só podia ser ele.
Acompanhou-o rebolando, para que os outros ficassem alertados que, assim que ela tivesse acabado com aquele homenzarrão, estaria pronta para mais. Ela nunca se contentava com um só e não seria ele a mudar isso nela. Sentou-se no lado oposto da mesa e pediu por dois copos de uísque. A escolha o fez levantar o olho e ela sorriu, deliciada com a surpresa.
- É óbvio que um homem do seu porte bebe algo de igual valor.
Ele sorriu pela primeira vez e ela notou os dentes sujos de fumo, o que reduzia em muito o tesão, pelo menos naquele momento. Fumantes eram um problema que ela preferia evitar, principalmente porque eles lidavam com algo extremamente perigoso, o fogo. Para os outros era fácil, mas ela tinha um pouco mais de medo da chama matriz, a grande inimiga de coisas que eram altamente inflamáveis, como a bebida que acabava de chegar.
Durante os vinte a trinta minutos seguintes ela tentou de todas as formas puxar um papo interessante, que rendesse no mínimo uma agarração na porta do banheiro, o que resultou em saber que o nome dele era Adam Corso, mais conhecido por Corsário, tinha em torno de trinta anos, solteiro convicto e gostava de cachorros grandes, tipo dobberman. Além disso, ele tinha uma fixação meio mórbida por objetos de prata, e ela temeu que ele fosse tirar de dentro do colarinho um crucifixo daqueles que seria capaz de se colocar em cima de um túmulo, mas foi apenas um colar de caveira mexicana.
- É para dar sorte, uma vez estive por lá no Dia dos Mortos e ganhei isso de um dos locais, que garantiu que me protegeria para sempre. Realmente, acabou me salvando a vida outro dia.
- Verdade? – perguntou já quase sem interesse. Que ele fosse um desafio, OK, mas ela estava começando a pensar que ele era apenas um chato.
- Ah sim, mas isso... Eu posso te contar depois. Está a fim de dar uma volta?
A pergunta a pegou de surpresa, desarmada, e ela acabou deixando mostrar que não tinha uma resposta pronta. Nunca antes tinham sugerido sair dali que não fosse para qualquer lugar próximo onde ela daria um sumiço na calcinha ou algo assim e por um instante pensou nos prós e contras. Por um lado ele poderia querer levá-la a um motel, onde poderia desfrutar de privacidade suficiente para se saciar nele, apesar de depois ser meio chato fingir que não esteve lá. Nada que um papo cabeça com os atendentes e uma rápida passada pela sala de segurança não resolvesse. Por outro lado, ele poderia estar planejando levá-la a seu apartamento, tentar estuprá-la e dar um fim ao seu corpo jogando-o no lixão. O que também era uma boa oportunidade, já que perigo sempre gera ótimos momentos de tensão e isso a deixava acesa como uma vela na igreja... Epa. Péssima metáfora.
- Tudo bem, garotão. Só deixa eu avisar meus amigos. – e então vasculhou o lugar, procurando por qualquer um deles, mas estranhamente não os encontrou.
Talvez tivessem escolhido sair todos juntos para comerem, ou talvez fosse apenas a falta de atenção, como não os viu decidiu dar o fora assim mesmo. Qualquer coisa voltaria depois, de repente usando o carro daquele homem misterioso, e poderia buscá-los em alto estilo. Ou isso ela esperava, pensando sinceramente que se visse um Fusca na vaga dele, mudaria de ideia na hora. Por sorte encontrou uma belíssima Mercedes Classe A escura como os olhos dele e partiu dali, para onde quer que ele a estivesse levando.
- Gosta de música? Eu tenho alguns cd’s interessantes no porta-luvas.
Agora ele queria ficar animado, ela pensou, e decidiu que era melhor manter o clima, por isso abriu o porta-luvas e encontrou ao menos cinco cd’s, todos de bandas completamente diferentes.
- Você é bem eclético, né?
- Tento. Sempre que posso, compro algo baseado em quem dou carona. Gosto de conhecer coisas novas. Qual sua banda favorita?
- The Damned, mas duvido que você os conheça, são uma banda undercover da área onde moro.
- Vou tentar escutar depois, então. É um hobby, se quer saber, e é muito divertido.
- O quê? Conhecer as bandas que as garotas que você pega escutam?
- Exatamente.
Por algum motivo aquilo a deixou muito desconfortável, o que não era habitual. Percebeu que quanto mais avançavam, mais perdia o controle, e esse era um terreno desconhecido para ela. Nunca antes tivera tantos problemas em uma caçada ou demorara tanto para pegar um homem. A curiosidade começava a sumir e uma pontinha de medo surgiu em seu coração negro, que por um instante pensou ainda possuir.
- Estamos chegando. – disse ele, de repente, e ela se assustou ao ver que não sabia onde estavam.
Era uma área residencial bem pacata, do tipo que os pais escolhiam para viver com seus filhos quando eles nasciam e não havia mais nada importante no mundo. Ela podia ver as crianças correndo pelas ruas tranquilas, homens e mulheres passeando com seus cachorros e o carteiro pedalando a bicicleta em paz, sem pressa. Tão simples e calma que poderia fazê-la se jogar para a morte de tanto tédio. Um pensamento cruzou sua cabeça: Talvez fosse isso mesmo que estivesse fazendo. Afastou as ideias ruins e saiu do carro com ele na frente de uma garagem fechada. Ele a levou mesmo para casa e ela pensou em como faria para voltar para a danceteria depois, sem saber o caminho. Maldita hora que ficou escolhendo os cd’s.
- Pode entrar, sinta-se em casa. – ele disse quando abriu a porta e ela agradeceu mentalmente que ele fosse gentil ou teria um momento constrangedor.
Era uma sala bonita, de móveis novos e com uma lareira e a casa parecia muito amigável, o que reforçou a sensação de que algo estava terrivelmente errado. Sentia o cheiro de bolo de canela, de uma cerveja tomada no fim da tarde e das flores nos vasos, além de outro que era muito, muito familiar, mas que por algum motivo lhe escapava da memória e era ruim, ruim pra cacete. Ele tirou o paletó e jogou sobre o sofá, em um gesto displicente, mas que nada tinha a ver com uma demonstração de excitação que denunciaria um ataque à sua donzelice.
- O que foi? Algum problema?
- Não, é só que não estou acostumada a fazer isso. – confessou, aproveitando que não era uma mentira para esconder a verdade.
- Acredito, você tem jeito mesmo de quem faz muitas coisas, menos ir à casa de um homem direto de um bar.
Ela riu, nervosa, do que talvez fosse o comentário mais maldoso e perverso dele até agora. Pensou nas rotas de fuga, em como tudo poderia estar certo e ela estar simplesmente necessitada, e por isso não estava pensando direito. Ouviu o som estralado de uma garrafa abrindo e retesou, vendo-o de costas mexendo em um armário.
- O uísque não foi suficiente?
- Nah, eu só estava pegando o brinquedo certo para uma vadia como você. – disse ele e se virou apontando uma arma para o meio de seus olhos.
Ok, então ela tinha ouvido uma arma e confundido com uma garrafa. Normal, muita gente fazia exatamente o contrário. Arreganhou as presas e lançou-se sobre ele, completamente transformada, antes que ele pudesse pensar em sentir coceira no dedo da arma. Ainda assim, ele desferiu o tiro que atravessou seu pulmão morto e causou intensa dor. Por pouco não acertou o coração.
- Ê, ê! Cuidado, as balas são de madeira e prata.
A frase soou tão errada que ela demorou a perceber o porquê, e era algo mais do que apavorante. Era uma frase muito certa, típica de alguém que estivesse não só ciente, mas confiante de como se mata vampiros. Se pudesse, sua espinha teria gelado naquela hora.
- Como...?
- Sem perguntas, ande em direção ao quarto.
E apontou para uma porta semi-aberta, de onde ela percebia que vinha o cheiro de antes, que ela não reconhecera. Assim que chegou perto pensou em como era estúpida, em como havia falhado muitas vezes e estava tremendamente ferrada agora. Atravessou a porta e encontrou um quarto muito grande, praticamente sem móveis, no qual outros três homens apontavam armas para ela. Eram como ele, normais demais para parecerem estranhos, e portavam armas igualmente simples, mas com munição letal à sua espécie. Morreria antes de pensar em sugar o sangue de qualquer um deles.
Demorou pra perceber o que causava o cheiro e quando viu só pode chorar. Havia pelo menos uns dez corpos de vampiros estirados no chão, em decomposição acelerada. Tornariam-se pó antes do amanhecer. Eles eram caçadores e estavam satisfeitos em dizer que haviam feito uma grande caçada e talvez continuassem depois dela. Em soluços fingidos, acompanhando as lágrimas de sangue que corriam de seus olhos, tentou tirar o celular de sua bola em extrema velocidade e ligar para pedir por ajuda. Um dos caçadores percebeu seu movimento e atirou, jogando-o no chão e ferindo sua mão. A tela ainda brilhou com o primeiro botão apertado, o número de emergência.
E lá estava ela, no único quarto podre daquela casa bela, em um bairro pacato e que provavelmente era apenas uma enorme sede de caçadores disfarçada de subúrbio. Ela tinha encontrado seu fim, e não havia nada que trouxesse satisfação naquele momento. Para piorar, não tinha bebido nenhum dos homens que agora a torturariam antes de explodir sua cabeça e a sede ficava muito forte. Tanto que seus sentidos estouravam, aguçados ao máximo. Um zumbido irritante começou a soar em seus ouvidos e ela amaldiçoou o dia em que ganhou esse poder, até que percebeu o que ele indicava. Sorriu.
- O que é, sua vaca? Surtou sabendo que vai virar poeira? Você e sua espécie de merda vão todos virar pó e a gente vai fazer de tudo pra isso acontecer. Ah, porra, por que você está, rin...?
Ele não terminou a pergunta porque um carro, o seu carro, havia atravessado a parede, abrindo ao meio os quatro caçadores. Pelo jeito eles não tinham pego TODOS eles, um escapara e agora saía pela porta de trás do sedan quase completamente demolido.
- Ei, Ann, está bem? – perguntou a mirrada vampira que a idolatrava e que pelo jeito a seguira também.
- Por pouco, querida, por pouco. Se você não tivesse entrado com o carro...
A bola atravessou suas costelas, raspou no coração e foi parar no pedaço de parede que pendia do teto no buraco aberto pelo carro. Ann virou furiosa para o atirador e encontrou seu homem, o Corsário, ás portas da morte, sem o braço e sem um olho. Ele parecia ter sido esmagado pelos destroços e talvez não sobrevivesse para o próximo minuto mas ela não o deixaria escapar tão fácil. Mordeu o pulso e enfiou na boca aberta dele antes que ele pudesse pensar em algo e o fez absorver o suficiente.
- Toma, seu filho da puta. Transforme-se, e espero que sobreviva para devorar seus amigos de fome antes do sol nascer. E amanhã, quando estiver perdido e desamparado, eu vou te caçar e dilacerar e sugar de volta todo o sangue que te dei. Vou ficar esperando, seu desgraçado.
E abraçou a amiga, saindo para o céu noturno.
- E agora, Ann, o que vamos fazer?
- Vamos pra minha casa, eu preciso arranjar um outro vestido e... Droga, eu adorava essa lingerie.
- E depois?
- Depois vamos atrás de um lanchinho, porque eu estou morrendo de fome.